{"id":459603,"date":"2026-06-03T21:18:29","date_gmt":"2026-06-04T01:18:29","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=459603"},"modified":"2026-06-03T21:18:29","modified_gmt":"2026-06-04T01:18:29","slug":"euphoria-o-que-voce-quer-ser-quando-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=459603","title":{"rendered":"\u201cEuphoria\u201d: o que voc\u00ea quer ser quando morrer?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><em>\u201cTudo o que voc\u00eas t\u00eam a fazer \u00e9 olhar para a hist\u00f3ria da minha vida. Se existe alguma moral nela, \u00e9 esta: se voc\u00ea pensa que a droga \u00e9 emo\u00e7\u00e3o e um barato, est\u00e1 seguramente fora de si. Existem mais emo\u00e7\u00f5es a se desfrutar num caso de paralisia por p\u00f3lio ou vivendo com um pulm\u00e3o de a\u00e7o. Se voc\u00ea acha que precisa da droga para tocar m\u00fasica ou cantar, est\u00e1 maluco. A droga pode deix\u00e1-lo de tal maneira que n\u00e3o vai conseguir tocar nem cantar nada.\u201d<\/em> (Billie Holiday)<\/p>\n<p>Enfim, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/series\/\">s\u00e9rie <\/a><em>Euphoria<\/em> chegou ao fim. Ap\u00f3s um hiato de quatro anos e muitas intercorr\u00eancias, a obra-prima de Sam Levinson, protagonizada por Zendaya, terminou deixando um gosto agridoce na boca de alguns f\u00e3s e muito amargo na de outros. Muitos n\u00e3o reconheceram mais a s\u00e9rie que tanto amavam; outros criticaram a falta de desenvolvimento de alguns personagens; outros tantos, a sa\u00edda do cantor e compositor Labrinth, alma musical da s\u00e9rie nas duas primeiras temporadas, substitu\u00eddo pelo tit\u00e3 Hans Zimmer; e quase ningu\u00e9m gostou do clima <em>western<\/em> da derradeira temporada. Mas, para mim, o final foi nada menos que glorioso.<\/p>\n<p>Mas vamos do come\u00e7o. Para quem ainda n\u00e3o sabe, <em>Euphoria<\/em> \u00e9 uma s\u00e9rie da HBO que narra a hist\u00f3ria de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/adolescentes\/\">adolescentes <\/a>da gera\u00e7\u00e3o Z e seus dramas e trag\u00e9dias durante o per\u00edodo escolar. Mas n\u00e3o s\u00f3 isso. \u00c9 uma s\u00e9rie sobre os desafios dos jovens num mundo hiperconectado e com uma quantidade quase infinita de drogas dispon\u00edveis para disfar\u00e7ar a falta de sentido de suas vidas, que beira entre o niilismo e a busca atabalhoada por alguma reden\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, n\u00e3o se trata de uma s\u00e9rie para adolescentes, como muitos ainda pensam, e a pr\u00f3pria m\u00eddia muitas vezes divulga; mas uma s\u00e9rie sobre adolescentes \u2013 para adultos.<\/p>\n<p>A primeira temporada (2019) concentra-se na constru\u00e7\u00e3o do drama de Rue Bennett \u2013 protagonista brilhantemente vivida por Zendaya \u2013 e de seus amigos de escola, que buscam pertencimento e sentido num universo marcado por excessos. Jules (Hunter Schafer), uma jovem trans, busca valida\u00e7\u00e3o afetiva e estabelece com Rue uma rela\u00e7\u00e3o central para a narrativa; Nate Jacobs (Jacob Elordi), aquele tipo de gal\u00e3 dur\u00e3o do ensino m\u00e9dio, se esfor\u00e7a (n\u00e3o raro, violentamente) na tentativa de esconder seus conflitos internos e familiares; Cassie Howard (Sydney Sweeney) se perde em relacionamentos e aventuras sexuais em busca de amor; e Kat Hernandez (Barbie Ferreira), uma jovem com sobrepeso, experimenta reinventar sua identidade por meio da exposi\u00e7\u00e3o na internet. H\u00e1 tamb\u00e9m Fezco (Angus Cloud), o traficante gentil, que desempenha o papel de protetor informal de Rue, equilibrando a atividade criminosa que exerce com uma humanidade e uma lealdade raras naquele universo; e Ali (Colman Domingo), um homem adulto, ex-dependente qu\u00edmico, que frequenta o mesmo grupo de Narc\u00f3ticos An\u00f4nimos que Rue, se afei\u00e7oa a ela e oferece um contraponto maduro e espiritual ao caos que marca sua vida.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEuphoria\u201d n\u00e3o \u00e9 uma s\u00e9rie para adolescentes, como muitos ainda pensam, e a pr\u00f3pria m\u00eddia muitas vezes divulga; mas uma s\u00e9rie sobre adolescentes \u2013 para adultos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A segunda temporada (2022) aprofunda a deteriora\u00e7\u00e3o emocional e os conflitos gerados por desejos, mentiras e depend\u00eancias desses jovens. Rue mergulha fundo no v\u00edcio, ao mesmo tempo em que busca reden\u00e7\u00e3o. Sua m\u00e3e, Leslie Bennett (Nika King), e sua irm\u00e3 Gia (Storm Reid) s\u00e3o profundamente afetadas pelas escolhas de Rue; a busca de amor e valida\u00e7\u00e3o social se abre num tri\u00e2ngulo amoroso entre Nate, Cassie e Maddy Perez (Alexa Demie); e Lexi Howard (Maude Apatow), irm\u00e3 de Cassie, monta uma pe\u00e7a de teatro que acaba funcionando como um retrato do estado emocional dos principais personagens.<\/p>\n<p>J\u00e1 a terceira temporada (2026) muda completamente a abordagem e apresenta os personagens na transi\u00e7\u00e3o para a vida adulta, obrigados a confrontar a responsabilidade por seus atos e a possibilidade (ou n\u00e3o) de reden\u00e7\u00e3o. Rue continua sendo o eixo emocional da narrativa, tendo de lidar n\u00e3o apenas com seu hist\u00f3rico de depend\u00eancia qu\u00edmica, mas tamb\u00e9m com as consequ\u00eancias acumuladas de anos de autodestrui\u00e7\u00e3o. Cassie, Nate, Maddy e os demais personagens tentam construir algum tipo de futuro para si mesmos, ao mesmo tempo em que permanecem assombrados pelos mesmos desejos, inseguran\u00e7as e traumas que marcaram sua juventude. Outros personagens n\u00e3o retornaram para a temporada final \u2013 por decis\u00e3o pessoal, de roteiro ou morte. Nesse \u00faltimo caso, houve a prematura e tr\u00e1gica morte de Angus Cloud, que abalou n\u00e3o s\u00f3 os f\u00e3s da s\u00e9rie, mas toda a produ\u00e7\u00e3o; e de Eric Dane \u2013 que viveu Cal Jacobs, pai de Nate \u2013, que sofria de esclerose lateral amiotr\u00f3fica (ELA), mas ainda chegou a participar brevemente em um epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Feitas a sinopse das temporadas a fim de situar o leitor que desconhece a s\u00e9rie, passo a justificar os motivos pelos quais a considero uma das melhores produ\u00e7\u00f5es televisivas da \u00faltima d\u00e9cada. Como dito, <em>Euphoria<\/em> est\u00e1 longe de ser uma s\u00e9rie para adolescentes. Trata-se de um drama adulto, recheado de cenas de sexo expl\u00edcito, uso de drogas e viol\u00eancia extrema, tudo isso ambientado num contexto jovem, escolar, que torna tudo ainda mais chocante. Intensos dramas familiares, a realidade do v\u00edcio em drogas e do abuso sexual s\u00e3o, por vezes, desconcertantes, t\u00e9tricos mesmo.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 algumas coisas que chamam a aten\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o. Primeiro, temos o roteiro e a dire\u00e7\u00e3o, primorosos. Apesar de ser baseada em uma miniss\u00e9rie israelense de mesmo nome, de 2012, Levinson elevou <em>Euphoria<\/em> a patamares incr\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o, tendo, inclusive, o <em>rapper<\/em> canadense Drake como um dos principais produtores executivos. A fotografia, conduzida pelo h\u00fangaro Marcell R\u00e9v, \u00e9 um dos grandes diferenciais da s\u00e9rie: h\u00e1 algo hipn\u00f3tico nas cenas, que, de certo modo, suaviza com imensa beleza todo o sofrimento retratado. Visualmente, <em>Euphoria<\/em> \u00e9 estonteante; ela absorve refer\u00eancias da cultura visual das redes sociais, da moda e dos videoclipes, criando uma linguagem facilmente reconhec\u00edvel pela gera\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A trilha sonora de Labrinth \u00e9 um dos pontos altos da s\u00e9rie e se tornou t\u00e3o importante quanto sua fotografia ou seus personagens, ajudando a transformar estados emocionais em intensa experi\u00eancia sensorial. Fundindo a espiritualidade do <em>gospel<\/em> a arranjos orquestrais, texturas eletr\u00f4nicas e \u00e0 sensualidade do R&amp;B, bem como ao vigor r\u00edtmico do hip-hop, o cantor e compositor ingl\u00eas, que nunca havia composto uma trilha sonora, criou uma sonoridade ao mesmo tempo et\u00e9rea e profunda. Em entrevista \u00e0 <em>Rolling Stone<\/em>, afirmou: \u201cquando voc\u00ea olha para tr\u00e1s e se lembra da adolesc\u00eancia, ela parece algo meio m\u00e1gico, meio insano e meio psic\u00f3tico. Eu queria garantir que a m\u00fasica transmitisse exatamente essa sensa\u00e7\u00e3o\u201d. Seu dueto com Zendaya em <em>I\u02bcm Tired<\/em>, que acompanha a vis\u00e3o de Rue numa igreja, eleva uma das cenas mais belas e espiritualmente marcantes da s\u00e9rie a um momento de verdadeira catarse.<\/p>\n<p>E por falar em intensidade espiritual, foi exatamente essa caracter\u00edstica, s\u00f3 percebida pelos mais atentos, que muito me chamou a aten\u00e7\u00e3o em <em>Euphoria<\/em>. Em meio \u00e0quele caos, \u00e0quelas cenas degradantes de sexo e uso de drogas, de conflitos familiares violent\u00edssimos, h\u00e1 um grito abafado por perd\u00e3o, por reden\u00e7\u00e3o, sobretudo em Rue. A morte de seu pai foi decisiva para desencadear um processo de degrada\u00e7\u00e3o que vai aumentando ao longo dos epis\u00f3dios. A ansiedade, a depress\u00e3o e a inseguran\u00e7a diante da vida a levaram ao consumo de opioides que provocaram uma severa depend\u00eancia qu\u00edmica. Sua resignada m\u00e3e busca na f\u00e9 o amparo para n\u00e3o sucumbir \u00e0 espiral de autodestrui\u00e7\u00e3o da filha amada. Gia, sua irm\u00e3 mais nova, tamb\u00e9m \u00e9 profundamente afetada. Mas, em v\u00e1rios momentos de sua descida aos infernos, um tra\u00e7o de miseric\u00f3rdia e de gra\u00e7a divinas perpassam a vida de Rue e ela \u00e9 alcan\u00e7ada por uma provid\u00eancia que a ampara e n\u00e3o a deixa sucumbir.<\/p>\n<p>Em sua luta por recupera\u00e7\u00e3o, Rue conhece Ali Muhammad, um ex-dependente qu\u00edmico que se dedica a ajudar outros e faz de sua experi\u00eancia pessoal e de sua f\u00e9 um testemunho de uma vida poss\u00edvel fora das drogas. Ali \u00e9 mu\u00e7ulmano praticante e tem uma vis\u00e3o de mundo esperan\u00e7osa e madura, o que, para uma jovem conflituosa como Rue, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 um contraponto, mas um amparo, um norte. Seus di\u00e1logos s\u00e3o sempre profundos e ajudam a aplacar o vulc\u00e3o interior da jovem, em constante erup\u00e7\u00e3o. A conturbada rela\u00e7\u00e3o homoafetiva com Jules e a introdu\u00e7\u00e3o de Elliot (Dominic Fike) \u2013 outro jovem dependente qu\u00edmico que estabelece uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade amb\u00edgua com Rue \u2013, na segunda temporada, aprofundam ainda mais sua crise. Nesse sentido, Ali \u00e9 o \u00fanico ponto de apoio que ela tem.<\/p>\n<p>Sam Levinson afirma \u00e0 revista <em>Tablet<\/em> que a inten\u00e7\u00e3o de <em>Euphoria<\/em> nunca foi criar uma novelinha adolescente, mas usar \u201csuas pr\u00f3prias experi\u00eancias com drogas, sua evolu\u00e7\u00e3o espiritual e a crescente desilus\u00e3o com os dogmas da d\u00e9cada de 2010\u201d, a fim de contar \u201ca verdade sobre uma gera\u00e7\u00e3o espiritualmente abandonada pelo mundo que a criou\u201d. De modo que a s\u00e9rie nunca foi \u201capenas sobre o v\u00edcio da Gera\u00e7\u00e3o Z em drogas, sexo ou redes sociais, mas sim sobre jovens americanos emocionalmente perdidos em uma cultura que perdeu sua capacidade de encontrar significado, moralidade e reden\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Foi a intensidade espiritual, s\u00f3 percebida pelos mais atentos, que muito me chamou a aten\u00e7\u00e3o em \u201c<em>Euphoria<\/em>\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Filho do diretor Barry Levinson \u2013 de <em>Rain Man<\/em> e <em>Bom dia, Vietn\u00e3<\/em> \u2013, Sam nasceu em 1984, sendo ele pr\u00f3prio um jovem adulto que sentiu, de certa forma, de maneira intensa, a invas\u00e3o da internet e das redes sociais na vida dos jovens. A mat\u00e9ria diz:<\/p>\n<p><em>\u201cNa adolesc\u00eancia, Levinson mergulhou no v\u00edcio, espelhando as tribula\u00e7\u00f5es farmac\u00eauticas que mais tarde definiriam Rue. Morando em Nova York no in\u00edcio dos anos 2000, Levinson come\u00e7ou a se preocupar com o fato de seu h\u00e1bito di\u00e1rio de opioides estar roubando sua vitalidade. Ele entrou em uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o na Pensilv\u00e2nia com a inten\u00e7\u00e3o de eliminar os opioides de seu organismo e substitu\u00ed-los por metanfetamina, racionalizando que um frenesi estimulante poderia ao menos alimentar sua obsess\u00e3o pela escrita. Tudo o que era permitido na cl\u00ednica era a B\u00edblia e o guia dos Alco\u00f3licos An\u00f4nimos.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Levinson afirma: \u201cNaquele momento, pensei: \u2018Se eu morresse hoje, n\u00e3o seria nada mais do que um viciado, um mentiroso, um ladr\u00e3o\u2019. Isso foi assustador, porque eu sentia que era uma pessoa melhor do que isso. Qual era o problema? Obviamente, eram as drogas. Comecei a levar a terapia em grupo a s\u00e9rio no dia seguinte\u201d. Curiosamente, essa \u00e9, provavelmente, a frase mais marcante de toda a s\u00e9rie, dita por Ali a Rue no primeiro epis\u00f3dio especial da s\u00e9rie, que estreou ap\u00f3s o final da primeira temporada, em 6 de dezembro de 2020 \u2013 e est\u00e1 no t\u00edtulo deste artigo: \u201co que voc\u00ea quer ser quando morrer\u201d. E Ali ainda complementou: \u201cComo voc\u00ea quer que sua m\u00e3e e irm\u00e3 lembrem de voc\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma longa conversa sobre a exist\u00eancia de Deus e teodiceia (o ramo da teologia que discute a exist\u00eancia de Deus frente ao mal), Rue, num indissimul\u00e1vel esgotamento, diz a Ali que n\u00e3o pretende ficar por muito tempo nesse mundo. Ali, ent\u00e3o, d\u00e1 a resposta que est\u00e1 no par\u00e1grafo anterior. E a resposta de Rue \u00e9 de cortar o cora\u00e7\u00e3o \u2013 e aponta para o fim da s\u00e9rie: \u201cComo algu\u00e9m que tentou ser o que n\u00e3o conseguiu\u201d. Esse epis\u00f3dio especial \u00e9, para mim, aquele que define o tema principal da s\u00e9rie.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o acima pode desagradar progressistas e confundir conservadores, como de fato aconteceu. Ao mesmo tempo, parte do p\u00fablico detestou a s\u00e9rie por sua abordagem nua e crua de temas complexos relacionados a jovens, expondo-os a uma experi\u00eancia extasiante sobre sua gera\u00e7\u00e3o \u2013 o que a tornou extremamente sedutora para o p\u00fablico adolescente, que ignorou a classifica\u00e7\u00e3o indicativa para maiores de 18 anos. Outros amaram a diversidade, a visibilidade trans, o car\u00e1ter <em>gender fluid<\/em> de alguns personagens, olhando a s\u00e9rie como uma verdadeira obra de arte <em>woke<\/em>. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel olhar <em>Euphoria<\/em> de modo manique\u00edsta. A mat\u00e9ria da <em>Tablet<\/em> corrobora o que digo:<\/p>\n<p><em>\u201cEmbora Levinson n\u00e3o seja de forma alguma um conservador convencional ou previs\u00edvel, as calamidades da d\u00e9cada de 2020 parecem ter agu\u00e7ado tanto sua suspeita em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cren\u00e7as esquerdistas quanto sua compreens\u00e3o mais ampla da moralidade. Como resultado, <\/em>Euphoria<em> come\u00e7ou a incorporar narrativas que os progressistas passaram a interpretar como reacion\u00e1rias, ao mesmo tempo que evoluiu para uma cr\u00edtica mais profunda de uma cultura que havia perdido sua capacidade de nuances, raz\u00e3o e compreens\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es humanas.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Como disse, ap\u00f3s o fim da segunda temporada, um hiato muito grande e perdas significativas no elenco comprometeram a narrativa da s\u00e9rie. Para uma terceira temporada, o ambiente escolar foi totalmente abandonado, dando lugar a uma esp\u00e9cie de <em>neo-western<\/em>, com um conflito intenso entre criminosos inequivocamente maus e alguns dos jovens adultos das temporadas anteriores tentando sobreviver ao caos que as decis\u00f5es da adolesc\u00eancia lhes haviam legado.<\/p>\n<p>Rue se torna mula de drogas de Laurie (Martha Kelly), uma enigm\u00e1tica traficante de drogas que surge na segunda temporada, para, em seguida, cair nas m\u00e3os de \u00c1lamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje), um cafet\u00e3o caub\u00f3i negro e rival de Laurie. Nate, que se casou com Cassie, tenta escapar das m\u00e3os de um arm\u00eanio sanguin\u00e1rio para quem deve 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares, ap\u00f3s um projeto de constru\u00e7\u00e3o que deu errado. Ela, por sua vez, envereda para o mundo do Onlyfans e se v\u00ea enredada na d\u00edvida de Nate, que nem sequer tinha conhecimento. Maddy busca se firmar como empres\u00e1ria de influenciadores. E Lexi e Jules, infelizmente, ficam um tanto apagadas na temporada final.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Confesso que nunca me emocionei tanto no final de uma s\u00e9rie como ocorreu com \u201cEuphoria\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ir\u00f4nica e providencialmente, para escapar das garras de Laurie e \u00c1lamo, Rue cai nas m\u00e3os do DEA \u2013 o departamento antidrogas do governo americano \u2013, e se torna informante; o que torna sua situa\u00e7\u00e3o ainda mais dram\u00e1tica. Por fim, toda a trajet\u00f3ria de Rue n\u00e3o aponta para um final feliz \u2013 pelo menos de uma perspectiva humana.<\/p>\n<p>No mais, sem me alongar nos <em>spoilers<\/em> ao leitor para encoraj\u00e1-lo a essa experi\u00eancia transformadora que \u00e9 <em>Euphoria<\/em>, temos, por fim, repito, uma obra-prima contempor\u00e2nea, carregada de trag\u00e9dia, beleza e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, esperan\u00e7a e (alguma) reden\u00e7\u00e3o. A mat\u00e9ria sobre a s\u00e9rie se encaminha para o fim nos fazendo entender muito da motiva\u00e7\u00e3o de seu <em>showrunner<\/em>: \u201cfiel ao seu trabalho [&#8230;], ele permanece esperan\u00e7oso de que algo melhor sempre esteja no horizonte. Levinson, que se aproximou de sua pr\u00f3pria f\u00e9 nos \u00faltimos anos (\u02bbN\u00e3o consigo separar o juda\u00edsmo de quem eu sou como pessoa\u02bc, disse-me), atribui a Deus a ajuda que recebeu para alcan\u00e7ar essa paz. \u02bbNo momento em que comecei a viver minha vida sabendo que Deus existe [&#8230;], a vida melhorou\u02bc\u201d. E arremata:<\/p>\n<p><em>\u201cPor mais chocante, desesperador e horripilante que seja o universo narrativo de Levinson, ele se recusa firmemente ao niilismo, e a presen\u00e7a persistente de Deus sempre pairou sobre sua concep\u00e7\u00e3o de <\/em>Euphoria.<em> \u02bbN\u00e3o me considero c\u00ednico e n\u00e3o quero produzir filmes ou obras de arte c\u00ednicas\u02bc, disse Levinson. \u02bbJ\u00e1 existe niilismo de sobra no mundo. Vejo <\/em>Euphoria<em>, em grande parte, como uma rejei\u00e7\u00e3o a ele\u02bc.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Confesso que nunca me emocionei tanto no final de uma s\u00e9rie como ocorreu com <em>Euphoria<\/em>, e a considero uma das experi\u00eancias mais marcantes de minha vida de amante de filmes e s\u00e9ries. A epopeia de Rue Bennett se torna paradigm\u00e1tica para mostrar n\u00e3o somente \u00e0 gera\u00e7\u00e3o Z os perigos do uso de drogas e as consequ\u00eancias de suas escolhas, mas a todos n\u00f3s sobre a imensa fragilidade desse milagre chamado <em>vida<\/em>. Obrigado, Rue.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTudo o que voc\u00eas t\u00eam a fazer \u00e9 olhar para a hist\u00f3ria da minha vida. 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