{"id":444642,"date":"2026-05-30T14:15:05","date_gmt":"2026-05-30T18:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=444642"},"modified":"2026-05-30T14:15:05","modified_gmt":"2026-05-30T18:15:05","slug":"quem-foi-melhor-machado-de-assis-ou-dostoievski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=444642","title":{"rendered":"Quem foi melhor: Machado de Assis ou Dostoi\u00e9vski?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Quando o fil\u00f3sofo e escritor Martim Vasques da Cunha publicou no X que &#8220;o pior Dostoi\u00e9vski \u00e9 melhor do que toda a literatura brasileira&#8221;, a rea\u00e7\u00e3o foi imediata. Em poucas horas, a frase acumulou milhares de intera\u00e7\u00f5es e arrastou para a arena nomes como Goethe, Guimar\u00e3es Rosa e Machado de Assis. A provoca\u00e7\u00e3o cumpriu seu papel: for\u00e7ou uma conversa sobre literatura que n\u00e3o estava acontecendo. O problema n\u00e3o \u00e9 a frase em si, mas o formato em que ela circulou. A l\u00f3gica do X premia a tomada de posi\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, n\u00e3o a reflex\u00e3o. O que se tenta aqui \u00e9 levar o debate adiante com mais calma, a partir de um par espec\u00edfico: Dostoi\u00e9vski e Machado de Assis.<\/p>\n<p>A escolha de Machado de Assis como contraponto a Dostoi\u00e9vski n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria. Os dois s\u00e3o, cada um \u00e0 sua maneira, exploradores das profundezas humanas. Otto Maria Carpeaux (1900-1978), o cr\u00edtico austr\u00edaco naturalizado brasileiro que conhecia ambas as tradi\u00e7\u00f5es de dentro, descreveu a psicologia de Machado como &#8220;a de La Rochefoucauld&#8221;: desconfian\u00e7a extrema dos motivos humanos, ceticismo niilista, vis\u00e3o negra do mundo. Sobre Dostoi\u00e9vski, falou em &#8220;paisagens da alma&#8221; e &#8220;psicologia requintada.&#8221;<\/p>\n<p>Harold Bloom (1930-2019), em <em>Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds<\/em>, chamou Machado de &#8220;g\u00eanio da ironia&#8221; e Dostoi\u00e9vski de g\u00eanio da &#8220;dramatiza\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter e personalidade.&#8221; Ambos escavam o ser humano por dentro, mas por caminhos opostos. Machado opera com bisturi ir\u00f4nico, urbanidade reservada e a frieza de quem disseca a mortalidade sem perder a compostura. Dostoi\u00e9vski opera por convuls\u00e3o. Seus personagens gritam, confessam, se contradizem, arrastam o leitor at\u00e9 o abismo.<\/p>\n<p>Poucos entendem essa diferen\u00e7a t\u00e3o bem quanto Oleg Almeida. Nascido na Bielorr\u00fassia em 1971 e radicado no Brasil desde 2005, Almeida \u00e9 tradutor, poeta e ensa\u00edsta respons\u00e1vel por verter diretamente do russo para o portugu\u00eas autores como Dostoi\u00e9vski, Tolst\u00f3i, P\u00fachkin e Tch\u00e9khov, em edi\u00e7\u00f5es publicadas por editoras como a Martin Claret e a Lume. Em um ensaio sobre o of\u00edcio da tradu\u00e7\u00e3o, ele descreveu a tenta\u00e7\u00e3o de reescrever o russo &#8220;naquele bonito e correto portugu\u00eas de Machado de Assis que n\u00f3s todos apreciamos tanto.&#8221; O problema, segundo ele, \u00e9 que ao fazer isso &#8220;a aspereza inimit\u00e1vel de seu estilo truncado, ca\u00f3tico, enervado e enervante haveria de desaparecer na vers\u00e3o portuguesa.&#8221; S\u00e3o dois registros que n\u00e3o se convertem um no outro. Para Almeida, em entrevista \u00e0 <em>Gazeta do Povo<\/em>, como representantes da vertente realista, os dois &#8220;s\u00e3o parecidos em v\u00e1rios sentidos&#8221;, da ironia \u00e0 dimens\u00e3o fant\u00e1stica de suas obras. &#8220;Pessoalmente, n\u00e3o percebo nenhum quesito est\u00e9tico ou t\u00e9cnico no qual um deles seja pior do que o outro.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma distin\u00e7\u00e3o que ele faz sem rodeios: &#8220;Como estilista da l\u00edngua portuguesa, Machado \u00e9 bem melhor do que Dostoi\u00e9vski em sua qualidade de estilista russo.&#8221; Os textos originais do russo, segundo Almeida, &#8220;s\u00e3o muito chatos de ler, \u00e0s vezes intrag\u00e1veis&#8221;, raz\u00e3o pela qual costumam ser traduzidos de modo adaptativo mundo afora, &#8220;com o prop\u00f3sito de n\u00e3o afugentar o p\u00fablico inexperiente.&#8221; O Dostoi\u00e9vski que o leitor ocidental conhece, em suma, j\u00e1 chegou filtrado.<\/p>\n<h2>O que Carpeaux e Bloom n\u00e3o fizeram<\/h2>\n<p>\u00c9 revelador que os dois cr\u00edticos que mais poderiam ter autorizado uma compara\u00e7\u00e3o direta simplesmente n\u00e3o a fizeram.<\/p>\n<p>Carpeaux chamou Machado de &#8220;o maior escritor da literatura brasileira&#8221; e Dostoi\u00e9vski de &#8220;se n\u00e3o o maior, decerto o mais poderoso escritor do s\u00e9culo XIX.&#8221; Mas fez isso em ensaios separados, com crit\u00e9rios distintos, sem jamais coloc\u00e1-los em uma balan\u00e7a. Mais do que isso, dedicou p\u00e1ginas a situar cada autor no seu contexto civilizacional. Machado \u00e9 &#8220;um grande escritor vitoriano&#8221; que emerge de um &#8220;Rio de Janeiro semicolonial&#8221;; Dostoi\u00e9vski \u00e9 um escritor pol\u00edtico apaixonado cuja obra se insere no debate entre &#8220;ocidentais&#8221; e &#8220;eslav\u00f3filos.&#8221; Compar\u00e1-los exigiria comparar os mundos inteiros que os produziram, algo que um post no X n\u00e3o comporta.<\/p>\n<p>Bloom foi al\u00e9m. Em <em>Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds<\/em>, organizou seus 100 g\u00eanios segundo as Sefirot da Cabala, a tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica do juda\u00edsmo que descreve dez atributos pelos quais Deus se manifesta no mundo. Cada atributo nomeia um grupo de cinco autores. Dostoi\u00e9vski aparece em Malkhut, o Reino, ao lado de Dickens, Babel, Celan e Ellison, chamados de &#8220;romancistas vision\u00e1rios do grotesco.&#8221; Machado aparece em Yesod, o Fundamento, ao lado de Flaubert, E\u00e7a de Queiroz, Borges e Calvino, os &#8220;mestres da narrativa er\u00f3tica&#8221; no sentido amplo de desejo e jogo formal. S\u00e3o categorias que operam em registros t\u00e3o diferentes que a pergunta &#8220;quem \u00e9 melhor?&#8221; n\u00e3o encontra resposta poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Oleg Almeida tem uma formula\u00e7\u00e3o mais direta: &#8220;Comparar Dostoi\u00e9vski e Machado de Assis daria, mais ou menos, no mesmo que comparar uma b\u00e9tula com um coqueiro.&#8221;<\/p>\n<h2>A assimetria que ningu\u00e9m menciona<\/h2>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma distin\u00e7\u00e3o que precisa ser feita com honestidade. Dostoi\u00e9vski \u00e9 incomparavelmente mais publicado, traduzido e estudado do que Machado no cen\u00e1rio global. E isso n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de m\u00e9rito. \u00c9 uma quest\u00e3o de infraestrutura.<\/p>\n<p>Carpeaux registrou que, em 1870, apareceram as primeiras tradu\u00e7\u00f5es de Rask\u00f3lnikov na Europa. De l\u00e1 em diante, Dostoi\u00e9vski alimentou o existencialismo franc\u00eas, a filosofia alem\u00e3 (Nietzsche o chamou de &#8220;um dos maiores psic\u00f3logos&#8221;), o cinema de autor de Kurosawa e Bergman, o teatro de Stanislavski e Peter Brook. Existe uma Sociedade Dostoi\u00e9vski no Jap\u00e3o desde 1969. Um volume especial de 2025 da revista acad\u00eamica Studies in East European Thought reuniu pesquisadores de mais de doze pa\u00edses, da R\u00fassia \u00e0 Turquia, passando por China, Austr\u00e1lia e Quirguist\u00e3o. Sua editora conclui que os estudos dostoievskianos formam &#8220;uma disciplina\u201d que oferece &#8220;ao mundo diverso e dividido de hoje uma plataforma est\u00e9tica na qual se unir.&#8221;<\/p>\n<p>Machado, por sua vez, s\u00f3 come\u00e7ou a ser traduzido para o ingl\u00eas nos anos 1950. Em uma entrevista \u00e0 <em>Folha de S.Paulo<\/em>, Bloom confessou que s\u00f3 havia lido Br\u00e1s Cubas no original tardiamente e que ficara &#8220;absolutamente em choque.&#8221; Um estudo de Bethany Beyer publicado em uma publica\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo, em 2019, mostra que a entrada de Machado no c\u00e2none mundial foi filtrada por g\u00eanero: o mundo absorveu apenas seus romances. Teatro, poesia, cr\u00f4nicas ficaram de fora.<\/p>\n<p>Almeida conhece esse abismo de perto. Ele conta que tentou, mais de uma vez, traduzir e publicar um romance de Machado no espa\u00e7o russ\u00f3fono. O resultado foi frustrante: &#8220;Nenhum daqueles editores profissionais com quem cheguei a discutir o assunto fazia a menor ideia de quem era Machado nem da pr\u00f3pria exist\u00eancia de algum escritor de peso, salvo Jorge Amado e Paulo Coelho, no Brasil.&#8221; O tradutor acabou desistindo do projeto. Mas sua convic\u00e7\u00e3o permanece intacta: &#8220;Se Machado tivesse o mesmo apoio acad\u00eamico e, sobretudo, midi\u00e1tico que Dostoi\u00e9vski, estaria no mesmo n\u00edvel do seu colega russo, aqui e na China.&#8221;<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre fama e grandeza, nesse caso, pode ser apenas uma quest\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o e circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<h2>O lugar do ranking<\/h2>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o tipo de compara\u00e7\u00e3o que viralizou no X tenha pouco a ver com o trabalho que cr\u00edticos como Carpeaux e Bloom fizeram ao longo de suas carreiras. O primeiro n\u00e3o hierarquizou Machado e Dostoi\u00e9vski. Bloom tampouco.<\/p>\n<p>Nenhum deles precisou rebaixar uma tradi\u00e7\u00e3o para exaltar outra. Julgamentos de valor existem na cr\u00edtica liter\u00e1ria e s\u00e3o necess\u00e1rios. Mas costumam operar dentro de tradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o entre elas como se fossem times de futebol. Dizer que Dostoi\u00e9vski \u00e9 um g\u00eanio n\u00e3o exige dizer que Machado n\u00e3o \u00e9. Ambos est\u00e3o na lista de Bloom. Ambos foram reconhecidos por Carpeaux.<\/p>\n<p>Almeida, ali\u00e1s, lembra que o pr\u00f3prio Dostoi\u00e9vski n\u00e3o \u00e9 unanimidade nem em casa. &#8220;J\u00e1 encontrei em Moscou, na d\u00e9cada de 1990, certas pessoas do meio liter\u00e1rio que chamavam Dostoi\u00e9vski de &#8216;p\u00e1lida sombra do grande Paulo Coelho'&#8221;, conta. &#8220;O que me leva a crer que na casa de ferreiro, o espeto \u00e9 de pau mesmo, tanto no Brasil como na R\u00fassia.&#8221;<\/p>\n<h2>O que o debate revela sobre n\u00f3s<\/h2>\n<p>O debate no X diz menos sobre Dostoi\u00e9vski e Machado do que sobre o estado da conversa liter\u00e1ria no Brasil. A provoca\u00e7\u00e3o de Cunha tocou num nervo real: existe uma insatisfa\u00e7\u00e3o com o rumo da literatura brasileira contempor\u00e2nea, que vive uma crise identit\u00e1ria. Mas a resposta a essa insatisfa\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o passe por medir autores nacionais contra gigantes estrangeiros, e sim por ler ambos com mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta, para Almeida, \u00e9 mais simples do que parece: &#8220;Dostoi\u00e9vski j\u00e1 tem seu lugar de honra na hist\u00f3ria das letras universais, e Machado de Assis est\u00e1 esperando, humilde e pacientemente, pelo dele. O Brasil deveria divulgar seus melhores artistas l\u00e1 fora em vez de compar\u00e1-los aos astros estrangeiros.&#8221;<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, o tradutor deu um conselho aos leitores brasileiros que talvez seja o melhor fecho para a discuss\u00e3o: &#8220;Leiam Balzac, Dostoi\u00e9vski, Machado de Assis e outros autores s\u00e9rios. Nem que essa leitura pare\u00e7a chata e cansativa, n\u00e3o lhes ensinar\u00e1 nada que seja prejudicial. E n\u00e3o confiem demais naquelas informa\u00e7\u00f5es negativas, amb\u00edguas ou sensacionais que circulam pelo espa\u00e7o virtual: s\u00f3 lendo e refletindo \u00e9 que ter\u00e3o uma opini\u00e3o consciente e independente.&#8221;<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o fil\u00f3sofo e escritor Martim Vasques da Cunha publicou no X que &#8220;o pior Dostoi\u00e9vski \u00e9 melhor do que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":444643,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-444642","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/444642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=444642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/444642\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/444643"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=444642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=444642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=444642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}