{"id":467174,"date":"2026-06-06T12:00:00","date_gmt":"2026-06-06T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=467174"},"modified":"2026-06-06T12:00:00","modified_gmt":"2026-06-06T16:00:00","slug":"a-tirania-da-culpa-matou-henry-nowak","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=467174","title":{"rendered":"A \u201ctirania da culpa\u201d matou Henry Nowak"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Em 3 de dezembro de 2025, perto da meia-noite, um estudante polaco-brit\u00e2nico de 18 anos chamado Henry Nowak voltava a p\u00e9 de uma sa\u00edda com o time de futebol da Universidade de Southampton quando cruzou o caminho de Vickrum Digwa, um sikh de 23 anos que carregava duas facas \u2013 uma exibida abertamente, outra escondida sob as roupas \u2013 e que havia treinado com armas desde os 12 anos de idade. Ap\u00f3s uma alterca\u00e7\u00e3o verbal, Digwa esfaqueou Nowak cinco vezes: duas nas costas das pernas enquanto a v\u00edtima tentava fugir, uma no rosto, e uma no peito, que o mataria. Nowak escalou uma cerca deixando um rastro de sangue, pedindo socorro. A m\u00e3e de Digwa chegou antes da pol\u00edcia e fez desaparecer a arma do crime \u2013 encontrada mais tarde na casa da fam\u00edlia, junto com outras 20 facas e espadas sikhs. Digwa, ent\u00e3o, acusou Nowak de ter pronunciado insultos racistas e derrubado seu turbante. O tribunal depois concluiu que eram, nas palavras da acusa\u00e7\u00e3o, \u201cmentiras torpes e fabricadas\u201d.<\/p>\n<p>Mas, quando chegou ao local naquele dia fat\u00eddico, a pol\u00edcia acreditou sem pestanejar na vers\u00e3o de Digwa, o esfaqueador. Ent\u00e3o Nowak, o esfaqueado, foi algemado no ato. Deitado no ch\u00e3o, sangrando, disse aos policiais que havia sido ferido por faca. Disseram-lhe que n\u00e3o \u2013 que n\u00e3o era vis\u00edvel, dada a escurid\u00e3o e o frio de dezembro. Suas \u00faltimas palavras foram: \u201cPor favor, irm\u00e3o, n\u00e3o consigo respirar\u201d. Quando ele desabou, retiraram as algemas e tentaram ressuscit\u00e1-lo. Era tarde. Morreu ali mesmo, \u00e0s 0h37.<\/p>\n<p>O j\u00fari condenou Digwa por assassinato em 28 de maio de 2026, rejeitando integralmente as acusa\u00e7\u00f5es de racismo fabricadas pelo assassino. Mas a pol\u00edcia de Hampshire j\u00e1 havia feito o seu trabalho \u2013 o \u00fanico trabalho que, naquela noite, estava efetivamente no topo das suas prioridades: n\u00e3o ser acusada de racismo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Ocidente transformou a culpa num credo, numa forma de virtude performativa que opera independentemente dos fatos. E o assassino de Henry Nowak decerto sabia disso<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No livro <em>The Tyranny of Guilt<\/em>, Pascal Bruckner descreveu com precis\u00e3o a patologia que governa as elites ocidentais contempor\u00e2neas, e que subjaz ao comportamento abjeto da pol\u00edcia brit\u00e2nica para com Henry Novak: uma compuls\u00e3o masoquista \u00e0 autoflagela\u00e7\u00e3o, \u00e0 culpa civilizacional infinita, \u00e0 prostra\u00e7\u00e3o diante de qualquer acusa\u00e7\u00e3o que venha de uma minoria ou de um \u201coprimido\u201d \u2013 real ou fabricado. O Ocidente transformou a culpa num credo, numa forma de virtude performativa que opera independentemente dos fatos. E Digwa decerto sabia disso: que chamar algu\u00e9m de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/racismo\/\">racista <\/a>era o seu \u201ctrunfo\u201d, as palavras m\u00e1gicas que fariam as autoridades mostrar-lhe tratamento preferencial, invertendo grotescamente v\u00edtima e vil\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa invers\u00e3o n\u00e3o emerge do nada. \u00c9 o produto de d\u00e9cadas de trabalho intelectual sistem\u00e1tico que, a cada incidente envolvendo imigrantes ou minorias \u00e9tnicas no Ocidente, mobiliza imediatamente a mesma liturgia: \u201c\u00c9 preciso n\u00e3o generalizar\u201d, \u201cn\u00e3o se pode estigmatizar uma comunidade inteira\u201d, \u201ch\u00e1 de se combater a xenofobia e o racismo\u201d. H\u00e1 um mecanismo perverso na base dessa liturgia: enquanto o imigrante oriundo do Terceiro Mundo ou pertencente a uma minoria \u00e9tnico-religiosa n\u00e3o ocidental \u00e9 sempre tratado como ser complexo, m\u00faltiplo, sofisticado e mal compreendido, o europeu aut\u00f3ctone \u00e9 tomado em bloco, de maneira invariavelmente negativa, e submetido a um diagn\u00f3stico pronto: trata-se, antes de mais nada, de um doente \u2013 um f\u00f3bico, um racista em potencial, uma amea\u00e7a a ser contida.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A raiz intelectual dessa deforma\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo tem um nome e uma obra: Edward Said e o seu <em>Orientalismo<\/em> (1978). Said conseguiu o prod\u00edgio de convencer a <em>intelligentsia<\/em> europeia \u2013 j\u00e1 predisposta, por d\u00e9cadas de culpa colonial, \u00e0 automortifica\u00e7\u00e3o \u2013 de que qualquer olhar ocidental sobre o Oriente e sobre as culturas oriundas do mundo n\u00e3o ocidental \u00e9 estruturalmente contaminado pelo preconceito imperialista, e que, portanto, a penit\u00eancia \u00e9 devida, infinita e incondicional. O europeu que forma um ju\u00edzo sobre o que v\u00ea e experimenta n\u00e3o est\u00e1 observando a realidade \u2013 est\u00e1 reproduzindo o orientalismo, a doen\u00e7a do colonizador. A consequ\u00eancia pr\u00e1tica dessa tese foi devastadora: ela forneceu \u00e0s elites progressistas o instrumento perfeito para invalidar preventivamente qualquer cr\u00edtica \u00e0s culturas e pr\u00e1ticas oriundas do mundo n\u00e3o ocidental, qualquer observa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda sobre a incompatibilidade entre certos valores importados e os fundamentos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, qualquer rea\u00e7\u00e3o de autodefesa do europeu aut\u00f3ctone. O especialista de est\u00fadio de televis\u00e3o que, ap\u00f3s cada crime ou atentado, convoca o cidad\u00e3o comum \u00e0 ignor\u00e2ncia de si mesmo e ao respeito pelo desconhecido \u00e9 o herdeiro direto de Said \u2013 mesmo quando nunca leu uma linha sequer do <em>Orientalismo<\/em>. A doutrina j\u00e1 foi suficientemente difundida para dispensar a leitura.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente essa l\u00f3gica que os policiais de Southampton internalizaram \u2013 e aplicaram, com consequ\u00eancias letais, na noite de 3 de dezembro. A hip\u00f3tese mais perturbadora, ao menos sugerida pelos relatos, \u00e9 que a pris\u00e3o de Nowak foi uma rea\u00e7\u00e3o imediata \u00e0 alega\u00e7\u00e3o de abuso racial, e que, se tivesse sido simplesmente um caso de briga de rua sem essa dimens\u00e3o, ele n\u00e3o teria sido algemado, mas levado ao hospital. <a href=\"https:\/\/spectator.com\/article\/why-did-the-police-cuff-henry-nowak\/?utm_source=chatgpt.com\">Andrew Tettenborn<\/a>, no <em>The Spectator<\/em>, formulou a quest\u00e3o de maneira adequada: a pol\u00edcia brit\u00e2nica tem ampla evid\u00eancia aned\u00f3tica de que n\u00e3o policia de forma imparcial \u2013 e o caso Nowak demonstra, de maneira tr\u00e1gica e incontest\u00e1vel, que essa parcialidade pode ser mortal.<\/p>\n<p>O Estado virou os olhos para o estupro de jovens vulner\u00e1veis por gangues de maioria mu\u00e7ulmana por medo de ser considerado \u201cislamof\u00f3bico\u201d \u2013 a mesma cegueira volunt\u00e1ria, nascida da covardia, levou os policiais a verem num rapaz esfaqueado um tirano e no seu esfaqueador uma v\u00edtima, escreveu <a href=\"https:\/\/www.spiked-online.com\/2026\/05\/29\/henry-nowak-and-the-savagery-of-state-wokeness\/?utm_source=chatgpt.com\">Brendan O\u2019Neill<\/a> na <em>Spiked<\/em>. <a href=\"https:\/\/spectator.com\/article\/henry-nowak-and-the-evil-of-anti-racism\/?rcp=true&amp;set_edition=en\">David Shipley<\/a>, tamb\u00e9m no <em>The Spectator<\/em>, apontou a outra face da mesma moeda: \u00e9 bizarro e est\u00fapido permitir que um \u00fanico grupo etnorreligioso carregue armas letais em p\u00fablico \u2013 um privil\u00e9gio que nenhum cidad\u00e3o brit\u00e2nico comum poderia exercer sem ser imediatamente preso, mas que a <em>kirpan<\/em> sikh usufrui por exce\u00e7\u00e3o legal, porque remov\u00ea-la seria, naturalmente, discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>No universo mental dos policiais de Southampton, formados durante anos na liturgia progressista do \u201cantirracismo\u201d de Estado, uma acusa\u00e7\u00e3o de racismo pesa mais do que um moribundo a sangrar no ch\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O cidad\u00e3o europeu comum v\u00ea tudo isso \u2013 v\u00ea os bairros onde as normas do Estado cedem a c\u00f3digos comunit\u00e1rios paralelos, v\u00ea escolas que silenciam t\u00f3picos inc\u00f4modos para n\u00e3o ofender determinadas comunidades, v\u00ea crimes seguidos dos rituais midi\u00e1ticos de exculpa\u00e7\u00e3o e contextualiza\u00e7\u00e3o \u2013, mas o seu ju\u00edzo \u00e9 considerado est\u00fapido e digno de desprezo pelos especialistas, porque \u201cele n\u00e3o conhece a cultura do outro\u201d. Henry Nowak conheceu algo de Vickrum Digwa. Conheceu-o como o conhecem as v\u00edtimas: da pior forma poss\u00edvel. Mas esse conhecimento tamb\u00e9m n\u00e3o contou. Porque no universo mental dos policiais de Southampton, formados durante anos na liturgia progressista do \u201cantirracismo\u201d de Estado, uma acusa\u00e7\u00e3o de racismo pesa mais do que um moribundo a sangrar no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Henry Nowak era polaco-brit\u00e2nico \u2013 o tipo de imigrante que n\u00e3o aparece nas estat\u00edsticas do \u00f3dio racial, que n\u00e3o rende manchetes de solidariedade, que n\u00e3o motiva genuflex\u00f5es de primeiros-ministros. Se fosse negro e tivesse sido algemado pela pol\u00edcia enquanto agonizava, haveria protestos em escala sem precedentes na Gr\u00e3-Bretanha e Keir Starmer estaria \u00e0 frente dos apelos por justi\u00e7a. Mas Henry era branco, polaco, e acusado \u2013 falsamente, como o tribunal confirmou \u2013 de racismo. As algemas, portanto, eram razo\u00e1veis.<\/p>\n<p>Esta coluna come\u00e7ou a ser escrita no dia em que Southampton pegou fogo. Na noite de ter\u00e7a-feira, 2 de junho de 2026, mais de mil pessoas reuniram-se em frente \u00e0 Delegacia Central de Southampton para exigir responsabiliza\u00e7\u00e3o pelo assassinato de Henry Nowak, com gritos de \u201cvergonha\u201d ecoando diante do edif\u00edcio. A pol\u00edcia de choque confrontou manifestantes no bairro de Portswood, a poucos metros do local onde Nowak foi esfaqueado; pedras foram atiradas contra os agentes, que responderam com escudos de acr\u00edlico; lixeiras comerciais foram incendiadas e empurradas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s fileiras policiais. A multid\u00e3o gritava \u201c<em>I can&#8217;t breathe<\/em>\u201d \u2013 as \u00faltimas palavras de Henry Nowak, convertidas em slogan de protesto. O detalhe \u00e9 eloquente: as mesmas palavras que George Floyd pronunciou antes de morrer, e que se tornaram o hino do movimento Black Lives Matter, foram agora apropriadas pela torcida de um rapaz polaco-brit\u00e2nico morto algemado pela pol\u00edcia brit\u00e2nica enquanto sangrava. A simetria incomoda, e por isso o <em>establishment<\/em> preferiria n\u00e3o v\u00ea-la. A mesma sele\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica que ajoelhou em campo em homenagem a Floyd dificilmente far\u00e1 o mesmo por Nowak \u2013 a v\u00edtima sem <em>pedigree <\/em>ideol\u00f3gico, incapaz de excitar a culpa coletiva da Europa <em>woke<\/em>.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 3 de dezembro de 2025, perto da meia-noite, um estudante polaco-brit\u00e2nico de 18 anos chamado Henry Nowak voltava a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":467175,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-467174","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/467174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=467174"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/467174\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/467175"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=467174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=467174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=467174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}