{"id":463375,"date":"2026-06-05T05:01:00","date_gmt":"2026-06-05T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=463375"},"modified":"2026-06-05T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-05T09:01:00","slug":"refazendo-o-caminho-dos-pracinhas-brasileiros-nos-campos-de-batalha-da-italia-monte-castelo-montese-collecchio-e-fornovo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=463375","title":{"rendered":"Refazendo o caminho dos pracinhas brasileiros nos campos de batalha da It\u00e1lia: Monte Castelo, Montese, Collecchio e Fornovo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>J\u00e1 estamos de volta ao Brasil, depois de percorrer 450 km, em uma van climatizada, refazendo o trajeto dos nossos compatriotas durante a Segunda Guerra Mundial. Nosso pai foi um deles, nos anos de 1944 e 1945, atravessando o Atl\u00e2ntico, assim como outros 25.334 brasileiros e brasileiras, para integrar a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB), em uma saga escrita em solo italiano com coragem, suor e sangue, especialmente nos combates que neste texto destacamos.<\/p>\n<p>Refazer o caminho desses homens e mulheres \u00e9 mais do que um turismo hist\u00f3rico. \u00c9 um gesto de homenagem, de reconex\u00e3o familiar e de reconhecimento. \u00c9 caminhar por onde caminharam e contemplar as montanhas e os vales que contemplaram.<\/p>\n<p>Voltamos com o cora\u00e7\u00e3o mais cheio: com mais respeito, mais compreens\u00e3o e um orgulho sereno por saber que eles ajudaram a devolver liberdade a um continente ferido. Essa viagem foi nossa forma de dizer: n\u00f3s lembramos, n\u00f3s honramos, n\u00f3s reconhecemos, mesmo que o Brasil, institucionalmente, por raz\u00f5es pol\u00edticas, tenha feito pouco e, ainda assim, tardiamente.<\/p>\n<p>Recordemos que, a partir de junho de 1944, a prioridade dos Aliados passou a ser a liberta\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, sobretudo ap\u00f3s o desembarque na Normandia, em 6 de junho daquele ano, opera\u00e7\u00e3o que mobilizou cerca de 156 mil militares. Por essa raz\u00e3o, v\u00e1rias divis\u00f5es aliadas que atuavam na It\u00e1lia foram transferidas para o sul da Fran\u00e7a, reduzindo o contingente dispon\u00edvel naquele front.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a presen\u00e7a da FEB tornou-se essencial para compensar a diminui\u00e7\u00e3o das tropas aliadas e manter a press\u00e3o sobre as for\u00e7as alem\u00e3s na regi\u00e3o. \u00c9 justamente nesse cen\u00e1rio que se destacam quatro grandes feitos que permanecem entre os cap\u00edtulos mais heroicos da hist\u00f3ria militar brasileira, quando homens e mulheres, longe de sua terra, lutaram n\u00e3o apenas pelo Brasil, mas pela liberdade de todas as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha sido o principal teatro de opera\u00e7\u00f5es da Segunda Guerra Mundial, a campanha da It\u00e1lia \u00e9 reconhecida por muitos autores como uma das mais duras e complexas de todo o conflito. O relevo montanhoso e hostil, o clima rigoroso e a not\u00e1vel capacidade defensiva do general alem\u00e3o Albert Kesselring, somados a sucessivas falhas de planejamento e coordena\u00e7\u00e3o do comando aliado, retardaram significativamente a conquista da pen\u00ednsula, cuja conclus\u00e3o estava originalmente prevista para meados de 1944.<\/p>\n<p>Como se esses obst\u00e1culos n\u00e3o bastassem, soldados e civis italianos ainda enfrentaram uma guerra fratricida que dilacerou o pa\u00eds: o sul, sob controle do governo alinhado aos Aliados, e o norte, onde o fascismo permanecia ativo, embora submetido ao jugo militar alem\u00e3o, na chamada Rep\u00fablica Social Italiana, sob a lideran\u00e7a limitada de Mussolini. Esse conjunto de fatores exigiu das tropas envolvidas uma extraordin\u00e1ria capacidade de resist\u00eancia, adapta\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio ao longo de toda a campanha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o armist\u00edcio de 8 de setembro de 1943, mais de 600 mil soldados italianos foram capturados pelos alem\u00e3es por se recusarem a aderir \u00e0 Rep\u00fablica Social Italiana. Reclassificados como <em>Internati Militari Italiani<\/em> (IMI), uma categoria criada para lhes negar o status de prisioneiros de guerra, foram submetidos \u00e0 fome, aos trabalhos for\u00e7ados e a alt\u00edssimas taxas de mortalidade nos campos de internamento e nas f\u00e1bricas do Reich. A eles somaram-se mais de 32 mil deportados pol\u00edticos e raciais, v\u00edtimas da repress\u00e3o nazifascista, muitos dos quais n\u00e3o sobreviveram aos campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Montese n\u00e3o foi apenas mais uma batalha. Foi um mergulho brutal na ess\u00eancia da guerra, onde cada avan\u00e7o custava suor, sangue e coragem, e onde a fronteira entre a vida e a morte podia se resumir a um instante<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nas regi\u00f5es da Toscana e da Em\u00edlia-Romanha, visitamos quatro cemit\u00e9rios militares que guardam a mem\u00f3ria de soldados de diversas nacionalidades: americanos, alem\u00e3es, sul-africanos e, naturalmente, o antigo Cemit\u00e9rio Militar Brasileiro de Pistoia, onde repousaram, entre 1945 e 1960, os restos mortais dos pracinhas da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira tombados na It\u00e1lia. Ao todo, recebeu 462 militares, n\u00famero que varia ligeiramente nas fontes da \u00e9poca, mas que se consolidou oficialmente nessa contagem.<\/p>\n<p>Com a decis\u00e3o do governo brasileiro de repatriar seus combatentes tombados (um gesto \u00fanico entre os pa\u00edses envolvidos no conflito), os corpos foram trasladados, em 1960, para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, espa\u00e7o dedicado \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 rever\u00eancia.<\/p>\n<p>Pistoia, contudo, ficou como s\u00edmbolo: em 1967, foi encontrado entre os escombros de Montese o corpo de um soldado brasileiro n\u00e3o identificado. Ele permanece ali at\u00e9 hoje, como o Soldado Desconhecido da FEB, representando todos aqueles cujos destinos se perderam na n\u00e9voa da guerra.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dele, a hist\u00f3ria registra ainda dois pracinhas desaparecidos: um que se afogou no Rio P\u00f3 e outro que n\u00e3o retornou de uma patrulha. Seus corpos jamais foram localizados e, por isso, n\u00e3o figuram entre os restos mortais oficialmente identificados.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o saldo de tantas batalhas, das quais buscamos retratar, neste texto, as principais, reunindo os dados mais coerentes e consistentes dispon\u00edveis, ainda que n\u00fameros e relatos possam variar ligeiramente conforme a fonte consultada.<\/p>\n<h2>Monte Castelo, a mais emblem\u00e1tica conquista da FEB<\/h2>\n<p>S\u00edmbolo maior da bravura do soldado brasileiro, Monte Castelo tornou-se a vit\u00f3ria mais emblem\u00e1tica da FEB. Essa conquista abriu o caminho para o avan\u00e7o aliado rumo ao norte da It\u00e1lia e contribuiu decisivamente para acelerar o colapso das for\u00e7as alem\u00e3s e fascistas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Erguido na espinha dorsal da Cordilheira dos Apeninos, o monte integrava um dos trechos mais fortificados da Linha G\u00f3tica, a \u00faltima grande barreira defensiva alem\u00e3 na It\u00e1lia. Ali funcionava um dos principais postos de observa\u00e7\u00e3o nazifascista, o que tornava sua tomada uma miss\u00e3o de enorme risco e sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Estendia-se por cerca de 320 quil\u00f4metros, de leste a oeste da It\u00e1lia, e sua complexidade impressiona at\u00e9 hoje. Documentos registram aproximadamente 4 mil fortifica\u00e7\u00f5es de concreto ou escavadas na rocha ou na terra, al\u00e9m de cerca de 100 mil minas terrestres, um terror constante para os soldados, que temiam sobretudo as mutila\u00e7\u00f5es provocadas por essas armadilhas invis\u00edveis. Foi nesse cen\u00e1rio brutal que os pracinhas brasileiros escreveram uma das p\u00e1ginas mais duras e honrosas de nossa hist\u00f3ria militar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>As quatro ofensivas realizadas entre novembro e dezembro de 1944 fracassaram, deixando centenas de mortos e feridos entre os brasileiros. Esses reveses acentuaram tens\u00f5es t\u00e9cnicas e humanas entre o comando da FEB e o 5\u00ba Ex\u00e9rcito dos EUA, ao qual a tropa brasileira estava subordinada. Os norte-americanos haviam subestimado tanto a capacidade defensiva alem\u00e3 quanto a severidade do inverno nos Apeninos, insistindo em ataques frontais contra posi\u00e7\u00f5es elevadas e fortificadas, sem o apoio adequado de artilharia e blindados. Mal equipados e submetidos a um clima implac\u00e1vel, os brasileiros passaram a pressionar por ajustes t\u00e1ticos e por uma melhor coordena\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O moral caiu, o medo cresceu e, para muitos pracinhas, conquistar aquele cume significava atravessar o \u201ccorredor da morte\u201d. O general Mascarenhas de Moraes foi categ\u00f3rico: novos ataques s\u00f3 seriam realizados com apoio maci\u00e7o de artilharia e com a participa\u00e7\u00e3o de uma Divis\u00e3o de Montanha norte-americana. Sua postura firme, somada ao \u00eaxito em fevereiro de 1945, consolidou o respeito do comando americano pela capacidade e pela autonomia t\u00e1tica da FEB.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria veio em 21 de fevereiro de 1945, ap\u00f3s doze horas de combate intenso. Ela s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao esfor\u00e7o conjunto das for\u00e7as brasileira e norte-americana e ao fato de que, naquele momento, a FEB j\u00e1 se encontrava mais bem treinada e experiente em opera\u00e7\u00f5es de montanha e nas duras condi\u00e7\u00f5es do inverno europeu.<\/p>\n<p>A artilharia brasileira, sob comando do general Cordeiro de Farias, teve papel decisivo na conquista. Entre 16h e 17h, seus grupos realizaram um preciso fogo de barragem sobre o cume de Monte Castelo, neutralizando posi\u00e7\u00f5es inimigas e abrindo caminho para o avan\u00e7o das tropas. Os pilotos brasileiros, voando ca\u00e7as P-47 <em>Thunderbolt<\/em>, tamb\u00e9m tiveram atua\u00e7\u00e3o amplamente reconhecida durante a opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em combates de montanha, quando o inimigo ocupa posi\u00e7\u00f5es elevadas, protegido por casamatas e apoiado por armamento pesado, os manuais militares s\u00e3o categ\u00f3ricos: a for\u00e7a atacante deve dispor de uma superioridade m\u00ednima de tr\u00eas para um em homens e equipamentos. As tropas aliadas, entre elas a FEB, avan\u00e7aram em condi\u00e7\u00f5es muito inferiores a esse par\u00e2metro e, ainda assim, prevaleceram.<\/p>\n<p>No maci\u00e7o de Monte Castelo, com 977 metros de altitude, os brasileiros enfrentavam soldados alem\u00e3es experientes, bem posicionados e profundamente entrincheirados no terreno acidentado dos Apeninos. Embora n\u00e3o seja uma montanha particularmente alta em termos absolutos, Monte Castelo exerce amplo dom\u00ednio sobre a paisagem local, controlando vales, estradas e acessos estrat\u00e9gicos entre a Em\u00edlia-Romanha e a Toscana. Foi, portanto, uma vit\u00f3ria t\u00e1tica e de grande valor operacional e simb\u00f3lico para a FEB.<\/p>\n<p>Aquele cume, conquistado com suor, sangue e honra, permanece como um dos cap\u00edtulos mais heroicos da participa\u00e7\u00e3o brasileira na Segunda Guerra Mundial. O custo dessa vit\u00f3ria foi alto: aproximadamente 400 baixas entre os brasileiros, incluindo mortos e combatentes temporariamente incapacitados para a luta, no jarg\u00e3o militar. Foi o pre\u00e7o pago pela supera\u00e7\u00e3o de um dos mais dif\u00edceis desafios enfrentados pela FEB na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Para compreender o que significava avan\u00e7ar sob fogo cerrado em Monte Castelo, nenhuma an\u00e1lise t\u00e9cnica \u00e9 suficiente. Apenas a voz de quem esteve l\u00e1 consegue traduzir o horror, a coragem e a obstina\u00e7\u00e3o que impulsionavam cada passo. Segundo o professor Dennison de Oliveira, no livro <em>Para entender a Segunda Guerra Mundial<\/em> (Editora Juru\u00e1, 2020), um pracinha teria relatado que os alem\u00e3es \u201cmandavam bala\u201d contra qualquer movimento ou cor que destoasse da terra e das pedras. Cada avan\u00e7o exigia enfrentar n\u00e3o apenas o fogo inimigo, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia de que aquele poderia ser o \u00faltimo passo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2025\/02\/21124826\/tregua.jpg.webp\" \/><i>Militares da FEB durante momento de tr\u00e9gua do combate. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Ag\u00eancia Nacional)<\/i><\/p>\n<p>Tudo isso acontecia em meio a tiros, morteiros, granadas e aos gritos dos companheiros feridos, muitos deles \u201ccom um peda\u00e7o de metal na boca, no olho, no meio da barriga, gemendo e chorando, gargarejando sangue at\u00e9 morrer\u201d.<\/p>\n<p>Nosso pai foi um dos combatentes e, por raz\u00f5es \u00edntimas que talvez s\u00f3 ele conhecesse, raramente falava em detalhes sobre Monte Castelo. Mas, nas poucas vezes em que se permitia recordar aqueles dias, uma cena sempre retornava com absoluta nitidez. Ele contava que, ao toque da alvorada, \u00e0s cinco da manh\u00e3, o tenente reuniu o grupo de soldados e proclamou, em voz firme e resoluta: \u201cHoje vamos tomar o Monte Castelo, nem que seja \u00e0 for\u00e7a de baioneta.\u201d<\/p>\n<p>Ao narrar esse momento, nosso pai, com uma mistura de respeito e uma gana quase juvenil, sempre se referia aos inimigos como \u201ctedescos\u201d \u2013 aportuguesamento do termo italiano <em>Tedeschi<\/em> (alem\u00e3es) \u2013 e \u00e0s c\u00e9lebres metralhadoras MG-42 como \u201clurdinhas\u201d, express\u00e3o que se tornou parte marcante do folclore dos pracinhas.<\/p>\n<p>Uma das vers\u00f5es mais difundidas conta que, devido \u00e0 alt\u00edssima cad\u00eancia de disparos da arma (cerca de 1.200 tiros por minuto), o som lembrava a fala acelerada da noiva ciumenta de um soldado, chamada Lurdinha, que falava sem parar quando se irritava. A anedota, repetida entre trincheiras e abrigos, ajudava a trazer um toque de humor, t\u00e3o caracter\u00edstico da cultura brasileira, a uma realidade dura e cruel.<\/p>\n<p>Dedicamos um dia inteiro a conhecer o lend\u00e1rio Monte Castelo e seus arredores. Iniciamos a jornada com uma subida de cerca de 1h20 por trilhas \u00edngremes, acompanhados pelo guia M\u00e1rio. Ao longo do percurso, fizemos diversas paradas em antigos pontos estrat\u00e9gicos alem\u00e3es \u2013 casamatas, ninhos de metralhadora, posi\u00e7\u00f5es de morteiro, trincheiras e \u00e1reas que, \u00e0 \u00e9poca, estavam coalhadas de minas. No cume, fizemos preces pela alma de nosso pai e por todos os que ali combateram.<\/p>\n<p>Em seguida, visitamos um dos monumentos mais emblem\u00e1ticos da participa\u00e7\u00e3o brasileira na campanha da It\u00e1lia, erguido no local do epis\u00f3dio conhecido como \u201cOs 17 de Abetaia\u201d. Em 12 de dezembro de 1944, 17 pracinhas realizavam uma patrulha de reconhecimento quando foram cercados por tropas inimigas. Travou-se um combate intenso e desigual, no qual todos acabaram mortos. Seus corpos s\u00f3 seriam encontrados em fevereiro de 1945, ap\u00f3s a conquista de Monte Castelo, dispostos em semic\u00edrculo, muitos ainda com o dedo no gatilho ou com granadas sem pino. O monumento preserva a mem\u00f3ria de um dos epis\u00f3dios mais dram\u00e1ticos e comoventes da participa\u00e7\u00e3o brasileira na guerra.<\/p>\n<h2>Montese, o epis\u00f3dio mais sangrento da campanha brasileira na It\u00e1lia<\/h2>\n<p>Dedicamos dois dias a Montese, explorando a cidade em cada detalhe. Percorremos mais de uma centena de quil\u00f4metros pelas estradas e colinas da regi\u00e3o para conhecer antigas fortifica\u00e7\u00f5es brasileiras e alem\u00e3s, testemunhos silenciosos dos combates que marcaram aquele trecho dos Apeninos. Visitamos todos os museus locais, cada um deles guardando fragmentos preciosos da presen\u00e7a da FEB na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Ao longo do caminho, conversamos com moradores que, invariavelmente, demonstram um profundo carinho e gratid\u00e3o pelos <em>brasiliani<\/em>. \u00c9 comovente perceber como, mesmo passadas tantas d\u00e9cadas, a mem\u00f3ria dos pracinhas permanece viva ali, n\u00e3o apenas nos monumentos, mas, sobretudo, no cora\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Entre 14 e 17 de abril de 1945, a poucos dias do fim da guerra na Europa, a FEB enfrentou pela primeira vez um combate urbano de grande intensidade, travado casa por casa e rua por rua. Foi a mais sangrenta batalha para os brasileiros em toda a campanha da It\u00e1lia, com cerca de 426 baixas. Do lado alem\u00e3o, as perdas foram igualmente expressivas, estimadas em aproximadamente 497.<\/p>\n<p>Conquistar Montese, situada a 840 metros de altitude, significava dominar as estradas e vales da regi\u00e3o. A pequena cidade representava o \u00faltimo grande reduto nazifascista antes da plan\u00edcie do Vale do P\u00f3 e, justamente por isso, foi defendida com ferocidade. Erguida sobre uma cadeia montanhosa estrat\u00e9gica, controlava os acessos que permitiriam aos Aliados romper definitivamente a Linha G\u00f3tica e avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o industrial do norte da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Atualmente, com cerca de 3.300 habitantes, Montese \u00e9 uma cidade tranquila, mas ainda marcada pelas cicatrizes da guerra. Ao visit\u00e1-la, \u00e9 quase obrigat\u00f3rio registrar uma foto junto ao antigo bebedouro de pedra. Ali, ainda se podem ver as numerosas marcas de bala que atravessaram o tempo e testemunham a intensidade dos combates travados pelos pracinhas. A destrui\u00e7\u00e3o foi profunda: a maior parte das 1.221 casas da cidade sofreu danos severos durante os enfrentamentos.<\/p>\n<p>Nossos soldados foram submetidos, em Montese, a um estresse psicol\u00f3gico quase insuport\u00e1vel: cada janela, cada esquina, cada abertura nas paredes podia ocultar um atirador inimigo. O som dos tiros ricocheteando nas constru\u00e7\u00f5es, o estrondo das granadas e o cheiro de p\u00f3lvora criavam uma atmosfera permanente de tens\u00e3o e perigo. As for\u00e7as alem\u00e3s eram experientes e contavam com unidades de elite, combatendo em um terreno acidentado no qual as constru\u00e7\u00f5es de pedra e a visibilidade reduzida transformavam a cidade em um verdadeiro labirinto mortal. A artilharia inimiga, instalada em posi\u00e7\u00f5es mais elevadas, varria continuamente os acessos, enquanto atiradores ocultos retardavam dolorosamente cada metro de avan\u00e7o das tropas brasileiras.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2024\/02\/20150947\/118309547_3241719872588535_8644745392803883498_n-crop-20240220180929.jpg.webp\" \/><i>Soldados da FEB mandam &#8220;recado&#8221; para Hitler: bravura. (Foto:  Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo Nacional))<\/i><\/p>\n<p>E havia algo ainda pior: corpos estendidos pelas ruas estreitas (mortos e feridos de diversas nacionalidades, sobretudo brasileiros e alem\u00e3es) que ningu\u00e9m conseguia alcan\u00e7ar. Os padioleiros tentavam avan\u00e7ar, mas eram repelidos pelo fogo inimigo. Muitos pracinhas tiveram de continuar lutando sabendo que seus companheiros agonizavam a poucos metros de dist\u00e2ncia, sem qualquer possibilidade de socorro.<\/p>\n<p>Montese n\u00e3o foi apenas mais uma batalha. Foi um mergulho brutal na ess\u00eancia da guerra, onde cada avan\u00e7o custava suor, sangue e coragem, e onde a fronteira entre a vida e a morte podia se resumir a um instante, a um \u00fanico segundo.<\/p>\n<p>O professor Dennison de Oliveira descreve com precis\u00e3o o peso desse enfrentamento: \u201cSegundo registros da intelig\u00eancia militar do V Ex\u00e9rcito dos EUA, dos 2.800 tiros de artilharia disparados pelos nazifascistas, couberam \u00e0s tropas brasileiras nada menos que 1.800 (cerca de 65%). A artilharia da FEB respondeu \u00e0 altura, replicando com outros 9.600 disparos\u201d.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m nos arredores de Montese que, em 12 de abril de 1945, durante uma patrulha realizada antes do principal ataque brasileiro, o sargento Max Wolff Filho, um dos maiores her\u00f3is da FEB, foi mortalmente atingido por rajadas de metralhadora. Seu corpo s\u00f3 seria encontrado em dezembro daquele ano.<\/p>\n<p>Visitamos o monumento erguido em homenagem a Max Wolff Filho. Nascido em Rio Negro, no Paran\u00e1, e professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, destacou-se pela coragem e pela extraordin\u00e1ria habilidade em miss\u00f5es de reconhecimento, recebendo dos pr\u00f3prios companheiros o apelido de \u201cRei dos Patrulheiros\u201d.<\/p>\n<p>Entre os mortos estava tamb\u00e9m Alessio Venturi, primo de meu pai, nascido em 1919, em Rodeio, Santa Catarina. Ele faleceu em 15 de abril de 1945, apenas 14 dias antes do fim das hostilidades na It\u00e1lia. Essa proximidade cruel com o armist\u00edcio sempre me pareceu carregada de um simbolismo tr\u00e1gico: caiu quando a paz j\u00e1 come\u00e7ava a se anunciar.<\/p>\n<p>No Boletim Especial do Ex\u00e9rcito de 2 de dezembro de 1946, encontra-se o relato doloroso do sargento Ary Roberto de Abreu, ferido pouco antes, que descreveu um dos momentos mais marcantes que viveu na guerra: \u201cO meu soldado, Alessio Venturi, foi atingido por um grande estilha\u00e7o nas costelas. E ele me dizia: \u2018Cuide da minha m\u00e3e; eu sou \u00f3rf\u00e3o de pai\u2019. Virava-se de um lado para o outro e repetia: \u2018Sargento, cuide da minha m\u00e3e&#8230;\u2019.\u201d<\/p>\n<p>O sargento prossegue: \u201cCaindo aqui e ali, com o bra\u00e7o na tipoia, fui procurar algum padioleiro\u201d. Quando finalmente encontrou um, deparou-se com uma cena que jamais esqueceria: \u201cOs padioleiros estavam ensanguentados como entregadores de carne em a\u00e7ougue.\u201d<\/p>\n<p>Segundo pesquisa de Ariosnaldo Venturi, o sobrenome Venturi talvez seja o que mais enviou combatentes para a FEB, considerando a singularidade de todos pertencerem ao mesmo tronco familiar. Al\u00e9m de nosso pai, Leopoldo, tamb\u00e9m lutaram na It\u00e1lia Alessio, Paulino e Lu\u00eds, todos nascidos no Alto Vale do Itaja\u00ed, em Santa Catarina, e ligados por la\u00e7os de parentesco (eram primos) de primeiro ou segundo grau.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/20175008\/FEB.jpg.webp\" \/><i>Soldados da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira na It\u00e1lia durante a II Guerra Mundial. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI e foto do Arquivo Nacional\/Gazeta do Povo)<\/i><\/p>\n<p>Quando Montese finalmente caiu, em 17 de abril de 1945, a FEB havia aberto caminho para a arrancada final que, poucos dias depois, culminaria na rendi\u00e7\u00e3o em massa das for\u00e7as alem\u00e3s em Collecchio e Fornovo. A vit\u00f3ria em Montese, portanto, n\u00e3o teve apenas valor t\u00e1tico: foi um passo decisivo para o colapso da resist\u00eancia nazista e fascista no norte da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Na Via Panoramica, n\u00ba 25, funciona uma biblioteca e um pequeno museu, onde a acolhedora Sra. Emanuela nos recebeu com exclusividade por ser um s\u00e1bado. O endere\u00e7o tem um significado especial: durante a guerra, o edif\u00edcio (um pequeno castelo medieval conhecido como <em>Rocca di Montese<\/em>, situado no cora\u00e7\u00e3o da cidade) foi utilizado pelos alem\u00e3es como posto de observa\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o elevada e ao amplo dom\u00ednio visual sobre o vale.<\/p>\n<p>Mas a presen\u00e7a brasileira em Montese vai muito al\u00e9m do museu. A cidade abriga diversos marcos que evocam a participa\u00e7\u00e3o da FEB. Entre eles, destaca-se um grande mural em uma das vias principais, retratando um soldado brasileiro uniformizado, com o dedo apontando para o emblema da FEB (a cobra fumando). Esses monumentos deixam evidente que o sacrif\u00edcio dos febianos permanece vivo na mem\u00f3ria local e que Montese preserva, com orgulho, os la\u00e7os hist\u00f3ricos que unem a cidade ao Brasil.<\/p>\n<p>A 22 km de Montese, visitamos tamb\u00e9m o memorial dedicado aos \u201cTr\u00eas Bravos Brasileiros\u201d, em Vergato (n\u00e3o confundir com uma lenda hom\u00f4nima, situada em outro local e associada a personagens diferentes). Os tr\u00eas homenageados (Jos\u00e9 Graciliano, Cl\u00f3vis da Cunha e Aristides da Silva) avan\u00e7aram \u00e0 frente de seu grupo e acabaram cercados por tropas alem\u00e3s. Ao perceberem que enfrentavam apenas tr\u00eas homens, os alem\u00e3es tentaram for\u00e7\u00e1-los \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta dos brasileiros foi categ\u00f3rica: recusaram-se a se render e abriram fogo, mesmo diante de for\u00e7as muito superiores. Seguiu-se um combate feroz e desigual. Quando finalmente tombaram, os soldados alem\u00e3es, impressionados com a coragem daqueles pracinhas, decidiram sepult\u00e1-los com honras militares, um gesto rar\u00edssimo em plena guerra. Sobre a sepultura improvisada, ergueram uma cruz de madeira com a inscri\u00e7\u00e3o em alem\u00e3o: \u201c<em>Drei brasilianische Helden<\/em>\u201d (\u201cTr\u00eas her\u00f3is brasileiros\u201d).<\/p>\n<p>Assim, entre trilhas, mem\u00f3rias e monumentos, revisitamos epis\u00f3dios que revelam a dimens\u00e3o do sacrif\u00edcio e da bravura dos soldados brasileiros que lutaram na It\u00e1lia.<\/p>\n<h2>Collecchio e Fornovo, o cap\u00edtulo final da vit\u00f3ria brasileira na Segunda Guerra Mundial<\/h2>\n<p>As \u00faltimas batalhas da FEB ocorreram entre 26 e 29 de abril de 1945, quando a guerra na Europa j\u00e1 se aproximava do fim, mas ainda exigia coragem, estrat\u00e9gia e resist\u00eancia. Nos dias 26 e 27, em Collecchio, os combatentes brasileiros enfrentaram tropas da Wehrmacht (Ex\u00e9rcito alem\u00e3o) e da Rep\u00fablica Social Italiana, que tentavam romper o cerco para fugir rumo ao norte. Mesmo em inferioridade num\u00e9rica, os brasileiros manobraram com rapidez, pressionaram o inimigo e bloquearam todas as rotas de fuga.<\/p>\n<p>O desfecho ocorreu em 28 de abril de 1945, nas imedia\u00e7\u00f5es de <em>Fornovo di Taro<\/em>. Ali, as tropas alem\u00e3s e fascistas, completamente cercadas e privadas de qualquer possibilidade de retirada ou reorganiza\u00e7\u00e3o, iniciaram negocia\u00e7\u00f5es que culminaram em uma das mais expressivas capitula\u00e7\u00f5es obtidas por for\u00e7as aliadas durante a campanha da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>As tratativas foram conduzidas por oficiais da FEB com representantes do general alem\u00e3o Otto Fretter-Pico, mediados pelo p\u00e1roco local, Don Alessandro Cavalli. Foram horas de tens\u00e3o at\u00e9 que, finalmente, o documento de rendi\u00e7\u00e3o foi firmado. A capitula\u00e7\u00e3o consolidou a vit\u00f3ria brasileira no setor e contribuiu de maneira decisiva para o colapso final das for\u00e7as nazifascistas na regi\u00e3o do Vale do P\u00f3.<\/p>\n<p>No conjunto da opera\u00e7\u00e3o em Collecchio e <em>Fornovo di Taro<\/em>, a FEB capturou aproximadamente 15 mil prisioneiros, entre eles cerca de 800 oficiais e dois generais. Tamb\u00e9m apreendeu mais de 4 mil animais de carga, cerca de 1.500 viaturas e um expressivo volume de armamentos e equipamentos militares. O feito foi oficialmente reconhecido pelo 5\u00ba Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos, que destacou o Brasil como o \u00fanico pa\u00eds sul-americano a enviar tropas de combate para o teatro europeu da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Nos combates travados entre 26 e 29 de abril de 1945, a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira registrou cerca de 45 baixas, entre mortos e feridos, enquanto as for\u00e7as alem\u00e3s sofreram aproximadamente 500. Embora os n\u00fameros variem ligeiramente conforme a fonte consultada, a disparidade evidencia a efic\u00e1cia da opera\u00e7\u00e3o. Poucos dias ap\u00f3s esses confrontos, em 2 de maio de 1945, todas as for\u00e7as do Eixo na It\u00e1lia capitularam, encerrando a campanha no pa\u00eds e consolidando a participa\u00e7\u00e3o da FEB como um dos cap\u00edtulos mais relevantes da contribui\u00e7\u00e3o brasileira ao esfor\u00e7o aliado.<\/p>\n<p>Enquanto isso, em Berlim, o destino do regime nazista j\u00e1 estava selado. Poucos dias antes, Hitler soubera que Benito Mussolini fora capturado por <em>partisans<\/em> italianos, executado e exposto de cabe\u00e7a para baixo em um posto de gasolina em Mil\u00e3o, juntamente com sua amante, Clara Petacci, e dois l\u00edderes fascistas. A cena atraiu uma multid\u00e3o tomada pela f\u00faria, que insultava e cuspia nos cad\u00e1veres do antigo ditador e de seus companheiros.<\/p>\n<p>O local escolhido n\u00e3o foi aleat\u00f3rio, pois ficava nas proximidades da Pra\u00e7a Loreto, onde, em agosto de 1944, 15 <em>partigiani<\/em> haviam sido executados por for\u00e7as fascistas, em uma a\u00e7\u00e3o atribu\u00edda ao regime de Mussolini. Para muitos italianos, a exposi\u00e7\u00e3o dos corpos representava uma forma simb\u00f3lica de ajuste de contas com anos de opress\u00e3o e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A imagem brutal do aliado derrotado e humilhado refor\u00e7ou em Hitler a convic\u00e7\u00e3o de que jamais permitiria destino semelhante para si. Assim, na tarde de 30 de abril de 1945, suicidou-se com um tiro, enquanto Eva Braun, com quem se casara no dia anterior, morreu ao seu lado ao ingerir cianeto. Conforme instru\u00e7\u00f5es deixadas por Hitler, os corpos foram imediatamente levados para o jardim da Chancelaria e queimados, numa tentativa de impedir que fossem exibidos como trof\u00e9us pelos vencedores.<\/p>\n<h2>Entre o improviso e a coragem: o retrato da FEB no front italiano<\/h2>\n<p>Dos 25.334 brasileiros enviados \u00e0 It\u00e1lia, cerca de 15 mil combateram diretamente na linha de frente. O restante do contingente \u2013 aproximadamente 10 mil expedicion\u00e1rios e 73 enfermeiras, incluindo as seis que serviram na FAB \u2013 desempenhou fun\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis nas \u00e1reas de log\u00edstica, transporte, sa\u00fade, intend\u00eancia, manuten\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o, pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito e servi\u00e7os gerais.<\/p>\n<p>Segundo o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, os tr\u00eas primeiros escal\u00f5es chegaram \u00e0 It\u00e1lia com treinamento incompleto e inadequado, enquanto os dois \u00faltimos, embarcados \u00e0s pressas em novembro de 1944 e fevereiro de 1945, partiram do Brasil praticamente sem instru\u00e7\u00e3o. Essa defici\u00eancia, contudo, n\u00e3o significou que tenham sido lan\u00e7ados ao combate despreparados. J\u00e1 no teatro de opera\u00e7\u00f5es, passaram por um intenso per\u00edodo de adestramento sob supervis\u00e3o norte-americana, recebendo instru\u00e7\u00e3o de armamento, t\u00e1ticas de infantaria, combate em montanha e adapta\u00e7\u00e3o ao inverno italiano. Dessa forma, completaram em campo a forma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o haviam recebido plenamente em solo brasileiro.<\/p>\n<p>Uma das principais refer\u00eancias sobre a FEB \u00e9 o livro <em>As vit\u00f3rias da FEB<\/em>, dos historiadores militares e oficiais Cl\u00e1udio e Edson Rosty. Na p\u00e1gina 160, a obra registra 457 mortos da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (13 oficiais e 444 pra\u00e7as), aos quais se somam 8 oficiais aviadores da FAB. As estat\u00edsticas do Ex\u00e9rcito brasileiro acrescentam ainda 2.722 feridos, compondo o quadro das baixas brasileiras na campanha da It\u00e1lia.<\/p>\n<h2>A longa espera: f\u00e9, sil\u00eancio e esperan\u00e7a no lar de um pracinha<\/h2>\n<p>Nosso pai retornou ao Brasil em 17 de setembro de 1945, ent\u00e3o com 25 anos. Havia embarcado no porto do Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944 e permaneceu praticamente um ano longe de sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Oriundo de uma fam\u00edlia de agricultores, ficou \u00f3rf\u00e3o com apenas dois anos de idade. Naquele ambiente, o trabalho era um valor fundamental, pois a subsist\u00eancia dependia da lavoura e da cria\u00e7\u00e3o de animais. Desde a inf\u00e2ncia, ouvi dele uma frase in\u00fameras vezes: \u201cChi non lavora non mangia\u201d (\u201cQuem n\u00e3o trabalha n\u00e3o come.\u201d).<\/p>\n<p>Anos mais tarde, j\u00e1 de volta ao Brasil, os expedicion\u00e1rios de Rodeio que haviam estado no front costumavam se reencontrar, e as conversas invariavelmente retornavam \u00e0queles dias de medo e bravura. Um deles, Paulinho Venturi, recordava em dialeto v\u00eaneto que coragem eles tinham, sim, mas que, nos momentos mais intensos dos combates, \u201ca boca se mexia sozinha de tanto rezar\u201d. Sua frase, dita com simplicidade e sinceridade, revelava o que muitos sentiam: a coragem vinha da f\u00e9: \u201cSi&#8230; si! Gavevem ben coraggio, ma per\u00f2 la boca la neva en sin de so posta de tant pregar!\u201d.<\/p>\n<p>Em muitos momentos daquele conflito, a f\u00e9 fora o \u00fanico abrigo poss\u00edvel. Os capel\u00e3es eram muito mais do que celebrantes: eram presen\u00e7a, consolo e coragem. Carregavam consigo uma pequena maleta que se transformava em altar improvisado, em uma \u00e9poca em que a missa ainda era celebrada em latim. Tamb\u00e9m distribu\u00edam ter\u00e7os enviados do Brasil, que os soldados guardavam no bolso da farda ou penduravam no pesco\u00e7o como quem se agarra a um \u00faltimo fio de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E enquanto nosso pai combatia os tedescos sob as temperaturas g\u00e9lidas dos Apeninos, sua fam\u00edlia, aqui no Brasil, travava outra batalha, silenciosa, cotidiana, mas n\u00e3o menos dura. Nossa querid\u00edssima Nona Linda, vi\u00fava e mulher de f\u00e9 inabal\u00e1vel, reunia todos os dias os filhos ao redor da mesa simples da casa de madeira. Ali, com o ter\u00e7o entre os dedos, rezavam pela sa\u00fade e pela vida do filho que lutava do outro lado do oceano. Era um ritual di\u00e1rio, quase sagrado, que mantinha a fam\u00edlia unida e alimentava a esperan\u00e7a quando o cora\u00e7\u00e3o amea\u00e7ava fraquejar.<\/p>\n<p>Da casa, constru\u00edda em um ponto mais elevado que a estrada, via-se ao longe o caminho de ch\u00e3o batido que, nos dias de sol, levantava uma fina nuvem de poeira. E era justamente essa poeira que fazia o cora\u00e7\u00e3o disparar. Naqueles tempos, sem telefone e com pouqu\u00edssimos autom\u00f3veis circulando, a aproxima\u00e7\u00e3o de um carro quase sempre era motivo de apreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando um ve\u00edculo surgia na curva distante, levantando seu rastro de poeira, a fam\u00edlia inteira interrompia o que estava fazendo. Ningu\u00e9m respirava. O sil\u00eancio tomava conta da casa, e o temor era sempre o mesmo: que fosse um representante do Ex\u00e9rcito trazendo a not\u00edcia que nenhuma m\u00e3e deveria receber.<\/p>\n<p>Aquela estrada tornou-se um s\u00edmbolo de ang\u00fastia. Cada carro que se aproximava representava uma amea\u00e7a; cada ronco de motor ao longe fazia a alma estremecer. E, no entanto, todos os dias, depois que a poeira baixava e o sil\u00eancio voltava a ocupar seu lugar, Nona Linda retomava o ter\u00e7o com a mesma firmeza. Rezava confiante, como quem compreende que a f\u00e9 tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de amor, carinho e prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Jacir J. Venturi,\u00a0<\/strong>filho do expedicion\u00e1rio Leopoldo Venturi.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 estamos de volta ao Brasil, depois de percorrer 450 km, em uma van climatizada, refazendo o trajeto dos nossos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":463376,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-463375","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/463375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=463375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/463375\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/463376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=463375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=463375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=463375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}