{"id":431263,"date":"2026-05-22T05:02:00","date_gmt":"2026-05-22T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=431263"},"modified":"2026-05-22T05:02:00","modified_gmt":"2026-05-22T09:02:00","slug":"terrorismo-crime-organizado-e-poder-o-brasil-diante-da-nova-estrategia-contraterrorista-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=431263","title":{"rendered":"Terrorismo, crime organizado e poder: o Brasil diante da nova estrat\u00e9gia contraterrorista americana"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A nova Estrat\u00e9gia Contraterrorista (USCT 2026), lan\u00e7ada pelo governo americano em 6 de maio, na v\u00e9spera da reuni\u00e3o entre o presidente Lula e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/donald-trump\/\">Donald Trump<\/a> em Washington, recebeu aten\u00e7\u00e3o quase inexistente no Brasil. Enquanto a agenda pol\u00edtica e midi\u00e1tica brasileira se concentrava quase exclusivamente na coreografia protocolar do encontro presidencial, passou praticamente despercebido um documento muito mais relevante para o futuro estrat\u00e9gico do hemisf\u00e9rio e do pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio n\u00e3o apenas eclipsou a import\u00e2ncia do tema no debate p\u00fablico nacional, mas exp\u00f4s, de forma particularmente aguda, a miopia intelectual, estrat\u00e9gica e midi\u00e1tica que caracteriza a elite pol\u00edtica brasileira diante das profundas transforma\u00e7\u00f5es da ordem internacional.<\/p>\n<p>Em qualquer pot\u00eancia m\u00e9dia minimamente consciente de seus interesses nacionais, um documento diretamente conectado \u00e0 National Security Strategy (NSS) 2026 e \u00e0 National Defense Strategy (NDS) 2026 teria provocado intenso debate pol\u00edtico, militar, acad\u00eamico e diplom\u00e1tico. Afinal, trata-se da formaliza\u00e7\u00e3o de uma mudan\u00e7a profunda na maneira como os EUA enxergam poder, soberania, amea\u00e7a e estabilidade hemisf\u00e9rica. No Brasil, por\u00e9m, o tema permaneceu praticamente invis\u00edvel, como se dissesse respeito apenas \u00e0 pol\u00edtica dom\u00e9stica americana. N\u00e3o diz.<\/p>\n<p>A nova USCT constitui mais um cap\u00edtulo da grande reorienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica americana j\u00e1 explicitada pela NSS e pela NDS: menos universalismo liberal, menos guerras ideol\u00f3gicas de transforma\u00e7\u00e3o global e mais foco na prote\u00e7\u00e3o direta do territ\u00f3rio americano, da base industrial nacional e do Hemisf\u00e9rio Ocidental. O contraterrorismo deixa de ser concebido como cruzada civilizacional voltada ao <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/oriente-medio\/\">Oriente M\u00e9dio<\/a> e passa a ser integrado a uma l\u00f3gica mais ampla de competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, defesa hemisf\u00e9rica, seguran\u00e7a de fronteiras, controle territorial e enfrentamento de amea\u00e7as h\u00edbridas transnacionais.<\/p>\n<p>O ponto central, e talvez menos compreendido no Brasil, \u00e9 que Washington passou a enxergar organiza\u00e7\u00f5es criminosas transnacionais n\u00e3o apenas como problema de seguran\u00e7a p\u00fablica, mas como amea\u00e7as estrat\u00e9gicas capazes de corroer soberania, estabilidade regional e seguran\u00e7a nacional americana. N\u00e3o se trata apenas de sem\u00e2ntica jur\u00eddica ou ret\u00f3rica diplom\u00e1tica, mas de uma redefini\u00e7\u00e3o conceitual profunda sobre a natureza contempor\u00e2nea do poder coercitivo n\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, o terrorismo foi interpretado sobretudo sob a \u00f3tica ideol\u00f3gica ou religiosa herdada do paradigma p\u00f3s-11 de Setembro. A nova estrat\u00e9gia americana opera sob outra l\u00f3gica e a partir de um diagn\u00f3stico duro, por\u00e9m factual: cart\u00e9is, fac\u00e7\u00f5es criminosas, redes de narcotr\u00e1fico, mil\u00edcias transnacionais e organiza\u00e7\u00f5es h\u00edbridas j\u00e1 n\u00e3o se organizam apenas como estruturas criminais tradicionais voltadas ao lucro. Elas exercem controle territorial, corroem institui\u00e7\u00f5es, infiltram sistemas pol\u00edticos, controlam fluxos econ\u00f4micos, intimidam popula\u00e7\u00f5es, desafiam monop\u00f3lios estatais da for\u00e7a e estabelecem conex\u00f5es internacionais com atores hostis aos interesses americanos. Em determinados contextos, tornam-se verdadeiros proto-atores geopol\u00edticos.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, as fronteiras conceituais entre terrorismo, insurg\u00eancia, narcotr\u00e1fico, guerra irregular e crime organizado tornam-se progressivamente fluidas. A pr\u00f3pria estrat\u00e9gia americana reconhece explicitamente a converg\u00eancia entre amea\u00e7as estatais e n\u00e3o estatais, entre crime transnacional, terrorismo, guerra h\u00edbrida e degrada\u00e7\u00e3o institucional dom\u00e9stica.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Washington parece partir progressivamente do princ\u00edpio de que determinados Estados latino-americanos j\u00e1 n\u00e3o possuem, isoladamente, plena capacidade de controlar integralmente seus territ\u00f3rios, cadeias il\u00edcitas e estruturas coercitivas internas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que emerge \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o muito mais sofisticada de seguran\u00e7a hemisf\u00e9rica. Organiza\u00e7\u00f5es criminosas passam a ser vistas como atores coercitivos h\u00edbridos, capazes de operar simultaneamente como redes econ\u00f4micas il\u00edcitas, estruturas paramilitares, sistemas de intelig\u00eancia informal e mecanismos de governan\u00e7a paralela.<\/p>\n<p>Autores contempor\u00e2neos da \u00e1rea de seguran\u00e7a internacional j\u00e1 descrevem esse fen\u00f4meno como \u201c<em>criminal insurgency<\/em>\u201d (\u201cinsurg\u00eancia criminosa\u201d), \u201c<em>networked coercive actors<\/em>\u201d (\u201catores coercitivos com conex\u00f5es\u201d) ou \u201c<em>hybrid threat ecosystems<\/em>\u201d (\u201cecossistemas de amea\u00e7a h\u00edbrida\u201d). A l\u00f3gica \u00e9 simples: quando grupos criminosos passam a controlar territ\u00f3rios, impor normas, desafiar o monop\u00f3lio estatal da for\u00e7a, infiltrar institui\u00e7\u00f5es e operar cadeias transnacionais sofisticadas, deixam de representar apenas problema criminal e passam a constituir amea\u00e7a estrat\u00e9gica. \u00c9 exatamente nesse contexto que ganha for\u00e7a, em Washington, a discuss\u00e3o sobre classificar o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/pcc\/\">PCC<\/a> e o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/comando-vermelho\/\">Comando Vermelho<\/a> como organiza\u00e7\u00f5es terroristas estrangeiras.<\/p>\n<p>No Brasil, grande parte da rea\u00e7\u00e3o ao tema permanece intelectualmente superficial e politicamente enviesada. Muitos analistas e atores pol\u00edticos descartam imediatamente essa possibilidade alegando que PCC e CV n\u00e3o possuem motiva\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica expl\u00edcita. Esse argumento, contudo, parte de uma concep\u00e7\u00e3o ultrapassada de terrorismo e ignora a transforma\u00e7\u00e3o conceitual em curso.<\/p>\n<p>Para a nova doutrina americana, o foco desloca-se menos da motiva\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica formal e mais da capacidade objetiva de produzir coer\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, terror social, captura territorial e desestabiliza\u00e7\u00e3o institucional em escala transnacional. Ou seja, o ponto decisivo n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cpor que\u201d esses grupos atuam, mas \u201co que\u201d efetivamente fazem e quais efeitos estrat\u00e9gicos produzem, o que se alinha \u00e0s pol\u00edticas antiterroristas mais modernas em todo o mundo. Menos no Brasil, claro.<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 como negar que os efeitos dessa vis\u00e3o deturpada s\u00e3o cada vez mais evidentes. O PCC e o Comando Vermelho j\u00e1 n\u00e3o operam como fac\u00e7\u00f5es criminais convencionais. Estruturaram cadeias log\u00edsticas transnacionais, controlam corredores continentais de coca\u00edna, infiltram sistemas financeiros, aparelham sistemas pol\u00edticos, utilizam armamento militar, expandem presen\u00e7a sobre portos e fronteiras e exercem crescente influ\u00eancia sobre economias l\u00edcitas e il\u00edcitas na Amaz\u00f4nia, no Paraguai, na Bol\u00edvia e em \u00e1reas estrat\u00e9gicas do Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>Em diversas regi\u00f5es urbanas brasileiras, essas organiza\u00e7\u00f5es imp\u00f5em normas, monopolizam coercitivamente territ\u00f3rios, regulam mercados clandestinos, arbitram conflitos e controlam fluxos econ\u00f4micos locais. N\u00e3o se trata mais apenas de criminalidade, mas da manuten\u00e7\u00e3o da prerrogativa estatal de empregar seus recursos de poder para preservar a ordem, aplicar as leis e garantir a soberania \u2013 na cl\u00e1ssica concep\u00e7\u00e3o de Max Weber \u2013, a qual vem sendo gradualmente erodida.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O problema brasileiro, sob essa \u00f3tica, deixa de ser apenas policial. Torna-se geopol\u00edtico. E isso ajuda a explicar por que o Brasil passou a ser observado com crescente preocupa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o americana \u00e9 que organiza\u00e7\u00f5es dessa natureza j\u00e1 produzem efeitos estrat\u00e9gicos compar\u00e1veis aos de movimentos insurgentes cl\u00e1ssicos, n\u00e3o representando apenas problema policial dom\u00e9stico brasileiro, mas fator crescente de instabilidade hemisf\u00e9rica. Nesse contexto, a analogia com a Col\u00f4mbia dos anos 1990 \u00e9 inevit\u00e1vel, n\u00e3o porque PCC e CV sejam id\u00eanticos \u00e0s Farc, mas porque narcotr\u00e1fico, controle territorial, fragilidade institucional e viol\u00eancia organizada voltam a convergir como problema hemisf\u00e9rico de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente aqui que a conex\u00e3o entre a nova estrat\u00e9gia contraterrorista, a NSS e a NDS se torna determinante. A NSS 2026 redefine explicitamente o Hemisf\u00e9rio Ocidental como espa\u00e7o priorit\u00e1rio de interesse vital dos Estados Unidos. J\u00e1 a NDS operacionaliza essa vis\u00e3o ao integrar narcotr\u00e1fico, crime organizado, seguran\u00e7a mar\u00edtima, defesa de fronteiras, infraestrutura cr\u00edtica, ciberseguran\u00e7a e dissuas\u00e3o regional dentro de um mesmo quadro estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>O pressuposto impl\u00edcito \u00e9 inequ\u00edvoco: fragilidade institucional no entorno hemisf\u00e9rico deixou de ser mero problema dom\u00e9stico e passou a ser vari\u00e1vel direta de seguran\u00e7a nacional norte-americana. Essa talvez seja a premissa oculta mais importante, e menos discutida, de todo o novo documento americano. Washington parece partir progressivamente do princ\u00edpio de que determinados Estados latino-americanos j\u00e1 n\u00e3o possuem, isoladamente, plena capacidade de controlar integralmente seus territ\u00f3rios, cadeias il\u00edcitas e estruturas coercitivas internas.<\/p>\n<p>O problema brasileiro, sob essa \u00f3tica, deixa de ser apenas policial. Torna-se geopol\u00edtico. E isso ajuda a explicar por que o Brasil passou a ser observado com crescente preocupa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. O problema n\u00e3o \u00e9 apenas o avan\u00e7o material das fac\u00e7\u00f5es, mas a percep\u00e7\u00e3o de insufici\u00eancia estrutural do Estado brasileiro para enfrent\u00e1-las, ou seja, n\u00e3o apenas a escala das atividades criminosas se avoluma, mas isso ocorre simultaneamente \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o da capacidade estatal de resposta.<\/p>\n<p>Nessa percep\u00e7\u00e3o, falta integra\u00e7\u00e3o entre intelig\u00eancia, defesa, pol\u00edcia, sistema financeiro, controle de fronteiras e coordena\u00e7\u00e3o interestatal. A legisla\u00e7\u00e3o permanece fragmentada. O sistema prisional opera como vetor de expans\u00e3o criminosa. As fronteiras amaz\u00f4nicas permanecem altamente perme\u00e1veis. O Atl\u00e2ntico Sul segue subprotegido. A coordena\u00e7\u00e3o regional sul-americana em seguran\u00e7a \u00e9 praticamente inexistente.<\/p>\n<p>Sob a \u00f3tica americana, isso produz um cen\u00e1rio potencialmente explosivo, com uma pot\u00eancia regional continental, detentora de vastos recursos naturais, posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica central e import\u00e2ncia estrat\u00e9gica crescente convivendo com eros\u00e3o progressiva de capacidades estatais coercitivas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Itamaraty continua operando sob pressupostos intelectuais profundamente anacr\u00f4nicos, como se seguran\u00e7a p\u00fablica, defesa nacional, desenvolvimento econ\u00f4mico, infraestrutura cr\u00edtica e pol\u00edtica externa fossem compartimentos estanques. N\u00e3o s\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 ainda outra dimens\u00e3o raramente discutida publicamente no Brasil, que \u00e9 a intersec\u00e7\u00e3o entre criminalidade organizada, competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e geoeconomia. A NSS e a NDS deixam claro que Washington passou a enxergar infraestrutura cr\u00edtica, fluxos financeiros, telecomunica\u00e7\u00f5es, energia, portos, minerais estrat\u00e9gicos, rotas mar\u00edtimas e cadeias log\u00edsticas como elementos insepar\u00e1veis da competi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica global entre grandes pot\u00eancias. Em um ambiente assim, organiza\u00e7\u00f5es criminosas deixam de representar meras amea\u00e7as \u00e0 ordem p\u00fablica e passam a integrar o c\u00e1lculo geopol\u00edtico mais amplo sobre vulnerabilidades hemisf\u00e9ricas.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias econ\u00f4micas potenciais disso n\u00e3o s\u00e3o desprez\u00edveis. Em um cen\u00e1rio de aus\u00eancia de coopera\u00e7\u00e3o bilateral, a eventual classifica\u00e7\u00e3o do PCC e do Comando Vermelho como organiza\u00e7\u00f5es terroristas estrangeiras poderia produzir amplia\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es financeiras; maior escrut\u00ednio banc\u00e1rio internacional; restri\u00e7\u00f5es operacionais; aumento de custos de compliance; press\u00f5es sobre sistemas portu\u00e1rios; dificuldades de financiamento externo; encarecimento de seguros mar\u00edtimos; aumento do risco-pa\u00eds; e amplia\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a operacional americana no entorno regional.<\/p>\n<p>Em outras palavras, seguran\u00e7a p\u00fablica, geopol\u00edtica e geoeconomia tornaram-se insepar\u00e1veis. E \u00e9 exatamente nesse ponto que o contraste com o Brasil assume contornos assustadores. Enquanto Washington reorganiza sua arquitetura estrat\u00e9gica em torno de poder nacional integrado, articulando defesa, economia, ind\u00fastria, tecnologia, infraestrutura, seguran\u00e7a interna e pol\u00edtica externa, o governo Lula permanece intelectualmente aprisionado em categorias mentais t\u00edpicas dos anos 1990.<\/p>\n<p>Verdade seja dita, o problema n\u00e3o come\u00e7ou com Lula. Entretanto, n\u00e3o apenas o lulopetismo representa, sobretudo, a radicaliza\u00e7\u00e3o de uma defici\u00eancia estrat\u00e9gica hist\u00f3rica brasileira, consistente na incapacidade estrutural de formular uma verdadeira grande estrat\u00e9gia nacional, mas tamb\u00e9m o atual governo elevou essa limita\u00e7\u00e3o a um novo patamar de improvisa\u00e7\u00e3o, confus\u00e3o conceitual e voluntarismo ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica externa lulopetista confunde proje\u00e7\u00e3o internacional com ativismo ret\u00f3rico, soberania com discurso protocolar e autonomia estrat\u00e9gica com ambiguidade oportunista. Trata f\u00f3runs multilaterais esvaziados como se ainda fossem centros organizadores da ordem internacional, enquanto o sistema global retorna abertamente \u00e0 l\u00f3gica cl\u00e1ssica da competi\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>O Itamaraty continua operando sob pressupostos intelectuais profundamente anacr\u00f4nicos, como se seguran\u00e7a p\u00fablica, defesa nacional, desenvolvimento econ\u00f4mico, infraestrutura cr\u00edtica e pol\u00edtica externa fossem compartimentos estanques. N\u00e3o s\u00e3o. Nunca foram.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es como o PCC e o Comando Vermelho, assim como os ecossistemas h\u00edbridos que orbitam ao seu redor, n\u00e3o constituem mero problema de seguran\u00e7a p\u00fablica, mas amea\u00e7a estrat\u00e9gica de primeira ordem <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O mundo estrat\u00e9gico contempor\u00e2neo opera exatamente na dire\u00e7\u00e3o oposta, com integra\u00e7\u00e3o crescente entre economia, tecnologia, seguran\u00e7a, defesa e controle territorial. Washington compreendeu isso. Pequim compreendeu isso. Moscou compreendeu isso. O Brasil, n\u00e3o. O pa\u00eds n\u00e3o apenas enfrenta vulnerabilidades crescentes; ele sequer parece compreender plenamente a natureza dessas vulnerabilidades. O resultado \u00e9 um pa\u00eds cada vez mais vulner\u00e1vel exatamente nas \u00e1reas que a nova estrat\u00e9gia americana considera priorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse v\u00e1cuo, doutrin\u00e1rio antes que operacional, que a pol\u00edtica externa de um futuro governo conservador de direita encontrar\u00e1 a oportunidade hist\u00f3rica de inscrever, sem rodeios e sem desculpas adicionais, uma verdadeira inflex\u00e3o no enfrentamento ao narcoterrorismo internacional. Trata-se de assumir, com a clareza que faltou ao Brasil por d\u00e9cadas, que organiza\u00e7\u00f5es como o PCC e o Comando Vermelho, assim como os ecossistemas h\u00edbridos que orbitam ao seu redor, n\u00e3o constituem mero problema de seguran\u00e7a p\u00fablica, mas amea\u00e7a estrat\u00e9gica de primeira ordem aos interesses vitais nacionais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a designa\u00e7\u00e3o formal dessas estruturas como organiza\u00e7\u00f5es terroristas, no plano dom\u00e9stico e internacional, fornecer\u00e1 a base jur\u00eddica indispens\u00e1vel a uma diplomacia coercitiva inteligente, articulada com defesa, intelig\u00eancia, finan\u00e7as e Justi\u00e7a, sob coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica unificada da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O Itamaraty deixar\u00e1 de operar como reparti\u00e7\u00e3o de protocolo e passar\u00e1 a funcionar como vetor ativo dessa nova arquitetura de poder integrado.<\/p>\n<p>No plano regional, o futuro governo se veria legitimado a liderar a constru\u00e7\u00e3o de um sistema sul-americano de seguran\u00e7a coletiva contra o narcoterrorismo, capaz de fazer aquilo que Unasul e Celac jamais sequer ensaiaram. Isso implicar\u00e1 tr\u00eas frentes operacionais simult\u00e2neas. Primeiro, a constitui\u00e7\u00e3o de uma Iniciativa Sul-Americana de Combate ao Narcoterrorismo (Insac), articulando Brasil, Argentina, Paraguai, Equador, Peru, Col\u00f4mbia, Uruguai e, na hip\u00f3tese de coopera\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, Bol\u00edvia, com mecanismo permanente de compartilhamento de intelig\u00eancia, for\u00e7a-tarefa mar\u00edtima integrada para o Atl\u00e2ntico Sul e arquitetura financeira regional de bloqueio de ativos il\u00edcitos.<\/p>\n<p>Segundo, uma diplomacia ativa de fronteiras, que converta postos consulares na faixa amaz\u00f4nica e no arco platino em verdadeiras antenas operacionais, integradas \u00e0 Pol\u00edcia Federal, \u00e0s For\u00e7as Armadas e aos servi\u00e7os de intelig\u00eancia aliados. Terceiro, o tratamento da Venezuela como caso priorit\u00e1rio, haja vista a simbiose entre organiza\u00e7\u00f5es narcoterroristas e as institui\u00e7\u00f5es bolivarianas operar, na pr\u00e1tica, como retaguarda log\u00edstica do narcotr\u00e1fico continental, exigindo postura inequ\u00edvoca de n\u00e3o reconhecimento e de press\u00e3o coordenada.<\/p>\n<p>No plano hemisf\u00e9rico, a integra\u00e7\u00e3o \u00e0 iniciativa \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d poderia ser conduzida sem mimetismo nem subservi\u00eancia, mas com a clareza hist\u00f3rica de que o Brasil, como pot\u00eancia geogr\u00e1fica do Atl\u00e2ntico Sul e do entorno amaz\u00f4nico, \u00e9 interlocutor indispens\u00e1vel, n\u00e3o sat\u00e9lite. Caber\u00e1 a esse futuro governo brasileiro propor, e n\u00e3o apenas aderir, oferecendo aos Estados Unidos plataforma de coopera\u00e7\u00e3o naval no Atl\u00e2ntico Sul, base jur\u00eddica para designa\u00e7\u00e3o coordenada de organiza\u00e7\u00f5es terroristas estrangeiras, interc\u00e2mbio sistem\u00e1tico de intelig\u00eancia financeira nos moldes de um Five Eyes adaptado \u00e0 realidade hemisf\u00e9rica e participa\u00e7\u00e3o operacional em exerc\u00edcios conjuntos de interdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A Marinha do Brasil, historicamente vocacionada \u00e0 Amaz\u00f4nia Azul, reencontraria nesse arranjo miss\u00e3o estrat\u00e9gica renovada, vinculada n\u00e3o apenas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o das \u00e1guas interiores, mas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o das rotas mar\u00edtimas do Atl\u00e2ntico Sul, \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o de fluxos il\u00edcitos transoce\u00e2nicos, \u00e0 seguran\u00e7a de infraestruturas cr\u00edticas offshore e \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do Brasil como pot\u00eancia naval regional capaz de operar em coordena\u00e7\u00e3o com parceiros hemisf\u00e9ricos sem abdicar de autonomia decis\u00f3ria.<\/p>\n<p>O Ex\u00e9rcito Brasileiro, por sua vez, recuperaria centralidade na defesa efetiva das fronteiras terrestres amaz\u00f4nicas e platinas, hoje crescentemente perme\u00e1veis ao narcotr\u00e1fico, ao contrabando de armas, \u00e0 minera\u00e7\u00e3o ilegal e \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de redes criminosas transnacionais. Mais do que simples presen\u00e7a territorial simb\u00f3lica, isso exigiria reconstru\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria orientada \u00e0 guerra irregular, ao controle de vastos espa\u00e7os desassistidos, \u00e0 integra\u00e7\u00e3o entre intelig\u00eancia, opera\u00e7\u00f5es especiais, cibern\u00e9tica, monitoramento de fronteiras e capacidade de resposta r\u00e1pida em ambientes h\u00edbridos, em cen\u00e1rio no qual a Amaz\u00f4nia reassume sua dimens\u00e3o cl\u00e1ssica de espa\u00e7o estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>J\u00e1 a For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira assumiria papel decisivo na reconstru\u00e7\u00e3o da capacidade nacional de vigil\u00e2ncia, mobilidade estrat\u00e9gica e superioridade informacional sobre o territ\u00f3rio continental. O controle efetivo do espa\u00e7o a\u00e9reo amaz\u00f4nico, a interdi\u00e7\u00e3o de aeronaves vinculadas ao narcotr\u00e1fico, a integra\u00e7\u00e3o de sistemas ISR, sat\u00e9lites, radares, guerra eletr\u00f4nica e plataformas remotamente pilotadas passariam a constituir elementos centrais de uma arquitetura nacional de dissuas\u00e3o e soberania. Em um ambiente no qual log\u00edstica, velocidade de resposta e dom\u00ednio da informa\u00e7\u00e3o tornam-se fatores cr\u00edticos de poder, a FAB reassumiria fun\u00e7\u00e3o estruturante na integra\u00e7\u00e3o territorial e na proje\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica brasileira.<\/p>\n<p>Em paralelo, ser\u00e1 preciso desativar diplomaticamente as redes de cumplicidade institucional erguidas pelo lulopetismo com regimes autorit\u00e1rios do continente, que funcionam, na pr\u00e1tica, como zonas francas para o crime transnacional. A grande estrat\u00e9gia subjacente \u00e9 simples de enunciar, mas menos simples de executar, tendo em vista os imensos danos \u00e0 na\u00e7\u00e3o impostos pela destrambelhada e perniciosa diplomacia lulopetista: reconstituir o Brasil como pot\u00eancia efetiva no seu pr\u00f3prio entorno, capaz de exercer soberania material, e n\u00e3o apenas declamat\u00f3ria, e de resgatar sua capacidade e seu esp\u00edrito de lideran\u00e7a, pragmatismo, proatividade e prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Em um sistema internacional que voltou a funcionar segundo hierarquias expl\u00edcitas de poder, controle territorial e coer\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, soberania deixou de ser apenas conceito jur\u00eddico. Tornou-se vari\u00e1vel material dependente de capacidade coercitiva, resili\u00eancia institucional, autonomia tecnol\u00f3gica e controle efetivo do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Pa\u00edses que perdem progressivamente essas capacidades acabam descobrindo, tarde demais, que soberania raramente desaparece de forma abrupta. Ela se dissolve lentamente, at\u00e9 que outros passem, gradualmente, a administrar suas vulnerabilidades por eles.<\/p>\n<p><em><strong>Marcos Degaut<\/strong>, ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa e ex-secret\u00e1rio-executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (Camex), \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nova Estrat\u00e9gia Contraterrorista (USCT 2026), lan\u00e7ada pelo governo americano em 6 de maio, na v\u00e9spera da reuni\u00e3o entre o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":431264,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-431263","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/431263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=431263"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/431263\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/431264"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=431263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=431263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=431263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}