{"id":455425,"date":"2026-06-02T10:39:56","date_gmt":"2026-06-02T14:39:56","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=455425"},"modified":"2026-06-02T10:39:56","modified_gmt":"2026-06-02T14:39:56","slug":"censura-corrupcao-e-mais-por-que-os-eua-preparam-nova-tarifa-contra-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=455425","title":{"rendered":"Censura, corrup\u00e7\u00e3o e mais: por que os EUA preparam nova tarifa contra o Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O Brasil enfrenta uma retalia\u00e7\u00e3o comercial iminente por inseguran\u00e7a jur\u00eddica, ativismo judicial e intervencionismo estatal. O governo Trump acusa o pa\u00eds de distorcer o livre mercado atrav\u00e9s de censura digital, protecionismo tarif\u00e1rio, pirataria, desmatamento ilegal, impunidade em casos de corrup\u00e7\u00e3o e tabelamento do Pix.<\/p>\n<p>A resposta \u00e0s pr\u00e1ticas do governo brasileiro? A recomenda\u00e7\u00e3o de uma<a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/orgao-governo-trump-sugere-tarifaco-sobre-produtos-brasil\/\"> <strong>tarifa de 25% sobre produtos nacionais<\/strong><\/a>, ap\u00f3s uma investiga\u00e7\u00e3o baseada na <strong>Se\u00e7\u00e3o 301 da Lei de Com\u00e9rcio dos EUA de 1974<\/strong>, que pode ser aplicada em 15 de julho de 2026.<\/p>\n<p>O Escrit\u00f3rio do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em ingl\u00eas), \u00f3rg\u00e3o ligado \u00e0 administra\u00e7\u00e3o de Donald Trump, publicou nesta segunda-feira (1\u00ba) um relat\u00f3rio recomendando a aplica\u00e7\u00e3o da tarifa sobre uma ampla gama de produtos importados do Brasil.<\/p>\n<p>A Se\u00e7\u00e3o 301 \u00e9 um mecanismo legal utilizado por Washington para retaliar pa\u00edses cujas pr\u00e1ticas comerciais sejam consideradas injustific\u00e1veis, irracionais ou discriminat\u00f3rias, e que sobrecarreguem ou restrinjam o com\u00e9rcio americano. Na vis\u00e3o do governo Trump, as pol\u00edticas dom\u00e9sticas do Brasil ultrapassaram as fronteiras e prejudicam o capital e as empresas estrangeiras.<\/p>\n<p>O embaixador Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, afirmou que a investiga\u00e7\u00e3o foi iniciada em julho de 2025 por ordem direta do presidente Donald Trump. Apesar de reuni\u00f5es recentes entre Trump e o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, as diverg\u00eancias persistem.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser uma amea\u00e7a tarif\u00e1ria, o <a href=\"https:\/\/ustr.gov\/sites\/default\/files\/files\/Press\/Releases\/2026\/Brazil%20Section%20301%20Actionability%20and%20Proposed%20Action%20FRN%206-1-26%20Final.pdf\">relat\u00f3rio do USTR<\/a> tamb\u00e9m \u00e9 um diagn\u00f3stico severo sobre o &#8220;Custo Brasil&#8221;. O relat\u00f3rio lista seis grandes \u00e1reas de conflito: censura e interven\u00e7\u00e3o digital, desmatamento ilegal, viola\u00e7\u00f5es de propriedade intelectual (pirataria), impunidade em casos de corrup\u00e7\u00e3o, tarifas preferenciais injustas, barreiras ao etanol e interven\u00e7\u00e3o no mercado para favorecer o Pix.<\/p>\n<h2>Relat\u00f3rio do USTR cita censura e inseguran\u00e7a jur\u00eddica<\/h2>\n<p>Um dos pilares da <strong>proposta de tarifa dos EUA sobre o Brasil <\/strong> diz respeito ao ambiente digital brasileiro. O relat\u00f3rio do USTR aponta que tribunais brasileiros emitiram ordens secretas obrigando empresas americanas de redes sociais, como X, Meta e Google, a remover conte\u00fado pol\u00edtico e suspender perfis de residentes nos EUA e no Brasil, muitas vezes com alcance global. As plataformas foram tamb\u00e9m proibidas de informar aos donos dos perfis sobre as ordens.<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a brasileira imp\u00f4s multas di\u00e1rias severas e amea\u00e7ou encerrar as opera\u00e7\u00f5es das empresas que n\u00e3o cumprissem as determina\u00e7\u00f5es. O USTR cita casos emblem\u00e1ticos: a plataforma Rumble est\u00e1 suspensa desde fevereiro de 2025 ap\u00f3s se recusar a censurar um residente dos EUA; a rede social X foi proibida de operar entre agosto e outubro de 2024 e enfrentou congelamento de contas, bloqueio de aeronaves e impedimento a processadoras de pagamento, sendo restabelecida ap\u00f3s multa de US$ 5 milh\u00f5es; contas de um podcaster brasileiro residente na Fl\u00f3rida foram desmonetizadas, com desbloqueio condicionado \u00e0 inacessibilidade do conte\u00fado.<\/p>\n<p>Segundo o governo americano, o cen\u00e1rio de incerteza foi agravado em junho de 2025, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou parcialmente inconstitucional um artigo do Marco Civil da Internet. A regra anterior exigia uma ordem judicial para que as plataformas fossem responsabilizadas por conte\u00fado de terceiros. Agora, na vis\u00e3o dos EUA, as empresas enfrentam o risco de responsabilidade civil imediata, sendo for\u00e7adas a derrubar conte\u00fados preventivamente para evitar processos.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Desmatamento ilegal interfere nos pre\u00e7os da madeira, diz USTR<\/h2>\n<p>Embora o Brasil tenha um arcabou\u00e7o legal (como o C\u00f3digo Florestal de 2012), a investiga\u00e7\u00e3o dos EUA aponta defici\u00eancias cr\u00f4nicas na fiscaliza\u00e7\u00e3o. De acordo com o relat\u00f3rio, os Cadastros Ambientais Rurais (CAR) s\u00e3o fraudados sem auditoria adequada por sat\u00e9lite e documentos oficiais j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o considerados suficientes para provar a origem legal da madeira amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio descreve a mec\u00e2nica da fraude: (1) extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira; (2) convers\u00e3o da terra para pastagem de gado; e (3) quando o pasto degrada, a terra recebe culturas de alto valor, como soja e milho.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o do USTR ainda aponta que madeireiros e pecuaristas subornam agentes p\u00fablicos para lavar a produ\u00e7\u00e3o (esquentamento de notas). Estimativas de 2023 a 2024 reproduzidas no documento apontam que 91% do desmatamento na Amaz\u00f4nia e 51% no Cerrado ocorreram na ilegalidade.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o de governos estaduais tamb\u00e9m \u00e9 criticada pelo relat\u00f3rio. O estado do Mato Grosso \u00e9 citado por tentar retirar benef\u00edcios fiscais de empresas signat\u00e1rias da Morat\u00f3ria da Soja, o que levou gigantes multinacionais a recuarem de seus compromissos.<\/p>\n<p>O USTR conclui que o desmatamento ilegal permite a produ\u00e7\u00e3o de commodities artificialmente baratas, que derrubam os pre\u00e7os da madeira legal em at\u00e9 16% globalmente, configurando concorr\u00eancia desleal aos produtores americanos.<\/p>\n<h2>EUA acusam Brasil de viola\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade intelectual e pirataria<\/h2>\n<p>O Brasil figura na &#8220;Lista de Observa\u00e7\u00e3o&#8221; (Watch List) de Propriedade Intelectual dos EUA desde 2007. O USTR aponta falhas cr\u00f4nicas na fiscaliza\u00e7\u00e3o de fronteiras. A Rua 25 de Mar\u00e7o, em S\u00e3o Paulo, \u00e9 citada como polo de pirataria, alimentada por pequenos pacotes internacionais, sem controle adequado.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio ainda traz dados de como a burocracia estatal brasileira tamb\u00e9m trava a inova\u00e7\u00e3o. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), o Brasil leva em m\u00e9dia 38,4 meses para aprovar uma patente, contra 29,5 meses nos EUA. No setor biofarmac\u00eautico, a demora varia de 54 a 109,7 meses, reduzindo o tempo de vida \u00fatil comercial da inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Impunidade e corrup\u00e7\u00e3o desequilibram concorr\u00eancia, diz documento<\/h2>\n<p>O documento americano dedica uma se\u00e7\u00e3o inteira ao retrocesso institucional do Brasil no combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Para o governo dos EUA, a falta de puni\u00e7\u00e3o a crimes de colarinho branco \u00e9 um problema moral e uma barreira comercial que desequilibra a concorr\u00eancia. Desta forma, empresas americanas, sujeitas ao rigor do <em>Foreign Corrupt Practices Act<\/em> (FCPA), perdem licita\u00e7\u00f5es e contratos para concorrentes brasileiros que operam na ilegalidade.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio do USTR cita dados da OCDE de outubro de 2023, que criticou o Brasil por n\u00e3o investigar nem processar casos de suborno transnacional. O golpe de miseric\u00f3rdia citado por Washington foi a anula\u00e7\u00e3o, em setembro de 2023, de todas as provas do acordo de leni\u00eancia de uma grande empreiteira brasileira, em decis\u00e3o do ministro do STF Dias Toffoli. Essa decis\u00e3o, ligada \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato \u2014 descrita pelo USTR como o &#8220;maior esquema de corrup\u00e7\u00e3o transnacional da hist\u00f3ria&#8221; \u2014, resultou na anula\u00e7\u00e3o de mais de cem processos.<\/p>\n<p>Em 2024, multas de empresas que haviam confessado corrup\u00e7\u00e3o em massa foram suspensas e abertas para renegocia\u00e7\u00e3o, processo criticado pela Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) por falta de transpar\u00eancia. Como reflexo, a nota do Brasil no \u00cdndice de Percep\u00e7\u00e3o da Corrup\u00e7\u00e3o (IPC) da Transpar\u00eancia Internacional caiu para 34 em 2024 \u2014 a pior marca desde 2012 \u2014, posicionando o pa\u00eds no 107\u00ba lugar entre 180 na\u00e7\u00f5es. Em 2025, o \u00edndice permaneceu estagnado em 35.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Governo Trump diz que Brasil favorece M\u00e9xico e \u00cdndia<\/h2>\n<p>Outro ponto de atrito atinge o cora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica industrial. O USTR acusa o Brasil de manter acordos comerciais preferenciais com o M\u00e9xico e a \u00cdndia \u2014 pa\u00edses que j\u00e1 s\u00e3o pot\u00eancias industriais globais \u2014 prejudicando exportadores americanos.<\/p>\n<p>O documento mostra que centenas de linhas tarif\u00e1rias indianas e mais de mil linhas mexicanas entram no Brasil com impostos de 10% a 100% menores do que as tarifas de &#8220;na\u00e7\u00e3o mais favorecida&#8221; (MFN) aplicadas aos EUA. Em 2025, o Brasil importou US$ 5,9 bilh\u00f5es sob esses acordos (US$ 4,7 bi do M\u00e9xico e US$ 1,3 bilh\u00e3o da \u00cdndia).<\/p>\n<p>Apenas no setor automotivo, o Brasil importou US$ 1,8 bilh\u00e3o do M\u00e9xico (livre de tarifas) contra US$ 1,0 bilh\u00e3o dos EUA (sujeitos a tarifas de 14% a 35%), mesmo a produ\u00e7\u00e3o americana sendo o dobro da mexicana. Dados do relat\u00f3rio do USTR tamb\u00e9m demonstram que a participa\u00e7\u00e3o de mercado dos EUA no Brasil caiu de 22% para 11% frente ao M\u00e9xico, e encolheu 4 pontos percentuais frente \u00e0 \u00cdndia nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<h2>Relat\u00f3rio v\u00ea barreiras ao etanol americano<\/h2>\n<p>A disputa sobre o etanol ilustra o hist\u00f3rico de quebras de confian\u00e7a entre Bras\u00edlia e Washington, e o relat\u00f3rio do USTR lista uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios ocorridos nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Em 2010, o Brasil isentou a tarifa de 20% sobre o etanol importado. Em resposta, no ano seguinte, os EUA extinguiram um cr\u00e9dito tribut\u00e1rio a produtores locais e uma sobretaxa de US$ 0,54 por gal\u00e3o sobre importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 2017, ap\u00f3s lobby do setor sucroalcooleiro nacional, o Brasil imp\u00f4s cotas e retomou a cobran\u00e7a de impostos. Desde fevereiro de 2023, a tarifa est\u00e1 fixada em 18%, com poder de altera\u00e7\u00e3o mensal pelo governo brasileiro.<\/p>\n<p>Segundo dados da Secretaria de Com\u00e9rcio Exterior (Secex), as importa\u00e7\u00f5es de etanol combust\u00edvel dos EUA ca\u00edram 94,4%, do pico de US$ 896,2 milh\u00f5es em 2017 para US$ 50,5 milh\u00f5es em 2024. O market share dos EUA no Brasil encolheu de quase 100% para 54%, entre 2018 e 2024. Nesse mesmo ano, o Brasil exportou US$ 203 milh\u00f5es em etanol para os EUA, enquanto os EUA exportaram US$ 53 milh\u00f5es para o Brasil.<\/p>\n<p>Nos quatro primeiros meses de 2026, as importa\u00e7\u00f5es de etanol americano saltaram para US$ 119,4 milh\u00f5es \u2014 3,8 vezes acima do mesmo per\u00edodo de 2025, tornando-se as maiores da d\u00e9cada, de acordo com dados da Secex.<\/p>\n<h2>EUA veem Pix como interven\u00e7\u00e3o no mercado<\/h2>\n<p>O sucesso do Pix \u00e9 ineg\u00e1vel no dia a dia do brasileiro, mas os EUA enxergam a ferramenta sob uma \u00f3tica de distor\u00e7\u00e3o de livre mercado. O USTR acusa o governo brasileiro de prejudicar empresas americanas de pagamento eletr\u00f4nico para favorecer seu &#8220;campe\u00e3o nacional&#8221;.<\/p>\n<p>O argumento t\u00e9cnico \u00e9 que o Banco Central do Brasil atua com um duplo e conflitante papel: \u00e9, ao mesmo tempo, o \u00f3rg\u00e3o regulador do sistema financeiro e o propriet\u00e1rio\/operador do Pix. Segundo o governo Trump, na aus\u00eancia de salvaguardas, o BC usou seu poder regulat\u00f3rio para impor o Pix ao mercado.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio destaca imposi\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias que, na vis\u00e3o do USTR, configuram interven\u00e7\u00e3o estatal: obrigatoriedade de ades\u00e3o para institui\u00e7\u00f5es acima de determinado porte, exibi\u00e7\u00e3o for\u00e7ada na tela principal dos aplicativos e controle de pre\u00e7os, com gratuidade para pessoas f\u00edsicas e teto de taxas para empresas.<\/p>\n<h2>Implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas: o que esperar?<\/h2>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 a primeira retalia\u00e7\u00e3o do governo Trump. No ano passado, os Estados Unidos chegaram a aplicar tarifas de 50% \u00e0s importa\u00e7\u00f5es do Brasil. Essas san\u00e7\u00f5es, contudo, foram em grande parte suspensas devido \u00e0 press\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o de alimentos no mercado interno americano e a uma decis\u00e3o da Suprema Corte dos EUA que barrou o &#8220;tarifa\u00e7o&#8221; global.<\/p>\n<p>Desta vez, a estrat\u00e9gia americana \u00e9 diferenciada e justificada tecnicamente via Se\u00e7\u00e3o 301. A proposta atual imp\u00f5e uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros, com isen\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas para commodities cr\u00edticas (carne bovina, caf\u00e9, frutas, metais de terras raras).<\/p>\n<p>O cronograma para a defesa do governo e do setor produtivo brasileiros \u00e9 apertado: coment\u00e1rios p\u00fablicos at\u00e9 1\u00ba de julho, audi\u00eancia p\u00fablica em 6 de julho e decis\u00e3o final at\u00e9 15 de julho de 2026. O embaixador Jamieson Greer ressaltou que as portas para a diplomacia continuam abertas.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil enfrenta uma retalia\u00e7\u00e3o comercial iminente por inseguran\u00e7a jur\u00eddica, ativismo judicial e intervencionismo estatal. 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