{"id":454069,"date":"2026-06-02T09:55:48","date_gmt":"2026-06-02T13:55:48","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=454069"},"modified":"2026-06-02T09:55:48","modified_gmt":"2026-06-02T13:55:48","slug":"padre-enxerga-fim-do-comunismo-em-cuba-precisaremos-aprender-a-viver-na-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=454069","title":{"rendered":"Padre enxerga fim do comunismo em Cuba: \u201cPrecisaremos aprender a viver na democracia\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Tomates, pedras e ovos. Uma das primeiras lembran\u00e7as que Alberto Reyes tem de quando, ainda crian\u00e7a, era levado \u00e0 missa dominical, \u00e9 a desses objetos voando sobre os biombos que o padre de sua igreja em Camag\u00fcey (Cuba) colocava para tentar proteger os fi\u00e9is. Eram os anos 70, e nos livros did\u00e1ticos \u2014 copiados dos manuais da URSS \u2014 e em qualquer com\u00edcio, doutrinava-se contra o cristianismo. Normal que alguns se sentissem no &#8220;dever patri\u00f3tico&#8221; de hostilizar cat\u00f3licos e evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Na agonizante Cuba de hoje, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ovos nem tomates para atirar. Restam pedras, mas muitos dos que as lan\u00e7aram desencantaram-se com as promessas do Partido Comunista sobre um futuro radiante e partiram 90 milhas ao norte, rumo aos EUA, para busc\u00e1-lo l\u00e1. O Padre Alberto, aquele menino hoje transformado em sacerdote, j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea proj\u00e9teis passarem por cima de sua cabe\u00e7a, mas a hostilidade do regime cubano continua chegando at\u00e9 ele na forma de intima\u00e7\u00f5es da Seguran\u00e7a do Estado. Incomodam, e incomodam muito, as den\u00fancias que ele faz em suas redes sociais sobre a situa\u00e7\u00e3o de prostra\u00e7\u00e3o moral e econ\u00f4mica na qual o pa\u00eds ficou submerso ap\u00f3s 67 anos de um experimento socialista fracassado. Por isso, cada vez que ele encabe\u00e7a uma de suas publica\u00e7\u00f5es no Facebook com a frase \u201cEstive pensando\u2026\u201d, os agentes da seguran\u00e7a ficam pensando em como calar a boca deste inc\u00f4modo padre.<\/p>\n<p>Durante sua recentemente conclu\u00edda visita a Madri, o Pe. Alberto aceitou conversar sobre este e outros temas com a Aceprensa. Enquanto todos os cubanos no exterior olham para a ilha e prendem a respira\u00e7\u00e3o, dada a grave situa\u00e7\u00e3o de escassez material pela qual o pa\u00eds passa e a prontid\u00e3o de combate em que se encontram as for\u00e7as dos EUA no Caribe, o sacerdote carrega calmamente enormes malas com medicamentos e se prepara para retornar para l\u00e1, para sua humilde par\u00f3quia de Esmeralda.<\/p>\n<p><strong>Aqueles que se batizaram nos anos 90 em Cuba j\u00e1 n\u00e3o viveram uma hostilidade t\u00e3o aberta como a daqueles que se batizaram quando crian\u00e7as nos anos 70. Foram tempos dif\u00edceis\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Sim, muito. Eu cresci em uma trincheira, lutando pela minha f\u00e9, porque o ass\u00e9dio era di\u00e1rio; era muito comum. Para come\u00e7ar, voc\u00ea se sentia mal visto; como crist\u00e3o, voc\u00ea era o &#8220;bicho estranho&#8221;, a pessoa destoante, porque \u00e0s vezes n\u00f3s, os crentes, \u00e9ramos praticamente apenas um em uma sala de aula ou em toda uma escola. Al\u00e9m disso, algo interessante: n\u00e3o nos chamavam de crist\u00e3os, porque crist\u00e3o era visto como um termo muito elegante. Chamavam-nos de <em>religiosos<\/em>, porque isso tinha a conota\u00e7\u00e3o de \u201cignorante\u201d.<\/p>\n<p>Era comum um professor chegar \u00e0 sala e dizer: \u201cFiquem de p\u00e9 os religiosos\u201d. Ent\u00e3o voc\u00ea se levantava, todo mundo olhava para voc\u00ea, e isso fazia voc\u00ea se sentir mal. Tenho uma amiga que, quando tinha nove anos, o professor entrou e disse: \u201cFiquem de p\u00e9 os religiosos\u201d. Ela se levantou sozinha e o professor disse: \u201cAgora todos deem risada desta aqui, que \u00e9 religiosa\u201d. E ela me diz: \u201cEm mim, essa ferida sangra. Cada vez que penso naquilo, lembro-me de toda a sala rindo de mim\u201d. Diziam-nos que, se f\u00f4ssemos crist\u00e3os, n\u00e3o conseguir\u00edamos ir para a universidade. \u00c9ramos muito assediados.<\/p>\n<p><strong>No seu caso, como um sacerdote que condena \u2014 nas redes e em outros \u00e2mbitos \u2014 os excessos do governo enquanto o povo sofre uma mis\u00e9ria sem igual, a hostilidade n\u00e3o \u00e9 coisa do passado. Normalmente, tenta-se calar os sacerdotes com um \u201cos padres n\u00e3o devem se meter em pol\u00edtica\u201d. J\u00e1 lhe disseram isso?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 me disseram muito. E a minha resposta \u00e9 sempre a mesma: a Igreja n\u00e3o \u00e9 chamada a fazer pol\u00edtica partid\u00e1ria; n\u00e3o lhe cabe associar-se ou aliar-se a um partido, seja ele qual for. Ela \u00e9 chamada a ser M\u00e3e de todos, e a mensagem crist\u00e3 \u00e9 para todos. Nada de pol\u00edtica partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outra coisa \u00e9 a pol\u00edtica em sentido geral. Pol\u00edtica vem da palavra grega <em>polis<\/em>: cidade; portanto, a pol\u00edtica entendida nesse sentido \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o com a cidade (a sociedade), com o seu bem-estar. Quando algu\u00e9m diz: \u201cSou apol\u00edtico\u201d, na verdade o que est\u00e1 dizendo \u00e9 \u201cn\u00e3o me importo com a minha sociedade: se h\u00e1 pessoas com fome; se n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dios; se as ruas se transformaram em um lix\u00e3o, eu n\u00e3o me importo\u201d.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 ser apol\u00edtico. A Igreja \u00e9 chamada a fazer pol\u00edtica no sentido amplo, de buscar por todos os meios o bem-estar da sociedade. Se n\u00e3o o fizesse e ficasse em um discurso de relacionamento com Deus dentro do templo, ent\u00e3o sim, ela seria o \u201c\u00f3pio do povo\u201d. Como vou pregar um Deus que \u00e9 Pai, que nos torna irm\u00e3os, que quer o nosso bem, e, quando saio da igreja, se h\u00e1 algu\u00e9m com fome ou sem medicamentos, eu ignoro? Seria uma contradi\u00e7\u00e3o. Uma trai\u00e7\u00e3o ao Evangelho.<\/p>\n<p>O que a gente tenta explicar \u00e0s pessoas \u00e9 que os leigos sim, estes s\u00e3o chamados a fazer pol\u00edtica partid\u00e1ria. Como fez Oswaldo Pay\u00e1 (1). Um leigo crist\u00e3o tem, sim, o direito de se filiar a um partido ou de fund\u00e1-lo, se tiver essa voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Compreendo que o senhor foi \u201cconvocado\u201d v\u00e1rias vezes por dizer essas coisas.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Duas vezes a Seguran\u00e7a do Estado me chamou para me entregar uma \u201cata de advert\u00eancia\u201d. Para me dizer, como fizeram com outros sacerdotes \u2014 como o Pe. Castor, o Pe. Jorge Luis P\u00e9rez Soto, o Pe. Kenny, Frei Lester\u2026 \u2014, que se continuarmos falando sobre os problemas de Cuba da maneira como fazemos, denunciando as situa\u00e7\u00f5es, podemos ser processados judicialmente porque n\u00e3o agimos de acordo com a legalidade.<\/p>\n<p>Acusam-nos, al\u00e9m disso, de sermos promotores do \u00f3dio. Quando dizemos que o cubano deve poder defender seus direitos, manifestar-se, eles veem nisso um discurso subversivo. E, certamente, \u00e0s vezes temos alertado que o governo est\u00e1 encurralando tanto o povo, est\u00e1 tornando a vida t\u00e3o dif\u00edcil, que isso pode provocar um desfecho violento. Quando alertamos sobre isso, acusam-nos de incentivar o confronto e o \u00f3dio, quando na verdade estamos alertando que, se as condi\u00e7\u00f5es de vida n\u00e3o melhorarem, chegar\u00e1 um momento em que o povo vai se cansar, e pode ser que responda de forma violenta.<\/p>\n<p><strong>Quando li sobre essas a\u00e7\u00f5es intimidat\u00f3rias contra os dissidentes e contra os senhores, temi que os repressores cruzassem linhas vermelhas cr\u00edticas. Que atentassem fisicamente contra o senhor e outros sacerdotes\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Olha, tudo \u00e9 poss\u00edvel. Acredito que o governo tem consci\u00eancia de que a Igreja \u2014 que, apesar da persegui\u00e7\u00e3o e do descr\u00e9dito aos quais foi submetida, tem sido fiel ao povo e o tem acompanhado \u2014 alcan\u00e7ou um prest\u00edgio. Portanto, eles podem fazer algo contra n\u00f3s? Sim, mas certamente o custo pol\u00edtico tamb\u00e9m seria muito alto.<\/p>\n<p><strong>Quais ferramentas o clero e os leigos cubanos teriam em m\u00e3os para pressionar o governo a implementar mudan\u00e7as reais?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que cada um tem o seu papel. N\u00e3o cabe \u00e0 Igreja liderar as mudan\u00e7as. Nossa grande for\u00e7a \u00e9 a verdade, com a qual se pode dizer o que est\u00e1 acontecendo e apelar \u00e0 consci\u00eancia. J\u00e1 o elemento pr\u00e1tico n\u00e3o lhe corresponde. Em um di\u00e1logo real, ela tamb\u00e9m seria chamada a ser mediadora, porque a Igreja, por ser M\u00e3e e acolher a todos, est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de ser essa intermedi\u00e1ria que ajuda os diferentes a buscarem um objetivo comum e a entrarem em acordo. Al\u00e9m disso, o que \u00e9 a mudan\u00e7a, digamos, f\u00e1tica, a mudan\u00e7a social real, n\u00e3o cabe \u00e0 Igreja, mas sim \u00e0 sociedade civil.<\/p>\n<h2>Uma sociedade progressivamente domesticada<\/h2>\n<p><strong>Como \u00e9 poss\u00edvel, Padre, que um povo que lutou ferozmente por sua independ\u00eancia no s\u00e9culo XIX, que se levantou contra duas ditaduras no s\u00e9culo XX \u2014 a de Gerardo Machado, deposto em 1933, e a de Fulgencio Batista, em 1959 \u2014, n\u00e3o tenha seguido o rastro de alem\u00e3es, poloneses, tchecos, etc., que se levantaram e expulsaram seus ditadores comunistas?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sinto que devamos esquecer que isso foi um processo. Para come\u00e7ar, o governo soube aproveitar muito bem a ilus\u00e3o do in\u00edcio. Lembremos que v\u00ednhamos de uma ditadura, a de Batista, que j\u00e1 havia se tornado muito sangrenta. Havia uma rejei\u00e7\u00e3o popular, um esgotamento muito forte, e Fidel Castro ergueu-se como a grande esperan\u00e7a de uma mudan\u00e7a e de um retorno \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>O ponto de partida esteve ali, em aproveitar o fasc\u00ednio, a esperan\u00e7a das pessoas no Movimento 26 de Julho\u2026, que, assim que assumiu o poder, come\u00e7ou a fuzilar. A\u00ed h\u00e1 uma primeira mensagem agressiva ao povo: \u201cN\u00e3o se mexa, voc\u00ea est\u00e1 controlado; se voc\u00ea dissentir, pode morrer\u201d. Instauraram tamb\u00e9m algo diabolicamente eficaz: os julgamentos populares. Qualquer um podia te acusar, qualquer um podia te julgar ou fazer com que voc\u00ea fosse condenado. E isso semeou o terror. Se somarmos a isso todo o controle das institui\u00e7\u00f5es, da educa\u00e7\u00e3o, da imprensa, unido tamb\u00e9m ao fato de que somos uma ilha, uma esp\u00e9cie de \u201cpris\u00e3o com grades de \u00e1gua\u201d da qual \u00e9 dif\u00edcil escapar, tudo isso marcou. Adicione-se o fato de que muitos acreditaram realmente na Revolu\u00e7\u00e3o e que por ela estavam dispostos a tudo: a agredir, a delatar\u2026<\/p>\n<p>Pois bem: com esse caldo de cultura, com as pris\u00f5es e fuzilamentos, com a mensagem da vulnerabilidade da sociedade, com a doutrina\u00e7\u00e3o e a perda de liberdade, houve uma progressiva domestica\u00e7\u00e3o do povo. Se a esquerda tem um mecanismo que soube manejar muito bem \u2014 e que certamente \u00e9 muito eficaz \u2014, \u00e9 esse controle de pouquinho em pouquinho, um pouco mais a cada dia\u2026 Ent\u00e3o, claro, depois de quase 70 anos assim, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples voltar ao esp\u00edrito dos <em>mambises<\/em> (2). N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Na Europa Oriental houve transi\u00e7\u00f5es mais ou menos pac\u00edficas. Em Cuba, por outro lado, espalha-se a percep\u00e7\u00e3o de que ser\u00e1 muito dif\u00edcil um processo assim, por causa de tanta raiva acumulada: quem n\u00e3o foi impedido de voltar para enterrar a pr\u00f3pria m\u00e3e (como aconteceu com a cantora exilada Celia Cruz), foi condenado a trabalhos for\u00e7ados, ou expulso da universidade\u2026 Como o senhor vislumbra o desmantelamento do sistema: em paz ou com graves tens\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Preocupa-me muito a viol\u00eancia e, infelizmente, vejo-a como uma possibilidade real. Em princ\u00edpio, porque cada vez se deixa menos op\u00e7\u00e3o ao povo. Se h\u00e1 mais repress\u00e3o e menos oportunidades de se expressar, se a vida se torna cada vez mais dif\u00edcil, e se h\u00e1 muita gente que causou danos a partir da impunidade, ent\u00e3o, claro, o povo est\u00e1 muito ferido. Caso n\u00e3o haja uma transi\u00e7\u00e3o controlada e ocorra um vazio de poder, pode haver um transbordamento das feridas que arrase tudo, que nos fa\u00e7a entrar em uma espiral de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o um caso de muito tempo atr\u00e1s: em Havana, em um edif\u00edcio, vivia um senhor chamado Fidel, muito idoso, e ele caiu da escada. Um vizinho saiu correndo para buscar um carro e lev\u00e1-lo ao hospital, mas deparou-se com outro que lhe perguntou o que estava acontecendo. \u201cO Fidel caiu!\u201d, respondeu ele, e continuou correndo. O que havia perguntado foi para casa, pegou um taco de beisebol, bateu \u00e0 porta do presidente do Comit\u00ea de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o (3) e o encheu de pancadas.<\/p>\n<p>Eu temo que isso aconte\u00e7a em Cuba. Que um descontrole leve a uma viol\u00eancia revanchista. Acredito que as pessoas que causaram danos t\u00eam que comparecer perante a justi\u00e7a; se n\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 transi\u00e7\u00e3o. As feridas inflamariam e nunca ser\u00edamos um povo capaz de seguir em frente. Muita gente dever\u00e1 ser julgada e, se fez o mal, ter\u00e1 que responder por isso. Chama-se justi\u00e7a transicional. Outra coisa seria o transbordamento da agressividade, que poderia derivar em um desastroso ajuste de contas.<\/p>\n<p><strong>Muito relacionado a isso, h\u00e1 a realidade de que, mesmo que amanh\u00e3 houvesse uma mudan\u00e7a e chovessem milh\u00f5es de d\u00f3lares, seria muito dif\u00edcil fazer o pa\u00eds andar. H\u00e1 uma acentuada perda de valores \u2014 uma \u201creguetoniza\u00e7\u00e3o\u201d da sociedade \u2014, al\u00e9m de uma brutal descapitaliza\u00e7\u00e3o humana, pois pelo menos dois milh\u00f5es de trabalhadores e profissionais foram embora nos \u00faltimos anos. A d\u00favida \u00e9 quem gostaria de voltar para tentar mudar aquele desastre.<\/strong><\/p>\n<p>Eu penso que no in\u00edcio precisaremos de muito apoio externo, de muita assessoria para ajudar a sociedade a renascer. Durante quase 70 anos vivemos sem liberdade, sem democracia, sem esse exerc\u00edcio saud\u00e1vel de escutar uns aos outros. O cubano atual \u00e9 muito intolerante, muito agressivo. \u201c\u00c9 o que eu digo porque eu digo! N\u00e3o me importa o que voc\u00ea diz; apenas o meu importa!\u201d. Teremos que aprender a viver na liberdade, na escuta, no trabalho em equipe, na democracia.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o vai ser simples, e me preocupa. Preocupa-me que haja uma guerra de egos e que, em vez de olharmos para um objetivo comum \u2014 uma Cuba nova, plural, integradora, feliz, democr\u00e1tica, livre \u2014, nos desgastemos para ver quem finca a sua bandeira.<\/p>\n<h2>Quando os dinossauros se forem\u2026<\/h2>\n<p><strong>Por outro lado, uma sondagem do meio independente <em>El Toque<\/em> registrou que mais de 56% os cubanos da ilha e 67% dos da di\u00e1spora gostariam que os EUA interviessem militarmente agora mesmo para p\u00f4r fim a uma crise t\u00e3o aguda. Normalmente ningu\u00e9m iria querer uma incurs\u00e3o armada em seu pa\u00eds, mas chegamos ao ponto de os cubanos a desejarem\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Eu lhe perguntaria: temos op\u00e7\u00f5es? Acho que esse \u00e9 o ponto. Uma pessoa me disse: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel que o cubano opte por uma interven\u00e7\u00e3o?\u201d, e eu respondi: \u201cO cubano n\u00e3o est\u00e1 na din\u00e2mica &#8216;interven\u00e7\u00e3o sim, interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o&#8217;. O desejo dele \u00e9 outro. \u00c9 o &#8216;eu quero que isso acabe j\u00e1; n\u00e3o aguento mais: que acabe como for, porque estamos desesperados&#8217;\u201d. Diante desse grito de ang\u00fastia, o que se nos apresenta neste momento como op\u00e7\u00e3o \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o. E o cubano diz: \u201cA\u00ed est\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o \u00e9 que ele a queira. Se nos dissessem que haver\u00e1 uma sa\u00edda negociada, pac\u00edfica, real, e n\u00e3o uma mudan\u00e7a fraudulenta, n\u00f3s, cubanos, dir\u00edamos: \u201cEnt\u00e3o melhor isso do que uma interven\u00e7\u00e3o militar\u201d. O problema \u00e9: temos outra op\u00e7\u00e3o? H\u00e1 mais op\u00e7\u00f5es? Isso \u00e9 o que eu n\u00e3o vejo.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma profunda desesperan\u00e7a\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Claro. Avaliemos cen\u00e1rios: outro 11 de julho como o de 2021 (uma jornada de protestos generalizados em todo o pa\u00eds) poderia degenerar em viol\u00eancia, sem contar que, por mais multitudin\u00e1rias que fossem as manifesta\u00e7\u00f5es, no final, quem lideraria?, como terminariam? Aquele 11 de julho foi algo extraordin\u00e1rio, heroico e, acima de tudo, foi o grande grito do nosso povo de \u201cn\u00e3o queremos este sistema\u201d. Mas e a solu\u00e7\u00e3o? Porque nos levantamos como povo, fazemos uma manifesta\u00e7\u00e3o, conseguimos que o governo saia, mas e depois?<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o resta muita gente l\u00e1 com a capacidade de lideran\u00e7a e vis\u00e3o pol\u00edtica que Pay\u00e1 tinha\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Esse \u00e9 o nosso problema. Vamos supor que os americanos entrem e afastem a c\u00fapula governante: o grande problema ser\u00e1 quem poder\u00e1 liderar uma transi\u00e7\u00e3o. Quando os americanos intervieram no Panam\u00e1 (dezembro de 1989), tiraram Manuel Antonio Noriega e disseram: \u201cEntregamos o poder a este grupo de pessoas\u201d. E ponto final. Porque, claro, havia uma estrutura. Ou como est\u00e1 acontecendo na Venezuela: a mudan\u00e7a n\u00e3o ocorreu t\u00e3o r\u00e1pido quanto esper\u00e1vamos, mas a Venezuela tinha uma oposi\u00e7\u00e3o, tinha uma estrutura, e j\u00e1 se destravou; pelo menos as elei\u00e7\u00f5es ir\u00e3o se preparando. Havia uma refer\u00eancia, e Cuba n\u00e3o a tem.<\/p>\n<p><strong>Onde est\u00e1 a nossa \u201cMar\u00eda Corina\u201d\u2026?<\/strong><\/p>\n<p>De fato. \u00c9 que o governo foi desmembrando sistematicamente todo o tecido civil. Quem tem experi\u00eancia pol\u00edtica? Os do governo! Quem tem experi\u00eancia de lideran\u00e7a? Eles, porque nunca se permitiu que outros tivessem acesso de forma independente. Portanto, isso vai ser complicado, mas aprenderemos. Seremos capazes de conseguir. Quando se gerar um ambiente de liberdade, ser\u00e1 mais f\u00e1cil que saiam \u00e0 luz pessoas que agora est\u00e3o na segunda, terceira, quarta linha, porque t\u00eam medo de que cortem suas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>Lembro-me de uma imagem que achei muito simp\u00e1tica: um dia, falando sobre isso, um amigo me disse: \u201cOlha, Padre, enquanto havia dinossauros, os mam\u00edferos estavam escondidos. S\u00f3 quando os dinossauros se extinguiram foi que os mam\u00edferos come\u00e7aram a reinar no planeta. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o podiam sair\u201d. Acho que a met\u00e1fora \u00e9 excelente.<\/p>\n<p><strong>Por \u00faltimo, um exerc\u00edcio dif\u00edcil: se, nesta situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o incerta, tivesse que fazer um progn\u00f3stico, em qual cen\u00e1rio v\u00ea Cuba no horizonte de tr\u00eas a cinco anos?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei; sou um mau prognosticador. O que sim acredito \u00e9 que algo tem que acontecer. De fato, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, porque n\u00e3o \u00e9 apenas a press\u00e3o do governo Trump, n\u00e3o \u00e9 apenas que o governo cubano ficou sem ningu\u00e9m que o sustente: \u00e9 que o povo est\u00e1 se manifestando cada vez mais. As pessoas est\u00e3o sendo mais livres na hora de falar, e come\u00e7aram a sonhar, o que \u00e9 um ponto importante. As pessoas est\u00e3o vendo a mudan\u00e7a como algo poss\u00edvel. Algo est\u00e1 acontecendo, e isso cristalizar\u00e1 em uma mudan\u00e7a mais profunda.<\/p>\n<p>Quero pensar que, em tr\u00eas ou cinco anos, Cuba ser\u00e1 um pa\u00eds totalmente diferente; uma na\u00e7\u00e3o que deixou para tr\u00e1s a estagna\u00e7\u00e3o. Sim, sou muito otimista com tudo o que estamos vivendo.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Aceprensa. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol<\/strong>:\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.aceprensa.com\/politica\/los-cubanos-tendremos-que-aprender-a-vivir-en-democracia-no-sera-sencillo-pero-aprenderemos\/\">\u201cLos cubanos tendremos que aprender a vivir en democracia: no ser\u00e1 sencillo, pero aprenderemos\u201d<\/a><\/strong>.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tomates, pedras e ovos. 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