{"id":446669,"date":"2026-05-31T05:02:00","date_gmt":"2026-05-31T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=446669"},"modified":"2026-05-31T05:02:00","modified_gmt":"2026-05-31T09:02:00","slug":"o-brasil-que-temos-o-brasil-que-merecemos-e-a-missao-do-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=446669","title":{"rendered":"O Brasil que temos, o Brasil que merecemos, e a miss\u00e3o do brasileiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 uma tristeza espec\u00edfica que n\u00e3o vem da surpresa. Vem do reconhecimento. \u00c9 a tristeza de quem olha para o Brasil e percebe que o que v\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma crise passageira, n\u00e3o \u00e9 um trope\u00e7o de gest\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o resultado de uma conjuntura desfavor\u00e1vel. \u00c9 um padr\u00e3o. E padr\u00f5es n\u00e3o mentem.<\/p>\n<p>O Brasil de hoje acumula esc\u00e2ndalos como quem acumula d\u00edvidas \u2013 com a naturalidade de quem j\u00e1 n\u00e3o espera outra coisa. A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/corrupcao\/\">corrup\u00e7\u00e3o<\/a> deixou de ser not\u00edcia e tornou-se paisagem. O que deveria causar indigna\u00e7\u00e3o coletiva passou a ser consumido como entretenimento, comentado e esquecido no mesmo ciclo de vinte e quatro horas.<\/p>\n<p>E, quando o cidad\u00e3o, cansado, decide buscar a corre\u00e7\u00e3o do erro \u2013 quando decide que existe um lugar onde a lei vale, onde a constitui\u00e7\u00e3o respira, onde a justi\u00e7a ainda tem algum significado \u2013, encontra l\u00e1 tamb\u00e9m o mesmo v\u00edcio, a mesma sede, o mesmo jogo. O lugar onde se busca a cura carrega a mesma doen\u00e7a. Essa \u00e9 a armadilha mais sofisticada que se pode construir dentro de uma rep\u00fablica. N\u00e3o \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o em si que paralisa uma na\u00e7\u00e3o. \u00c9 a corrup\u00e7\u00e3o do rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>O brasileiro n\u00e3o perdeu a capacidade de indigna\u00e7\u00e3o. Perdeu a coragem de express\u00e1-la. E h\u00e1 uma diferen\u00e7a crucial entre esses dois estados \u2013 porque o primeiro \u00e9 da ordem do sentimento, e o segundo \u00e9 da ordem da escolha. Quando uma sociedade come\u00e7a a engolir sua pr\u00f3pria voz por medo do que pode acontecer a quem fala, algo mais grave do que a injusti\u00e7a est\u00e1 em curso. Est\u00e1 em curso a domestica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode julgar com dureza quem se cala. Quem observa o destino de quem se levantou \u2013 processado, perseguido, preso por narrativas constru\u00eddas com a precis\u00e3o de quem sabe exatamente o que est\u00e1 fazendo \u2013 aprende rapidamente que o sil\u00eancio \u00e9 uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia. O problema \u00e9 que sociedades que sobrevivem caladas n\u00e3o vivem. Vegetam. E a pergunta que fica suspensa no ar, sem resposta confort\u00e1vel, \u00e9 esta: se cada um protege apenas a si mesmo e \u00e0 sua fam\u00edlia, quem protege o pa\u00eds?<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o comum \u2013 aquele que acorda antes do sol, que paga o que deve, que tenta criar filhos com algum sentido de dec\u00eancia \u2013 esse cidad\u00e3o n\u00e3o se sente representado. Sabe disso. Sente isso no bolso, na fila do mercado, na conta de luz, no pre\u00e7o do g\u00e1s. Mas h\u00e1, entre ele e a admiss\u00e3o plena dessa verdade, uma camada de resist\u00eancia psicol\u00f3gica compreens\u00edvel.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A \u00fanica b\u00fassola que n\u00e3o falha \u00e9 a mais simples e a mais dif\u00edcil: fa\u00e7a o melhor que voc\u00ea pode fazer. N\u00e3o em palavras. Em a\u00e7\u00f5es cujos resultados possam ser vistos, tocados, medidos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Acreditar que est\u00e1 abandonado pelo Estado, pela justi\u00e7a, pela pol\u00edtica e pela m\u00eddia ao mesmo tempo exige uma coragem que nem sempre se tem energia para sustentar. \u00c9 mais f\u00e1cil encontrar um argumento para continuar acreditando. Mesmo que esse argumento n\u00e3o resista a uma tarde de contas a pagar.<\/p>\n<p>Empresas partem. Trabalhadores partem. O capital vai onde \u00e9 tratado com respeito, e o talento vai onde pode crescer. Quando uma na\u00e7\u00e3o come\u00e7a a exportar n\u00e3o apenas produtos, mas pessoas \u2013 sua pr\u00f3pria gente em busca de ar \u2013, o diagn\u00f3stico j\u00e1 est\u00e1 feito. Falta apenas a coragem de l\u00ea-lo em voz alta.<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas o Brasil repete um padr\u00e3o que s\u00f3 pode ser compreendido se abandonarmos a hip\u00f3tese da incompet\u00eancia. Incompet\u00eancia \u00e9 aleat\u00f3ria. Incompet\u00eancia erra para todos os lados, trope\u00e7a sem dire\u00e7\u00e3o, produz resultados imprevis\u00edveis. O que se observa no Brasil n\u00e3o tem nada de aleat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os mesmos setores s\u00e3o sistematicamente enfraquecidos. As mesmas vozes s\u00e3o sistematicamente silenciadas. As mesmas estruturas s\u00e3o sistematicamente aparelhadas. Quando um erro se repete com essa consist\u00eancia, por esse tempo, atrav\u00e9s de tantas gest\u00f5es e circunst\u00e2ncias diferentes, ele deixa de ser erro. Torna-se m\u00e9todo.<\/p>\n<p>As universidades p\u00fablicas \u2013 que deveriam ser o lugar onde o pensamento se expande, onde o jovem aprende a questionar inclusive aquilo que lhe \u00e9 ensinado, onde convivem ideias contradit\u00f3rias porque \u00e9 dessa contradi\u00e7\u00e3o que nasce o entendimento real \u2013 tornaram-se, em larga medida, espa\u00e7os de confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Confirma-se o que j\u00e1 se acredita. Pune-se o que diverge. E o jovem que deveria sair da universidade mais livre sai, muitas vezes, apenas mais bem treinado para repetir. N\u00e3o h\u00e1 registro hist\u00f3rico de um pa\u00eds que tenha prosperado transformando suas institui\u00e7\u00f5es de pensamento em instrumentos de doutrina. Nenhum. A hist\u00f3ria \u00e9 un\u00e2nime nesse ponto, e a unanimidade da hist\u00f3ria raramente mente.<\/p>\n<blockquote>\n<p>N\u00e3o espere que o pa\u00eds melhore para come\u00e7ar. Comece, e observe o que acontece ao seu redor quando algu\u00e9m decide parar de esperar<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O per\u00edodo em que o Brasil ensaiou uma dire\u00e7\u00e3o diferente ficar\u00e1 marcado pelo que revelou mais do que pelo que realizou. Revelou que era poss\u00edvel equilibrar contas sem destruir servi\u00e7os. Que gest\u00e3o t\u00e9cnica produz resultados que gest\u00e3o ideol\u00f3gica n\u00e3o produz. Que havia um Brasil que n\u00e3o se reconhecia no espelho que lhe apresentavam h\u00e1 d\u00e9cadas \u2013 e que estava disposto a ir \u00e0s ruas dizer isso.<\/p>\n<p>Chegou ao poder num pa\u00eds aparelhado com paci\u00eancia de d\u00e9cadas. Governar contra essa estrutura, a partir de dentro dela, tem um custo alto. Houve avan\u00e7os reais, erros de comunica\u00e7\u00e3o, disputas internas, trai\u00e7\u00f5es de prop\u00f3sito. Tudo compreens\u00edvel para quem entende que estava sendo tentado, pela primeira vez de verdade, algo que o Brasil nunca havia tido.<\/p>\n<p>O que veio depois confirmou, por contraste, o que havia sido constru\u00eddo. Em poucos meses, o que levou anos para ser erguido come\u00e7ou a ceder. E hoje at\u00e9 quem nunca admitiu erros de avalia\u00e7\u00e3o come\u00e7a, em sil\u00eancio ou em voz alta, a se distanciar do que n\u00e3o consegue mais defender. O Brasil virou tema de conversas constrangidas l\u00e1 fora. Isso tamb\u00e9m diz alguma coisa.<\/p>\n<p>Existe uma pergunta que as institui\u00e7\u00f5es brasileiras n\u00e3o conseguem responder sem se contradizer. Se a fun\u00e7\u00e3o de quem guarda a lei \u00e9 garantir que ela valha para todos \u2013 e apenas para todos \u2013, como explicar que ela pare\u00e7a valer mais para alguns do que para outros? Como explicar que o peso da constitui\u00e7\u00e3o seja distribu\u00eddo de forma t\u00e3o irregular, t\u00e3o previs\u00edvel, t\u00e3o conveniente?<\/p>\n<p>A imparcialidade absoluta pode ser, de fato, uma utopia. Somos humanos, e humanos carregam perspectivas. Mas existe uma diferen\u00e7a entre a imperfei\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel de quem tenta ser justo e a distor\u00e7\u00e3o deliberada de quem usa a apar\u00eancia da justi\u00e7a para fins que a justi\u00e7a n\u00e3o reconheceria. A primeira \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o. A segunda \u00e9 uma escolha. E escolhas t\u00eam consequ\u00eancias morais que nenhum cargo, nenhum t\u00edtulo e nenhuma toga conseguem apagar.<\/p>\n<p>O que se instalou em partes do aparato institucional brasileiro n\u00e3o \u00e9 a humildade de quem sabe que pode errar. \u00c9 a certeza de quem acredita que n\u00e3o pode ser questionado. Vaidade. Arrog\u00e2ncia. A sensa\u00e7\u00e3o de que se est\u00e1 acima do jogo que todos os outros s\u00e3o obrigados a jogar. Poder \u2013 essa palavra que, quando entra pela porta de uma institui\u00e7\u00e3o sem os freios certos, expulsa pela janela tudo aquilo que tornava essa institui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o simples percebe isso. N\u00e3o precisa de an\u00e1lise t\u00e9cnica. Percebe pelo bolso, pela sensa\u00e7\u00e3o de que algo est\u00e1 errado sem conseguir nomear exatamente o qu\u00ea, pela desconfian\u00e7a crescente de que os tapetes existem para esconder o que as c\u00e2meras n\u00e3o filmam. H\u00e1 uma moral que atravessa o moralismo \u2013 uma \u00e9tica que n\u00e3o precisa ser proclamada para ser reconhecida. E, quando ela falta, sua aus\u00eancia tem cheiro.<\/p>\n<p>Essa intocabilidade n\u00e3o nasceu hoje. Est\u00e1 presente em toda a hist\u00f3ria de quem concentra poder sem <em>accountability<\/em> real. O que muda n\u00e3o \u00e9 a natureza humana \u2013 essa permanece constante, com suas tenta\u00e7\u00f5es e suas fraquezas. O que muda \u00e9 o tamanho do espa\u00e7o que se abre para que essas fraquezas operem livremente.<\/p>\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o come\u00e7a sempre pelo que parece pequeno. Uma exce\u00e7\u00e3o aqui. Uma concess\u00e3o ali. Uma regra que se dobra uma \u00fanica vez porque as circunst\u00e2ncias, dizem, s\u00e3o excepcionais. Como um organismo que encontra uma brecha numa c\u00e9lula e come\u00e7a a se multiplicar silenciosamente, o desvio que n\u00e3o \u00e9 corrigido no in\u00edcio deixa de ser desvio. Torna-se norma.<\/p>\n<p>E, quando se abrem os olhos e se percebe o que foi permitido enquanto se olhava para outro lado, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel desfaz\u00ea-lo com facilidade. Quem entrega o jogo antes de termin\u00e1-lo raramente tem a chance de pedir de volta as pe\u00e7as. E, no entanto, o Brasil n\u00e3o est\u00e1 morto.<\/p>\n<p>Existe uma gera\u00e7\u00e3o que cresceu vendo o que n\u00e3o quer ser. Que aprendeu, pela observa\u00e7\u00e3o do erro alheio, o que uma vida com prop\u00f3sito significa. S\u00e3o jovens que trabalham, que estudam, que empreendem sem esperar permiss\u00e3o, que n\u00e3o pedem ao Estado o que podem construir com as pr\u00f3prias m\u00e3os. N\u00e3o s\u00e3o ing\u00eanuos. Sabem o tamanho do problema. Mas sabem tamb\u00e9m que o tamanho do problema n\u00e3o os desobriga de fazer a parte que lhes compete.<\/p>\n<p>\u00c9 neles que reside o contraponto real a tudo que foi descrito aqui. N\u00e3o numa elei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o num salvador. N\u00e3o numa promessa de palanque. Num modo de viver que recusa a resigna\u00e7\u00e3o sem cair na ilus\u00e3o. O Brasil n\u00e3o \u00e9 o pa\u00eds do futuro. Nunca foi, e essa frase durou tempo demais como desculpa para o presente. O Brasil \u00e9 o pa\u00eds de agora \u2013 com tudo que isso exige e tudo que isso significa.<\/p>\n<p>A \u00fanica b\u00fassola que n\u00e3o falha nesse cen\u00e1rio \u00e9 a mais simples e a mais dif\u00edcil: fa\u00e7a o melhor que voc\u00ea pode fazer. N\u00e3o em palavras. Em a\u00e7\u00f5es cujos resultados possam ser vistos, tocados, medidos. N\u00e3o confie em discursos \u2013 confie no que voc\u00ea pode verificar com seus pr\u00f3prios olhos. N\u00e3o espere que o pa\u00eds melhore para come\u00e7ar. Comece, e observe o que acontece ao seu redor quando algu\u00e9m decide parar de esperar.<\/p>\n<p>Pa\u00edses n\u00e3o mudam por decreto. Mudam quando pessoas suficientes decidem, uma a uma, que a parte que lhes compete n\u00e3o pode ficar por fazer. Essa \u00e9 a escolha que ainda est\u00e1 dispon\u00edvel. Por enquanto.<\/p>\n<p><em><strong>Iares Ibero Sombra<\/strong> \u00e9 mestre em Educa\u00e7\u00e3o e jornalista.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma tristeza espec\u00edfica que n\u00e3o vem da surpresa. Vem do reconhecimento. \u00c9 a tristeza de quem olha para o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":446670,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-446669","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/446669","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=446669"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/446669\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/446670"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=446669"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=446669"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=446669"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}