{"id":448564,"date":"2026-05-30T19:09:52","date_gmt":"2026-05-30T23:09:52","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=448564"},"modified":"2026-05-30T19:09:52","modified_gmt":"2026-05-30T23:09:52","slug":"o-que-e-preciso-para-tirar-o-brasil-de-50-anos-de-atraso-na-abertura-comercial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=448564","title":{"rendered":"O que \u00e9 preciso para tirar o Brasil de 50 anos de atraso na abertura comercial"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds fechado ao com\u00e9rcio exterior \u2014 e paga caro por isso. A abertura comercial correspondia, em 2024, a 35,6% do PIB, segundo o Banco Mundial. Era o mesmo patamar global registrado meio s\u00e9culo antes. Mesmo entre seus parceiros na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, h\u00e1 um grande atraso. Na regi\u00e3o, esse n\u00edvel foi alcan\u00e7ado em 1999.<\/p>\n<p>Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que essa baixa participa\u00e7\u00e3o resulta de uma escolha deliberada: o modelo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, adotado no final dos anos 40 e in\u00edcio dos anos 50. O argumento era sedutor: como ind\u00fastrias modernas dependem de economias de escala e o mercado interno brasileiro era incipiente, seria necess\u00e1rio &#8220;blindar&#8221; as empresas locais contra a concorr\u00eancia externa.<\/p>\n<p>O governo utilizou tarifas elevadas e restri\u00e7\u00f5es quantitativas para for\u00e7ar o consumo de bens produzidos internamente. No entanto, o que deveria ser uma prote\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria converteu-se em uma reserva de mercado permanente. O resultado foi a aus\u00eancia de competi\u00e7\u00e3o, apontam os analistas.<\/p>\n<p>Segundo Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV Ibre) e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), esse processo gerou interesses setoriais poderosos que resistem \u00e0 abertura. &#8220;Voc\u00ea vai criando mercados cativos. Ent\u00e3o, a ind\u00fastria resiste a essa abertura&#8221;.<\/p>\n<p>A prote\u00e7\u00e3o alimenta um ciclo de inefici\u00eancia: a falta de competi\u00e7\u00e3o aumenta a demanda por mais prote\u00e7\u00e3o, tornando &#8220;mais barato ir a Bras\u00edlia com o objetivo de manter ou aumentar a prote\u00e7\u00e3o&#8221; do que investir em novas tecnologias, afirma Jos\u00e9 M\u00e1rcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos.<\/p>\n<p>A inform\u00e1tica brasileira nos anos 80 ilustra esse mecanismo. A reserva de mercado impediu importa\u00e7\u00f5es, gerando produtos mais caros e tecnologicamente inferiores. Como a inform\u00e1tica perpassa a ind\u00fastria de forma transversal, o atraso contaminou todos os ramos industriais, deixando o pa\u00eds atrasado por anos.<\/p>\n<h2>Barreiras vis\u00edveis e invis\u00edveis ao com\u00e9rcio exterior<\/h2>\n<p>Al\u00e9m dessa armadilha institucional, o Brasil tamb\u00e9m enfrenta obst\u00e1culos n\u00e3o tarif\u00e1rios sofisticados ao tentar colocar seus produtos no exterior. A Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI) identificou, em mar\u00e7o, 107 obst\u00e1culos qualificados em parceria com 19 entidades do setor privado.<\/p>\n<p>Alguns dos mais comuns s\u00e3o as medidas sanit\u00e1rias e fitossanit\u00e1rias e os regulamentos t\u00e9cnicos. China, Uni\u00e3o Europeia, M\u00e9xico e Estados Unidos s\u00e3o os principais aplicadores. A dificuldade em identificar essas barreiras tamb\u00e9m impacta as exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para Jos\u00e9 Augusto de Castro, presidente da Associa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (AEB), o isolamento comercial brasileiro n\u00e3o \u00e9 um acidente. &#8220;O que impede o Brasil de exportar mais? \u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o de falta de acordos e o peso esmagador dos custos internos.&#8221;<\/p>\n<p>Outro estudo da CNI, feito em parceria com o Movimento Brasil Competitivo (MBC), aponta que, em 2021, o custo Brasil gerou uma despesa adicional de R$ 1,7 trilh\u00e3o \u00e0s empresas. A infraestrutura deficiente, por exemplo, encarece o transporte de bens, tornando o produto nacional menos atraente no exterior.<\/p>\n<p>Castro afirma que, em muitos casos, a iniciativa de buscar novos mercados parte do importador ou de parcerias internacionais que decidem investir no Brasil, em vez de o pa\u00eds tomar a dianteira. &#8220;Essa postura reativa limita nosso poder de negocia\u00e7\u00e3o e a capacidade de definir os termos da nossa pr\u00f3pria inser\u00e7\u00e3o global&#8221;.<\/p>\n<h2>A cadeia global de valor: por que o Brasil n\u00e3o decola?<\/h2>\n<p>Outro limitador ao crescimento das exporta\u00e7\u00f5es \u00e9 a dificuldade de inser\u00e7\u00e3o nas cadeias globais de valor. Lia Valls explica que, no Brasil, n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel instalar uma f\u00e1brica de autope\u00e7as voltada para a exporta\u00e7\u00e3o se o custo para importar insumos for proibitivo. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que dificulta a agrega\u00e7\u00e3o de valor aos produtos brasileiros. Assim, as barreiras de importa\u00e7\u00e3o acabam por prejudicar qualquer estrat\u00e9gia exportadora.<\/p>\n<p>A China avan\u00e7ou muito nesse processo, criando Zonas Econ\u00f4micas Especiais. No Brasil, as Zonas de Processamento de Exporta\u00e7\u00e3o (ZPEs) demoraram anos para sair do papel. A ZPE de Pec\u00e9m (CE) \u2014 fruto de investimento sul-coreano na siderurgia \u2014 mostra que a abertura \u00e9 o caminho para aumentar o valor adicionado nas exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3>O contraste do sucesso: agroneg\u00f3cio e aeron\u00e1utica<\/h3>\n<p>Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o \u00e9 a agropecu\u00e1ria. Enquanto a ind\u00fastria se encastelava, o agroneg\u00f3cio provou que o Brasil pode competir globalmente. O sucesso vem das vantagens naturais e tamb\u00e9m do investimento estrat\u00e9gico em tecnologia.<\/p>\n<p>O Brasil criou a Embrapa, adaptou cultivos ao cerrado e se tornou um dos maiores produtores do mundo. &#8220;A competitividade decorre do investimento tecnol\u00f3gico e da efici\u00eancia, e n\u00e3o de subs\u00eddios ou barreiras alfandeg\u00e1rias&#8221;, diz Jos\u00e9 M\u00e1rcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, comparando o agro \u00e0 ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Segundo Camargo, a abertura comercial \u00e9 indispens\u00e1vel para quebrar o ciclo de estagna\u00e7\u00e3o industrial. Somente por meio da integra\u00e7\u00e3o internacional o Brasil poder\u00e1 elevar o bem-estar de sua popula\u00e7\u00e3o, reduzir os pre\u00e7os internos e garantir que o capital nacional seja remunerado pelo m\u00e9rito da inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria aeron\u00e1utica \u00e9 outro setor em que o Brasil possui expertise relativa e competitividade global. Atualmente, a Embraer \u00e9 a maior fabricante de avi\u00f5es comerciais regionais do mundo.<\/p>\n<h2>O acordo Mercosul-Uni\u00e3o Europeia: um choque de realidade<\/h2>\n<p>Ap\u00f3s 25 anos de negocia\u00e7\u00f5es, a aprova\u00e7\u00e3o do Acordo Mercosul-Uni\u00e3o Europeia, em janeiro de 2026, representa o primeiro esfor\u00e7o estrutural s\u00e9rio para romper o isolamento brasileiro. O tratado entrou em vigor provisoriamente em 1\u00ba de maio deste ano.<\/p>\n<p>A UE eliminar\u00e1 tarifas sobre 100% das linhas industriais e sobre a maioria dos produtos agr\u00edcolas em at\u00e9 dez anos. O Mercosul liberar\u00e1 81% das linhas tarif\u00e1rias, mas com prazos de at\u00e9 15 anos para setores sens\u00edveis. Esse acordo \u00e9 um &#8220;choque positivo&#8221; que for\u00e7a a ind\u00fastria nacional a investir em tecnologia e produtividade.<\/p>\n<p>Lia Valls afirma que o impacto mais relevante n\u00e3o ser\u00e1 a competi\u00e7\u00e3o com o produto europeu, mas o acesso facilitado a m\u00e1quinas e insumos intermedi\u00e1rios mais modernos e baratos. Esse acesso &#8220;barateia o custo de produ\u00e7\u00e3o para o setor&#8221;.<\/p>\n<h2>Quatro pilares para romper o isolamento<\/h2>\n<p>Os especialistas apontam que, para romper o isolamento comercial, \u00e9 preciso um conjunto de reformas coordenadas:<\/p>\n<ul>\n<li>Redu\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria gradual e previs\u00edvel: a fim de que as empresas adotem tecnologias eficientes. O acesso a m\u00e1quinas e insumos mais baratos e modernos barateia o custo de produ\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Redu\u00e7\u00e3o do custo Brasil e da inseguran\u00e7a jur\u00eddica: de modo a fortalecer ag\u00eancias reguladoras aut\u00f4nomas e t\u00e9cnicas. A seguran\u00e7a jur\u00eddica \u00e9 a moeda de troca para atrair investimento estrangeiro direto (IED).<\/li>\n<li>Investimento em infraestrutura e log\u00edstica: portos modernos, ferrovias e rodovias s\u00e3o pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es para que o Brasil se torne uma plataforma exportadora competitiva.<\/li>\n<li>Cultura exportadora e marketing de marca: para que o pa\u00eds deixe de exportar produtos brutos e passe a levar ao consumidor global as marcas brasileiras. Investimento em branding \u00e9 essencial.<\/li>\n<\/ul>\n<h3>O papel do governo e a agenda de Estado<\/h3>\n<p>O governo deve atuar ativamente para fortalecer a abertura comercial, sugerem os analistas. Ao apostar na redu\u00e7\u00e3o de tarifas, por exemplo, o Estado sinaliza que n\u00e3o garantir\u00e1 lucros f\u00e1ceis para ind\u00fastrias obsoletas. Isso for\u00e7a o investimento privado em processos mais eficientes.<\/p>\n<p>A fim de reduzir os impactos dessa reestrutura\u00e7\u00e3o, Lia Valls defende que o Estado deve oferecer financiamento e requalifica\u00e7\u00e3o para trabalhadores e empresas de setores que perderem lucratividade com a abertura.<\/p>\n<p>O fim da reserva de mercado se faz necess\u00e1rio. Segundo Camargo, o acordo Mercosul-UE \u00e9 o instrumento necess\u00e1rio para quebrar esse ciclo de isolamento e inefici\u00eancia.<\/p>\n<p>Por fim, Castro, da AEB, \u00e9 enf\u00e1tico: a agenda de abertura depende muito mais do governo do que do empresariado. O Brasil sofre de um isolamento diplom\u00e1tico-comercial que impede a escala necess\u00e1ria para a maioria dos segmentos industriais.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds fechado ao com\u00e9rcio exterior \u2014 e paga caro por isso. 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