{"id":443494,"date":"2026-05-30T05:02:00","date_gmt":"2026-05-30T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=443494"},"modified":"2026-05-30T05:02:00","modified_gmt":"2026-05-30T09:02:00","slug":"o-itamaraty-partidarizado-como-a-diplomacia-brasileira-virou-aparelho-ideologico-do-lulopetismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=443494","title":{"rendered":"O Itamaraty partidarizado: como a diplomacia brasileira virou aparelho ideol\u00f3gico do lulopetismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 gestos pequenos que dizem mais do que discursos inteiros. Em 26 de maio, o senador <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/flavio-bolsonaro\/\">Fl\u00e1vio Bolsonaro<\/a> deixou o Sal\u00e3o Oval da Casa Branca, onde fora recebido por <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/donald-trump\/\">Donald Trump<\/a>, e procurou, para falar \u00e0 imprensa, o \u00fanico lugar que em tese deveria estar naturalmente aberto a um parlamentar brasileiro em solo americano: a embaixada do seu pr\u00f3prio pa\u00eds. A porta n\u00e3o se abriu.<\/p>\n<p>A representa\u00e7\u00e3o do Brasil em Washington, consultada com anteced\u00eancia sobre a cess\u00e3o de uma sala para uma entrevista coletiva, respondeu, inicialmente, que n\u00e3o havia comprova\u00e7\u00e3o do <em>car\u00e1ter oficial<\/em> da visita e que, por envolver <em>recursos p\u00fablicos<\/em>, o apoio n\u00e3o poderia ser prestado. Posteriormente, informou n\u00e3o haver tempo h\u00e1bil para tratar da solicita\u00e7\u00e3o, em virtude de um feriado nacional americano. O pr\u00e9-candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e uma das principais lideran\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o teve de improvisar a coletiva num endere\u00e7o alternativo. A sala vazia que ficou para tr\u00e1s tornou-se o retrato mais eloquente da pol\u00edtica externa mesquinha, pusil\u00e2nime e enviesada do lulopetismo.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m ser justo com o argumento da embaixada, ainda que apenas para desmont\u00e1-lo com mais precis\u00e3o. \u00c9 verdade que o uso de espa\u00e7o e de recursos p\u00fablicos exige formaliza\u00e7\u00e3o, e que uma agenda de natureza eleitoral n\u00e3o obriga miss\u00e3o diplom\u00e1tica alguma a transformar-se em palanque. A obje\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o sobrevive ao teste elementar de qualquer alega\u00e7\u00e3o de neutralidade, que \u00e9 a simetria.<\/p>\n<p>Uma institui\u00e7\u00e3o \u00e9 imparcial n\u00e3o quando recita o regulamento, mas quando o aplica com a mesma frieza a aliados e advers\u00e1rios do governo de plant\u00e3o. O zelo s\u00fabito pela papelada, acionado contra um senador da oposi\u00e7\u00e3o que acabara de se reunir com o homem mais poderoso do planeta, denuncia menos um apre\u00e7o pela norma do que um reflexo de pertencimento. Burocracias capturadas t\u00eam um tra\u00e7o inconfund\u00edvel: a r\u00e9gua encolhe ou se alonga conforme a cor de quem a invoca.<\/p>\n<p>Inicialmente, cabe relembrar que n\u00e3o se tratou de uma agenda de cunho eleitoral, como alegado, mas de uma reuni\u00e3o de trabalho solicitada pela pr\u00f3pria Casa Branca para discutir temas de interesse dos dois pa\u00edses, n\u00e3o tendo sido intermediada por nenhum empres\u00e1rio obscuro e com interesses inconfess\u00e1veis. Ademais, o argumento de falta de comunica\u00e7\u00e3o entre a chancelaria e a embaixada, bem como a alega\u00e7\u00e3o de escassez de tempo para processar o pedido, traduzem-se simplesmente como incompet\u00eancia e partidarismo.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio ultrapassou a esfera do sectarismo burocr\u00e1tico e evidenciou a convers\u00e3o da diplomacia em instrumento de milit\u00e2ncia. A pol\u00edtica externa deixou de ser concebida como mecanismo de proje\u00e7\u00e3o de interesses nacionais permanentes para transformar-se em extens\u00e3o psicol\u00f3gica e ideol\u00f3gica do grupo pol\u00edtico que, infelizmente, ainda ocupa o poder. Em vez de formular estrat\u00e9gia, o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/itamaraty\/\">Itamaraty<\/a> passou a administrar afinidades. Em vez de ampliar margens de poder do Estado brasileiro, passou a reproduzir alinhamentos emocionais, prefer\u00eancias partid\u00e1rias e antagonismos eleitorais.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Receber, ent\u00e3o, formalmente um pr\u00e9-candidato \u00e9, na gram\u00e1tica do poder, um aceno evidente de legitima\u00e7\u00e3o. Fechar-lhe a porta da pr\u00f3pria embaixada \u00e9, na mesma gram\u00e1tica, um desservi\u00e7o ao pa\u00eds inteiro, porque empobrece o Brasil <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esse desvio ajuda a explicar por que o Brasil, mesmo sendo uma das maiores economias do planeta e pot\u00eancia natural em energia, alimentos e minerais cr\u00edticos, atravessa uma das fases de maior irrelev\u00e2ncia estrat\u00e9gica de sua hist\u00f3ria recente. O pa\u00eds fala alto em f\u00f3runs ideol\u00f3gicos, mas pesa pouco nas decis\u00f5es centrais do sistema internacional. Multiplicam-se discursos grandiloquentes sobre \u201cSul Global\u201d, multipolaridade e governan\u00e7a alternativa, enquanto faltam objetivos concretos, prioridades definidas e qualquer concep\u00e7\u00e3o s\u00e9ria de interesse nacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende, portanto, que o senador tenha reagido com uma pergunta que, de t\u00e3o direta, beira o constrangimento: desde quando a diplomacia brasileira passou a agir como extens\u00e3o partid\u00e1ria do PT, um puxadinho do Planalto? A nota divulgada por sua equipe lembrou o \u00f3bvio, que uma embaixada representa o Estado brasileiro e n\u00e3o os interesses partid\u00e1rios do PT ou do governo Lula, e que \u00e9 inadmiss\u00edvel ver um espa\u00e7o p\u00fablico, pertencente \u00e0 na\u00e7\u00e3o, usado de forma seletiva para atender conveni\u00eancias ideol\u00f3gicas. O \u00f3bvio, no Brasil de hoje, virou tese pol\u00eamica.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio n\u00e3o \u00e9 avulso, e seria um erro trat\u00e1-lo como mera grosseria protocolar. Ele se inscreve numa disputa de gravidade maior. Poucas semanas antes, no come\u00e7o de maio, o pr\u00f3prio Lula estivera com Trump e pedira, em ess\u00eancia, que Washington n\u00e3o interferisse nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras. Trump respondeu \u00e0 sua maneira, recebendo no Sal\u00e3o Oval o principal nome da oposi\u00e7\u00e3o brasileira, sob articula\u00e7\u00e3o da c\u00fapula republicana e com o concurso do secret\u00e1rio de Estado Marco Rubio, o qual, assim como o vice-presidente Vance, tamb\u00e9m o recebeu em reuni\u00e3o privada separada.<\/p>\n<p>H\u00e1, nisso, um recado que o Itamaraty finge n\u00e3o escutar: a elei\u00e7\u00e3o de outubro ser\u00e1 decidida numa margem estreita. Uma embaixada que se comporta como se a altern\u00e2ncia fosse imposs\u00edvel aposta contra a pr\u00f3pria raz\u00e3o de existir, que \u00e9 servir ao Brasil que vier, e n\u00e3o ao Brasil que se prefere.<\/p>\n<p>Soma-se a isso um pano de fundo que torna o gesto ainda mais imprudente. Depois do epis\u00f3dio tarif\u00e1rio do ano passado, em que Washington chegou a usar a sobretaxa de produtos brasileiros como instrumento de press\u00e3o pol\u00edtica, qualquer sinal de reaproxima\u00e7\u00e3o entre a oposi\u00e7\u00e3o e a Casa Branca passou a carregar densidade estrat\u00e9gica evidente.<\/p>\n<p>Receber, ent\u00e3o, formalmente um pr\u00e9-candidato \u00e9, na gram\u00e1tica do poder, um aceno evidente de legitima\u00e7\u00e3o. Fechar-lhe a porta da pr\u00f3pria embaixada \u00e9, na mesma gram\u00e1tica, um desservi\u00e7o ao pa\u00eds inteiro, porque empobrece o Brasil diante do seu maior interlocutor e o rebaixa \u00e0 estatura de um comit\u00ea de campanha governista.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Pa\u00edses estrategicamente maduros diversificam rela\u00e7\u00f5es sem destruir pontes, ampliam margens de manobra sem transformar diplomacia em palanque e preservam canais institucionais independentemente de prefer\u00eancias partid\u00e1rias<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essa deteriora\u00e7\u00e3o \u00e9 agravada por um tra\u00e7o particularmente nocivo da atual pol\u00edtica externa, que \u00e9 a confus\u00e3o entre ativismo ideol\u00f3gico e autonomia estrat\u00e9gica. Sob o lulopetismo, consolidou-se a cren\u00e7a de que hostilidade ret\u00f3rica ao Ocidente equivale automaticamente a soberania nacional. N\u00e3o equivale.<\/p>\n<p>Pa\u00edses estrategicamente maduros diversificam rela\u00e7\u00f5es sem destruir pontes, ampliam margens de manobra sem transformar diplomacia em palanque e preservam canais institucionais independentemente de prefer\u00eancias partid\u00e1rias. Lula faz precisamente o contr\u00e1rio, ao tensionar rela\u00e7\u00f5es com democracias centrais sem obter contrapartidas relevantes, aproximar-se simbolicamente de regimes autorit\u00e1rios sem ganhos proporcionais e converter temas de pol\u00edtica externa em instrumentos de consumo ideol\u00f3gico interno.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia inevit\u00e1vel \u00e9 a perda de credibilidade. Parceiros internacionais toleram diverg\u00eancias, mas o que raramente respeitam \u00e9 improvisa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica travestida de virtude moral. E h\u00e1 algo de profundamente improvisado numa diplomacia que alterna antiamericanismo ret\u00f3rico, submiss\u00e3o econ\u00f4mica \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/china\/\">China<\/a> e pretens\u00f5es grandiloquentes de lideran\u00e7a global sem conseguir sequer definir quais s\u00e3o, afinal, os interesses permanentes do Brasil no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O problema, contudo, \u00e9 ainda mais fundo do que uma sala negada. Ele \u00e9 estrutural, e duas d\u00e9cadas de hegemonia lulopetista o sedimentaram com m\u00e9todo. A diplomacia brasileira foi lenta e pacientemente reconfigurada para confundir o Estado com o pr\u00edncipe. Os grandes servi\u00e7os exteriores profissionais do Ocidente, do <em>Foreign Office<\/em> brit\u00e2nico ao <em>Quai d\u2019Orsay<\/em> franc\u00eas, ergueram sua autoridade justamente sobre a distin\u00e7\u00e3o entre a Coroa e o ocupante tempor\u00e1rio do poder: o funcion\u00e1rio serve \u00e0 continuidade, sobrevive aos gabinetes, atravessa as maiorias.<\/p>\n<p>No Brasil, inverteu-se a equa\u00e7\u00e3o. Na gest\u00e3o de Mauro Vieira, consolidou-se um alinhamento que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas ideol\u00f3gico, \u00e9 quase existencial. \u00c9 o mesmo Itamaraty que, meses atr\u00e1s, municiou o Supremo com a tese de que a visita de um assessor norte-americano a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/jair-bolsonaro\/\">Jair Bolsonaro<\/a> configuraria <em>interfer\u00eancia<\/em> em assuntos internos, e que agora descobre, diante de um pedido de sala, um repentino e seletivo apego \u00e0 formalidade.<\/p>\n<p>Pense-se numa edifica\u00e7\u00e3o \u00e0 qual se retira, discretamente, a parede mestra, substituindo-a por uma viga pintada da cor da fac\u00e7\u00e3o. Enquanto o tempo est\u00e1 bom e o poder n\u00e3o muda de m\u00e3os, nada parece fora do lugar. A prova de carga vem depois, quando a estrutura precisa suportar uma altern\u00e2ncia. \u00c9 exatamente esse o ponto cego da diplomacia aparelhada, que funciona maravilhosamente para um \u00fanico peso, o do grupo que a moldou, e amea\u00e7a ruir diante de qualquer outro.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma diplomacia aparelhada n\u00e3o produz apenas constrangimentos epis\u00f3dicos ou gafes protocolares; ela compromete a pr\u00f3pria capacidade do Estado de pensar estrategicamente<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para isso concorre um v\u00edcio que antecede o petismo, mas que o petismo soube explorar como ningu\u00e9m: uma carreira organizada em torno da patente na pessoa, e n\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o, tende a premiar a lealdade vis\u00edvel mais do que o resultado mensur\u00e1vel. E uma institui\u00e7\u00e3o que recompensa o bajulador acaba, inexoravelmente, produzindo bajuladores. N\u00e3o por acaso, tantos quadros saborearam, sem o menor pudor, a hostilidade ao governo Jair Bolsonaro, como quem antecipa a fatura que o pr\u00f3ximo patr\u00e3o haver\u00e1 de cobrar.<\/p>\n<p>Talvez resida a\u00ed a dimens\u00e3o mais perigosa do problema. Uma diplomacia aparelhada n\u00e3o produz apenas constrangimentos epis\u00f3dicos ou gafes protocolares; ela compromete a pr\u00f3pria capacidade do Estado de pensar estrategicamente.<\/p>\n<p>Burocracias capturadas pela l\u00f3gica da fidelidade pol\u00edtica tendem a expulsar, silenciosamente, os quadros independentes, t\u00e9cnicos e intelectualmente sofisticados, substituindo excel\u00eancia por conformidade ideol\u00f3gica. O resultado \u00e9 uma m\u00e1quina que preserva liturgias, mas perde subst\u00e2ncia; mant\u00e9m o ritual diplom\u00e1tico, mas desaprende a formular pol\u00edticas e a projetar poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o Brasil tornou-se simultaneamente mais barulhento e menos influente. Multiplicam-se notas, viagens, c\u00fapulas e declara\u00e7\u00f5es perform\u00e1ticas, enquanto o pa\u00eds perde centralidade em temas decisivos para sua pr\u00f3pria proje\u00e7\u00e3o internacional. Enquanto o mundo reorganiza cadeias produtivas, disputa semicondutores, minerais cr\u00edticos, rotas log\u00edsticas e supremacia tecnol\u00f3gica, a diplomacia brasileira continua aprisionada ao modelo mental dos anos 90, como se a pol\u00edtica internacional ainda orbitasse f\u00f3runs militantes e solidariedades partid\u00e1rias de baixa relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Da\u00ed a urg\u00eancia da reforma, e n\u00e3o a reforma cosm\u00e9tica de organogramas, mas a refunda\u00e7\u00e3o da carreira diplom\u00e1tica brasileira, com a substitui\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do posto na pessoa pela l\u00f3gica da pessoa no posto. Em termos t\u00e9cnicos, migrar de uma estrutura de patente, o <em>rank-in-person<\/em> em que o diplomata carrega seu gal\u00e3o para onde quer que v\u00e1, para uma estrutura de fun\u00e7\u00e3o, o <em>rank-in-position<\/em>, em que a responsabilidade e o t\u00edtulo seguem o cargo efetivamente exercido.<\/p>\n<p>A isso somam-se a progress\u00e3o por pontos, as trilhas de especializa\u00e7\u00e3o e a proibi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita das cartas informais de recomenda\u00e7\u00e3o, esse mecanismo discreto pelo qual o apadrinhamento se disfar\u00e7a de m\u00e9rito e a sicof\u00e2ncia se converte em moeda de ascens\u00e3o. Uma carreira que premia quem agrada produz cortes\u00e3os; uma que premia quem entrega produz diplomatas. A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 de grau, \u00e9 de natureza.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A moderniza\u00e7\u00e3o do Itamaraty, contudo, n\u00e3o deve ser compreendida apenas como mecanismo de despartidariza\u00e7\u00e3o ou saneamento institucional. Ela precisa ser tamb\u00e9m um projeto de fortalecimento da pr\u00f3pria carreira diplom\u00e1tica, a qual j\u00e1 formou quadros altamente qualificados, reconhecidos internacionalmente por sua capacidade t\u00e9cnica, sofistica\u00e7\u00e3o intelectual e habilidade negociadora. O problema est\u00e1 no gradual afastamento entre sua excel\u00eancia potencial e os incentivos efetivamente produzidos pela estrutura atual.<\/p>\n<p>Uma diplomacia moderna exige mais do que liturgia, antiguidade e reprodu\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica de rotinas. Exige maior profissionalismo, especializa\u00e7\u00e3o real, forma\u00e7\u00e3o continuada, dom\u00ednio t\u00e9cnico em \u00e1reas estrat\u00e9gicas e capacidade de operar num ambiente internacional crescentemente competitivo, tecnol\u00f3gico e orientado por interesses concretos e metas quantific\u00e1veis.<\/p>\n<p>O mundo da geopol\u00edtica contempor\u00e2nea j\u00e1 n\u00e3o se resume a comunicados diplom\u00e1ticos e f\u00f3runs multilaterais: envolve cadeias produtivas cr\u00edticas, intelig\u00eancia artificial, minerais estrat\u00e9gicos, seguran\u00e7a energ\u00e9tica, guerra h\u00edbrida, tecnologia dual, infraestrutura digital, base industrial e produtiva e competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em escala global. Nenhum pa\u00eds relevante enfrentar\u00e1 esse cen\u00e1rio com uma chancelaria organizada segundo l\u00f3gicas administrativas concebidas para o s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Reformar a carreira, portanto, n\u00e3o significa enfraquec\u00ea-la, muito menos hostiliz\u00e1-la. Significa precisamente o contr\u00e1rio, valoriz\u00e1-la, profissionaliz\u00e1-la e reposicion\u00e1-la como instrumento estrat\u00e9gico do Estado brasileiro. Uma diplomacia forte \u00e9 aquela tecnicamente preparada para defender os interesses permanentes da na\u00e7\u00e3o. O objetivo deve ser devolver ao Itamaraty o papel de centro de formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica internacional do Brasil, e n\u00e3o de mera caixa de resson\u00e2ncia ideol\u00f3gica do governo atual ou centro de sabotagem de governos com orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica distinta.<\/p>\n<p>Creio ser essa a tarefa de um eventual governo Fl\u00e1vio Bolsonaro, reconstruir a capacidade estrat\u00e9gica do Estado brasileiro, dotando o pa\u00eds de uma pol\u00edtica externa guiada n\u00e3o por afinidades ideol\u00f3gicas ou solidariedades autom\u00e1ticas a regimes cong\u00eaneres, mas pelo interesse nacional, pelo pragmatismo e pela busca objetiva de poder, prosperidade e prest\u00edgio internacional.<\/p>\n<p>Trata-se de resgatar uma diplomacia de proatividade, capaz de antecipar movimentos do sistema internacional em vez de apenas reagir a eles; de pragmatismo, orientada por resultados concretos e n\u00e3o por slogans militantes; de protagonismo, apta a reposicionar o Brasil nas grandes discuss\u00f5es globais; e de prest\u00edgio, fundada na credibilidade, na compet\u00eancia t\u00e9cnica e na previsibilidade institucional.<\/p>\n<p>Nenhum projeto nacional s\u00e9rio sobreviver\u00e1, por\u00e9m, com uma chancelaria que confunde diplomacia com milit\u00e2ncia, pol\u00edtica de Estado com ativismo partid\u00e1rio e inser\u00e7\u00e3o internacional com performance ideol\u00f3gica para consumo dom\u00e9stico. A reforma e moderniza\u00e7\u00e3o da carreira diplom\u00e1tica, mais do que agenda administrativa, s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o silenciosa para qualquer projeto consistente de desenvolvimento nacional, fortalecimento institucional e afirma\u00e7\u00e3o soberana do Brasil no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Resta, ao fim, a sala vazia de Washington, aquela que n\u00e3o se quis ceder. Ela continuar\u00e1 l\u00e1, como advert\u00eancia. Pois uma diplomacia que n\u00e3o encontra lugar para a metade do pa\u00eds que pensa diferente n\u00e3o est\u00e1 protegendo recurso p\u00fablico algum, est\u00e1 apenas confessando a quem serve. E institui\u00e7\u00f5es que se esquecem de a quem servem costumam ser lembradas, mais cedo ou mais tarde, por quem as paga.<\/p>\n<p><em><strong>Marcos Degaut,<\/strong> ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa e ex-secret\u00e1rio-executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (CAMEX), \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional.<\/em><\/p>\n<p><em>.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 gestos pequenos que dizem mais do que discursos inteiros. 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