{"id":459019,"date":"2026-06-03T17:18:21","date_gmt":"2026-06-03T21:18:21","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=459019"},"modified":"2026-06-03T17:18:21","modified_gmt":"2026-06-03T21:18:21","slug":"elogio-a-helena-sobre-a-escolha-de-christopher-nolan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=459019","title":{"rendered":"Elogio a Helena \u2013 sobre a escolha de Christopher Nolan"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/03181220\/helena-de-troia-guido-reni.jpg.webp\" \/><span>Helena de Troia (ao centro), em detalhe de &#8220;O rapto de Helena&#8221;, de Guido Reni. (Foto: Wikimedia Commons\/Dom\u00ednio p\u00fablico)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Aprendi a ler em voz alta, com Homero. Tinha uns 16 anos e declamava a <em>Il\u00edada<\/em> sozinho no quarto, sem entender metade. Gostava do som antes de gostar do sentido. Foi assim que entrei na <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/literatura\/\">literatura<\/a>, e foi de Homero que sa\u00ed para a hist\u00f3ria da arte e para os m\u00e1rmores quebrados que ainda hoje me impulsionam diante de uma vitrine de museu, quando ouso levar meus filhos. Digo isto correndo o risco do pedantismo, e assumo o risco: \u00e9 a \u00fanica biografia que tenho para tratar do tema.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o me tornei um especialista no assunto. Falo por diletantismo. E, sendo diletante, estou ansioso pelo novo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/filmes\/\">filme <\/a>da <em>Odisseia<\/em>. Mas hoje n\u00e3o quero falar do \u00e9pico. Com rela\u00e7\u00e3o a pol\u00eamicas identit\u00e1rias, tenho mais afinidade. \u00c9 disso que trata o meu texto.<\/p>\n<p>Christopher Nolan escalou Lupita Nyong\u2019o para Helena de Troia. A mulher mais bela do mundo, filha de Zeus e de Leda, espartana, aquela cujo rosto lan\u00e7ou mil navios \u2013 entregue a uma atriz queniana de origem luo. Nolan explicou a escolha pela \u201cfor\u00e7a e pela postura\u201d que viu na atriz. Ningu\u00e9m duvida da for\u00e7a nem da postura de Nyong\u2019o. O que ela n\u00e3o tem, e ningu\u00e9m tem como ter, \u00e9 o v\u00ednculo com o mito que Homero contou: uma rainha grega, branca, raptada de um pal\u00e1cio grego por um pr\u00edncipe troiano.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Para os gregos, a beleza era brilho. <em>Leuk\u00f3s<\/em>, a palavra que traduzimos por \u201cbranco\u201d, quer dizer antes de tudo <em>luminoso<\/em>, e \u00e9 o que marca o corpo dos deuses<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Homero p\u00f5e a beleza dela na boca dos velhos de Troia, que a veem passar na muralha e murmuram, no Canto III: <em>a\u012bn\u014ds athan\u00e1t\u0113isi the\u0113is eis \u014dpa \u00e9oiken<\/em> \u2013 \u201cno rosto, ela se parece com as deusas imortais\u201d. O verso louva o rosto, e diz que por aquele rosto troianos e aqueus padecem a guerra sem que ningu\u00e9m os possa censurar. \u00c9 o atestado hom\u00e9rico do que est\u00e1 em disputa: o rosto de Helena.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Para os gregos, a beleza era brilho. <em>Leuk\u00f3s<\/em>, a palavra que traduzimos por \u201cbranco\u201d, quer dizer antes de tudo <em>luminoso<\/em>, e \u00e9 o que marca o corpo dos deuses: a pele que reluz, o v\u00e9u de Hera cintilando como o sol do Olimpo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Quando Homero chama Helena e Hera de <em>leuk\u014dlenos<\/em>, \u201cde bra\u00e7os brancos\u201d, inscreve aristocracia e divindade no corpo: a pele que n\u00e3o se queima ao sol porque n\u00e3o trabalha, o esplendor que distingue quem desceu do Olimpo. Nenhum censo de pele entra nisso. A brancura, ali, \u00e9 categoria teol\u00f3gica antes de ser cor. Por isso a troca importa, e dizer que importa nada tem de quest\u00e3o racial: o que Nolan apaga \u00e9 um c\u00f3digo \u2013 o sistema inteiro pelo qual aquela cultura imaginava o divino encarnado. O mesmo poema que d\u00e1 a Helena bra\u00e7os de luz a faz nascer de um ovo, filha de Zeus em forma de cisne. A fidelidade hom\u00e9rica sempre foi \u00e0 gram\u00e1tica do esplendor, e \u00e9 essa gram\u00e1tica que um departamento de elenco resolveu n\u00e3o saber ler.<\/p>\n<p>Dir\u00e3o que o mito \u00e9 pl\u00e1stico, que cada \u00e9poca reescreve Homero \u00e0 sua imagem, que houve Helenas de todas as cores ao longo dos s\u00e9culos. E \u00e9 verdade, em parte. S\u00f3 que ningu\u00e9m reescreveu Helena de fora dela; reescreveram-na de dentro da pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o, brigando com Homero, n\u00e3o fingindo que Homero n\u00e3o existe. Nolan obedece a um departamento e chama isso de di\u00e1logo com o texto.<\/p>\n<p>Inverta o caso. Oxum \u00e9 a orix\u00e1 iorub\u00e1 da beleza, do amor e das \u00e1guas doces, cultuada da Nig\u00e9ria ao terreiro de candombl\u00e9 aqui do lado. Imagine um diretor entregando Oxum a uma atriz dinamarquesa, loira, e justificando a op\u00e7\u00e3o criativa pela for\u00e7a e pela postura que viu nela. O esc\u00e2ndalo seria imediato, e teria raz\u00e3o de ser: ningu\u00e9m tira a deusa negra das \u00e1guas para pint\u00e1-la de branca, por altivez de esp\u00edrito atriz. Pois \u00e9 exatamente esse gesto que Nolan faz na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. O desrespeito \u00e0 mem\u00f3ria de um povo n\u00e3o corre num sentido s\u00f3. Quem desrespeita a Gr\u00e9cia desrespeitaria a \u00c1frica no dia em que a conta virasse \u2013 s\u00f3 n\u00e3o vira porque a Gr\u00e9cia entrou na lista das culturas que se pode reescrever sem pedir licen\u00e7a.<\/p>\n<blockquote>\n<p> Verei o filme porque gosto do Nolan, e vou sair do cinema com a sensa\u00e7\u00e3o exata de quem assistiu a um homem talentoso preencher um formul\u00e1rio com m\u00e3o firme<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O primeiro elogio escrito \u00e0 beleza de Helena foi uma defesa. G\u00f3rgias, h\u00e1 25 s\u00e9culos, redigiu um <em>Elogio<\/em> a Helena para inocent\u00e1-la da culpa pela guerra: ela fugiu com P\u00e1ris movida pelos deuses, pela for\u00e7a, pelo desejo ou pela palavra, e contra qualquer um desses poderes nenhuma mulher responde, porque foi agida, n\u00e3o agente. O argumento era engenhoso e tinha um pre\u00e7o: salvava Helena e rebaixava-a a objeto de for\u00e7as maiores que ela. Nolan cobra o mesmo pre\u00e7o. Tamb\u00e9m faz de Helena mat\u00e9ria movida de fora. Estaria domesticado pelo departamento de marketing sujeito \u00e0s exig\u00eancias ideol\u00f3gicas? N\u00e3o sei. A escolha dele parece se vender como repara\u00e7\u00e3o e funciona como apagamento duplo. Apaga a Helena grega e apaga a mitologia africana, que continua sem filme. Chamam isto de representatividade.<\/p>\n<p>Continuo a ler Homero em voz alta, quando n\u00e3o estou com pregui\u00e7a. Mudei pouco desde os 16 anos; s\u00f3 a voz, que ficou mais grave e mais cansada. Quando chegar a este filme, vou ver porque gosto do Nolan, gosto at\u00e9 demais, e vou sair do cinema com a sensa\u00e7\u00e3o exata de quem assistiu a um homem talentoso preencher um formul\u00e1rio com m\u00e3o firme. A postura estava l\u00e1. Tornou-se um funcion\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helena de Troia (ao centro), em detalhe de &#8220;O rapto de Helena&#8221;, de Guido Reni. 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