{"id":476512,"date":"2026-06-09T07:00:00","date_gmt":"2026-06-09T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=476512"},"modified":"2026-06-09T07:00:00","modified_gmt":"2026-06-09T11:00:00","slug":"os-traidores-e-a-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=476512","title":{"rendered":"Os traidores e a forca"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/08222559\/WhatsApp-Image-2026-06-08-at-13.56.47.jpeg.webp\" \/><span>Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica incompat\u00edvel com os valores democr\u00e1ticos. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A hist\u00f3ria brasileira costuma ser lembrada por meio de s\u00edmbolos simplificados. Tiradentes, por exemplo. \u00c9 o m\u00e1rtir da independ\u00eancia. J\u00e1 Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis ficou marcado como o traidor que vendeu seus companheiros \u00e0 Coroa portuguesa. Mas, quando figuras p\u00fablicas recorrem a esses personagens para atacar advers\u00e1rios, \u00e9 importante recapitular os fatos em toda a sua complexidade.<\/p>\n<p>Na semana passada, Lula afirmou que determinados advers\u00e1rios mereceriam a forca, evocando a mem\u00f3ria de Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis \u2014 que, na verdade, n\u00e3o foi enforcado, mas este \u00e9 o menor dos problemas. A analogia revela um problema hist\u00f3rico e moral profundo. Afinal, quem foi o traidor, aos olhos do regime vigente em Minas Gerais no final do s\u00e9culo XVIII? E quem acabou sendo enforcado: o traidor ou o her\u00f3i?<\/p>\n<p>Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis era um rico propriet\u00e1rio de terras e minerador. Endividado junto \u00e0 Coroa portuguesa, viu na dela\u00e7\u00e3o da Inconfid\u00eancia Mineira uma oportunidade para obter vantagens pessoais. Em 1789, denunciou \u00e0s autoridades o movimento que articulava uma ruptura com o dom\u00ednio portugu\u00eas. Em troca, recebeu favores da administra\u00e7\u00e3o colonial, incluindo o perd\u00e3o de d\u00edvidas e outras compensa\u00e7\u00f5es. Morreu de causas naturais, j\u00e1 idoso.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da mem\u00f3ria nacional constru\u00edda posteriormente, Silv\u00e9rio se tornou o arqu\u00e9tipo do traidor: o homem que colocou seus interesses particulares acima do ideal de liberdade defendido pelos inconfidentes.<\/p>\n<p>Mas a perspectiva da Coroa portuguesa era exatamente oposta. Para Lisboa, Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis n\u00e3o era um traidor: era um colaborador leal, que prestou um servi\u00e7o ao Estado ao denunciar uma conspira\u00e7\u00e3o criminosa. Quem atentava contra a ordem estabelecida eram os inconfidentes. Eles \u00e9 que planejavam desafiar a autoridade leg\u00edtima do reino e romper com o sistema pol\u00edtico vigente.<\/p>\n<p>Tiradentes n\u00e3o foi enforcado por defender a liberdade em abstrato. Foi executado porque o governo da \u00e9poca o considerou um rebelde e um traidor. Mas a sua execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 lembrada como um triunfo da justi\u00e7a, e sim como um exemplo de persegui\u00e7\u00e3o estatal contra aqueles que ousaram desafiar o poder.<\/p>\n<p>Como acontece hoje, a Coroa portuguesa tamb\u00e9m acreditava estar defendendo a ordem, a legalidade e a estabilidade. Tamb\u00e9m acreditava que seus opositores amea\u00e7avam a integridade do Estado. Tamb\u00e9m se via como guardi\u00e3 do bem comum. E foi em nome dessa convic\u00e7\u00e3o que condenou Tiradentes \u00e0 morte. Isso comprova que a justi\u00e7a hist\u00f3rica nem sempre coincide com a justi\u00e7a proclamada pelos governantes de cada \u00e9poca.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica incompat\u00edvel com os valores democr\u00e1ticos<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O problema da declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas na viol\u00eancia da imagem empregada. Est\u00e1 tamb\u00e9m na invers\u00e3o hist\u00f3rica que ela sugere. Ao associar advers\u00e1rios a Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis, presume-se automaticamente que o governo representa a causa justa e que os opositores ocupam o papel dos traidores. Mas foi exatamente esse tipo de certeza moral que levou regimes autorit\u00e1rios de diferentes \u00e9pocas a perseguirem dissidentes.<\/p>\n<p>Uma analogia alternativa parece muito mais pertinente ao debate. Se quisermos transportar a l\u00f3gica da Inconfid\u00eancia Mineira para os dias atuais, Tiradentes n\u00e3o se pareceria com os defensores do poder estabelecido, mas justamente com aqueles que s\u00e3o apontados pelo regime vigente como inimigos da democracia, amea\u00e7as ao Estado de direito ou traidores da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Evidentemente, as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas s\u00e3o distintas, e n\u00e3o se trata de equiparar personagens ou causas espec\u00edficas. Meu ponto \u00e9 outro: a Hist\u00f3ria ensina que governos costumam atribuir aos seus opositores os r\u00f3tulos mais severos poss\u00edveis, enquanto reservam para si o papel de guardi\u00e3es da legalidade. Mas Tiradentes se tornou um s\u00edmbolo nacional justamente porque as gera\u00e7\u00f5es posteriores conclu\u00edram que o julgamento do poder n\u00e3o era o julgamento da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o deveria servir de advert\u00eancia sempre que autoridades contempor\u00e2neas tratam advers\u00e1rios pol\u00edticos como inimigos a serem perseguidos, silenciados ou eliminados. Governantes democr\u00e1ticos deveriam evitar qualquer flerte ret\u00f3rico com a ideia de eliminar advers\u00e1rios pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica incompat\u00edvel com os valores democr\u00e1ticos. A democracia pressup\u00f5e a coexist\u00eancia de opini\u00f5es divergentes. Advers\u00e1rios devem ser derrotados nas urnas, no debate p\u00fablico e no campo das ideias, n\u00e3o conduzidos ao cadafalso \u2014 nem mesmo simbolicamente.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m recordar quem realmente terminou na forca em 1792. N\u00e3o foi o homem que defendeu o poder estabelecido. Foi justamente aquele que ousou enfrent\u00e1-lo. O m\u00e1rtir da Inconfid\u00eancia foi enquadrado, pelo poder de sua \u00e9poca, na categoria dos \u201ctraidores\u201d e \u201cinimigos da ordem\u201d.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de casos semelhantes. Muitos personagens hoje reverenciados como defensores da liberdade foram considerados subversivos, extremistas ou traidores pelas autoridades de seu tempo. A diferen\u00e7a entre um her\u00f3i e um traidor, entre um m\u00e1rtir e um criminoso, depende do julgamento das gera\u00e7\u00f5es futuras. E o julgamento da hist\u00f3ria frequentemente surpreende aqueles que acreditam possuir o monop\u00f3lio da virtude.<\/p>\n<p>Por isso, a lembran\u00e7a da Inconfid\u00eancia Mineira deveria inspirar prud\u00eancia, n\u00e3o bravatas. A principal li\u00e7\u00e3o da Inconfid\u00eancia Mineira n\u00e3o \u00e9 que traidores merecem a forca. \u00c9 que o poder costuma chamar de traidor quem desafia seus interesses. Ontem foi Tiradentes. Hoje pode ser qualquer opositor inconveniente.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica incompat\u00edvel com os valores democr\u00e1ticos.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":476513,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-476512","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/476512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=476512"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/476512\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/476513"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=476512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=476512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=476512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}