{"id":463373,"date":"2026-06-05T05:02:00","date_gmt":"2026-06-05T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=463373"},"modified":"2026-06-05T05:02:00","modified_gmt":"2026-06-05T09:02:00","slug":"por-que-alguns-eleitores-decidem-nao-votar-a-economia-tem-a-resposta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=463373","title":{"rendered":"Por que alguns eleitores decidem n\u00e3o votar? A economia tem a resposta"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Em 2026, o Brasil escolher\u00e1 presidente da Rep\u00fablica, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Ainda assim, milh\u00f5es de brasileiros talvez fa\u00e7am outra escolha: simplesmente n\u00e3o votar.<\/p>\n<p>Embora o voto seja obrigat\u00f3rio, a absten\u00e7\u00e3o eleitoral tornou-se um fen\u00f4meno estrutural no pa\u00eds. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais recentes, ela ultrapassou 30% em diversas capitais brasileiras. Em Porto Alegre, chegou a 34,8%; em Belo Horizonte, 31,9%; e, em S\u00e3o Paulo, 31,5%. Em algumas cidades, a soma de absten\u00e7\u00f5es, votos brancos e nulos j\u00e1 se aproxima da vota\u00e7\u00e3o obtida pelos pr\u00f3prios candidatos vencedores. A explica\u00e7\u00e3o para esse fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 apenas pol\u00edtica. \u00c9 tamb\u00e9m econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o da <em>Public Choice<\/em> \u2013 associada a autores como James Buchanan, Anthony Downs e Gordon Tullock \u2013 parte de uma ideia simples: eleitores respondem a incentivos. Votar envolve custos \u2013 tempo, deslocamento, busca de informa\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o cognitivo \u2013, enquanto os benef\u00edcios percebidos frequentemente parecem limitados.<\/p>\n<p>Quando o eleitor conclui que seu voto ter\u00e1 pouco impacto concreto sobre o resultado das elei\u00e7\u00f5es ou sobre a qualidade das pol\u00edticas p\u00fablicas, a absten\u00e7\u00e3o passa a ser racional do ponto de vista individual.<\/p>\n<p>Anthony Downs formulou essa hip\u00f3tese cl\u00e1ssica em <em>An Economic Theory of Democracy<\/em> (1957). Segundo ele, o eleitor realiza implicitamente um c\u00e1lculo de custo-benef\u00edcio. Em democracias de massa, a probabilidade de um \u00fanico voto alterar o resultado \u00e9 extremamente pequena. Assim, quando cresce a percep\u00e7\u00e3o de que \u201cnada muda\u201d ou de que \u201ctodos os candidatos s\u00e3o parecidos\u201d, o incentivo para participar diminui.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 2026, esse c\u00e1lculo torna-se ainda mais complexo. O eleitor brasileiro precisar\u00e1 avaliar dezenas de candidatos, m\u00faltiplos partidos e diferentes disputas simultaneamente. Trata-se de um enorme custo informacional.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando parte do eleitorado conclui que seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e crescimento econ\u00f4mico continuar\u00e3o insatisfat\u00f3rios independentemente do resultado eleitoral, o voto perde relev\u00e2ncia pr\u00e1tica e pol\u00edtica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 aqui que surge o conceito de \u201cignor\u00e2ncia racional\u201d. Informar-se adequadamente sobre pol\u00edtica exige tempo, energia e aten\u00e7\u00e3o. Em um ambiente dominado por excesso de informa\u00e7\u00e3o, redes sociais, campanhas emocionalmente polarizadas e fake news, muitos eleitores concluem que o custo de separar informa\u00e7\u00e3o de propaganda tornou-se alto demais.<\/p>\n<p>O problema se agrava em um dos sistemas partid\u00e1rios mais fragmentados do mundo democr\u00e1tico. Mesmo ap\u00f3s reformas eleitorais recentes, o eleitor continua diante de alian\u00e7as pouco coerentes, partidos sem identidade program\u00e1tica clara e candidatos que frequentemente mudam de posi\u00e7\u00e3o conforme a conveni\u00eancia pol\u00edtica. Para muitos brasileiros, o sistema parece confuso, opaco e dif\u00edcil de acompanhar.<\/p>\n<p>Outra hip\u00f3tese relevante vem da teoria do eleitor mediano. Em elei\u00e7\u00f5es altamente competitivas, candidatos tendem a moderar seus discursos para conquistar o centro pol\u00edtico. O resultado pode ser um paradoxo: embora a pol\u00edtica brasileira pare\u00e7a cada vez mais polarizada no plano ret\u00f3rico e emocional, muitos eleitores percebem baixa diferen\u00e7a concreta entre os resultados produzidos pelos governos.<\/p>\n<p>Esse sentimento ajuda a explicar parte do desencanto atual. Problemas como viol\u00eancia, baixo crescimento econ\u00f4mico, precariedade da sa\u00fade p\u00fablica, mobilidade urbana e baixa qualidade educacional persistem h\u00e1 d\u00e9cadas, independentemente da altern\u00e2ncia de poder. Quando o eleitor conclui que o Estado possui baixa capacidade de transforma\u00e7\u00e3o efetiva, o voto perde parte de sua utilidade pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda o chamado comportamento de <em>free rider<\/em>. Como os benef\u00edcios da democracia s\u00e3o coletivos, alguns eleitores podem decidir n\u00e3o participar esperando que outros escolham os governantes por eles. O custo individual de votar parece elevado, enquanto os benef\u00edcios das decis\u00f5es p\u00fablicas ser\u00e3o compartilhados por toda a sociedade.<\/p>\n<p>J\u00e1 a teoria do voto expressivo, desenvolvida por Geoffrey Brennan e Loren Lomasky, sugere que muitas pessoas votam para expressar identidade, valores e pertencimento pol\u00edtico. O problema surge quando o eleitor n\u00e3o se sente representado por nenhum candidato ou passa a perceber o sistema pol\u00edtico como pouco responsivo, ineficiente ou excessivamente orientado a interesses organizados.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse ponto que entram as teorias de <em>rent-seeking<\/em> e do agente-principal. Quando cresce a percep\u00e7\u00e3o de que parte da pol\u00edtica funciona prioritariamente para preservar privil\u00e9gios, proteger grupos espec\u00edficos ou ampliar benef\u00edcios concentrados, os incentivos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o diminuem.<\/p>\n<p>Corrup\u00e7\u00e3o, baixa transpar\u00eancia e reduzida <em>accountability<\/em> elevam o custo moral do voto. O problema n\u00e3o \u00e9 apenas \u00e9tico. \u00c9 tamb\u00e9m econ\u00f4mico. Quando parte do eleitorado conclui que seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e crescimento econ\u00f4mico continuar\u00e3o insatisfat\u00f3rios independentemente do resultado eleitoral, o voto perde relev\u00e2ncia pr\u00e1tica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que a absten\u00e7\u00e3o seja desej\u00e1vel. Democracias dependem de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e confian\u00e7a institucional. Mas a teoria econ\u00f4mica oferece uma conclus\u00e3o desconfort\u00e1vel: em determinados contextos, n\u00e3o votar pode ser uma decis\u00e3o racional.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es de 2026 talvez revelem um problema mais profundo do que a pr\u00f3pria polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Democracias n\u00e3o come\u00e7am a se desgastar apenas quando os eleitores escolhem maus governantes. Elas tamb\u00e9m se fragilizam quando milh\u00f5es de cidad\u00e3os passam a acreditar que participar j\u00e1 n\u00e3o altera o rumo das coisas. Os atuais candidatos, institutos de pesquisa e partidos pol\u00edticos ter\u00e3o de levar o fen\u00f4meno da absten\u00e7\u00e3o muito mais a s\u00e9rio em seus c\u00e1lculos e proje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em><strong>Giacomo Balbinotto Neto<\/strong> \u00e9 professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Economia (PPGE\/UFRGS) desde 2000 e pesquisador na \u00e1rea de crescimento econ\u00f4mico. Atualmente, \u00e9 professor de Macroeconomia II da FCE\/UFRGS e revisor t\u00e9cnico de livros de economia.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2026, o Brasil escolher\u00e1 presidente da Rep\u00fablica, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. 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