{"id":435221,"date":"2026-05-27T15:13:48","date_gmt":"2026-05-27T19:13:48","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=435221"},"modified":"2026-05-27T15:13:48","modified_gmt":"2026-05-27T19:13:48","slug":"o-brasil-real-e-muito-menos-polarizado-do-que-imaginamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=435221","title":{"rendered":"O Brasil real \u00e9 muito menos polarizado do que imaginamos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/27161227\/revolucao-federalista.jpg.webp\" \/><span>L\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista, no fim do s\u00e9culo 19: Brasil j\u00e1 viveu epis\u00f3dios graves de rivalidade e viol\u00eancia pol\u00edtica. (Foto: Wikimedia Commons\/Dom\u00ednio p\u00fablico)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u201cVivemos o momento de maior polariza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria\u201d, diz-se nos quatro cantos do pa\u00eds, refletindo uma percep\u00e7\u00e3o que se equivoca quanto ao presente e tamb\u00e9m quanto ao passado.<\/p>\n<p>Em 13 de agosto de 1894, um soldado subiu as escadarias do Pal\u00e1cio de Barro, ent\u00e3o sede do governo do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/rio-grande-do-sul\/\">Rio Grande do Sul<\/a>, levando uma caixa de chap\u00e9u em suas m\u00e3os. A caixa, que seria entregue ao presidente (como se chamava \u00e0 \u00e9poca o governador) do estado, J\u00falio de Castilhos, continha nada mais, nada menos que a cabe\u00e7a de Gumercindo Saraiva, seu maior opositor pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Eram os dias da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista no sul do Brasil. Depois daquela, lutou-se uma guerra em 1823, e outra em 1824 \u2013 eu escrevo do Rio Grande do Sul, onde os conflitos deixaram profundas marcas na mem\u00f3ria coletiva. Em 1930, um golpe de Estado levantou o Brasil em armas. Em 1932, a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista, em S\u00e3o Paulo, foi o mais pr\u00f3ximo que o Brasil j\u00e1 esteve de uma guerra civil. Em 1962, a Campanha da Legalidade conclamou todos que dispunham de armas a levantarem-se contra o Congresso para impor a posse de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/joao-goulart\/\">Jo\u00e3o Goulart<\/a>.<\/p>\n<p>Hoje, nos xingamos no X (o velho Twitter). Os fatos n\u00e3o parecem confirmar a hip\u00f3tese de nunca termos experimentado uma radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica t\u00e3o exacerbada. O passado foi muito mais polarizado do que pode supor quem n\u00e3o o estudou.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O passado foi muito mais polarizado do que pode supor quem n\u00e3o o estudou<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O presente, ademais, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 como pensam os defensores da tese da \u201cmaior polariza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>As manchetes dos jornais, os programas pol\u00edticos, os coment\u00e1rios televisivos e, principalmente, as <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/redes-sociais\/\">redes sociais<\/a> transmitem a sensa\u00e7\u00e3o de que o Brasil est\u00e1 dividido em dois grandes blocos pol\u00edticos perfeitamente organizados, em permanente estado de confronto, e capazes de explicar toda a din\u00e2mica nacional.<\/p>\n<p>Mas talvez a caracter\u00edstica mais interessante da polariza\u00e7\u00e3o brasileira seja justamente o fato de que ela parece muito maior no ambiente da comunica\u00e7\u00e3o e, portanto, na percep\u00e7\u00e3o do grande p\u00fablico, do que na vida cotidiana da maior parte dos brasileiros.<\/p>\n<p>Pesquisa recente da Quaest mostrou que apenas 19% dos brasileiros se identificam como lulistas, enquanto 12% se declaram bolsonaristas. Os n\u00fameros chamam aten\u00e7\u00e3o por um motivo simples: eles indicam que aproximadamente dois ter\u00e7os do eleitorado brasileiro n\u00e3o se identificam diretamente com os dois principais polos pol\u00edticos que florescem no debate nacional.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/lula\/\">Lula <\/a>e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/jair-bolsonaro\/\">Bolsonaro <\/a>n\u00e3o sejam as figuras centrais da pol\u00edtica brasileira contempor\u00e2nea. Evidentemente s\u00e3o. Tampouco significa que a polariza\u00e7\u00e3o seja artificial ou inexistente. Ela existe, influencia elei\u00e7\u00f5es, organiza discursos pol\u00edticos e molda parte importante da din\u00e2mica institucional do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas talvez ela n\u00e3o ocupe na vida real dos brasileiros comuns o mesmo espa\u00e7o que ocupa no ambiente da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o domina o debate p\u00fablico porque ela tem enorme capacidade de produzir engajamento. Conflitos geram aten\u00e7\u00e3o. Antagonismos geram audi\u00eancia. Disputas morais e pol\u00edticas produzem rea\u00e7\u00e3o emocional imediata. As redes sociais, por sua pr\u00f3pria natureza, amplificam esse fen\u00f4meno. Elas privilegiam o confronto, a simplifica\u00e7\u00e3o e a l\u00f3gica das identidades pol\u00edticas r\u00edgidas.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O algoritmo raramente recompensa modera\u00e7\u00e3o, nuance ou complexidade. Ele recompensa <em>intensidade<\/em>. O resultado \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de um ambiente comunicacional em que a polariza\u00e7\u00e3o parece totalizante, como se todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, institucionais e pessoais do pa\u00eds estivessem permanentemente submetidas ao conflito pol\u00edtico nacional.<\/p>\n<p>Mas fora das redes sociais e dos c\u00edrculos mais agudamente politizados, o Brasil real parece funcionar de forma mais complexa e menos ideol\u00f3gica do que frequentemente se imagina.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o domina o debate p\u00fablico porque ela tem enorme capacidade de produzir engajamento<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A maior parte das pessoas continua organizando sua vida em torno de preocupa\u00e7\u00f5es muito mais concretas e imediatas: renda, emprego, seguran\u00e7a, custo de vida, sa\u00fade, transporte, educa\u00e7\u00e3o dos filhos, oportunidades econ\u00f4micas e estabilidade pessoal. A pol\u00edtica aparece, muitas vezes, mais como pano de fundo que como elemento central da identidade individual.<\/p>\n<p>Isso ajuda a explicar um fen\u00f4meno curioso da pol\u00edtica brasileira contempor\u00e2nea: embora a polariza\u00e7\u00e3o domine as m\u00eddias (tradicionais e sociais), existe simultaneamente um eleitorado enorme, vol\u00e1til e pouco r\u00edgido ideologicamente. Um eleitorado que transita, muda de opini\u00e3o, vota pragmaticamente e frequentemente n\u00e3o se sente plenamente representado por nenhum dos polos pol\u00edticos em disputa.<\/p>\n<p>Talvez por isso as elei\u00e7\u00f5es brasileiras, apesar da ret\u00f3rica fortemente antagonizada, continuem sendo muito mais disputadas no centro do eleitorado do que nas extremidades mais mobilizadas.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 exclusivamente brasileiro. Democracias contempor\u00e2neas vivem, em maior ou menor grau, uma dissocia\u00e7\u00e3o entre o ambiente hiperpolitizado das redes e a vida pr\u00e1tica das maiorias silenciosas. A comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica passa a operar em temperatura m\u00e1xima permanente, enquanto grande parte da sociedade continua vivendo fora desse estado cont\u00ednuo de mobiliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A pol\u00edtica passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais <em>likes<\/em> e cliques obt\u00eam, e n\u00e3o necessariamente dos grupos que mais representam<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O problema \u00e9 que a pol\u00edtica institucional frequentemente passa a reagir mais ao ambiente da comunica\u00e7\u00e3o do que ao pa\u00eds real. Governos, partidos, lideran\u00e7as e at\u00e9 institui\u00e7\u00f5es acabam capturados pela l\u00f3gica da polariza\u00e7\u00e3o permanente, porque \u00e9 nela que est\u00e3o as press\u00f5es mais vis\u00edveis, os grupos mais organizados e os conflitos de maior repercuss\u00e3o p\u00fablica. E assim o debate pol\u00edtico nacional vai gradualmente se tornando mais radicalizado que a pr\u00f3pria sociedade que pretende representar.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Talvez resida a\u00ed uma das maiores distor\u00e7\u00f5es da nossa midi\u00e1tica democracia contempor\u00e2nea. A pol\u00edtica passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais <em>likes<\/em> e cliques obt\u00eam, e n\u00e3o necessariamente dos grupos que mais representam.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o grande espa\u00e7o intermedi\u00e1rio da sociedade brasileira \u2013 menos ideol\u00f3gico, mais pragm\u00e1tico e mais preocupado com problemas concretos \u2013 permanece relativamente sub-representado no debate p\u00fablico, embora seja provavelmente ele quem decida a maior parte das elei\u00e7\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o existe. Mas talvez ela diga mais sobre o funcionamento da pol\u00edtica contempor\u00e2nea do que sobre a vida cotidiana da maioria dos brasileiros.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista, no fim do s\u00e9culo 19: Brasil j\u00e1 viveu epis\u00f3dios graves de rivalidade e viol\u00eancia pol\u00edtica. (Foto:&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":435222,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-435221","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/435221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=435221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/435221\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/435222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=435221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=435221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=435221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}