{"id":483298,"date":"2026-06-11T09:32:50","date_gmt":"2026-06-11T13:32:50","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=483298"},"modified":"2026-06-11T09:32:50","modified_gmt":"2026-06-11T13:32:50","slug":"como-a-fifa-transformou-a-copa-do-mundo-em-uma-maquina-de-fazer-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=483298","title":{"rendered":"Como a FIFA transformou a Copa do Mundo em uma m\u00e1quina de fazer dinheiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A Copa do Mundo de Futebol de 2026 \u00e9 a maior edi\u00e7\u00e3o desde a primeira, em 1930. S\u00e3o tr\u00eas pa\u00edses anfitri\u00f5es, mais sele\u00e7\u00f5es nacionais participar\u00e3o, mais partidas ser\u00e3o disputadas; haver\u00e1 mais publicidade, mais patroc\u00ednio, mais dinheiro. E os ingressos est\u00e3o sendo vendidos mais caros do que nunca. Ser\u00e1 um grande neg\u00f3cio: para a FIFA, com certeza; para as sedes, nem tanto.<\/p>\n<p>A 23\u00aa Copa do Mundo da FIFA, que ser\u00e1 disputada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, M\u00e9xico e Canad\u00e1, \u00e9 a segunda a ser realizada em mais de um pa\u00eds, depois da Coreia do Sul e do Jap\u00e3o, em 2002. S\u00f3 perde para esta \u00faltima no n\u00famero de sedes e est\u00e1dios: 16, contra 20 naquela ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a principal novidade \u00e9 que as equipes participantes passam de 32 para 48 e, portanto, o n\u00famero de partidas aumenta para 104: 40 a mais. Teremos 39 dias de futebol \u2013 incluindo 5 de descanso \u2013, tamb\u00e9m mais do que nunca.<\/p>\n<p>Outro recorde desta Copa \u00e9 o pre\u00e7o dos ingressos. Os das partidas da fase de grupos custam, em m\u00e9dia, 200 d\u00f3lares, quase o triplo da edi\u00e7\u00e3o anterior (Catar, 2022), e os da final est\u00e3o perto do qu\u00e1druplo: 2.030 d\u00f3lares. Isso se deve a uma inova\u00e7\u00e3o da FIFA para o torneio de 2026.<\/p>\n<p>Antes, a FIFA fixava pre\u00e7os moderados e, quando a demanda superava a oferta, sorteava os assentos. Desta vez, ela assumiu o controle das bilheterias, em vez de confi\u00e1-lo aos organizadores locais, e adotou o sistema de pre\u00e7os din\u00e2micos, que sobem ou descem em fun\u00e7\u00e3o da demanda. Al\u00e9m disso, estabeleceu um mercado de revenda pr\u00f3prio, no qual cobra uma comiss\u00e3o de 15% tanto do vendedor quanto do comprador. Na revenda, os ingressos para a final est\u00e3o (na data de 11 de junho) entre 9.000 e 2.300.000 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>\u00c9 um banho de ouro para a FIFA, que fica com o dinheiro: cerca de 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, se as suas previs\u00f5es se cumprirem. Talvez o presidente da organiza\u00e7\u00e3o, Gianni Infantino, no final das contas, tenha que levar a s\u00e9rio a piada com que respondeu \u00e0s cr\u00edticas por esses pre\u00e7os astron\u00f4micos: &#8220;Se algu\u00e9m comprar um ingresso para a final por dois milh\u00f5es de d\u00f3lares, eu mesmo, em pessoa, levarei um cachorro-quente e uma Coca-Cola para ele&#8221;.<\/p>\n<h2>N\u00e3o haver\u00e1 &#8220;elefantes brancos&#8221;<\/h2>\n<p>No entanto, o custo de organiza\u00e7\u00e3o da Copa, que vinha subindo de algumas centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares nos anos 90 para os 220 bilh\u00f5es de d\u00f3lares no Catar 2022, ser\u00e1 relativamente moderado: 14 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, menos do que o da Brasil 2014 e o da R\u00fassia 2018. A raz\u00e3o principal \u00e9 que a maior parte da infraestrutura j\u00e1 estava de p\u00e9. A FIFA exige pelo menos um est\u00e1dio de 80.000 assentos para a final, um de 60.000 para a partida de abertura e outros seis de 40.000. Os pa\u00edses anfitri\u00f5es desta Copa j\u00e1 os tinham, entre os tr\u00eas, de modo que n\u00e3o precisaram construir nenhum est\u00e1dio novo. Os 16 que ser\u00e3o usados s\u00e3o rent\u00e1veis e ficam cheios durante toda a temporada, sem a necessidade de uma Copa do Mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o haver\u00e1, portanto, &#8220;elefantes brancos&#8221;: grandes e custosos est\u00e1dios que, terminado o torneio, ficam subutilizados. Um caso emblem\u00e1tico \u00e9 o da final da Copa do Catar, o Est\u00e1dio Ic\u00f4nico de Lusail, com capacidade para quase 90.000 espectadores, que custou 2,105 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Depois, ele abrigou partidas de algumas competi\u00e7\u00f5es internacionais, mas no Catar n\u00e3o h\u00e1, nem de longe, torcedores suficientes para lot\u00e1-lo ao longo de um ano normal. Isso j\u00e1 se sabia, e o previsto era reduzir a capacidade para 40.000 e reformar o espa\u00e7o restante para outros usos. Por enquanto, no entanto, o Ic\u00f4nico continua igual.<\/p>\n<h2>Menos p\u00e3o do que circo<\/h2>\n<p>Mas, embora para a Copa de 2026 n\u00e3o tenham sido necess\u00e1rias grandes obras p\u00fablicas, tamb\u00e9m neste caso a maior parte do custo fica a cargo dos pa\u00edses. A FIFA gastar\u00e1 3,750 bilh\u00f5es de d\u00f3lares dos 14 bilh\u00f5es totais, mas sustenta que o torneio render\u00e1 30,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para os tr\u00eas anfitri\u00f5es, por meio de visitantes, empregos diretos e indiretos, boa imagem e investimentos.<\/p>\n<p>No entanto, como alertou em sua \u00e9poca o economista do esporte norte-americano Andrew Zimbalist, megaeventos como os Jogos Ol\u00edmpicos e as Copas do Mundo de Futebol d\u00e3o aos pa\u00edses organizadores muito circo e pouco p\u00e3o. A onda de torcedores n\u00e3o equivale a um aumento l\u00edquido de chegadas, porque afugenta os turistas comuns. Inclusive, Londres recebeu menos visitantes em 2012, o ano em que organizou sua terceira Olimp\u00edada.<\/p>\n<p>De fato, segundo uma pesquisa da <em>American Hotel and Lodging Association<\/em> com mais de 200 hot\u00e9is das onze cidades americanas que ser\u00e3o sedes da Copa deste ano, em quase 80% deles, as reservas para os dias do torneio estavam abaixo das previs\u00f5es.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia ensina, e confirmam estudos sobre a Copa deste ano realizados pela <em>Oxford Economics<\/em> e pelo <em>Saxo Bank<\/em>, que o aumento da atividade econ\u00f4mica e a cria\u00e7\u00e3o de empregos s\u00e3o tempor\u00e1rios e limitados a alguns setores: principalmente lazer e hotelaria; de modo que o impacto econ\u00f4mico total \u00e9 bastante modesto. Ao mesmo tempo, o torneio representa um pico de gasto p\u00fablico em seguran\u00e7a, pois a FIFA s\u00f3 a custeia nas depend\u00eancias dos est\u00e1dios, ficando a \u00e1rea externa sob a responsabilidade dos munic\u00edpios. O Congresso dos Estados Unidos aprovou uma verba de 625 milh\u00f5es de d\u00f3lares para as onze cidades do pa\u00eds onde haver\u00e1 jogos.<\/p>\n<h2>As contas da FIFA<\/h2>\n<p>As promessas de lucros para os pa\u00edses anfitri\u00f5es feitas pela FIFA lembram &#8220;as contas do Grande Capit\u00e3o&#8221; (promessas exageradas e sem fundamento), enquanto as contas dela mesma s\u00e3o muito mais concretas. Nesta Copa, a entidade planeja arrecadar 8,728 bilh\u00f5es de d\u00f3lares: 3,925 bilh\u00f5es por direitos de transmiss\u00e3o, 1,786 bilh\u00e3o por marketing (publicidade, patroc\u00ednio, merchandising) e 3,017 bilh\u00f5es por ingressos.<\/p>\n<p>As previs\u00f5es respondem \u00e0 pol\u00edtica de Gianni Infantino, presidente da FIFA desde 2016. Com ele, o or\u00e7amento da organiza\u00e7\u00e3o seguiu uma linha expansiva. O correspondente ao seu atual mandato, 2023-2026, \u00e9 de 13 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, 72% a mais que o do quadri\u00eanio anterior. O de 2026 (8,911 bilh\u00f5es) multiplica por 3,6 o de 2025, gra\u00e7as \u00e0 Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Trata-se de obter mais dinheiro para dedic\u00e1-lo \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do futebol, diz a FIFA. Com efeito, desde que Infantino \u00e9 presidente, a FIFA distribuiu mais de 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares entre as 218 federa\u00e7\u00f5es nacionais que a integram. Todos ficam felizes, e Infantino foi reeleito duas vezes. Seu antecessor, Sepp Blatter, afastado da gest\u00e3o do futebol por um caso de corrup\u00e7\u00e3o, e Hans-Joachim Eckert, ex-presidente do \u00f3rg\u00e3o de decis\u00e3o do Comit\u00ea de \u00c9tica da FIFA, sustentam que, dessa maneira, Infantino garante o apoio das federa\u00e7\u00f5es, que \u2013 sejam grandes ou pequenas \u2013 t\u00eam um voto cada uma na elei\u00e7\u00e3o do presidente. As mais agradecidas s\u00e3o as de pa\u00edses de baixa renda, que tamb\u00e9m s\u00e3o a maioria. Um porta-voz da FIFA rebate dizendo que esses coment\u00e1rios s\u00e3o &#8220;pura fic\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Mais jogos, mais espet\u00e1culo, mais d\u00f3lares. Nas palavras de Infantino a um f\u00f3rum de investidores, a bola \u00e9 &#8220;um instrumento m\u00e1gico que faz as pessoas felizes&#8221;, ent\u00e3o colocar dinheiro no futebol \u00e9 &#8220;investir em felicidade&#8221;. Para a FIFA, isso sai muito rent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Aceprensa. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol: <a href=\"https:\/\/www.aceprensa.com\/sociedad\/deporte\/el-mundial-de-futbol-fabrica-de-felicidad-para-la-gente-y-de-billetes-para-la-fifa\/\">El Mundial de f\u00fatbol, f\u00e1brica de felicidad para la gente, y de dinero para la FIFA<\/a>.<\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Copa do Mundo de Futebol de 2026 \u00e9 a maior edi\u00e7\u00e3o desde a primeira, em 1930. 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