{"id":437992,"date":"2026-05-28T13:26:11","date_gmt":"2026-05-28T17:26:11","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=437992"},"modified":"2026-05-28T13:26:11","modified_gmt":"2026-05-28T17:26:11","slug":"colombia-um-pais-envenenado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=437992","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia: um pa\u00eds envenenado"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/28141934\/precio-1.jpg\" \/><span>Laborat\u00f3rio de processamento de folhas de coca no Vale de Guamuez, na Col\u00f4mbia. (Foto: Carlos Ortega\/EFE)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A defesa da legaliza\u00e7\u00e3o da coca\u00edna costuma nascer de uma premissa cruel: a de que o consumo seria apenas uma escolha individual. Um adulto decide o que faz com o pr\u00f3prio corpo, o Estado regula, arrecada impostos, os traficantes perdem mercado e a viol\u00eancia desaparece. A teoria parece perfeita. A realidade, n\u00e3o.<\/p>\n<p>O presidente da Col\u00f4mbia, Gustavo Petro, j\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/petro-defende-a-legalizacao-da-cocaina-e-diz-que-a-droga-nao-e-pior-que-o-uisque\/\">disse <\/a>que a coca\u00edna n\u00e3o seria pior que o whisky. O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em uma frase da qual depois tentou se explicar, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/republica\/lula-traficantes-sao-vitimas-dos-usuarios-tambem\/\">afirmou <\/a>que traficantes seriam v\u00edtimas dos usu\u00e1rios. As duas declara\u00e7\u00f5es partem do mesmo erro: tratam a droga como se ela fosse apenas uma subst\u00e2ncia consumida por algu\u00e9m, e n\u00e3o uma cadeia de destrui\u00e7\u00e3o que come\u00e7a muito antes da venda e continua muito depois do uso.<\/p>\n<p>O estudo \u201cContamina\u00e7\u00e3o Invis\u00edvel\u201d, do Center for a Secure Free Society, organiza\u00e7\u00e3o que dirijo em Washington, D.C., traz alguns elementos inc\u00f4modos para os defensores da libera\u00e7\u00e3o das drogas. Nossa pesquisa analisou amostras de \u00e1gua coletadas em doze cidades colombianas e encontrou tra\u00e7os de coca\u00edna na \u00e1gua ap\u00f3s tratamento nas principais cidades colombianas.<\/p>\n<p>A coca\u00edna foi detectada em Bogot\u00e1, Cali, Cartagena, Popay\u00e1n e Quibd\u00f3. Tamb\u00e9m apareceram nos resultados acetona, metanol, am\u00f4nia, diesel e gasolina em diferentes pontos de coleta.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>A \u00e1gua que milh\u00f5es de colombianos est\u00e3o ingerindo \u00e9 um coquetel qu\u00edmico que sai das zonas de refino, viaja por centenas de quil\u00f4metros de rios e chega ao copo de milh\u00f5es de pessoas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o se trata de epidemia de envenenamento agudo. A gravidade est\u00e1 justamente em outro ponto: a presen\u00e7a desses compostos revela uma exposi\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria, residual, cont\u00ednua e difusa. \u00c9 a qu\u00edmica do narcotr\u00e1fico entrando na rotina de pessoas que nunca escolheram participar dela. A coca\u00edna n\u00e3o deveria estar presente na \u00e1gua.<\/p>\n<p>O estudo oferece n\u00fameros que desmontam qualquer tentativa de romantizar a coca\u00edna como produto recreativo. A produ\u00e7\u00e3o potencial colombiana chegou a 2.664 toneladas m\u00e9tricas em 2023, segundo a ONU. Para cada quilo de coca\u00edna, estima-se a gera\u00e7\u00e3o de aproximadamente 320 litros de rejeitos qu\u00edmicos. S\u00f3 de gasolina, um dos insumos centrais na obten\u00e7\u00e3o da pasta base das folhas de coca, o c\u00e1lculo conservador usado pelo relat\u00f3rio aponta para 284 litros por quilo produzido.<\/p>\n<p>Projetado sobre a produ\u00e7\u00e3o potencial colombiana, isso significaria cerca de 756 milh\u00f5es de litros de gasolina mobilizados em um ano pela economia da coca\u00edna. Essa gasolina \u00e9 misturada com \u00e1cido sulf\u00farico, solventes, acetona, metanol, am\u00f4nia, cal, cimento, permanganato e outros compostos descartados sem tratamento em solos, rios e c\u00f3rregos.<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia j\u00e1 sabia, ou deveria saber, que esse problema existia. Estudos oficiais do IDEAM, \u00f3rg\u00e3o ambiental do pr\u00f3prio governo colombiano, j\u00e1 haviam tratado os cultivos il\u00edcitos e a transforma\u00e7\u00e3o da coca como fontes relevantes de press\u00e3o sobre a qualidade da \u00e1gua. O Estudo Nacional da \u00c1gua de 2022 estimou, com base em dados de 2020, o uso de 326 mil toneladas de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas nos processos de transforma\u00e7\u00e3o da coca, quase todas formadas por solventes org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Isso significa que a contamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma hip\u00f3tese alarmista de laborat\u00f3rio. \u00c9 uma press\u00e3o ambiental reconhecida pelo Estado, agora confirmada por medi\u00e7\u00f5es que chegaram at\u00e9 a \u00e1gua consumida pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os resultados por cidade tornam a abstra\u00e7\u00e3o ainda mais inc\u00f4moda. Na capital Bogot\u00e1, a \u00e1gua p\u00f3s-tratamento apresentou coca\u00edna, metanol, acetona e am\u00f4nia acima dos valores toler\u00e1veis. Em Medell\u00edn, a am\u00f4nia livre no p\u00f3s-tratamento tamb\u00e9m apareceu acima dos par\u00e2metros. Em Monter\u00eda e Florencia, o metanol superou o valor de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Am\u00f4nia, metanol e hidrocarbonetos podem impor uma carga qu\u00edmica cr\u00f4nica sobre f\u00edgado, rins, sistema nervoso e infraestrutura de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. O risco n\u00e3o \u00e9 o espet\u00e1culo da intoxica\u00e7\u00e3o fulminante. \u00c9 a normaliza\u00e7\u00e3o de uma press\u00e3o metab\u00f3lica desnecess\u00e1ria, silenciosa e permanente, na qual crian\u00e7as s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando deparamos com esses n\u00fameros, a compara\u00e7\u00e3o que o presidente Petro fez entre o whisky e a coca\u00edna desaba. Uma garrafa legal de bebida alco\u00f3lica pode gerar depend\u00eancia, acidentes e danos \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Mas ela n\u00e3o exige, para chegar ao consumidor, a tomada armada de territ\u00f3rios, o descarte clandestino de solventes em rios, o financiamento de grupos que desafiam o Estado, a captura de comunidades inteiras e a constru\u00e7\u00e3o de redes transnacionais de precursores, lavagem de dinheiro e corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pergunta n\u00e3o \u00e9 se a coca\u00edna mata mais ou menos que outra subst\u00e2ncia. A pergunta \u00e9 quantas pessoas, ecossistemas e institui\u00e7\u00f5es precisam ser sacrificados para que ela chegue ao nariz de algu\u00e9m. A resposta para isso n\u00e3o est\u00e1 na legaliza\u00e7\u00e3o. A droga seguiria sendo feita nas mesmas condi\u00e7\u00f5es para atender \u00e0s demandas e manter o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O caso colombiano tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 isolado. No Brasil, estudos j\u00e1 identificaram coca\u00edna e benzoylecgonina \u2014 que vem a ser o resultado da metaboliza\u00e7\u00e3o da droga \u2014 no Rio Negro e em igarap\u00e9s urbanos de Manaus, al\u00e9m da Ba\u00eda de Santos. Pesquisadores da Fiocruz detectaram coca\u00edna e seu metab\u00f3lito em tubar\u00f5es capturados na costa do Rio de Janeiro. Na Su\u00e9cia, estudo recente com salm\u00f5es do Atl\u00e2ntico indicou altera\u00e7\u00f5es de movimento em peixes expostos \u00e0 coca\u00edna e \u00e0 benzoylecgonina.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A droga n\u00e3o desaparece depois do consumo. Ela continua circulando no esgoto, nos rios, no mar, nos animais e, em alguns casos, na \u00e1gua que volta para a mesa<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por isso, a tese da \u201clivre escolha\u201d \u00e9 incompleta e moralmente pregui\u00e7osa. O usu\u00e1rio muitas vezes n\u00e3o \u00e9 livre; \u00e9 ref\u00e9m da depend\u00eancia, da dor, do abandono ou da degrada\u00e7\u00e3o social. Mas a sociedade tamb\u00e9m \u00e9 v\u00edtima quando cart\u00e9is transformam essa vulnerabilidade em imp\u00e9rios armados e qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>O traficante n\u00e3o \u00e9 v\u00edtima do usu\u00e1rio. \u00c9 empres\u00e1rio da destrui\u00e7\u00e3o. E a coca\u00edna n\u00e3o \u00e9 apenas o produto de um mercado ilegal. \u00c9 a s\u00edntese de uma cadeia que contamina territ\u00f3rios, compra autoridades, destr\u00f3i comunidades e agora deixa marcas at\u00e9 na \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>A legaliza\u00e7\u00e3o promete tirar o poder dos criminosos. Antes de repetir esse dogma, por\u00e9m, seus defensores precisam responder a perguntas que quase sempre evitam. Quem produzir\u00e1 a coca\u00edna? Em quais territ\u00f3rios? Com quais qu\u00edmicos? Sob qual fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental? Como impedir que mercados legais e ilegais convivam, como j\u00e1 ocorre em tantas economias reguladas e capturadas? Quem pagar\u00e1 pela descontamina\u00e7\u00e3o dos rios, dos solos e dos sistemas de abastecimento? E que autoridade moral ter\u00e1 o Estado para transformar em mercadoria aquilo que j\u00e1 deixou uma pegada qu\u00edmica na \u00e1gua de milh\u00f5es?<\/p>\n<p>\u201cContamina\u00e7\u00e3o Invis\u00edvel\u201d mostra que o narcotr\u00e1fico \u00e9 uma agress\u00e3o difusa. N\u00e3o atinge apenas quem compra, vende ou consome. Ele entra no solo, nos rios, na comida, na infraestrutura urbana e no organismo de pessoas que jamais participaram dessa escolha. Quando uma crian\u00e7a bebe \u00e1gua com coca\u00edna, n\u00e3o h\u00e1 liberdade individual em jogo. H\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o inteira pagando a conta de uma ind\u00fastria criminosa global.<\/p>\n<p>O estudo mapeia ainda a complexa rede de precursores qu\u00edmicos, que s\u00e3o os ingredientes sem os quais n\u00e3o seria poss\u00edvel fazer a coca\u00edna. A maior parte dos insumos \u00e9 produzida na China, que se abst\u00e9m de aplicar os controles necess\u00e1rios para fiscalizar as vendas. Na outra ponta, aqui deste lado do mundo, pa\u00edses como Brasil, Venezuela e Equador funcionam como portos de passagem para ocultar as redes log\u00edsticas que abastecem os cart\u00e9is. Esquentam a opera\u00e7\u00e3o, provendo a cobertura necess\u00e1ria para o fluxo dos qu\u00edmicos que depois ser\u00e3o exportados, formalmente ou n\u00e3o, para a Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s de cada grama aspirada de coca\u00edna ou fumada em forma de crack h\u00e1 um rastro de contamina\u00e7\u00e3o que os ambientalistas n\u00e3o veem, os pa\u00edses produtores ignoram e ao qual pessoas que jamais pensaram um dia ter contato com a coca\u00edna est\u00e3o expostas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laborat\u00f3rio de processamento de folhas de coca no Vale de Guamuez, na Col\u00f4mbia. 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