{"id":433054,"date":"2026-05-26T17:09:15","date_gmt":"2026-05-26T21:09:15","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=433054"},"modified":"2026-05-26T17:09:15","modified_gmt":"2026-05-26T21:09:15","slug":"como-um-documento-de-135-anos-inspirou-a-primeira-enciclica-de-leao-xiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=433054","title":{"rendered":"Como um documento de 135 anos inspirou a primeira enc\u00edclica de Le\u00e3o XIV"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Robert Prevost foi eleito Papa em 8 de maio de 2025 e escolheu chamar-se Le\u00e3o XIV. A decis\u00e3o chamou a aten\u00e7\u00e3o: nenhum Papa havia adotado o nome Le\u00e3o desde Le\u00e3o XIII, morto em 1903. Em seus primeiros discursos, o novo pont\u00edfice explicitou o motivo: pretendia enfrentar a intelig\u00eancia artificial como seu hom\u00f4nimo havia enfrentado a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. A pista virou programa em 15 de maio de 2026, exatamente 135 anos depois da promulga\u00e7\u00e3o da Rerum Novarum. Nesse dia, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/papa-leao-xiv\/\">Le\u00e3o XIV<\/a> assinou sua primeira enc\u00edclica, Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA. A escolha da data n\u00e3o foi casual.<\/p>\n<p>A pergunta que essa coreografia toda coloca \u00e9 se a enc\u00edclica nova consegue fazer pela IA o que a antiga fez pelo trabalho industrial. A resposta exige come\u00e7ar pelo documento de 1891.<\/p>\n<h2>O que Le\u00e3o XIII inventou<\/h2>\n<p>Antes da <em>Rerum Novarum<\/em>, a Igreja n\u00e3o tinha uma doutrina social organizada. Tinha princ\u00edpios morais sobre justi\u00e7a e caridade, espalhados em serm\u00f5es, teologia escol\u00e1stica, decis\u00f5es pastorais. O que faltava era um corpus articulado, capaz de dialogar com a modernidade econ\u00f4mica em seus pr\u00f3prios termos. Le\u00e3o XIII formulou esse corpus diante de uma transforma\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o podia ser ignorada: a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial havia produzido uma classe oper\u00e1ria urbana cuja condi\u00e7\u00e3o moral e material exigia uma palavra que n\u00e3o viesse nem do socialismo nem do liberalismo dominantes.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo foi a inven\u00e7\u00e3o mais dur\u00e1vel do documento. Le\u00e3o XIII recusou simultaneamente as duas sa\u00eddas que se apresentavam como evidentes. Contra o socialismo, defendeu a propriedade privada como direito natural, enraizada na voca\u00e7\u00e3o do homem ao trabalho e ao cuidado da fam\u00edlia. Contra o laissez-faire liberal, sustentou que h\u00e1 uma justi\u00e7a anterior ao contrato livremente acordado: o sal\u00e1rio deve ser suficiente para sustentar com dignidade o trabalhador &#8220;s\u00f3brio e honrado&#8221; e sua fam\u00edlia, independentemente do que as partes tenham combinado. A propriedade \u00e9 leg\u00edtima, mas tem fun\u00e7\u00e3o social. O mercado \u00e9 leg\u00edtimo, mas n\u00e3o dispensa o crit\u00e9rio moral.<\/p>\n<p>Entre essas duas afirma\u00e7\u00f5es abriu-se o espa\u00e7o em que se desenvolveria toda a doutrina social do s\u00e9culo XX. Pio XI formalizou a subsidiariedade. Jo\u00e3o XXIII trouxe os direitos humanos para o centro. O Conc\u00edlio Vaticano II reorganizou a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a modernidade. Jo\u00e3o Paulo II construiu sobre Le\u00e3o XIII a defesa da dignidade do trabalho contra o utilitarismo do mercado e contra a opress\u00e3o dos regimes comunistas. Bento XVI insistiu na caridade como crit\u00e9rio econ\u00f4mico. Francisco trouxe a crise ambiental e os descart\u00e1veis para o centro. Mas a estrutura b\u00e1sica, como a recusa simult\u00e2nea dos extremos, o primado da pessoa e a justi\u00e7a anterior ao contrato, vem de 1891.<\/p>\n<h2>Duas transforma\u00e7\u00f5es, uma estrutura<\/h2>\n<p>A <em>Magnifica Humanitas<\/em> come\u00e7a explicitando essa filia\u00e7\u00e3o. Logo no par\u00e1grafo 3, Le\u00e3o XIV escreve que celebra com &#8220;viva gratid\u00e3o&#8221; o 135\u00ba anivers\u00e1rio do documento de seu predecessor. Reconhece que o Papa de 1891 &#8220;deu impulso, com este documento, \u00e0quela reflex\u00e3o sobre a sociedade, a economia e a pol\u00edtica a que hoje chamamos Doutrina social da Igreja&#8221;. E faz a transposi\u00e7\u00e3o: se Le\u00e3o XIII falava de <em>rerum novarum<\/em> (coisas novas) referindo-se \u00e0 ind\u00fastria e ao conflito entre capital e trabalho, as novas &#8220;coisas novas&#8221; do nosso tempo s\u00e3o a digitaliza\u00e7\u00e3o, a intelig\u00eancia artificial e a rob\u00f3tica.<\/p>\n<p>A analogia \u00e9 audaciosa. Implica que estamos diante de uma transforma\u00e7\u00e3o tecnoecon\u00f4mica de magnitude civilizacional compar\u00e1vel \u00e0quela do fim do s\u00e9culo XIX. Os n\u00fameros podem dar subst\u00e2ncia \u00e0 compara\u00e7\u00e3o. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial reorganizou o trabalho de centenas de milh\u00f5es de pessoas ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas. A revolu\u00e7\u00e3o da IA est\u00e1 fazendo o mesmo em ritmo muito mais r\u00e1pido: pesquisa do World Economic Forum de 2025 estimou que 41% dos empregadores globais pretendem reduzir suas equipes em fun\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial. Empresas como Amazon, Microsoft, Meta e Google j\u00e1 fizeram cortes massivos em meio a reestrutura\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 ado\u00e7\u00e3o da tecnologia. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirmou no fim do ano passado que, ajustada pela cria\u00e7\u00e3o real de postos, a gera\u00e7\u00e3o de empregos nos Estados Unidos est\u00e1 pr\u00f3xima de zero, em parte por causa da automa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico que Le\u00e3o XIV apresenta no par\u00e1grafo 5 ecoa, em outra chave, o que Le\u00e3o XIII descrevia em 1891. Mas h\u00e1 um deslocamento decisivo. &#8220;Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inova\u00e7\u00e3o&#8221;, escreve o novo Papa. &#8220;Hoje, pelo contr\u00e1rio, os principais motores do desenvolvimento s\u00e3o sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de interven\u00e7\u00e3o superiores aos de muitos Governos.&#8221; A configura\u00e7\u00e3o de poder mudou. E a doutrina social precisa mudar com ela.<\/p>\n<h2>Onde os princ\u00edpios precisaram se mover<\/h2>\n<p>O exerc\u00edcio central da Magnifica Humanitas \u00e9 a reformula\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios cl\u00e1ssicos para responder a essa nova configura\u00e7\u00e3o. O caso mais not\u00e1vel \u00e9 o da subsidiariedade. Desde Pio XI, na d\u00e9cada de 1930, o princ\u00edpio era pensado como prote\u00e7\u00e3o da pessoa, da fam\u00edlia e dos corpos intermedi\u00e1rios contra a absor\u00e7\u00e3o pelo Estado. Era, no fundo, um princ\u00edpio antitotalit\u00e1rio, formulado num continente que assistia \u00e0 ascens\u00e3o dos fascismos e do comunismo sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV mant\u00e9m a estrutura mas inverte o vetor. &#8220;Aqui, a inst\u00e2ncia superior n\u00e3o \u00e9 o Estado, mas cada um dos grandes sujeitos econ\u00f4micos e tecnol\u00f3gicos que exercem um poder real sobre as condi\u00e7\u00f5es da vida em comum&#8221;, escreve no par\u00e1grafo 71. A subsidiariedade precisa ser aplicada, portanto, contra o capital tecnol\u00f3gico concentrado \u2014 n\u00e3o em substitui\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio cl\u00e1ssico, mas em extens\u00e3o dele. \u00c9 uma atualiza\u00e7\u00e3o significativa que mostra, em ato, o que significa manter viva uma tradi\u00e7\u00e3o: n\u00e3o repetir suas conclus\u00f5es, mas refazer seus gestos diante de problemas novos.<\/p>\n<p>O movimento se repete em outros pontos. No princ\u00edpio da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens,\u00a0 o novo Papa inclui dados, algoritmos, plataformas digitais e infraestruturas tecnol\u00f3gicas entre os bens cuja propriedade n\u00e3o pode permanecer exclusivamente privada. &#8220;A propriedade dos dados n\u00e3o pode ser confiada apenas a particulares, mas deve ser regulamentada&#8221;, afirma no par\u00e1grafo 108. &#8220;Estes s\u00e3o fruto da contribui\u00e7\u00e3o de muitos e n\u00e3o podem ser vendidos ou confiados a poucos.&#8221; A afirma\u00e7\u00e3o tem implica\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias massivas se levada a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio da justi\u00e7a social, Le\u00e3o XIV reconhece que algoritmos opacos podem reproduzir e amplificar discrimina\u00e7\u00f5es sem que a injusti\u00e7a resultante seja identific\u00e1vel como tal, porque &#8220;o descarte dos fracos \u00e9 revestido de neutralidade e objetividade, perante as quais \u00e9 imposs\u00edvel protestar&#8221;. \u00c9 o velho problema da exclus\u00e3o estrutural, descrito por Jo\u00e3o Paulo II nos anos 1980 como &#8220;estruturas de pecado&#8221;, agora amplificado por sistemas t\u00e9cnicos cuja opacidade torna a den\u00fancia mais dif\u00edcil.<\/p>\n<h2>A ferida que volta como espelho<\/h2>\n<p>H\u00e1 um trecho da Magnifica Humanitas em que Le\u00e3o XIV faz algo que Le\u00e3o XIII n\u00e3o fez \u2014 e que constitui, talvez, a passagem mais arriscada do documento. Est\u00e1 nos par\u00e1grafos 173 a 178, dentro de uma discuss\u00e3o sobre as novas formas de depend\u00eancia geradas pela economia digital.<\/p>\n<p>O Papa descreve, com franqueza incomum em documento magisterial, o que sustenta materialmente a intelig\u00eancia artificial. &#8220;No mundo da IA, nada \u00e9 imaterial ou m\u00e1gico&#8221;, escreve. &#8220;Cada resposta que parece imediata e perfeita prov\u00e9m de uma longa cadeia de media\u00e7\u00f5es, de uma rede alargada de recursos naturais, de infraestruturas energ\u00e9ticas e, sobretudo, de pessoas.&#8221; Enumera os trabalhadores invis\u00edveis empregados na etiquetagem de dados e modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, em geral jovens mulheres pagas por remunera\u00e7\u00e3o m\u00ednima; adolescentes e crian\u00e7as &#8220;em condi\u00e7\u00f5es perigosas na tritura\u00e7\u00e3o dos materiais donde se extraem as terras raras&#8221;; v\u00edtimas de tr\u00e1fico humano recrutadas pelas mesmas plataformas que sustentam a economia global. As realidades s\u00e3o documentadas: a Time reportou em 2023 que a OpenAI usou trabalhadores quenianos pagos menos de dois d\u00f3lares por hora para tornar o ChatGPT menos t\u00f3xico; pesquisadores como Mary L. Gray e Siddharth Suri mapearam o trabalho fantasma da ind\u00fastria algor\u00edtmica no livro Ghost Work.<\/p>\n<p>A novidade \u00e9 o que vem em seguida. Le\u00e3o XIV recorda que foi Le\u00e3o XIII, em 1888, na enc\u00edclica In Plurimis, quem formulou a primeira condena\u00e7\u00e3o papal absoluta da escravid\u00e3o. Antes disso, durante quase dezoito s\u00e9culos, institui\u00e7\u00f5es e pessoas eclesi\u00e1sticas tiveram escravos. A Santa S\u00e9 chegou a regular e legitimar, por meio de bulas pontif\u00edcias, as condi\u00e7\u00f5es em que era l\u00edcito reduzir certos povos \u00e0 servid\u00e3o. &#8220;Trata-se duma ferida na mem\u00f3ria crist\u00e3, \u00e0 qual n\u00e3o podemos ficar alheios&#8221;, escreve o novo Papa. &#8220;Em nome da Igreja, pe\u00e7o sinceramente perd\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>E completa, no par\u00e1grafo seguinte: &#8220;Se n\u00e3o quisermos, no futuro, pedir perd\u00e3o por termos sido infi\u00e9is ao tesouro da dignidade humana que a nossa f\u00e9 encerra, cabe-nos hoje ser diretos e firmes em denunciar as m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es&#8221; das novas depend\u00eancias digitais.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica \u00e9 cortante e une os dois Le\u00f5es em ato. Foi Le\u00e3o XIII quem fechou, com um documento de 1888, dezoito s\u00e9culos de cumplicidade institucional com a escravid\u00e3o. \u00c9 Le\u00e3o XIV quem invoca essa virada para argumentar contra outra cegueira moral em forma\u00e7\u00e3o. A passagem n\u00e3o est\u00e1 afirmando que trabalhadores de IA s\u00e3o &#8220;novos escravos&#8221; no sentido estrito \u2014 categoria que exigiria cuidado para n\u00e3o banalizar a viol\u00eancia espec\u00edfica da escravid\u00e3o racial moderna. Est\u00e1 dizendo algo mais sutil: a estrutura moral que tornou a escravid\u00e3o toler\u00e1vel por tantos s\u00e9culos \u00e9 a mesma estrutura que est\u00e1 se reorganizando em torno das margens do sistema digital. A diferen\u00e7a \u00e9 que em 2026 n\u00e3o temos a desculpa da ignor\u00e2ncia. Sabemos como funciona esse tipo de cegueira. Se errarmos agora, erramos com olhos abertos.<\/p>\n<h2>O que cabe ao fiel<\/h2>\n<p>Os dois momentos guardam semelhan\u00e7a hist\u00f3rica que ajuda a entender por que cada Papa achou que precisava se pronunciar. Em 1891, a Europa industrial vinha de quatro d\u00e9cadas de transforma\u00e7\u00e3o acelerada: ferrovias, tel\u00e9grafo, motor a vapor, eletricidade, produ\u00e7\u00e3o em massa. As estruturas tradicionais de prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador haviam sido desmontadas sem substitui\u00e7\u00e3o. Era preciso uma palavra antes que o vazio fosse preenchido apenas pelas duas ideologias ent\u00e3o em ascens\u00e3o. A <em>Rerum Novarum<\/em> chegou nesse intervalo, e fundou um vocabul\u00e1rio que ainda hoje organiza o pensamento social cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>O paralelismo com 2026 \u00e9 mais que ret\u00f3rico. As \u00faltimas duas d\u00e9cadas viram a digitaliza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana, a expans\u00e3o das plataformas, a chegada dos grandes modelos de linguagem. As estruturas tradicionais de media\u00e7\u00e3o (escola, fam\u00edlia, jornalismo e institui\u00e7\u00f5es representativas) convivem com tecnologias que reorganizam aten\u00e7\u00e3o, trabalho, comunica\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o em ritmo que nenhuma gera\u00e7\u00e3o anterior conheceu. <em>Magnifica Humanitas<\/em> chega no mesmo tipo de intervalo: antes que o vazio seja ocupado apenas pelas l\u00f3gicas que hoje disputam o controle da tecnologia. Em ambos os casos, a Igreja se pronuncia n\u00e3o para regular o novo mundo, mas para nomear princ\u00edpios que sobrevivam \u00e0 transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o documento traz recomenda\u00e7\u00f5es concretas. Aos pais, Le\u00e3o XIV pede aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o precoce de crian\u00e7as e adolescentes a dispositivos digitais, redes sociais e conte\u00fados prejudiciais \u2014 pede que n\u00e3o enfrentem sozinhos a influ\u00eancia de modelos de neg\u00f3cio que capitalizam a aten\u00e7\u00e3o, e que cobrem do poder p\u00fablico medidas legislativas que estabele\u00e7am limites de idade e responsabilizem as plataformas. \u00c0s escolas, pede que recuperem o tempo lento da forma\u00e7\u00e3o, contra a cultura do imediato e da hiperestimula\u00e7\u00e3o: &#8220;devemos educar-nos ao jejum da IA&#8221;, escreve no par\u00e1grafo 140, &#8220;e proteger os nossos jovens das promessas da m\u00e1quina perfeita&#8221;.<\/p>\n<p>Aos trabalhadores e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es sindicais, pede que se abram \u00e0s novas formas de trabalho que a economia digital cria, sem aceitar a precariedade como condi\u00e7\u00e3o normal. Aos empres\u00e1rios e investidores, pede que adotem crit\u00e9rios claros de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9tica preventiva, transpar\u00eancia nas cadeias produtivas, e que reconhe\u00e7am o trabalho invis\u00edvel que sustenta os sistemas algor\u00edtmicos. Aos programadores e pesquisadores de IA, dirige um apelo espec\u00edfico no par\u00e1grafo 111: &#8220;cada escolha feita no projeto expressa uma vis\u00e3o da humanidade&#8221;, e por isso eles &#8220;s\u00e3o chamados a tratar com a devida seriedade os valores que infundem nos seus projetos&#8221;.<\/p>\n<p>Aos cidad\u00e3os comuns, pede algo que parece menos exigente mas talvez seja o mais dif\u00edcil: que olhem. Que perguntem, antes de cada nova ferramenta lan\u00e7ada, quem est\u00e1 pagando o pre\u00e7o material por aquela intelig\u00eancia aparentemente desencarnada. Que se recusem a tratar a opacidade como neutralidade. Que cultivem o que o documento chama, no par\u00e1grafo 137, de &#8220;ecologia da comunica\u00e7\u00e3o&#8221;. Ou ssja, sobriedade no consumo digital, valoriza\u00e7\u00e3o do encontro presencial e aten\u00e7\u00e3o aos v\u00ednculos que as redes amea\u00e7am dissolver.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novo no sentido de in\u00e9dito. Le\u00e3o XIII tamb\u00e9m pedia aos patr\u00f5es que respeitassem a dignidade do trabalhador, aos oper\u00e1rios que recusassem a viol\u00eancia como instrumento de reivindica\u00e7\u00e3o, ao Estado que protegesse os mais fracos sem absorver os corpos intermedi\u00e1rios. O que era novo em 1891 era a aplica\u00e7\u00e3o desses princ\u00edpios ao mundo das f\u00e1bricas. O que \u00e9 novo em 2026 \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o ao mundo das plataformas, dos algoritmos e da intelig\u00eancia artificial. A continuidade \u00e9 deliberada. Quando Le\u00e3o XIV cita Le\u00e3o XIII repetidamente ao longo da <em>Magnifica Humanitas<\/em>, est\u00e1 afirmando que a tarefa \u00e9 a mesma. Mudou o terreno, n\u00e3o o m\u00e9todo.<\/p>\n<p>A <em>Rerum Novarum<\/em> levou d\u00e9cadas para produzir efeitos vis\u00edveis. Inspirou sindicatos cat\u00f3licos, partidos democratas-crist\u00e3os, enc\u00edclicas posteriores que aprofundaram seus princ\u00edpios. Sua leitura completa, hoje, exige paci\u00eancia: o texto tem mais de cem anos e fala de um mundo que j\u00e1 n\u00e3o existe. Mas seu m\u00e9todo sobreviveu, e foi esse m\u00e9todo que Le\u00e3o XIV decidiu retomar. Cento e trinta e cinco anos depois, outro Papa escreve sobre as coisas novas e devolve aos fi\u00e9is a mesma tarefa antiga: discernir, dentro do que est\u00e1 sendo constru\u00eddo, o que protege a pessoa humana e o que a reduz.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Robert Prevost foi eleito Papa em 8 de maio de 2025 e escolheu chamar-se Le\u00e3o XIV. 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