{"id":482948,"date":"2026-06-11T07:00:00","date_gmt":"2026-06-11T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=482948"},"modified":"2026-06-11T07:00:00","modified_gmt":"2026-06-11T11:00:00","slug":"o-futuro-tecnologico-virou-a-nova-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=482948","title":{"rendered":"O futuro tecnol\u00f3gico virou a nova religi\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Durante s\u00e9culos, ci\u00eancia e f\u00e9 compartilharam uma linguagem comum: a busca pela verdade sobre a cria\u00e7\u00e3o. O mundo moderno, no entanto, decretou sua separa\u00e7\u00e3o, confinando a ci\u00eancia ao laborat\u00f3rio e a f\u00e9 \u00e0 sacristia. A humanidade passou a depender principalmente de sua pr\u00f3pria raz\u00e3o e de sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica: a capacidade t\u00e9cnica de organizar a sociedade. Tudo o que n\u00e3o fosse mensur\u00e1vel, calcul\u00e1vel ou verific\u00e1vel era visto com suspeita ou relegado ao reino do irrelevante.<\/p>\n<p>Mas essa aparente divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 real. A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nunca foi anticient\u00edfica; na verdade, ela tornou a ci\u00eancia poss\u00edvel. Basta lembrarmos de Georges Lema\u00eetre, um padre cat\u00f3lico que prop\u00f4s o Big Bang; Gregor Mendel, um frade agostiniano que lan\u00e7ou as bases da gen\u00e9tica; ou das primeiras universidades que surgiram dentro da Igreja medieval, per\u00edodo frequentemente descartado como a Idade das Trevas. Se isso \u00e9 verdade, f\u00e9 e ci\u00eancia n\u00e3o seriam opostas. Por que, ent\u00e3o, as percebemos como conflitantes?<\/p>\n<blockquote>\n<p>O verdadeiro problema surge quando a ci\u00eancia deixa de ser um m\u00e9todo e se torna uma explica\u00e7\u00e3o total do mundo, quando pretende ser mais do que \u00e9<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E uma explica\u00e7\u00e3o que se pretende total, al\u00e9m de querer compreender o mundo, busca transform\u00e1-lo. Agora, em nossa \u00e9poca, algo desconcertante est\u00e1 acontecendo: essa pretens\u00e3o n\u00e3o se limita mais a descartar o transcendente em nome do verific\u00e1vel; ela vai al\u00e9m e se apresenta como uma promessa de salva\u00e7\u00e3o: a cren\u00e7a em um futuro em que a tecnologia ser\u00e1 capaz de resolver tudo.<\/p>\n<p>As linhas seguintes discutem essa tens\u00e3o com base no pensamento de Bento XVI, em dois textos que devem ser lidos em conjunto. Em <em>F\u00e9 e Futuro<\/em>, ele distingue a ci\u00eancia como um m\u00e9todo leg\u00edtimo e necess\u00e1rio do positivismo como vis\u00e3o de mundo \u2014 a afirma\u00e7\u00e3o de que apenas o verific\u00e1vel \u00e9 real. Em sua palestra em Subiaco, <em>A Europa na Crise das Culturas<\/em>, ele alerta para o problema moral que essa mentalidade acarreta: uma tecnologia que pode fazer tudo, mas que n\u00e3o pode, por si s\u00f3, estabelecer qualquer medida de bem. Desse diagn\u00f3stico duplo surge a quest\u00e3o fundamental: faz sentido acreditar em um futuro tecnol\u00f3gico? A resposta, j\u00e1 adianto, depende do que entendemos por \u201cacreditar\u201d.<\/p>\n<h2>I. O m\u00e9todo e a vis\u00e3o de mundo<\/h2>\n<p>Bento XVI inicia <em>F\u00e9 e Futuro<\/em> com o diagn\u00f3stico positivista de Auguste Comte apresentado em <em>Curso de Filosofia Positiva<\/em>. Nele, Comte busca explicar os est\u00e1gios pelos quais a humanidade passa. Supostamente, passamos do est\u00e1gio teol\u00f3gico, que explica o mundo pela interven\u00e7\u00e3o dos deuses, para o est\u00e1gio metaf\u00edsico, que o compreende por meio de abstra\u00e7\u00f5es (natureza, raz\u00e3o, materialismo), e finalmente para o est\u00e1gio positivo, que abandona a quest\u00e3o do porqu\u00ea das coisas acontecerem e se limita a descrever como elas acontecem.<\/p>\n<p>Comte acreditava que, nesse estado final, a quest\u00e3o de Deus se tornaria sup\u00e9rflua. Ela sequer precisaria ser abordada, pois simplesmente deixaria de ter significado. A esse respeito, Bento XVI reconhece que o est\u00e1gio positivo representa a mentalidade mais difundida nas sociedades contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Essa ideia, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 exclusiva de Comte; ela foi formulada por diversos pensadores. Por exemplo, Max Weber, um dos pais da sociologia, descreveu o \u201cdesencantamento do mundo\u201d: a ideia de que a racionaliza\u00e7\u00e3o expulsa o sagrado e, no vazio que deixa, n\u00e3o h\u00e1 mais um \u00fanico significado, mas uma pluralidade de valores que competem entre si sem qualquer \u00e1rbitro poss\u00edvel. Marx, por sua vez, tentou desmistificar o mundo para explicar a sociedade segundo suas leis hist\u00f3ricas, observando as coisas em suas formas concretas.<\/p>\n<p>Para Comte, o progresso cient\u00edfico e o abandono da metaf\u00edsica e da religi\u00e3o s\u00e3o duas faces da mesma moeda; quanto mais a ci\u00eancia avan\u00e7a, menos espa\u00e7o resta para as formas que ele considera inferiores. \u00c9 o que muitos sentem hoje: que a ci\u00eancia respondeu \u00e0s quest\u00f5es que antes pertenciam \u00e0 f\u00e9 e que, portanto, a f\u00e9 \u00e9 sup\u00e9rflua. Em outras palavras, o mundo tornou-se autossuficiente, e a mera hip\u00f3tese ou discuss\u00e3o sobre Deus j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sequer necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas Bento XVI n\u00e3o se escandaliza com esse fen\u00f4meno; na verdade, ele o leva muito a s\u00e9rio. E, por essa raz\u00e3o, toma um rumo inesperado. O mesmo diagn\u00f3stico que confirma o mal-estar da f\u00e9 permite-lhe descobrir, por baixo da superf\u00edcie, um mal-estar mais profundo na pr\u00f3pria raz\u00e3o cient\u00edfica. A ideia \u00e9 a seguinte: quando o sistema positivista parece se aproximar de seu est\u00e1gio final, sua inadequa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, suas limita\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m se tornam evidentes.<\/p>\n<p>Duas passagens de <em>F\u00e9 e Futuro<\/em> ilustram isso claramente. Na primeira, Bento XVI descreve o que se perde quando a raz\u00e3o se limita ao que \u00e9 mensur\u00e1vel:<\/p>\n<p>\u201cO homem que quer limitar-se ao que \u00e9 exatamente cognosc\u00edvel acaba na crise da realidade, acaba precisamente na supress\u00e3o da realidade\u201d (p. 10).<\/p>\n<p>No segundo ponto, ele especifica exatamente onde se situa a linha divis\u00f3ria entre o m\u00e9todo que defende e a vis\u00e3o de mundo que rejeita:<\/p>\n<p>\u201cO positivismo, o m\u00e9todo cient\u00edfico exato, \u00e9 fabulosamente \u00fatil, ali\u00e1s, absolutamente necess\u00e1rio para superar os problemas da humanidade em constante desenvolvimento. Mas o positivismo como vis\u00e3o de mundo \u00e9 insustent\u00e1vel e destr\u00f3i o homem\u201d (p. 37).<\/p>\n<p>Vale a pena determo-nos na distin\u00e7\u00e3o presente na segunda passagem, pois o restante do nosso racioc\u00ednio depende dela.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A ci\u00eancia como m\u00e9todo leg\u00edtimo, necess\u00e1rio e frut\u00edfero \u00e9 uma coisa; o positivismo como vis\u00e3o de mundo, que pressup\u00f5e que apenas o verific\u00e1vel \u00e9 verdadeiro, \u00e9 outra bem diferente. Na vis\u00e3o de Bento XVI, este \u00faltimo deixou de ser ci\u00eancia e tornou-se filosofia, uma afirma\u00e7\u00e3o sobre a realidade que a ci\u00eancia \u00e9 incapaz de fazer. E \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil que deixa a humanidade sem fundamento, porque as quest\u00f5es mais importantes permanecem fora de seu alcance.<\/p>\n<p>Em outras palavras, existem coisas que nenhuma ci\u00eancia consegue medir. Por exemplo, o amor de uma m\u00e3e, o valor de uma amizade, ou se o que algu\u00e9m faz da vida vale a pena. As coisas mais importantes n\u00e3o podem ser quantificadas em uma planilha, mas, paradoxalmente, nossa cultura tende a tratar como reais apenas aquelas que podem ser quantificadas.<\/p>\n<p>Diante desse vazio, Bento XVI nos convida a compreender a f\u00e9 em outro n\u00edvel, o do sentido: em quem confio, por que existo, o que espero de tudo isso? A f\u00e9 fala do nosso lugar no mundo, enquanto a ci\u00eancia explica seus mecanismos. S\u00e3o duas ordens de conhecimento distintas, que n\u00e3o tratam das mesmas coisas nem da mesma maneira e, portanto, podem coexistir sem receio.<\/p>\n<p>O atrito surge apenas quando a ci\u00eancia tenta responder a perguntas que ultrapassam seu m\u00e9todo, ou seja, quando busca ser uma vis\u00e3o de mundo. E essa vis\u00e3o de mundo n\u00e3o permanece meramente no pensamento. Focar no como e renunciar ao porqu\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma postura neutra; implica tratar a realidade como um mecanismo, e um mecanismo \u00e9 manipulado. \u00c9 por isso que o positivismo leva \u00e0 tecnologia, e uma mentalidade que mede tudo logo desejar\u00e1 controlar tudo.<\/p>\n<h2>II. O retorno do sagrado<\/h2>\n<p>Se Bento XVI nos mostra que a f\u00e9 e a ci\u00eancia operam em planos diferentes, surge outra quest\u00e3o: o que acontece quando o plano da f\u00e9 \u00e9 eliminado? A humanidade fica desprovida de religi\u00e3o ou ela reaparece por outra via? A quest\u00e3o \u00e9 diferente da anterior, mas igualmente crucial.<\/p>\n<p>O positivismo descrito por Comte partia do pressuposto de que, com o abandono das explica\u00e7\u00f5es transcendentais, a religi\u00e3o simplesmente desapareceria. Mas ser\u00e1 que \u00e9 isso que acontece?<\/p>\n<p>Eric Voegelin, fil\u00f3sofo pol\u00edtico do s\u00e9culo XX, oferece uma resposta interessante. Ele argumenta que, quando as cren\u00e7as transcendentais enfraquecem, o sagrado n\u00e3o desaparece: ele se transforma, muda de lugar. N\u00e3o vivemos em um mundo irreligioso, responde ele, mas em um mundo onde o sagrado migrou para formas terrenas, um fen\u00f4meno que ele chama de rediviniza\u00e7\u00e3o e que \u00e9 precisamente a chave para entender os riscos potenciais associados \u00e0 promessa de um futuro tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Por que ocorre essa rediviniza\u00e7\u00e3o? Voegelin descreve a exist\u00eancia humana como uma tens\u00e3o constante entre o mundano e o divino. Imagine o mundo antigo: os gregos acreditavam que Zeus lan\u00e7ava raios, que Poseidon agitava o mar, que os deuses habitavam o cosmos ao nosso lado. O sagrado estava entrela\u00e7ado com tudo; n\u00e3o precisava ser buscado, porque j\u00e1 estava l\u00e1.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o vieram duas experi\u00eancias que mudaram o Ocidente para sempre. A filosofia grega, com Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, descobriu que o divino n\u00e3o se identificava com as coisas do mundo, mas que estava al\u00e9m delas, e que a humanidade poderia se aproximar dele por meio da raz\u00e3o contemplativa (o caminho no\u00e9tico). O cristianismo, por sua vez, fez algo semelhante, mas de uma perspectiva diferente: Deus n\u00e3o \u00e9 o sol, nem o rio, nem o imperador; Deus \u00e9 transcendente, est\u00e1 al\u00e9m do cosmos e, al\u00e9m disso, revela-se \u00e0 humanidade, que agora deve responder com f\u00e9 (o caminho pneum\u00e1tico).<\/p>\n<p>Ambos os caminhos baniram os deuses do mundo e realocaram o sagrado para uma dimens\u00e3o que a humanidade n\u00e3o pode mais tocar ou verificar. \u00c9 o que Voegelin, seguindo Plat\u00e3o, chama de <em>metaxy<\/em>: viver no meio, suspenso entre o humano e o divino, incapaz de possuir plenamente nenhum dos dois.<\/p>\n<p>Essas mudan\u00e7as deixaram a humanidade em uma posi\u00e7\u00e3o exigente e fr\u00e1gil. O caminho filos\u00f3fico requer uma disciplina intelectual que poucos conseguem sustentar. O caminho crist\u00e3o exige perseveran\u00e7a na aridez, na d\u00favida e na espera sem garantias. A f\u00e9, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel: envolve per\u00edodos de aridez, de impot\u00eancia, de esperan\u00e7a contra toda esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa ideia se conecta com o que Bento XVI defendia: a f\u00e9 \u00e9 exigente; n\u00e3o \u00e9 um sistema confort\u00e1vel de certezas. E, por ser exigente, tamb\u00e9m \u00e9 vulner\u00e1vel.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os seres humanos, por natureza, anseiam por certeza, mas, quando essa tens\u00e3o se torna insuport\u00e1vel e a experi\u00eancia crist\u00e3 se atrofia, o sagrado que fora expulso do mundo retorna, por\u00e9m disfar\u00e7ado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 reintroduzido no \u00e2mbito terreno em formas que reproduzem a estrutura religiosa: salva\u00e7\u00e3o, reden\u00e7\u00e3o, profecia, o fim dos tempos, mas tudo dentro dos limites do humano. Isso, precisamente, \u00e9 a rediviniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma ironia que n\u00e3o deve ser ignorada: o pr\u00f3prio Comte, em seus \u00faltimos anos, fundou uma Religi\u00e3o da Humanidade (<em>Religion de l&#8217;Humanit\u00e9<\/em>), com seu catecismo, seu calend\u00e1rio de santos e seus templos. O profeta da fase positiva, aquele que anunciou que a quest\u00e3o de Deus se tornaria sup\u00e9rflua, acabou por fabricar uma religi\u00e3o por meios puramente humanos.<\/p>\n<p>O paralelo com o futuro tecnol\u00f3gico \u00e9 quase imediato. Considere as grandes promessas do nosso tempo: a Singularidade, a ideia de que a intelig\u00eancia artificial ir\u00e1 superar a humanidade e resolver todos os problemas; o transumanismo, que prop\u00f5e vencer a morte transferindo a consci\u00eancia para a nuvem; e os gurus do Vale do Sil\u00edcio que falam do futuro como se fossem profetas.<\/p>\n<p>Basta observar atentamente: tudo isso reproduz certas caracter\u00edsticas de uma religi\u00e3o. Tem profetas (Musk, Kurzweil, Altman), promessas de salva\u00e7\u00e3o (imortalidade digital, um mundo sem sofrimento), uma escatologia (a Singularidade como o fim da hist\u00f3ria) e exige f\u00e9 cega no progresso tecnol\u00f3gico. Mas n\u00e3o se apresenta como religi\u00e3o, nem mesmo como filosofia: disfar\u00e7a-se de pura racionalidade. E isso a torna mais perigosa do que uma religi\u00e3o declarada, porque n\u00e3o pode ser questionada como se questionaria uma cren\u00e7a.<\/p>\n<h2>III. Faz sentido acreditar nisso?<\/h2>\n<p>No in\u00edcio, deixei uma pergunta em aberto: faz sentido acreditar em um futuro tecnol\u00f3gico? Para respond\u00ea-la, precisamos primeiro retornar a uma quest\u00e3o mais b\u00e1sica: f\u00e9 e ci\u00eancia s\u00e3o inimigas?<\/p>\n<p>N\u00e3o. S\u00e3o ordens diferentes que respondem a perguntas diferentes. A f\u00e9 busca sentido: qual \u00e9 o nosso prop\u00f3sito, o que significa viver, o que almejamos? A ci\u00eancia nos ajuda a compreender o mundo e a gerar bens concretos para a humanidade. Mas est\u00e1 sujeita, como tudo o que \u00e9 humano, aos nossos v\u00edcios: pode curar assim como destruir, libertar assim como escravizar. Por si s\u00f3, n\u00e3o possui medida moral.<\/p>\n<p>Bento XVI denunciou isso veementemente em uma de suas \u00faltimas confer\u00eancias em Subiaco, quando ainda era cardeal:<\/p>\n<p>\u201cA for\u00e7a moral n\u00e3o cresceu junto com o desenvolvimento da ci\u00eancia; pelo contr\u00e1rio, diminuiu, porque a mentalidade t\u00e9cnica confina a moralidade ao dom\u00ednio do subjetivo, enquanto temos necessidade precisamente de uma moralidade p\u00fablica\u201d (p. 1).<\/p>\n<p>E ele ilustra isso com um exemplo extremo:<\/p>\n<p>\u201cO homem sabe como clonar homens, e \u00e9 por isso que o faz; o homem sabe como usar homens como dep\u00f3sito de \u00f3rg\u00e3os para outros homens, e \u00e9 por isso que o faz. Ele o faz porque isso parece ser uma exig\u00eancia de sua liberdade\u201d (p. 4-5).<\/p>\n<p>O que Bento est\u00e1 dizendo \u00e9 que nem tudo o que pode ser feito deve ser feito. Essa simples afirma\u00e7\u00e3o resume perfeitamente o que uma mentalidade puramente t\u00e9cnica n\u00e3o consegue justificar. A ci\u00eancia dita como clonar, n\u00e3o se isso deve ser feito. Essa decis\u00e3o vem de outra fonte.<\/p>\n<p>E o que foi apresentado aqui n\u00e3o \u00e9 mera especula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Em 25 de maio, para ser exato, o Papa Le\u00e3o XIV publicou a primeira enc\u00edclica da hist\u00f3ria dedicada inteiramente \u00e0 intelig\u00eancia artificial. A intelig\u00eancia artificial \u00e9, de fato, uma das formas mais agudas desse poder tecnol\u00f3gico cujos limites temos discutido. Ela se chama <em>Magnifica Humanitas: Sobre a Prote\u00e7\u00e3o da Pessoa Humana na Era da Intelig\u00eancia Artificial<\/em>.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que ele a tenha assinado em 15 de maio, o 135.\u00ba anivers\u00e1rio da <em>Rerum Novarum<\/em> de Le\u00e3o XIII, aquele texto fundamental com o qual a Igreja respondeu \u00e0 primeira revolu\u00e7\u00e3o industrial. Le\u00e3o XIV escolheu seu nome precisamente para dar continuidade a essa linha de pensamento: assim como seu predecessor do s\u00e9culo XIX questionou o que aconteceria com a dignidade do trabalhador diante das m\u00e1quinas, ele questiona o que acontecer\u00e1 com a dignidade humana diante dos algoritmos e do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>E prestemos aten\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo, pois nele reside todo o argumento da Igreja: <em>Magnifica Humanitas<\/em>, \u201cmagn\u00edfica humanidade\u201d. Numa \u00e9poca em que as promessas tecnol\u00f3gicas mais ambiciosas insistem em superar o humano, transcender o corpo, vencer a biologia, transferir a consci\u00eancia para a nuvem, a Igreja responde que a humanidade j\u00e1 \u00e9 magn\u00edfica e n\u00e3o precisa ser substitu\u00edda.<\/p>\n<p>Concluirei com uma reflex\u00e3o final: a f\u00e9 n\u00e3o compete com a ci\u00eancia; ela liberta a ci\u00eancia para ser ci\u00eancia sem exigir que ela seja Deus. E, diante do sonho tecnol\u00f3gico que promete abolir o sofrimento, a morte e a injusti\u00e7a por meios puramente humanos, a f\u00e9 oferece algo que nenhum algoritmo ou avan\u00e7o tecnol\u00f3gico pode proporcionar: a honestidade para reconhecer o mist\u00e9rio e a confian\u00e7a de que esse mist\u00e9rio nos sustenta.<\/p>\n<p>Portanto, a pergunta inicial pode ser respondida. Tanto o futurismo quanto a f\u00e9 s\u00e3o formas de cren\u00e7a; a diferen\u00e7a reside no que fazem com aquilo que n\u00e3o podem saber. Acreditar no futuro tecnol\u00f3gico \u00e9 acreditar para finalmente alcan\u00e7ar a certeza e abolir o mist\u00e9rio. Acreditar, no sentido da f\u00e9, \u00e9 confiar sem essa promessa, sabendo que essa confian\u00e7a perdurar\u00e1.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Revista Suroeste. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol: <a href=\"https:\/\/revistasuroeste.cl\/2026\/06\/09\/fe-y-ciencia-tiene-sentido-creer-en-un-futuro-tecnologico\/\">Fe y ciencia: \u00bftiene sentido creer en un futuro tecnol\u00f3gico?<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante s\u00e9culos, ci\u00eancia e f\u00e9 compartilharam uma linguagem comum: a busca pela verdade sobre a cria\u00e7\u00e3o. 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