{"id":479116,"date":"2026-06-10T05:01:00","date_gmt":"2026-06-10T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=479116"},"modified":"2026-06-10T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-10T09:01:00","slug":"educar-ou-instruir-queremos-formar-cidadaos-livres-ou-uma-massa-obediente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=479116","title":{"rendered":"Educar ou instruir: queremos formar cidad\u00e3os livres ou uma massa obediente?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Hoje eu quero falar sobre a diferen\u00e7a entre educa\u00e7\u00e3o e instru\u00e7\u00e3o, que \u00e9, em certa medida, a diferen\u00e7a entre a Alemanha e a Pr\u00fassia, e, em uma escala bem maior, aquela entre Roma e a It\u00e1lia. \u201cA Pr\u00fassia n\u00e3o \u00e9 um Estado que tem um ex\u00e9rcito, e sim um ex\u00e9rcito que tem um Estado\u201d, diagnosticou Mirabeau, e a frase talvez tenha mais a dizer ao nosso tempo do que ao dele. O Estado que desenhou a escola moderna foi um Estado talhado pelo cano do canh\u00e3o, vocacionado para a obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>A pergunta que essa origem nos deixa \u00e9 brutal: queremos formar, com nossas escolas, homens livres ou bucha de canh\u00e3o? E s\u00f3 se responde \u00e0 pergunta voltando a duas palavras latinas que a urg\u00eancia moderna tratou como sin\u00f4nimas, mas que guardam uma diferen\u00e7a decisora do destino de uma civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Educere<\/em> significa conduzir para fora, puxar de dentro para a luz, como quem ergue a \u00e1gua do fundo de um po\u00e7o ou ampara um parto que traz \u00e0 superf\u00edcie aquilo que j\u00e1 estava, em pot\u00eancia, no escuro. <em>Instruere<\/em> significa o oposto: empilhar, equipar, meter para dentro, como quem assenta tijolos numa parede ou abastece um arsenal na v\u00e9spera da batalha. A primeira pressup\u00f5e que h\u00e1 algo a ser trazido; a segunda, que h\u00e1 um vazio a ser preenchido. Educar \u00e9 tirar. Instruir \u00e9 colocar. E, quando uma sociedade esquece qual das duas coisas est\u00e1 fazendo com os seus filhos, segue erguendo escolas, contratando professores, distribuindo diplomas e produz, ao fim de tudo, multid\u00f5es instru\u00eddas e quase ningu\u00e9m educado.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m, antes de prosseguir, abrir essa Pr\u00fassia ao tamanho exato que lhe cabe, porque tom\u00e1-la pela Alemanha inteira \u00e9 uma das confus\u00f5es mais ruinosas do nosso vocabul\u00e1rio civilizacional, j\u00e1 que a Alemanha inventou a Pr\u00fassia, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. A Alemanha cultural est\u00e1 para a Pr\u00fassia pol\u00edtica assim como a It\u00e1lia cultural est\u00e1 para a Roma pol\u00edtica: uma civiliza\u00e7\u00e3o milenar que produziu Bach, D\u00fcrer, Goethe, Kant, Hegel, H\u00f6lderlin, Beethoven s\u00e9culos antes do Estado nacional alem\u00e3o existir, e uma civiliza\u00e7\u00e3o ainda mais antiga que produziu Dante, Petrarca, Giotto, Michelangelo, Vivaldi s\u00e9culos antes do Estado nacional italiano existir.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, no s\u00e9culo XIX, uma regi\u00e3o mais ou menos perif\u00e9rica e militarmente organizada capturou a civiliza\u00e7\u00e3o inteira sob o seu carimbo: a Pr\u00fassia de Bismarck para os alem\u00e3es, em 1871; o Piemonte de Cavour e Garibaldi para os italianos, em 1861. Em ambos os casos, a unifica\u00e7\u00e3o foi obra, na frase de Bismarck que serve a Cavour e a Garibaldi com igual exatid\u00e3o, de ferro e sangue.<\/p>\n<p>E, nos dois casos, a regi\u00e3o unificadora era a menos representativa da alma cultural do todo, era a mais marcial, e tomou para si o direito de dar nome, capital e constitui\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que a precedia em mais de mil anos. Weimar, Heidelberg, K\u00f6nigsberg, Viena, Munique tinham erguido a cultura alem\u00e3; Berlim, a fortaleza prussiana em carne e ideia, herdou a Alemanha hist\u00f3rica como pr\u00eamio de batalha. Floren\u00e7a, Veneza, N\u00e1poles, Mil\u00e3o tinham erguido a cultura italiana; Roma, capital escolhida depois de 1870 e mudada de Floren\u00e7a, herdou a It\u00e1lia pela mesma porta, se bem que \u00e9 mais, muito mais, que Berlim jamais ser\u00e1.<\/p>\n<p>O Estado nacional, esse invento jovem com pretens\u00e3o tola de eternidade, \u00e9 apenas a moldura jur\u00eddica recente, e provavelmente passageira, dentro da qual essas civiliza\u00e7\u00f5es foram acomodadas a forceps. A cultura precede o Estado e o excede. Bach n\u00e3o \u00e9 prussiano, \u00e9 alem\u00e3o, \u00e9 europeu, \u00e9 humano. Michelangelo n\u00e3o \u00e9 romano no sentido do Quirinale, \u00e9 florentino, \u00e9 italiano, \u00e9 universal.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que mora o nervo da quest\u00e3o pedag\u00f3gica: quando confundimos a Alemanha de Bach com a Pr\u00fassia do quartel, copiamos exatamente o que n\u00e3o dever\u00edamos e perdemos exatamente o que dever\u00edamos transmitir. Importamos a f\u00f4rma e deixamos o fogo. A escola que herdamos da Alemanha, e herdamos mal, \u00e9 a escola da Pr\u00fassia, n\u00e3o a escola de Weimar; \u00e9 a escola que enfileira soldados, n\u00e3o a escola que formou Goethe.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Constru\u00edmos, ao longo de 60 anos, o quartel prussiano para os filhos dos pobres, fileiras, sineta, decoreba e diploma, enquanto as elites compravam a <em>paideia<\/em> para os seus, e chamamos a essa duplicidade de democratiza\u00e7\u00e3o do ensino, a &#8216;obra&#8217; de Paulo Freire<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A confus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de dicion\u00e1rio, \u00e9 de antropologia. Por tr\u00e1s de cada modelo de escola existe, escondida como o esqueleto sob a pele, uma resposta \u00e0 pergunta sobre o que \u00e9 o homem. Se o homem \u00e9 um saco a ser enchido de compet\u00eancias, instru\u00ed-lo basta, e basta faz\u00ea-lo depressa, com a efici\u00eancia fria de quem carrega um silo. Se o homem \u00e9 uma semente, ou uma chama, ou um bloco de m\u00e1rmore com uma est\u00e1tua adormecida l\u00e1 dentro, a coisa muda inteiramente de figura, porque a semente n\u00e3o se enche, se rega; a chama n\u00e3o se empilha, se acende; e o m\u00e1rmore n\u00e3o se inventa, se liberta do excesso de pedra que cobre a forma que ali j\u00e1 esperava. A diferen\u00e7a entre encher e libertar \u00e9 a diferen\u00e7a entre a f\u00f4rma e o fogo. E \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Foram os gregos que inventaram a educa\u00e7\u00e3o no melhor sentido da palavra, e Werner Jaeger, na <em>Paideia<\/em>, deu nome \u00e0 inven\u00e7\u00e3o. A <em>paideia<\/em> n\u00e3o era treinamento de of\u00edcio nem ac\u00famulo de informa\u00e7\u00f5es \u00fateis: era a forma\u00e7\u00e3o deliberada do homem inteiro segundo um modelo de excel\u00eancia, a <em>aret\u00ea<\/em>, que abarcava corpo, car\u00e1ter, gosto e alma numa s\u00f3 escultura viva.<\/p>\n<p>O her\u00f3i hom\u00e9rico n\u00e3o \u00e9 instru\u00eddo, \u00e9 formado; Aquiles n\u00e3o tem compet\u00eancias, tem grandeza. Plat\u00e3o, na Rep\u00fablica, descreve o prisioneiro que se desprende das correntes da caverna e sobe, ofuscado, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz, e cunha a imagem mais exata da hist\u00f3ria da pedagogia: a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 periagoge, convers\u00e3o, virar da alma inteira da sombra para o sol. N\u00e3o se trata de despejar vis\u00e3o em olhos cegos, mas de girar o corpo todo at\u00e9 que o olho passe a olhar para onde deve. Plat\u00e3o n\u00e3o fabrica a vista, e sim torce o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles, mais terreno que o mestre, organizou essa intui\u00e7\u00e3o em arquitetura. Distinguiu o saber te\u00f3rico, a episteme, do pr\u00e1tico, a <em>phronesis<\/em>, e de ambos separou o produtivo, a <em>techne<\/em>. E tra\u00e7ou, na <em>Pol\u00edtica<\/em>, a fronteira que o nosso tempo apagou: as artes liberais dignas do homem livre, contra as artes servis que s\u00f3 servem \u00e0 necessidade. O homem livre estuda para ser; o escravo treina para servir.<\/p>\n<p>No cora\u00e7\u00e3o dessa distin\u00e7\u00e3o havia uma palavra que dev\u00edamos ter tatuada na entrada de cada universidade: <em>schol\u00e9<\/em>. Significa \u00f3cio, tempo liberto da urg\u00eancia, e \u00e9 dela, por uma ironia que beira o esc\u00e1rnio, que vem a nossa palavra escola. A escola era, para os gregos, o lugar do \u00f3cio nobre, onde o homem, livre da obriga\u00e7\u00e3o de sobreviver, podia dedicar-se a pensar, a contemplar, a criar. Transformamos o templo do \u00f3cio na antessala do escrit\u00f3rio, e enchemos a crian\u00e7a, at\u00e9 a borda, de trabalho.<\/p>\n<p>Mas o que essa forma\u00e7\u00e3o queria produzir tinha nome pr\u00f3prio em Arist\u00f3teles: o <em>spoudaios<\/em>, o homem s\u00e9rio, o var\u00e3o de ju\u00edzo provado em quem a virtude se converteu em segunda natureza e cuja avalia\u00e7\u00e3o serve, ela mesma, de medida. Na <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em>, \u00e9 o que aparece bom ao spoudaios que \u00e9, de fato, bom; \u00e9 o que ele tem por prazeroso que merece ser chamado prazer. N\u00e3o h\u00e1 padr\u00e3o externo do qual o homem maduro se aproxima, \u00e9 ele pr\u00f3prio o padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Educar, portanto, era produzir n\u00e3o conte\u00fados, mas calibradores vivos, o equivalente humano dos pesos-padr\u00e3o que se guardavam, no antigo escrit\u00f3rio de aferi\u00e7\u00e3o, para que todas as balan\u00e7as do reino se medissem por eles. P\u00e9ricles era um deles. Marco Aur\u00e9lio, no trono, foi outro. O <em>vir bonus dicendi peritus<\/em> de Quintiliano traduz a figura. A escola prussiana fabrica balan\u00e7as id\u00eanticas. A <em>paideia<\/em> grega fabricava o peso-padr\u00e3o.<\/p>\n<p>E aqui Atenas encontra Jerusal\u00e9m. S\u00e3o Paulo destr\u00f3i a figura do homem maduro contra uma novidade radical. N\u00e3o basta, escreve aos Ef\u00e9sios e aos Colossenses, polir o var\u00e3o antigo at\u00e9 a excel\u00eancia: \u00e9 preciso despi-lo como roupa velha, o <em>palaios anthropos<\/em>, e revestir-se do homem novo, o <em>kainos anthropos<\/em>, criado \u00e0 imagem do Criador. <em>Kainos<\/em> n\u00e3o \u00e9 o recente, \u00e9 o inaudito, sem precedente na ordem natural.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O <em>spoudaios<\/em> \u00e9 o ponto mais alto a que a natureza humana, por h\u00e1bito, pode chegar; o homem novo \u00e9 o ponto em que essa natureza \u00e9 atravessada por uma gra\u00e7a vinda de fora e refundada por dentro. Os dois n\u00e3o se op\u00f5em: a gra\u00e7a, dir\u00e1 S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, n\u00e3o destr\u00f3i a natureza, aperfei\u00e7oa-a. O <em>spoudaios<\/em> \u00e9 a tela bem preparada; o homem novo \u00e9 o que nela se pinta, e o pintor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio homem. S\u00e3o Paulo o resume na frase mais audaz da sua obra: \u201cj\u00e1 n\u00e3o sou eu quem vive, \u00e9 Cristo que vive em mim\u201d (Gl 2,20). O peso-padr\u00e3o deslocou-se para dentro, e o seu nome agora \u00e9 outro.<\/p>\n<p>Essa migra\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio para dentro \u00e9 o que Santo Agostinho aprofunda no <em>De Magistro<\/em>. Nenhum homem ensina, em rigor, outro homem: as palavras do mestre exterior s\u00e3o apenas sinais, dedos que apontam; quem v\u00ea a coisa apontada v\u00ea com uma luz interior, a do Mestre que habita por dentro, <em>ego sum qui intus habito<\/em>, Cristo, a verdade que ilumina toda intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00e3o Tom\u00e1s retoma a tese com realismo de campon\u00eas: o mestre \u00e9 como o agricultor, que n\u00e3o fabrica a planta, e sim prepara o solo, rega e espera. O saber j\u00e1 est\u00e1 no aluno em pot\u00eancia, como a colheita na semente, e o mestre \u00e9 a causa que assiste, n\u00e3o a que cria. Ensinar \u00e9 jardinagem, n\u00e3o alvenaria. Plutarco j\u00e1 o resumira num prov\u00e9rbio: a mente n\u00e3o \u00e9 c\u00e2ntaro a ser enchido, \u00e9 fogo a ser aceso. Encher \u00e9 instruir; acender \u00e9 educar. E o que se acende numa alma, ensinava Agostinho, n\u00e3o s\u00e3o dados, s\u00e3o amores, o ordo amoris. Uma civiliza\u00e7\u00e3o que sabe muito e ama mal sabe construir a bomba e n\u00e3o sabe por que n\u00e3o deveria lan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>Foi contra essa heran\u00e7a, muitas vezes em seu nome, que se ergueu o modelo que ainda hoje aprisiona quase todas as escolas do mundo: o prussiano. Sob Frederico, o Grande, e depois das humilha\u00e7\u00f5es de Jena em 1806, esse Estado-quartel diagnosticado por Mirabeau inventou a escola moderna como continua\u00e7\u00e3o do quartel por outros meios.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria homens livres, mas sim s\u00faditos pontuais, soldados obedientes e bucha de canh\u00e3o de uniforme limpo. O sino \u00e9 o mesmo do quartel, a fileira \u00e9 o pelot\u00e3o, a marcha ao toque de comando, a recompensa \u00e0 obedi\u00eancia e o castigo \u00e0 pergunta inconveniente nasceram para enfileirar baldes id\u00eanticos, n\u00e3o para acender fogos. Tudo isso \u00e9 excelente no mundo militar, mas a vida n\u00e3o \u00e9 uma caserna. O ideal era a <em>Kadavergehorsam<\/em>, a obedi\u00eancia cega do cad\u00e1ver. A ironia mais amarga \u00e9 que a mesma Pr\u00fassia deu ao mundo, com a outra m\u00e3o, o ideal sublime da <em>Bildung<\/em> e a universidade moderna.<\/p>\n<p>Humboldt sonhou a catedral e ajudou a erguer o quartel; o Ocidente copiou o quartel e deixou a catedral nos livros. Horace Mann visitou a Pr\u00fassia em 1843, voltou encantado e levou o figurino para os Estados Unidos, de onde se espalhou pelo mundo como o padr\u00e3o natural de escola. At\u00e9 hoje sentamos os filhos em fileiras, dividimo-los por safra como vinho, premiamos a resposta certa e punimos a pergunta esquisita, e chamamos a isso de educa\u00e7\u00e3o. Decerto funciona, reitero, na vida castrense, mas, na da Cidade, \u00e9 uma pris\u00e3o mental, uma instru\u00e7\u00e3o prussiana travestida de virtude.<\/p>\n<p>Durkheim teve a honestidade de chamar o boi pelo nome. A educa\u00e7\u00e3o, escreveu, \u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o met\u00f3dica da gera\u00e7\u00e3o jovem, o processo pelo qual a sociedade imprime no rec\u00e9m-chegado as normas, os valores e os h\u00e1bitos de que precisa para se reproduzir. Note-se o verbo: imprimir. Durkheim descreve, com precis\u00e3o cl\u00ednica, n\u00e3o a educa\u00e7\u00e3o no sentido de Plat\u00e3o, mas a instru\u00e7\u00e3o no sentido da Pr\u00fassia.<\/p>\n<p>Max Weber, que via mais longe, completou o diagn\u00f3stico: em <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, a modernidade encerra o homem numa jaula de a\u00e7o, a <em>stahlhartes Geh\u00e4use<\/em>, e produz como seu tipo caracter\u00edstico o especialista sem esp\u00edrito, o <em>Fachmensch ohne Geist<\/em>, o t\u00e9cnico competent\u00edssimo e interiormente vazio que cumpre a sua fun\u00e7\u00e3o com perfei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sabe dizer para qu\u00ea. \u00c9 o produto acabado da escola que instrui e n\u00e3o educa. \u00c9 o balde cheio que nunca pegou fogo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Rousseau, que teve cinco ou seis filhos e n\u00e3o educou nenhum, farejou a doen\u00e7a antes de quase todos e prescreveu, com a embriaguez t\u00edpica dos profetas, o rem\u00e9dio errado. Em <em>Em\u00edlio<\/em>, denunciou a escola que deforma a crian\u00e7a ao trat\u00e1-la como um adulto pequeno, um recipiente a ser abastecido de no\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pediu.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a, insistia, n\u00e3o \u00e9 cera, \u00e9 planta. Bel\u00edssimo, s\u00f3 que Em\u00edlio cresce sob a vigil\u00e2ncia total de um preceptor que controla cada experi\u00eancia, e aquela liberdade celebrada \u00e9 a mais minuciosa das pris\u00f5es, uma jaula sem grades porque as grades est\u00e3o na cabe\u00e7a do tutor. Rousseau quis libertar a crian\u00e7a e construiu para ela o Panopticon de Bentham mais gentil da hist\u00f3ria. Coube a Jean Piaget, no s\u00e9culo XX, resgatar o miolo da sanidade: a crian\u00e7a n\u00e3o recebe o conhecimento pronto, ela o constr\u00f3i, agindo, errando, corrigindo. Formulou o princ\u00edpio que devia estar gravado sobre o quadro-negro de toda escola: o objetivo da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 formar pessoas capazes de fazer coisas novas, n\u00e3o repetir o que as outras gera\u00e7\u00f5es fizeram. Repetir \u00e9 instru\u00e7\u00e3o. Fazer coisas novas \u00e9 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chego, por esse caminho, \u00e0 premissa que d\u00e1 nome verdadeiro ao problema. H\u00e1 dois dom\u00ednios que pedem tratamentos opostos. O do trabalho, as \u201cartes servis\u201d medievais, abrange as tarefas que existem para satisfazer uma car\u00eancia, mover a engrenagem da sobreviv\u00eancia. O da arte, da inventividade livre, \u00e9 o que n\u00e3o serve a nada exterior a si porque \u00e9 o pr\u00f3prio fim. Pedem regimes de tempo inversos.<\/p>\n<p>O trabalho, por ser meio, deve ser reduzido \u00e0 m\u00e1xima efici\u00eancia no menor tempo poss\u00edvel: quem leva 4 horas no que poderia despachar numa s\u00f3 \u00e9 desperdi\u00e7ador da vida que poderia estar vivendo. A arte, por ser fim, deve ser maximizada, e nela o autor h\u00e1 de gastar tanto tempo quanto a inventividade exigir, sem rel\u00f3gio, sem a tirania da produtividade. James Joyce levou 7 anos no <em>Ulisses<\/em>, e teria levado 70 se preciso fosse, porque o tempo gasto na arte n\u00e3o \u00e9 custo, \u00e9 a pr\u00f3pria subst\u00e2ncia da obra. Confundir os dois dom\u00ednios \u00e9 a raiz de toda barb\u00e1rie pedag\u00f3gica. A escola prussiana \u00e9 trabalho disfar\u00e7ado de forma\u00e7\u00e3o: trata o cultivo do esp\u00edrito com a cronometragem da linha de montagem.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente neste ponto que irrompe a intelig\u00eancia artificial, com o poder de redesenhar a fronteira entre instruir e educar como nenhuma outra inven\u00e7\u00e3o desde a escrita. A IA \u00e9 a instruere feita sil\u00edcio, o ente que se deixa instruir perfeitamente e jamais se educa. Treina-se um modelo, ajusta-se, e ele executa a tarefa servil com compet\u00eancia sobre-humana e alma rigorosamente nula. E que o leitor me perdoe o neologismo estrangeiro: \u00e9 o <em>Allesmensch ohne Geist<\/em> (parido com a ajuda da minha mulher, Alina, vienense e proficiente no of\u00edcio de entender as idiossincrasias deste escriba), o generalista sem esp\u00edrito, express\u00e3o que Weber jamais cunhou, no limite metaf\u00edsico; a <em>Kadavergehorsam<\/em> prussiana realizada num cad\u00e1ver que nunca foi vivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem mestre interior, nem caverna de onde subir, nem sol para o qual virar-se. N\u00e3o pode ser educada porque n\u00e3o h\u00e1, nela, nada a ser trazido para fora. Mas justamente por isso pode assumir, em nosso lugar, todo o reino do trabalho servil. Arist\u00f3teles, com uma ousadia que atravessou 23 s\u00e9culos, escreveu na <em>Pol\u00edtica<\/em> que s\u00f3 haveria escravos enquanto a lan\u00e7adeira n\u00e3o tecesse sozinha e o plectro n\u00e3o tangesse a c\u00edtara sem m\u00e3o que o guiasse; no dia em que cada instrumento cumprisse a sua obra por conta pr\u00f3pria, nem o senhor precisaria de servos. Pois bem: a lan\u00e7adeira agora tece sozinha. O escravo de que Arist\u00f3teles falava acaba de nascer, e \u00e9 de sil\u00edcio.<\/p>\n<p>Diante disso, abre-se uma encruzilhada que define o s\u00e9culo. De um lado, a liberta\u00e7\u00e3o: se a m\u00e1quina absorve o trabalho servil, devolve ao homem o schol\u00e9 que a escola prussiana lhe roubou, o \u00f3cio nobre em que a alma se vira para o sol e finalmente se educa, finalmente inventa, finalmente cria a arte que \u00e9 fim em si mesma. Seria a profecia grega realizada: uma nova Atenas em que os escravos s\u00e3o de metal e os homens, enfim, s\u00e3o livres para o que importa.<\/p>\n<p>De outro lado, o abismo, mais prov\u00e1vel porque a tolice tem gravidade pr\u00f3pria. O risco \u00e9 que a m\u00e1quina fa\u00e7a a nossa arte, e que as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, libertas do esfor\u00e7o de pensar, se tornem as primeiras inteiramente instru\u00eddas e absolutamente n\u00e3o educadas da hist\u00f3ria, multid\u00f5es que sabem pedir tudo a um or\u00e1culo e n\u00e3o sabem mais acender, dentro de si, uma \u00fanica chama. A lan\u00e7adeira seria, ent\u00e3o, a caverna de Plat\u00e3o com ar-condicionado, e n\u00f3s, prisioneiros que j\u00e1 n\u00e3o sentem o peso das correntes porque foram instru\u00eddos a cham\u00e1-las de conforto.<\/p>\n<p>Para um pa\u00eds como o Brasil, a aposta \u00e9 dupla e o rel\u00f3gio, cruel. Constru\u00edmos, ao longo de 60 anos, o quartel prussiano para os filhos dos pobres, fileiras, sineta, decoreba e diploma, enquanto as elites compravam a <em>paideia<\/em> para os seus, e chamamos a essa duplicidade de democratiza\u00e7\u00e3o do ensino, a \u201cobra\u201d de Paulo Freire, homem que certamente merece lugar de destaque num pante\u00e3o brasileiro da imbecilidade, se um vier a ser estabelecido.<\/p>\n<p>Agora, quando a m\u00e1quina amea\u00e7a tornar obsoleta a instru\u00e7\u00e3o servil que era quase tudo o que se oferecia \u00e0 maioria, temos a chance de pular a etapa inteira, de saltar do balde direto para o fogo, de usar a tecnologia para educar de verdade. \u00c9 uma promessa que o pa\u00eds tem o h\u00e1bito melanc\u00f3lico de n\u00e3o cumprir. Mas \u00e9 uma promessa, e quem se preocupa com o destino da pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o aprende cedo que h\u00e1 promessas que valem mais pelo que exigem de n\u00f3s do que pela probabilidade de se cumprirem.<\/p>\n<p>Retornemos, no fim, ao come\u00e7o, \u00e0s duas palavras latinas e ao coment\u00e1rio de Mirabeau. Uma m\u00e3o empilha tijolos, ergue paredes, enche baldes: \u00e9 a m\u00e3o que instrui, e pode agora descansar, passar o fardo ao escravo de metal que n\u00e3o se queixa e n\u00e3o dorme. A outra \u00e9 mais antiga: tira da \u00e1gua o que escondia, torce o pesco\u00e7o do prisioneiro na dire\u00e7\u00e3o do sol, prepara o solo e espera a semente, aproxima a tocha do graveto e recua, porque o fogo, depois de aceso, arde por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>\u00c9 a m\u00e3o daquele mestre interior de que falava Santo Agostinho no <em>De Magistro<\/em>, o Cristo que ilumina por dentro toda intelig\u00eancia, e nenhuma m\u00e1quina jamais a ter\u00e1, porque ela n\u00e3o enche, ela liberta, e s\u00f3 liberta quem \u00e9, ele mesmo, livre. Educere \u00e9 conduzir para fora, para fora da caverna, do quartel, da bala de canh\u00e3o, da f\u00f4rma que nos quiseram imprimir.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina carregar\u00e1 os tijolos. A pergunta, a \u00fanica que importa, \u00e9 o que faremos com as m\u00e3os vazias. Poderemos ench\u00ea-las com o primeiro balde e seguir produzindo em s\u00e9rie a bucha de canh\u00e3o que dois s\u00e9culos de pedagogia prussiana j\u00e1 fabricaram. Ou poderemos us\u00e1-las para acender alguma coisa, e trabalhar em favor do homem, e n\u00e3o do rei da Pr\u00fassia, j\u00e1 que trabalhar por ele, como dizia Voltaire, \u00e9 trabalhar por nada.<\/p>\n<p><em><strong>Lindolpho Cademartori<\/strong> \u00e9 diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje eu quero falar sobre a diferen\u00e7a entre educa\u00e7\u00e3o e instru\u00e7\u00e3o, que \u00e9, em certa medida, a diferen\u00e7a entre a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":479117,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-479116","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/479116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=479116"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/479116\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/479117"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=479116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=479116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=479116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}