{"id":479350,"date":"2026-06-10T07:00:00","date_gmt":"2026-06-10T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=479350"},"modified":"2026-06-10T07:00:00","modified_gmt":"2026-06-10T11:00:00","slug":"projetar-bebes-o-admiravel-mundo-novo-ja-comecou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=479350","title":{"rendered":"Projetar beb\u00eas: o Admir\u00e1vel Mundo Novo j\u00e1 come\u00e7ou?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u00c9 \u00e9tico alterar a composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de crian\u00e7as? Dever\u00edamos criar crian\u00e7as com tr\u00eas pais? E quanto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de espermatozoides a partir de c\u00e9lulas-tronco femininas para gerar uma crian\u00e7a com duas m\u00e3es biol\u00f3gicas? \u00c9 \u00e9tico incubar um beb\u00ea em desenvolvimento em um \u00fatero artificial? Um \u00fatero assim poderia eliminar a percep\u00e7\u00e3o da necessidade do aborto?<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es podem parecer fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e, de fato, eram quando Aldous Huxley, um agn\u00f3stico, publicou seu romance dist\u00f3pico <em>Admir\u00e1vel Mundo Novo<\/em>, h\u00e1 quase cem anos. Huxley teceu um mundo fict\u00edcio no qual a prole era projetada e cultivada em laborat\u00f3rios, as crian\u00e7as eram criadas pelo Estado em vez de em fam\u00edlias, a promiscuidade era incentivada e a monogamia considerada grotesca, e o governo endossava a automedica\u00e7\u00e3o com uma droga \u201cinofensiva\u201d que mantinha seus usu\u00e1rios em um estado de apaziguamento.<\/p>\n<p>No entanto, essas s\u00e3o as quest\u00f5es em debate na esfera p\u00fablica atual, como evidenciado por um debate recente promovido pelo <em>The Free Press<\/em>: \u201cProjetar beb\u00eas \u00e9 anti\u00e9tico ou um imperativo moral?\u201d.<\/p>\n<p>Considerando tudo isso, \u00e9 preciso questionar se Huxley n\u00e3o era mais um profeta do que um romancista.<\/p>\n<h2>O melhor de Ser Humano<\/h2>\n<p>Estas n\u00e3o s\u00e3o apenas quest\u00f5es cient\u00edficas ou m\u00e9dicas. Essas tecnologias e procedimentos levantam quest\u00f5es \u00e9ticas e relacionais que nos obrigam a examinar nossas no\u00e7\u00f5es preconcebidas sobre quem somos como seres humanos.<\/p>\n<p>Alguns argumentam que essas manipula\u00e7\u00f5es s\u00e3o simplesmente o pr\u00f3ximo passo em nossa evolu\u00e7\u00e3o. No entanto, entre as maiores capacidades que possu\u00edmos atualmente est\u00e1 a capacidade de raciocinar. Podemos refletir, deliberar e fazer escolhas. Quaisquer que sejam as capacidades que consigamos desenvolver, devemos ter a humildade de reconhecer que n\u00e3o h\u00e1 como saber antecipadamente quais ser\u00e3o os efeitos de nossas manipula\u00e7\u00f5es. Como Dugdale e Carter Snead argumentaram no debate do <em>The Free Press<\/em>, estamos, volunt\u00e1ria ou involuntariamente, nos tornando sujeitos de um projeto de pesquisa populacional, cujos resultados se estender\u00e3o por gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As tecnologias podem ser novas, mas nos fazem revisitar quest\u00f5es ancestrais: o que significa ser humano? O que \u00e9 uma vida boa? O que devemos uns aos outros?<\/p>\n<p>De muitas maneiras, esses objetivos que buscamos, por mais not\u00e1veis que sejam as conquistas cient\u00edficas, representam o caminho mais f\u00e1cil. Assim como a ind\u00fastria fitness se aproveita da nossa relut\u00e2ncia em nos esfor\u00e7armos para alcan\u00e7ar metas dif\u00edceis, tamb\u00e9m outras ind\u00fastrias usar\u00e3o essas novas tecnologias para nos prometer vers\u00f5es \u201cmelhores\u201d de n\u00f3s mesmos. Mas ser\u00e1 que esses objetivos \u2014 sa\u00fade perfeita, intelig\u00eancia aprimorada, talento inigual\u00e1vel \u2014 realmente valem a pena? A capacidade transumana individual representa, de fato, o que h\u00e1 de mais poderoso e cativante no esp\u00edrito humano? Essas interven\u00e7\u00f5es nos tornam mais amorosos ou virtuosos? De que nos adiantar\u00e1 ganhar o mundo se isso custar a nossa alma?<\/p>\n<p>Ao imaginarmos tornar a n\u00f3s mesmos e \u00e0 sociedade \u201cmelhores\u201d, precisamos conceber n\u00e3o uma perfei\u00e7\u00e3o terrena, mas uma perfei\u00e7\u00e3o glorificada. Afinal, compaix\u00e3o significa sofrer com o outro, e todo amor verdadeiro exige sacrif\u00edcio. Se almejamos a elimina\u00e7\u00e3o do sofrimento e a cria\u00e7\u00e3o de seres invulner\u00e1veis, que chance ter\u00e1 tal sociedade de aprender a confiar uns nos outros e a suportar pacientemente as injusti\u00e7as?<\/p>\n<p>Em uma popula\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos com QI homogeneamente alto e sa\u00fade perfeita, quantos desenvolver\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o de Santa Teresa? Muito mais prov\u00e1vel \u00e9 um resultado em que cada homem se torne uma ilha em um vasto oceano de isolamento.<\/p>\n<p>Foram os ideais crist\u00e3os que humanizaram a Antiguidade pag\u00e3, na qual os romanos atiravam beb\u00eas deformados contra rochas ou os deixavam morrer de frio. Da semente da <em>imago Dei<\/em> nas Escrituras Hebraicas brotou a filosofia crist\u00e3 da igualdade radical entre as pessoas, que forma a base da nossa sociedade livre.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que retornamos \u00e0 adora\u00e7\u00e3o pag\u00e3 de \u00eddolos \u2014 sexo, dinheiro e poder \u2014, precisamos de um renascimento dos ideais crist\u00e3os para humanizar nosso crescente controle sobre o pr\u00f3prio destino.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O melhor de n\u00f3s n\u00e3o ser\u00e1 encontrado restringindo e selecionando capacidades espec\u00edficas. A elimina\u00e7\u00e3o do sofrimento n\u00e3o produzir\u00e1 alegria<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Se buscamos ser verdadeiramente livres, devemos reconhecer nossas responsabilidades uns para com os outros. Prosperaremos na medida em que todos pudermos prosperar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Distopia tecnol\u00f3gica<\/h2>\n<p>A explos\u00e3o de novas tecnologias e aplica\u00e7\u00f5es \u00e9 verdadeiramente empolgante, mas, com esse potencial, vem tamb\u00e9m a responsabilidade de refletir sobre seu significado para a comunidade humana. Devemos evitar trilhar caminhos n\u00e3o examinados.<\/p>\n<p>A medicina em geral, e a medicina reprodutiva em particular, est\u00e3o sendo definidas n\u00e3o como a restaura\u00e7\u00e3o da sa\u00fade humana, mas como a otimiza\u00e7\u00e3o do bem-estar humano. Os objetivos da medicina n\u00e3o s\u00e3o mais estritamente \u201cm\u00e9dicos\u201d. Pesquisadores buscam medicamentos para aprimoramentos cognitivos e f\u00edsicos que n\u00e3o apenas melhorem nosso funcionamento dentro da curva normal, mas que procurem redefinir essa curva por completo.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que continuamos a expandir o campo da medicina, estamos, lenta mas seguramente, redefinindo o que significa ser humano. Chegamos a uma era em que n\u00e3o podemos nos dar ao luxo da ingenuidade de acreditar que a ci\u00eancia e a medicina s\u00e3o neutras em rela\u00e7\u00e3o a valores; elas sempre ser\u00e3o ferramentas sujeitas aos valores daqueles que as utilizam.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos mais deixar a moralidade das novas tecnologias e procedimentos ao discernimento daqueles fascinados por suas possibilidades ou daqueles que podem obter benef\u00edcios econ\u00f4micos ou terap\u00eauticos com elas. Esses procedimentos moldam cada vez mais n\u00e3o apenas os indiv\u00edduos que os utilizam, mas tamb\u00e9m as futuras gera\u00e7\u00f5es da humanidade.<\/p>\n<h2>A nova eugenia<\/h2>\n<p>Juntamente com o decl\u00ednio p\u00f3s-moderno da rever\u00eancia a Deus, houve uma perda do sentido da santidade e da dignidade da pessoa humana. Como pode aquilo que \u00e9 mera mat\u00e9ria ser sagrado? Como podemos falar em \u201cviolar\u201d o puramente mec\u00e2nico?<\/p>\n<p>Como C.S. Lewis t\u00e3o perspicazmente compreendeu, a tentativa de exercer controle absoluto sobre os aspectos materiais da natureza nos deu a impress\u00e3o de que podemos e devemos controlar todos os aspectos de nossa pr\u00f3pria natureza: \u201cChegou o est\u00e1gio final em que o Homem, por meio da eugenia, do condicionamento pr\u00e9-natal e de uma educa\u00e7\u00e3o e propaganda baseadas em uma psicologia aplicada perfeita, obteve controle total sobre si mesmo. A natureza humana ser\u00e1 a \u00faltima parte da Natureza a se render ao Homem\u201d.<\/p>\n<p>Quanto mais utilizamos tecnologias que nos d\u00e3o acesso ao controle sobre quem somos e sobre que tipo de filhos geramos, mais exerceremos esse controle. Parece que n\u00e3o conseguimos nos controlar.<\/p>\n<p>O que resta, depois de decidirmos empregar essas tecnologias, \u00e9 decidir como. Lewis reconheceu que o exerc\u00edcio dessas tecnologias acabaria se tornando um exerc\u00edcio de poder sobre os fracos: \u201cO que chamamos de poder do Homem sobre a Natureza acaba sendo um poder exercido por alguns homens sobre outros homens, tendo a Natureza como instrumento\u201d.<\/p>\n<p>Em nosso fervor para eliminar o sofrimento, para nos aprimorarmos \u2014 ali\u00e1s, para nos purificarmos \u2014, \u00e9 inevit\u00e1vel que os impulsos eug\u00eanicos do in\u00edcio do s\u00e9culo XX estejam ressurgindo (se \u00e9 que algum dia realmente desapareceram). As campanhas americanas pela esteriliza\u00e7\u00e3o em massa dos \u201cinaptos\u201d \u2014 variando de pessoas com defici\u00eancia mental e f\u00edsica a criminosos, passando por aqueles que simplesmente pertenciam \u00e0 ra\u00e7a errada \u2014 perderam for\u00e7a ap\u00f3s os horrores da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Embora a press\u00e3o por esteriliza\u00e7\u00f5es em massa tenha diminu\u00eddo, uma ferramenta eug\u00eanica s\u00f3 aumentou em popularidade e uso: a contracep\u00e7\u00e3o tem sido empregada para fins eug\u00eanicos desde o in\u00edcio. Margaret Sanger, fundadora da Planned Parenthood, era uma fervorosa defensora da eugenia e escreveu frequentemente sobre o potencial da contracep\u00e7\u00e3o para conter o crescimento da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, m\u00e9dicos t\u00eam utilizado a amniocentese e outras t\u00e9cnicas de testes pr\u00e9-natais em conjunto com o aborto para impedir o nascimento de indiv\u00edduos com s\u00edndrome de Down e outras condi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Estamos \u00e0 beira de um retorno a formas mais agressivas de controle eug\u00eanico. Tribunais brit\u00e2nicos apoiaram a decis\u00e3o de uma m\u00e3e de praticar eutan\u00e1sia em sua filha de doze anos com defici\u00eancia, e a legisla\u00e7\u00e3o atual na B\u00e9lgica e na Holanda permite que os pais pratiquem eutan\u00e1sia em seus filhos com doen\u00e7as terminais. Acad\u00eamicos tentam justificar a pr\u00e1tica do \u201caborto p\u00f3s-parto\u201d (ou seja, o infantic\u00eddio de crian\u00e7as de at\u00e9 dois anos de idade).<\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica de edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica CRISPR e o sequenciamento do genoma humano nos \u00faltimos anos transformaram os \u201cbeb\u00eas sob medida\u201d da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em uma realidade iminente. Beb\u00eas geneticamente modificados j\u00e1 nasceram na China. O Vale do Sil\u00edcio abriga in\u00fameras startups de eugenia que alegam ajudar casais a selecionar os embri\u00f5es mais perfeitos para implanta\u00e7\u00e3o por fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro \u2014 alega\u00e7\u00f5es baseadas em uma ci\u00eancia mais do que duvidosa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma vez que a sociedade remove Deus e a dignidade humana da equa\u00e7\u00e3o, tudo o que resta para arbitrar decis\u00f5es sobre esses assuntos \u00e9 o poder<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Como comenta Lewis: \u201cSe uma determinada \u00e9poca realmente alcan\u00e7ar, por meio da eugenia e da educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o poder de moldar seus descendentes conforme sua vontade, todos os homens que viverem depois dela ser\u00e3o pacientes desse poder\u201d.<\/p>\n<p>Quem decide quais vidas merecem ser protegidas e com base em qu\u00ea?<\/p>\n<p>Quanto mais relegamos a fraqueza e a vulnerabilidade ao dom\u00ednio do inaceit\u00e1vel, menos espa\u00e7o h\u00e1 para qualquer forma de imperfei\u00e7\u00e3o. Quanto menos indiv\u00edduos em situa\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis existirem, menos n\u00f3s, como comunidade, estaremos atentos \u00e0s suas necessidades.<\/p>\n<p>Ao eliminarmos as popula\u00e7\u00f5es que apresentam defici\u00eancias, diminu\u00edmos nossa compaix\u00e3o coletiva. Quando nos recusamos a cuidar dos vulner\u00e1veis, tornamo-nos menos humanos, n\u00e3o mais.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s nasce indefeso (aqueles de n\u00f3s que t\u00eam a sorte de nascer). Se h\u00e1 algo em n\u00f3s que precisa ser erradicado, n\u00e3o \u00e9 nossa fraqueza ou depend\u00eancia, mas nossa tend\u00eancia a desprezar tais qualidades a ponto de destru\u00ed-las.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Ramifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas n\u00e3o intencionais<\/h2>\n<p>Brincar com a nossa gen\u00e9tica traz consequ\u00eancias indesejadas. Uma consequ\u00eancia negativa da doa\u00e7\u00e3o generalizada de esperma e da insemina\u00e7\u00e3o artificial, que j\u00e1 se manifesta, \u00e9 a sele\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica restrita para as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>J\u00e1 vimos casos de centenas de crian\u00e7as nascidas do mesmo pai. Muita similaridade gen\u00e9tica em gera\u00e7\u00f5es sucessivas p\u00f5e em risco a nossa biodiversidade. Reconhecendo esse risco, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) sugere limitar os doadores a vinte e cinco nascimentos vivos por \u00e1rea populacional de 800 mil habitantes.<\/p>\n<p>Embora tenhamos a capacidade de mapear o genoma humano, estamos longe de compreender as complexidades de seu funcionamento, como argumenta Lydia Dugdale no debate do <em>The Free Press<\/em>. Isso se aplica at\u00e9 mesmo a caracter\u00edsticas b\u00e1sicas; o mesmo gen\u00f3tipo pode variar amplamente em suas manifesta\u00e7\u00f5es (fen\u00f3tipos).<\/p>\n<p>\u00c9 ainda mais verdadeiro quando tentamos selecionar tra\u00e7os de personalidade espec\u00edficos. O termo \u201cc\u00f3digo gen\u00e9tico\u201d \u00e9 inadequado, pois n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples quanto um c\u00f3digo de computador, em que a linguagem \u00e9 precisa e a rela\u00e7\u00e3o entre entrada e sa\u00edda \u00e9 clara. No campo da gen\u00e9tica, cada gene \u00e9 influenciado n\u00e3o apenas pelo ambiente (epigen\u00e9tica), mas tamb\u00e9m pelo conjunto de genes que, juntos, comp\u00f5em o c\u00f3digo.<\/p>\n<p>Ao selecionarmos uma determinada caracter\u00edstica, tamb\u00e9m escolhemos, inadvertidamente, o conjunto de tra\u00e7os associados a ela. \u00c9 prov\u00e1vel que alguns tra\u00e7os que nossa sociedade considera desej\u00e1veis estejam associados a outros menos desej\u00e1veis. Imagine o \u201cg\u00eanio distra\u00eddo\u201d ou o indiv\u00edduo extremamente assertivo e propenso a correr riscos.<\/p>\n<p>Em um caso, um doador de esperma para o banco de esperma \u201cpara g\u00eanios\u201d Zytec n\u00e3o revelou sua esquizofrenia no momento da doa\u00e7\u00e3o. Os trinta e seis casais que escolheram seus genes para seus filhos o fizeram por causa de sua intelig\u00eancia; eles n\u00e3o estavam preparados para o risco de doen\u00e7a mental inerente a esse mesmo c\u00f3digo gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>Mesmo aqueles sem f\u00e9 religiosa podem reconhecer que, quando se trata de projetar nossa prole, \u201cbrincar de Deus\u201d \u00e9 brincar com fogo. Quer nos vejamos entregando esse poder \u00e0 sele\u00e7\u00e3o natural, ao acaso ou ao pr\u00f3prio Deus, estaremos muito melhor se adotarmos uma postura de humildade.<\/p>\n<p>O reino do desconhecido permanece inacess\u00edvel para n\u00f3s; n\u00e3o importa o quanto consigamos conquistar desse territ\u00f3rio, jamais saberemos o quanto ainda est\u00e1 fora do nosso dom\u00ednio. Mexer com nossa gen\u00e9tica libera nossos experimentos de laborat\u00f3rio para o mundo exterior, tornando toda a humanidade o campo de testes.<\/p>\n<p>N\u00e3o importar\u00e1 quem optou por \u201centrar\u201d quando nenhum de n\u00f3s tiver a op\u00e7\u00e3o de \u201cn\u00e3o participar\u201d.<\/p>\n<h2>Em breve: \u00fateros mec\u00e2nicos, gametas artificiais e clonagem<\/h2>\n<p>Ao explorarmos tecnologias emergentes, \u00e9 imprescind\u00edvel que paremos para considerar as implica\u00e7\u00f5es sociais e m\u00e9dicas de seu uso.<\/p>\n<blockquote>\n<p>N\u00e3o podemos intervir no corpo humano sem tocar na pessoa; a manipula\u00e7\u00e3o de nossos corpos altera nossos relacionamentos e reestrutura nosso funcionamento como sociedade<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entre essas tecnologias emergentes est\u00e3o os \u00fateros artificiais, aos quais pensadores atribuem o potencial tanto de acabar com o aborto (permitindo a transfer\u00eancia de fetos de \u00fateros indesejados para incubadoras) quanto de se tornarem o meio para criar as f\u00e1bricas de beb\u00eas do repugnante novo mundo de Huxley.<\/p>\n<p>Como devemos lidar com o uso de \u00fateros mec\u00e2nicos? Por um lado, seria maravilhoso expandir nossa tecnologia atual para dar suporte a beb\u00eas prematuros, antecipando a viabilidade para a idade gestacional mais precoce poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 arrogante presumir que podemos replicar, com componentes mec\u00e2nicos, todos os aspectos essenciais do cuidado f\u00edsico do \u00fatero materno. Evid\u00eancias sobre os efeitos do toque f\u00edsico e da leitura em voz alta para beb\u00eas sugerem que essas intera\u00e7\u00f5es humanas t\u00eam um impacto enorme em seu desenvolvimento. Tais intera\u00e7\u00f5es provavelmente exercem influ\u00eancia igualmente poderosa antes do nascimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o compreendemos completamente os efeitos da voz, do toque e dos horm\u00f4nios maternos no corpo e na mente do beb\u00ea durante a gesta\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que realmente submeteremos os futuros seres humanos a esse tipo de experimenta\u00e7\u00e3o radical para descobrir?<\/p>\n<p>Outra forma pela qual os pesquisadores buscam controlar a reprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 por meio da cria\u00e7\u00e3o de gametas artificiais. C\u00e9lulas-tronco adultas de camundongas f\u00eameas podem ser induzidas a se tornarem espermatozoides e usadas para fertilizar um \u00f3vulo, resultando em camundongos criados a partir de gametas artificiais.<\/p>\n<p>Pesquisadores tamb\u00e9m j\u00e1 produziram com sucesso espermatozoides e \u00f3vulos humanos. \u00c9 apenas uma quest\u00e3o de tempo e financiamento at\u00e9 que esses gametas artificiais sejam empregados na produ\u00e7\u00e3o de um embri\u00e3o humano vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Teoricamente, isso significa que um embri\u00e3o poderia eventualmente ser concebido como filho gen\u00e9tico de duas mulheres. Isso tem implica\u00e7\u00f5es para casais do mesmo sexo, que at\u00e9 agora tiveram de recorrer a gametas doados para se reproduzir.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 pautada em termos de direitos, sendo o direito \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o a base presumida para que casais do mesmo sexo busquem a fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro (FIV). Devemos permitir isso? Estamos dispostos a abrir m\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es \u00fanicas da paternidade ou da maternidade para o bem-estar de nossos filhos a fim de satisfazer os desejos dos pais que os criar\u00e3o?<\/p>\n<p>O que podemos concluir da nossa capacidade de criar filhos com tr\u00eas (ou mais) pais, editando o DNA defeituoso e introduzindo pais gen\u00e9ticos adicionais? Podemos nos reproduzir por meio de clonagem?<\/p>\n<p>Temos a tecnologia; pesquisadores j\u00e1 criaram embri\u00f5es clonados com sucesso a partir de embri\u00f5es e adultos vivos (embora ainda n\u00e3o tenha sido feita nenhuma tentativa de gestar ou dar \u00e0 luz clones humanos).<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica abre um enorme leque de quest\u00f5es: podemos clonar quem quisermos? Se algu\u00e9m quisesse criar um filho geneticamente id\u00eantico a, digamos, Kobe Bryant ou Britney Spears, quem deveria determinar se essa pessoa teria o direito de faz\u00ea-lo? Podemos criar um clone de uma crian\u00e7a doente para fornecer \u00f3rg\u00e3os geneticamente id\u00eanticos?<\/p>\n<p><em><strong>Samantha Stephenson<\/strong> \u00e9 uma autora cat\u00f3lica e bioeticista que vive em Idaho, nos Estados Unidos. Seu trabalho explora o significado de ser humano na era da biotecnologia. \u00c9 autora do livro &#8220;Reclaiming Motherhood from a Culture Gone Mad&#8221; e de outras obras voltadas a ajudar os leitores a crescer na f\u00e9 e a refletir sobre as quest\u00f5es espirituais e \u00e9ticas que moldam um mundo em r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a92026 The Public Discourse. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/www.thepublicdiscourse.com\/2026\/06\/101154\/\">Can We Humanize Our Brave New World?\u00a0<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 \u00e9tico alterar a composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de crian\u00e7as? Dever\u00edamos criar crian\u00e7as com tr\u00eas pais? 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