{"id":444454,"date":"2026-05-30T13:00:00","date_gmt":"2026-05-30T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=444454"},"modified":"2026-05-30T13:00:00","modified_gmt":"2026-05-30T17:00:00","slug":"o-fim-do-pacto-de-ilha-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=444454","title":{"rendered":"O fim do Pacto de Ilha Grande"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/29164246\/comando-vermelho-belem.jpg.webp\" \/><span>Poste com sigla do Comando Vermelho em Bel\u00e9m (PA): Amaz\u00f4nia \u00e9 nova fronteira da a\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es. (Foto: Sebasti\u00e3o Moreira\/EFE)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><em>\u201cO Brasil ser\u00e1 um dos pa\u00edses mais respeitados do mundo no crime organizado.\u201d<\/em> (Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, durante a cerim\u00f4nia de san\u00e7\u00e3o do PL Antifac\u00e7\u00e3o, em mar\u00e7o de 2026)<\/p>\n<p>Para compreender por que a decis\u00e3o do governo Trump de classificar o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/comando-vermelho\/\">Comando Vermelho<\/a> e o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/pcc\/\">PCC <\/a>como organiza\u00e7\u00f5es <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/terrorismo\/\">terroristas <\/a>provocou tanto frenesi no campo lulopetista \u2013 e nos seus sat\u00e9lites habituais no mercado financeiro, na academia e no <em>establishment <\/em>midi\u00e1tico \u2013, \u00e9 necess\u00e1rio recuar at\u00e9 onde tudo come\u00e7ou: uma ilha no litoral do Rio de Janeiro, nos anos finais da ditadura militar.<\/p>\n<p>No Instituto Penal C\u00e2ndido Mendes, na Ilha Grande, militantes da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional, do MR-8 e de outros grupos de esquerda armada dividiam celas com assaltantes, ladr\u00f5es de banco e criminosos comuns. Os guerrilheiros tinham algo que os bandidos n\u00e3o tinham: disciplina clandestina, estrutura celular, c\u00f3digos de solidariedade interna, m\u00e9todos de resist\u00eancia coletiva ao Estado. Mais do que um catecismo marxista-leninista, o que se ministrou nesse conv\u00edvio foi algo mais dur\u00e1vel e mais perigoso: um conjunto de t\u00e9cnicas organizacionais que transformou uma gangue de pres\u00eddio na primeira grande fac\u00e7\u00e3o criminosa moderna do Brasil. Nasceu assim a Falange Vermelha, antecessora direta do Comando Vermelho. O lema era \u201cPaz, Justi\u00e7a e Liberdade\u201d \u2013 vocabul\u00e1rio cuja proveni\u00eancia dispensava maiores apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nos anos 1960, a esquerda revolucion\u00e1ria brasileira havia absorvido a ideia de que o bandido poderia ser agente disruptivo da ordem burguesa<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Antes que acidente, tratava-se ali do desdobramento natural de uma reorienta\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria que o historiador marxista Jacob Gorender apontou em <em>Combate nas Trevas<\/em>: nos anos 1960, a esquerda revolucion\u00e1ria brasileira havia absorvido, sob influ\u00eancia de Fanon, Guevara e Mao, a ideia de que o lumpemproletariado \u2013 o marginal, o delinquente, o bandido \u2013 poderia ser \u201carrancado da colabora\u00e7\u00e3o com a pol\u00edcia e convertido em revolucion\u00e1rio\u201d. O criminoso como agente disruptivo da ordem burguesa: \u201cSeja marginal, seja her\u00f3i\u201d, como sintetizaria H\u00e9lio Oiticica. Quando essa mentalidade encontrou os presos comuns de Ilha Grande, o resultado foi o Comando Vermelho.<\/p>\n<p>Um outro cap\u00edtulo da mesma hist\u00f3ria foi escrito em S\u00e3o Paulo. Em dezembro de 1989, \u00e0s v\u00e9speras do segundo turno que disputaria com Fernando Collor, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/lula\/\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a> viu o seu empres\u00e1rio-s\u00edmbolo, Ab\u00edlio Diniz, ser sequestrado por um grupo internacional composto por brasileiros, argentinos, canadenses e militantes do MIR chileno \u2013 o Movimiento de Izquierda Revolucionaria, organiza\u00e7\u00e3o marxista-leninista que integrava o mesmo universo pol\u00edtico do PT e que figuraria entre as organiza\u00e7\u00f5es associadas ao <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/foro-de-sao-paulo\/\">Foro de S\u00e3o Paulo<\/a>. Preso o bando, parte dos sequestradores foi parar no Carandiru. Anos depois, Lula admitiu publicamente ter procurado FHC \u2013 e tamb\u00e9m o ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a, Renan Calheiros \u2013 para interceder pela soltura desses presos. A justificativa apresentada foi humanit\u00e1ria: eles estavam em greve de fome. Mas chama aten\u00e7\u00e3o que a solidariedade humanit\u00e1ria de Lula tenha se mobilizado precisamente em favor de militantes do MIR, parceiros no Foro de S\u00e3o Paulo, e n\u00e3o, digamos, em favor das v\u00edtimas de seus crimes. O que esses presos deixaram no Carandiru foi igualmente relevante: tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o clandestina via celular que transformariam qualitativamente a capacidade de coordena\u00e7\u00e3o do PCC \u2013 capacidade que, por fim, o levaria de uma gangue paulistana a uma organiza\u00e7\u00e3o narcoterrorista transnacional.<\/p>\n<p>O terceiro cap\u00edtulo foi continental. Em 1990, Lula e Fidel Castro fundaram o Foro de S\u00e3o Paulo \u2013 a grande articula\u00e7\u00e3o da esquerda latino-americana no p\u00f3s-Guerra Fria, que reunia, sob o mesmo teto, partidos legais, movimentos guerrilheiros e organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de diversas matizes, incluindo o pr\u00f3prio MIR. O Foro n\u00e3o inventou o narcotr\u00e1fico, mas forneceu a cobertura ideol\u00f3gica para que regimes como o venezuelano transformassem a coca\u00edna num instrumento geopol\u00edtico. Sob Hugo Ch\u00e1vez e depois Nicol\u00e1s Maduro, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/venezuela\/\">Venezuela <\/a>tornou-se o narcoestado por excel\u00eancia do hemisf\u00e9rio.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Roberto Brice\u00f1o-Le\u00f3n, do Observat\u00f3rio Venezuelano da Viol\u00eancia, documentou o mecanismo com precis\u00e3o: a explos\u00e3o de crimes violentos durante o chavismo n\u00e3o foi acidental, mas resultado de um c\u00e1lculo pol\u00edtico deliberado. O governo desacreditou sistematicamente a pol\u00edcia, promoveu o desarmamento das for\u00e7as de seguran\u00e7a e estimulou, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o estatais, a narrativa de que a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/violencia\/\">viol\u00eancia <\/a>pode ser um instrumento leg\u00edtimo de transforma\u00e7\u00e3o social. Em 1998, quando Ch\u00e1vez chegou ao poder, a Venezuela registrava 4.550 homic\u00eddios anuais. Em 2004, ap\u00f3s seis anos de governo, o n\u00famero quase triplicara. Com Maduro, chegaria a 92 homic\u00eddios por 100 mil habitantes. Para o chavismo, a explos\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/criminalidade\/\">criminalidade <\/a>n\u00e3o era um problema, mas um projeto.<\/p>\n<p>No Brasil de 2026, a investiga\u00e7\u00e3o sobre o esc\u00e2ndalo do INSS tem revelado uma rede de dezenas empresas de fachada que movimentou bilh\u00f5es de reais, e que vem sendo utilizada por criminosos do PCC e do Hezbollah liban\u00eas. Deolane Bezerra, presa h\u00e1 alguns dias no \u00e2mbito de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre lavagem de dinheiro da mesma fac\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado: \u00e9 um n\u00f3 vis\u00edvel numa teia que atravessa advogados, influenciadores, artistas e operadores pol\u00edticos. Que o presidente da Rep\u00fablica e sua esposa tenham encontrado tempo para lhe dispensar aten\u00e7\u00e3o e afeto n\u00e3o \u00e9 um detalhe de coluna social, mas um sintoma da rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua entre a pol\u00edtica de esquerda e o banditismo \u2013 rela\u00e7\u00e3o que vem se cultivando, como vimos, desde Ilha Grande.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a decis\u00e3o do Departamento de Estado de classificar CV e PCC como organiza\u00e7\u00f5es terroristas foi tudo menos um capricho geopol\u00edtico. Trata-se do reconhecimento formal de que o PCC e o CV s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es transnacionais que operam na Europa, na \u00c1frica e nas Am\u00e9ricas, financiam campanhas pol\u00edticas, patrocinam carreiras no Judici\u00e1rio, bancam influenciadores e artistas para promover a narcocultura, e defendem pautas \u2013 desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias, desencarceramento progressivo \u2013 que coincidem, com not\u00e1vel regularidade, com as bandeiras hist\u00f3ricas da esquerda revolucion\u00e1ria brasileira.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O di\u00e1logo cabuloso durou d\u00e9cadas, mas Washington acaba de interceptar a liga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/flavio-bolsonaro\/\">Fl\u00e1vio Bolsonaro <\/a>\u2013 com o apoio de seu irm\u00e3o Eduardo e do jornalista Paulo Figueiredo \u2013 junto ao governo Trump merece ser celebrada sem rodeios: enquanto o governo Lula fazia lobby em Washington para blindar essas organiza\u00e7\u00f5es da classifica\u00e7\u00e3o terrorista, a oposi\u00e7\u00e3o brasileira trabalhava para que a realidade fosse nomeada pelo seu nome. O posicionamento de Fl\u00e1vio Bolsonaro tamb\u00e9m abre caminho para que o Brasil integre o Escudo das Am\u00e9ricas \u2013 a coaliz\u00e3o de combate ao narcotr\u00e1fico e ao crime organizado transnacional criada por Trump em mar\u00e7o \u2013, com compartilhamento de intelig\u00eancia, coordena\u00e7\u00e3o operacional e rastreamento de lavagem de dinheiro em escala global. Uma oportunidade hist\u00f3rica, mas que depende, por \u00f3bvio, da queda do regime luloalexandrino.<\/p>\n<p>O campo lulopetista reagiu como de costume: com a histeria de quem viu o lobby que financiou ser desfeito por decreto. Parte do mercado financeiro reclamou de inseguran\u00e7a jur\u00eddica. A academia produziu notas de rep\u00fadio. Os jornais de refer\u00eancia mobilizaram suas bancadas para explicar que a medida era politicamente motivada \u2013 \u201cmais um golpe do bolsonarismo\u201d, chegou a dizer uma extremista de esquerda na Globo News. Especialistas foram convocados para denunciar o risco de viola\u00e7\u00e3o da soberania nacional. Uma desembargadora entrevistada pela CNN chegou a lamentar que as medidas houvessem \u2013 creiam! \u2013 aumentado o pre\u00e7o da coca\u00edna no mercado. Um horror! Nenhum deles se deu ao trabalho de explicar por que o governo brasileiro vinha fazendo lobby em Washington precisamente para evitar que as organiza\u00e7\u00f5es agora designadas terroristas recebessem essa denomina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo cabuloso durou d\u00e9cadas, mas Washington acaba de interceptar a liga\u00e7\u00e3o. E, nos pr\u00f3ximos anos, as coisas n\u00e3o devem ficar bonitas para os signat\u00e1rios e herdeiros do velho Pacto de Ilha Grande.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poste com sigla do Comando Vermelho em Bel\u00e9m (PA): Amaz\u00f4nia \u00e9 nova fronteira da a\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es. 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