{"id":451041,"date":"2026-06-01T14:46:15","date_gmt":"2026-06-01T18:46:15","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=451041"},"modified":"2026-06-01T14:46:15","modified_gmt":"2026-06-01T18:46:15","slug":"o-bom-selvagem-esta-de-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=451041","title":{"rendered":"O \u201cbom selvagem\u201d est\u00e1 de volta"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O S\u00ednodo da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/amazonia\/\">Amaz\u00f4nia<\/a>, realizado em 2019, em Roma, foi marcado por aquilo que poderia ser chamado de \u201ca volta do nativo\u201d ou \u201co retorno do \u2018bom selvagem\u2019\u201d.<\/p>\n<p>O mito do \u201cbom selvagem\u201d tem uma hist\u00f3ria interessante, que j\u00e1 vem de 500 anos. \u00c0 medida que o Novo Mundo foi descoberto e explorado, os europeus encontraram povos ind\u00edgenas por toda parte. As rea\u00e7\u00f5es variaram. Os <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/catolicos\/\">cat\u00f3licos <\/a>deram in\u00edcio a corajosos empreendimentos mission\u00e1rios, considerando os povos nativos como pag\u00e3os necessitados do Evangelho. Por outro lado, a maioria dos colonos calvinistas da Nova Inglaterra n\u00e3o evangelizava os ind\u00edgenas: em sua opini\u00e3o, isso era in\u00fatil, pois os selvagens n\u00e3o poderiam pertencer aos eleitos, j\u00e1 que n\u00e3o tinham alma. Relatos dos primeiros exploradores da \u00c1frica refletiam uma vis\u00e3o semelhante. Eles consideravam os africanos tribais uma forma um pouco mais desenvolvida dos chimpanz\u00e9s e gorilas que tamb\u00e9m haviam encontrado.<\/p>\n<p>Considerar os povos ind\u00edgenas como uma subesp\u00e9cie servia para justificar as atrocidades cometidas pelas pot\u00eancias coloniais. Povos ind\u00edgenas foram exterminados em massacres, suas popula\u00e7\u00f5es foram dizimadas por doen\u00e7as trazidas pelos europeus, contra as quais n\u00e3o tinham imunidade; eles foram escravizados, deportados, expulsos de suas terras e eliminados quando eram vistos como obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>A resposta intelectual a essas atrocidades foi caminhar para o extremo oposto. O mito do bom selvagem come\u00e7ou a florescer no terreno f\u00e9rtil da Fran\u00e7a iluminista e antirreligiosa. Os povos ind\u00edgenas n\u00e3o eram selvagens, mas inocentes e puros filhos de Ad\u00e3o e Eva ainda vivendo no \u00c9den. Os verdadeiros b\u00e1rbaros seriam os europeus. Durante os s\u00e9culos 16 e 17, a figura do \u201cbom selvagem\u201d foi usada como uma cr\u00edtica \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o europeia, ent\u00e3o mergulhada nas guerras religiosas francesas e na Guerra dos Trinta Anos. Em seu famoso ensaio <em>Dos Canibais<\/em>, Michel de Montaigne (ele pr\u00f3prio cat\u00f3lico) relatou que os tupinamb\u00e1s do Brasil comiam cerimonialmente os corpos de seus inimigos mortos como uma quest\u00e3o de honra. No entanto, ele lembrava a seus leitores que os europeus se comportavam de maneira ainda mais b\u00e1rbara, ao queimarem uns aos outros vivos por diverg\u00eancias religiosas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A vis\u00e3o de mundo dos \u201cecoguerreiros\u201d de hoje est\u00e1 impregnada de um entusiasmo sentimental pelos povos ind\u00edgenas e sua cultura<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em ingl\u00eas, a express\u00e3o \u201c<em>noble savage<\/em>\u201d (\u201cbom selvagem\u201d ou \u201cselvagem nobre\u201d) apareceu pela primeira vez na pe\u00e7a <em>A Conquista de Granada pelos Espanh\u00f3is<\/em> (1672), de John Dryden:<br \/><em>\u201cSou t\u00e3o livre quanto a natureza fez o homem pela primeira vez,<\/em><em>Antes que surgissem as leis vis da servid\u00e3o,<\/em><em>Quando o nobre selvagem corria livre pelas florestas.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O personagem nobre de origem humilde j\u00e1 era uma figura comum no teatro desde a Antiguidade. No s\u00e9culo 18, o bom selvagem juntou-se a personagens como a \u201cLeiteira Virtuosa\u201d e o \u201cCriado Mais S\u00e1bio que o Patr\u00e3o\u201d: figuras simples, mas nobres ou astutas, usadas para destacar a virtude natural e expor a hipocrisia.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no mundo art\u00edstico do s\u00e9culo 19, os impressionistas romantizavam prostitutas, dan\u00e7arinas, artistas de circo e trabalhadores rurais. O p\u00f3s-impressionista Paul Gauguin levou o sonho do bom selvagem \u00e0 sua conclus\u00e3o l\u00f3gica, ao deixar a Fran\u00e7a para viver no Taiti, entre aqueles que considerava inocentes filhos do \u00c9den.<\/p>\n<p>Assim, a ideia do bom selvagem chegou at\u00e9 os dias atuais. Hoje, s\u00e3o os ativistas ecol\u00f3gicos que se deixam seduzir mais frequentemente por essa no\u00e7\u00e3o. A vis\u00e3o de mundo desses \u201cecoguerreiros\u201d est\u00e1 impregnada de um entusiasmo sentimental pelos povos ind\u00edgenas e sua cultura. Como ocorreu na origem do conceito, esse entusiasmo costuma ser o outro lado de uma condena\u00e7\u00e3o da cultura ocidental moderna.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o contempor\u00e2nea do mito afirma que n\u00f3s, que desfrutamos dos benef\u00edcios da tecnologia moderna e de uma sociedade organizada, somos os verdadeiros b\u00e1rbaros, porque destru\u00edmos o mundo natural pelo consumismo e pela gan\u00e2ncia. Os povos ind\u00edgenas seriam aqueles que mostram o caminho. Eles viveriam em harmonia com Pachamama, a M\u00e3e Terra. Em sua inoc\u00eancia ed\u00eanica, estariam integrados ao mundo ao seu redor de maneira bela e natural.<\/p>\n<p>Mas, naturalmente, isso n\u00e3o era verdade nos s\u00e9culos 16 e 17, e nem o \u00e9 hoje. Embora algumas tribos fossem ca\u00e7adoras-coletoras pac\u00edficas, muitos povos ind\u00edgenas seguiam sistemas de cren\u00e7as sombrios e praticavam costumes terr\u00edveis. Os sacrif\u00edcios humanos realizados pelos maias e astecas contradizem qualquer ideia de que esses povos fossem simples ou admir\u00e1veis. Os mission\u00e1rios jesu\u00edtas na Am\u00e9rica do Norte oferecem outra forte corre\u00e7\u00e3o ao mito do bom selvagem. S\u00e3o Jo\u00e3o de Br\u00e9beuf e seus companheiros mantiveram registros detalhados de sua conviv\u00eancia com os iroqueses e hur\u00f5es. Seus di\u00e1rios revelam condi\u00e7\u00f5es verdadeiramente horr\u00edveis entre povos descritos como sanguin\u00e1rios, presos \u00e0 supersti\u00e7\u00e3o, \u00e0 viol\u00eancia e ao medo.<\/p>\n<p>O bom selvagem \u00e9 sempre apresentado em contraste com aquilo que, hoje, poderia ser chamado de \u201cselvagem urbano\u201d. Assim como Montaigne denunciava os b\u00e1rbaros europeus de sua \u00e9poca, atualmente o verdadeiro selvagem seria o cidad\u00e3o urbano moderno, supostamente civilizado. Sob a fina camada de boas maneiras e vida organizada, h\u00e1 um b\u00e1rbaro sedento de sangue. Nas circunst\u00e2ncias certas, tamb\u00e9m n\u00f3s retornar\u00edamos ao tribalismo primitivo. Essa ideia foi retratada de forma brilhante no filme <em>O Homem de Palha<\/em> e no romance <em>O Senhor das Moscas<\/em>, de William Golding, no qual um grupo de estudantes ingleses, isolados numa ilha, rapidamente se transforma em b\u00e1rbaros violentos.<\/p>\n<p>Mas, evidentemente, tanto a ideia do bom selvagem quanto a do selvagem urbano s\u00e3o generaliza\u00e7\u00f5es simplistas. E, como toda generaliza\u00e7\u00e3o, cont\u00eam ao mesmo tempo uma verdade e uma mentira. O fato \u00e9 que o ser humano da floresta e o ser humano da cidade s\u00e3o muito semelhantes, e somente uma antropologia crist\u00e3 tradicional consegue dar sentido a esse paradoxo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Tanto o habitante da Amaz\u00f4nia quanto o habitante de Manhattan s\u00e3o ambos seres eternos. Ambos s\u00e3o nobres e ign\u00f3beis. Ambos s\u00e3o pecadores, mas ambos podem tornar-se santos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O erro da ideia do bom selvagem \u00e9 o excesso de otimismo. Ela se baseia na suposi\u00e7\u00e3o de que os seres humanos s\u00e3o essencialmente bons. O erro da ideia do selvagem urbano \u00e9 presumir que os seres humanos s\u00e3o essencialmente maus.<\/p>\n<p>A teologia crist\u00e3 afirma que os seres humanos foram criados bons porque foram criados \u00e0 imagem de Deus, e Deus n\u00e3o pode criar algo mau. O habitante da Amaz\u00f4nia e o habitante de Manhattan s\u00e3o ambos seres eternos e, portanto, essencialmente bons. Contudo, tanto o selvagem da floresta quanto o selvagem da cidade perderam essa bondade original e, em sua condi\u00e7\u00e3o natural, permanecem n\u00e3o redimidos, escravizados pelo pecado e submetidos a for\u00e7as mais sombrias. Assim, ambos s\u00e3o nobres e ign\u00f3beis. Ambos s\u00e3o pecadores, mas ambos podem tornar-se santos. Somente a f\u00e9 crist\u00e3 estabelece essa realidade e oferece a reden\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>O erro fundamental dos te\u00f3logos modernistas que promoveram sua agenda durante o S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia \u00e9 que eles teriam sucumbido ao mito do bom selvagem. Contaminados por um falso otimismo universalista combinado com um sentimentalismo ing\u00eanuo, imaginam que n\u00f3s, do mundo desenvolvido, somos os verdadeiros selvagens, enquanto os inocentes povos amaz\u00f4nicos n\u00e3o necessitariam de convers\u00e3o. Ironicamente, essa atitude seria, por si s\u00f3, paternalista e racista. Ela n\u00e3o concede aos povos ind\u00edgenas a verdadeira dignidade de serem personalidades humanas complexas, conforme compreendidas pela teologia crist\u00e3. Em vez disso, a no\u00e7\u00e3o do bom selvagem encoraja seus admiradores a tratar os ind\u00edgenas como curiosidades culturais: pe\u00e7as de museu que algu\u00e9m admira e contempla antes de seguir adiante.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria racista, colonialista nem imperialista sugerir que os povos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia s\u00e3o pecadores que precisam se converter, ter f\u00e9 em Jesus Cristo e ser batizados. Eles precisam ouvir a Boa Nova do Evangelho, responder com f\u00e9 alegre e encontrar reden\u00e7\u00e3o, bem como o caminho da santidade e da plenitude humana&#8230; exatamente como seus irm\u00e3os e irm\u00e3s na cidade grande.<\/p>\n<p><strong><em>Dwight Longenecker<\/em><\/strong><em> \u00e9 padre cat\u00f3lico na Carolina do Sul (EUA), formado pela Universidade de Oxford, e autor de 20 livros.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a92026 The Imaginative Conservative. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/theimaginativeconservative.org\/2026\/05\/return-noble-savage-dwight-longenecker.html\">The Return of the \u201cNoble Savage\u201d<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia, realizado em 2019, em Roma, foi marcado por aquilo que poderia ser chamado de \u201ca volta&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":451042,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-451041","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/451041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=451041"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/451041\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/451042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=451041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=451041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=451041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}