{"id":477478,"date":"2026-06-09T10:47:26","date_gmt":"2026-06-09T14:47:26","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=477478"},"modified":"2026-06-09T10:47:26","modified_gmt":"2026-06-09T14:47:26","slug":"elas-venceram-guerras-doencas-e-dificuldades-com-apoio-do-credito-cooperativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=477478","title":{"rendered":"Elas venceram guerras, doen\u00e7as e dificuldades com apoio do cr\u00e9dito cooperativo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Empreender no Brasil continua sendo um desafio. Dados do IBGE apontam que cerca de 20% das empresas encerram as atividades antes de completar um ano de funcionamento. Levantamentos do Sebrae mostram que aproximadamente 60% dos neg\u00f3cios n\u00e3o chegam ao quinto ano de vida.<\/p>\n<p>Apesar desse cen\u00e1rio, milh\u00f5es de brasileiros seguem apostando. Em 2025, o pa\u00eds registrou mais de 5 milh\u00f5es de novos neg\u00f3cios, segundo dados compilados pelo Sebrae com base em registros da Receita Federal. O empreendedorismo feminino teve participa\u00e7\u00e3o expressiva, respondendo por cerca de 42% das novas empresas abertas no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s desses n\u00fameros existem experi\u00eancias marcadas por dificuldades, perdas, recome\u00e7os, persist\u00eancia e falta de cr\u00e9dito. Hist\u00f3rias que ajudam a explicar por que tantas pessoas continuam apostando no pr\u00f3prio neg\u00f3cio, mesmo diante de obst\u00e1culos econ\u00f4micos e pessoais.<\/p>\n<p>A <strong>Gazeta do Povo<\/strong> reuniu trajet\u00f3rias de quatro mulheres (veja a seguir) que vivem em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds e que encontraram no empreendedorismo e no cr\u00e9dito cooperativo uma forma de reconstruir suas vidas. Em comum, elas enfrentaram situa\u00e7\u00f5es extremas: guerra, pobreza, doen\u00e7a, luto e desafios \u00e0 inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tiveram acesso a um programa chamado Capital Incentivo, iniciativa da cooperativa de cr\u00e9dito Sicredi que, em 2025, selecionou 130 pequenos empreendedores para receber apoio financeiro e orienta\u00e7\u00e3o em gest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMais do que os recursos recebidos, as hist\u00f3rias revelam como pequenos neg\u00f3cios podem se tornar instrumentos de transforma\u00e7\u00e3o\u201d, explica Manfred Alfonso Dasenbrock, representante da institui\u00e7\u00e3o financeira no Conselho Mundial das Cooperativas de Cr\u00e9dito.<\/p>\n<h2>Das pedras \u00e0 culin\u00e1ria<\/h2>\n<p>Quando fala sobre o passado, L\u00facia do Amaral Silveira mostra as m\u00e3os. Aos 36 anos, elas ainda guardam marcas de uma rotina que come\u00e7ou muito distante do universo do empreendedorismo.<\/p>\n<p>Nascida em Planalto, no sudoeste do Paran\u00e1, ela trabalhou durante cinco anos em uma pedreira. O servi\u00e7o exigia for\u00e7a f\u00edsica para quebrar e assentar pedras em cal\u00e7amentos, em uma fase em que as oportunidades eram escassas.<\/p>\n<p>Depois vieram outras ocupa\u00e7\u00f5es: foi frentista, borracheira e desempenhou diferentes atividades para complementar a renda. A virada aconteceu quando percebeu que suas habilidades na cozinha poderiam se transformar em fonte de sustento.<\/p>\n<p>Cursos oferecidos pela prefeitura ajudaram a desenvolver conhecimentos b\u00e1sicos e abriram caminho para a abertura da Lanches LV, panificadora e lanchonete instalada no centro da cidade.<\/p>\n<p>Com o tempo, o neg\u00f3cio cresceu. Al\u00e9m do estabelecimento fixo, a fam\u00edlia passou a operar uma Kombi adaptada para a venda de past\u00e9is e caldo de cana. O empreendimento se transformou na principal fonte de renda da fam\u00edlia e envolve o marido e as filhas.<\/p>\n<p>L\u00facia, contudo, j\u00e1 cogitou encerrar as atividades. Custos elevados, dificuldades financeiras e problemas de sa\u00fade do marido colocaram em d\u00favida a continuidade do neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que ela participou do projeto oferecido pelo Sicredi. O valor recebido foi utilizado na compra de uma assadeira industrial e de equipamentos para a produ\u00e7\u00e3o de caldo de cana, permitindo ampliar a capacidade produtiva e melhorar o faturamento.<\/p>\n<p>\u201cPara muita gente pode parecer um valor pequeno, mas fez diferen\u00e7a em um momento decisivo. Crescemos e continuamos trabalhando\u201d, relata.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/22163820\/a-mulher-que-quebrava-pedras.jpg.webp\" \/><i>Das m\u00e3os calejadas de quem quebrava pedras, L\u00facia vive o sonho de ganhar a vida com a delicadeza da culin\u00e1ria. (Foto: L\u00facia do Amaral Silveira\/Arquivo Pessoal)<\/i><\/p>\n<h2>Mem\u00f3rias de guerra em joias<\/h2>\n<p>A hist\u00f3ria de Myria Tokmaji come\u00e7a a 11 mil quil\u00f4metros do Paran\u00e1. Em Aleppo, na S\u00edria, ela viveu um dos per\u00edodos mais violentos da guerra civil que devastou o pa\u00eds. Durante dois anos, enfrentou bombardeios e escassez.<\/p>\n<p>Foi nesse ambiente de inseguran\u00e7a que surgiu uma habilidade que mais tarde mudaria sua vida. Sem acesso regular \u00e0 eletricidade, Myria aprendeu croch\u00ea com a av\u00f3 para ocupar o tempo e aliviar o medo provocado pela guerra.<\/p>\n<p>O que era apenas uma forma de enfrentar a rotina de conflitos se transformaria em instrumento de sobreviv\u00eancia. H\u00e1 12 anos, ela deixou a S\u00edria praticamente com a roupa do corpo e buscou ref\u00fagio no Brasil, estabelecendo-se em Curitiba.<\/p>\n<p>Os primeiros meses foram marcados por dificuldades t\u00edpicas enfrentadas pelos refugiados: barreiras culturais, idioma e necessidade de gerar renda. Myria come\u00e7ou vendendo pe\u00e7as artesanais em frente a igrejas para pagar despesas b\u00e1sicas e garantir alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia despertou a vontade de construir algo maior. Filha de joalheiro e formada em design gr\u00e1fico, ela decidiu unir refer\u00eancias culturais \u00e0 atividade artesanal.<\/p>\n<p>Criou a Ebla Joias, marca que utiliza elementos inspirados na cultura s\u00edria e \u00e1rabe. Bordados tradicionais, marchetaria, s\u00edmbolos hist\u00f3ricos e inscri\u00e7\u00f5es em aramaico \u2014 l\u00edngua associada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 oriental \u2014 integram suas pe\u00e7as.<\/p>\n<p>Cada cole\u00e7\u00e3o carrega fragmentos de sua hist\u00f3ria pessoal e da migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. A madrep\u00e9rola utilizada em suas cria\u00e7\u00f5es simboliza a liga\u00e7\u00e3o afetiva com o pa\u00eds natal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o como empreendedora, Myria participa de atividades culturais e educacionais. Tornou-se palestrante, musicista e defensora da integra\u00e7\u00e3o de refugiados \u00e0 sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Segundo ela, o apoio recebido por meio do cr\u00e9dito cooperativo ajudou a fortalecer a imagem da marca e ampliar a estrutura do neg\u00f3cio. \u201cFoi importante perceber que as pessoas acreditavam no potencial do meu trabalho e da minha hist\u00f3ria\u201d, afirma.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Acolher quem ficou de fora<\/h2>\n<p>Em Franca, no interior de S\u00e3o Paulo, a origem de um neg\u00f3cio est\u00e1 ligada \u00e0s dificuldades enfrentadas dentro de casa. Aos 50 anos, Denize Rodrigues Magalh\u00e3es \u00e9 m\u00e3e de Felipe, de 28, diagnosticado com autismo severo, surdez profunda e limita\u00e7\u00f5es motoras.<\/p>\n<p>Durante anos, ela encontrou dificuldades para realizar algo simples: cortar o cabelo do filho. A falta de preparo de profissionais e a aus\u00eancia de ambientes adaptados transformavam uma atividade rotineira em uma experi\u00eancia desgastante.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, Denize percebeu que outras fam\u00edlias enfrentavam situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Foi o estopim para a cria\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o especializado, voltado para pessoas com defici\u00eancia, acamadas, autistas e com dificuldades de locomo\u00e7\u00e3o. Assim nasceu o Acolher Cabeleireira Inclusiva.<\/p>\n<p>Antes de colocar a ideia em pr\u00e1tica, ela investiu em forma\u00e7\u00e3o profissional. Fez cursos, estudou t\u00e9cnicas e aprendeu Libras. Muitos atendimentos acontecem na resid\u00eancia dos pacientes e exigem tempo, paci\u00eancia e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades individuais.<\/p>\n<p>Em alguns casos, ela passa horas conquistando a confian\u00e7a de uma pessoa que h\u00e1 meses ou anos n\u00e3o conseguia cortar o cabelo \u2014 uma atividade que vai al\u00e9m da est\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u201cExistem pessoas que passam muito tempo sem conseguir acessar servi\u00e7os b\u00e1sicos. Quando isso acontece, autoestima e qualidade de vida tamb\u00e9m s\u00e3o afetadas\u201d, explica.<\/p>\n<p>O recurso recebido no Capital Incentivo foi utilizado na amplia\u00e7\u00e3o da estrutura f\u00edsica do projeto, permitindo alcan\u00e7ar mais fam\u00edlias. Denize reconhece que a iniciativa surgiu de uma experi\u00eancia pessoal, mas resultou em um servi\u00e7o capaz de atender a uma demanda pouco explorada e frequentemente invisibilizada.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Recome\u00e7o ap\u00f3s o c\u00e2ncer e o luto<\/h2>\n<p>Duas experi\u00eancias mudaram completamente a trajet\u00f3ria de Helena Lima Soares: o tratamento contra o c\u00e2ncer de mama e o cuidado com os sobrinhos ap\u00f3s a morte da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Nascida no norte do Paran\u00e1, ela tinha apenas 29 anos quando precisou conciliar os deslocamentos para a radioterapia com as exig\u00eancias da nova configura\u00e7\u00e3o familiar. Em meio ao luto, assumiu a cria\u00e7\u00e3o de tr\u00eas crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s. A mudan\u00e7a trouxe desafios emocionais e financeiros.<\/p>\n<p>Tentando oferecer conforto a uma das sobrinhas, ela come\u00e7ou a produzir la\u00e7os e acess\u00f3rios artesanais. O que surgiu como um gesto de carinho se transformou em uma atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Sem experi\u00eancia empresarial, Helena aprendeu sozinha. Assistia a v\u00eddeos, fazia testes e utilizava os poucos recursos dispon\u00edveis para comprar materiais. A mesa de casa se transformou em oficina, estoque e ponto de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada venda representava a possibilidade de reinvestir e garantir renda complementar. O crescimento foi gradual. Os produtos passaram a alcan\u00e7ar novos clientes e a atividade ganhou caracter\u00edsticas de um empreendimento formal.<\/p>\n<p>Mas o projeto cooperativo foi a chave para sua profissionaliza\u00e7\u00e3o. O recurso financeiro ajudou na compra de equipamentos e materiais. J\u00e1 as orienta\u00e7\u00f5es permitiram aprimorar a gest\u00e3o do neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cO dinheiro foi importante, mas aprendi a administrar melhor e enxergar o empreendimento como empresa\u201d, conta, ao afirmar que o neg\u00f3cio se tornou fonte de estabilidade em um per\u00edodo marcado por profundas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/22162448\/empreender-e-cooperar.jpg.webp\" \/><i>Vidas se transformam quando empreendedorismo avan\u00e7a com coopera\u00e7\u00e3o. (Foto: Juliet manfrin\/Gazeta do Povo\/ChatGPT)<\/i><\/p>\n<h2>A economia em um cen\u00e1rio maior<\/h2>\n<p>Apesar de origens e trajet\u00f3rias diferentes, as hist\u00f3rias t\u00eam uma caracter\u00edstica comum ao empreendedorismo brasileiro: todas come\u00e7aram por necessidade. \u201cNenhuma surgiu de um planejamento sofisticado ou de grandes investimentos iniciais\u201d, refor\u00e7a a economista e especialista em cr\u00e9dito empreendedor Regina Martins.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o financeira e \u00e0 inclus\u00e3o produtiva ajuda a aumentar as chances de sobreviv\u00eancia das empresas de pequeno porte, avalia o presidente do Sistema Organiza\u00e7\u00e3o das Cooperativas do Paran\u00e1 (Ocepar), Jos\u00e9 Roberto Ricken.<\/p>\n<p>Ele ressalta que trajet\u00f3rias distintas podem transformar dificuldades em oportunidades. \u201cEssa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o social do cooperativismo de cr\u00e9dito\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empreender no Brasil continua sendo um desafio. 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