{"id":429407,"date":"2026-05-20T05:02:00","date_gmt":"2026-05-20T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=429407"},"modified":"2026-05-20T05:02:00","modified_gmt":"2026-05-20T09:02:00","slug":"a-taxa-das-blusinhas-o-imposto-e-a-conta-que-nao-fecha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=429407","title":{"rendered":"A taxa das blusinhas, o imposto e a conta que n\u00e3o fecha"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/por-que-o-governo-decidiu-encerrar-a-taxa-das-blusinhas\/\">revoga\u00e7\u00e3o da chamada taxa das blusinhas<\/a> exp\u00f5e, mais uma vez, uma das maiores fragilidades da pol\u00edtica tribut\u00e1ria brasileira: a incapacidade de construir regras est\u00e1veis, previs\u00edveis e coerentes para consumidores, empresas e investidores. A mesma taxa das blusinhas criada em 2024, sob o argumento de organizar o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico internacional, combater distor\u00e7\u00f5es e trazer maior isonomia concorrencial, agora \u00e9 revogada por medida provis\u00f3ria, com efeito imediato, como se o problema tivesse desaparecido por completo.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do consumidor, \u00e9 evidente que a retirada do Imposto de Importa\u00e7\u00e3o federal sobre compras internacionais de at\u00e9 US$ 50 produz al\u00edvio direto. Em um pa\u00eds de renda comprimida, cr\u00e9dito caro e infla\u00e7\u00e3o sentida principalmente no or\u00e7amento das fam\u00edlias de menor renda, qualquer redu\u00e7\u00e3o de custo no consumo de produtos populares tende a ser bem recebida. A compra de baixo valor em plataformas internacionais deixou de ser um fen\u00f4meno de nicho e passou a integrar a rotina de milh\u00f5es de brasileiros, que buscam pre\u00e7o, variedade e conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o lado socialmente sens\u00edvel da discuss\u00e3o. A tributa\u00e7\u00e3o sobre pequenas compras internacionais atingia diretamente consumidores que, muitas vezes, n\u00e3o estavam adquirindo itens de luxo, mas bens simples, roupas, acess\u00f3rios, pequenos eletr\u00f4nicos e produtos de uso cotidiano. Sob esse \u00e2ngulo, a revoga\u00e7\u00e3o pode ser apresentada como medida de recomposi\u00e7\u00e3o do poder de compra da popula\u00e7\u00e3o, especialmente das classes C, D e E, argumento tamb\u00e9m defendido por representantes das plataformas digitais.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que pol\u00edtica tribut\u00e1ria n\u00e3o pode ser constru\u00edda apenas pela fotografia do consumo imediato. \u00c9 preciso olhar tamb\u00e9m para a estrutura produtiva, para o varejo nacional, para a ind\u00fastria t\u00eaxtil, para os empregos formais, para a arrecada\u00e7\u00e3o e para a concorr\u00eancia. E \u00e9 nesse ponto que a medida se torna critic\u00e1vel.<\/p>\n<p>A empresa brasileira que produz ou vende no pa\u00eds enfrenta uma cadeia pesada de custos. Paga tributos sobre a opera\u00e7\u00e3o, suporta encargos trabalhistas, cumpre normas ambientais, observa regras consumeristas, investe em log\u00edstica, mant\u00e9m empregados, recolhe contribui\u00e7\u00f5es e opera em ambiente de juros elevados. Quando o produto estrangeiro entra com tratamento fiscal mais favor\u00e1vel, ainda que em compras de baixo valor, cria-se uma assimetria concorrencial que n\u00e3o pode ser ignorada.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica da ind\u00fastria e do varejo sobre a taxa das blusinhas n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma defesa corporativa contra o consumidor. H\u00e1, de fato, uma discuss\u00e3o leg\u00edtima sobre isonomia. Se o empres\u00e1rio nacional precisa cumprir uma s\u00e9rie de obriga\u00e7\u00f5es para colocar um produto na prateleira, enquanto plataformas internacionais conseguem alcan\u00e7ar o consumidor brasileiro com carga menor e estrutura operacional fora do pa\u00eds, o debate deixa de ser apenas tribut\u00e1rio e passa a ser econ\u00f4mico, trabalhista e concorrencial. Entidades como CNI, IDV, Abit e Abvtex manifestaram preocupa\u00e7\u00e3o justamente com esse desequil\u00edbrio, apontando risco para pequenas e m\u00e9dias empresas, empregos e arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o fiscal relevante. Segundo dados da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/receita-federal\/\">Receita Federal<\/a>, a cobran\u00e7a arrecadou R$ 1,78 bilh\u00e3o entre janeiro e abril de 2026, com alta de 25% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior. Ao abrir m\u00e3o dessa receita, o governo precisa explicar de forma clara qual ser\u00e1 a compensa\u00e7\u00e3o fiscal, sobretudo em um cen\u00e1rio em que se exige responsabilidade or\u00e7ament\u00e1ria, equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas e coer\u00eancia entre discurso arrecadat\u00f3rio e pr\u00e1tica tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 defender mais imposto por princ\u00edpio. O Brasil tributa demais, tributa mal e frequentemente pune consumo, produ\u00e7\u00e3o e formalidade. O ponto central \u00e9 outro: se a taxa das blusinhas era injusta para o consumidor, por que foi criada? Se era necess\u00e1ria para proteger a ind\u00fastria nacional, por que foi retirada sem uma pol\u00edtica compensat\u00f3ria robusta? Se a arrecada\u00e7\u00e3o era relevante, qual ser\u00e1 a fonte alternativa? Se a regulariza\u00e7\u00e3o do setor foi suficiente para justificar a isen\u00e7\u00e3o, quais dados demonstram que o risco concorrencial foi neutralizado?<\/p>\n<p>A pol\u00edtica tribut\u00e1ria n\u00e3o pode funcionar como um p\u00eandulo. Primeiro, tributa-se sob o argumento da isonomia. Depois, desonera-se sob o argumento do consumo popular. No meio desse movimento, empresas reorganizam pre\u00e7os, consumidores ajustam comportamento, plataformas adaptam sistemas, estados mant\u00eam ICMS, a Uni\u00e3o abre m\u00e3o de receita e o mercado fica sem previsibilidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um ponto jur\u00eddico-institucional que merece aten\u00e7\u00e3o. A utiliza\u00e7\u00e3o de medida provis\u00f3ria para alterar tema com forte impacto econ\u00f4mico, concorrencial e arrecadat\u00f3rio exige debate parlamentar qualificado. Embora a MP da taxa das blusinhas tenha efic\u00e1cia imediata, ela precisar\u00e1 ser apreciada pelo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/congresso-nacional\/\">Congresso Nacional<\/a> para se converter definitivamente em lei. Esse processo ser\u00e1 decisivo para avaliar se a revoga\u00e7\u00e3o permanecer\u00e1, se haver\u00e1 ajustes ou se ser\u00e1 constru\u00edda alguma regra intermedi\u00e1ria capaz de proteger o consumidor sem fragilizar a produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A melhor solu\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o esteja em simplesmente tributar ou simplesmente isentar. O pa\u00eds precisa de um modelo que combine pre\u00e7o acess\u00edvel ao consumidor, fiscaliza\u00e7\u00e3o eficiente das plataformas, combate a fraudes, rastreabilidade das importa\u00e7\u00f5es, tratamento ison\u00f4mico entre produtos nacionais e estrangeiros e redu\u00e7\u00e3o estrutural do custo de produzir no Brasil.<\/p>\n<p>O erro recorrente est\u00e1 em tratar o consumidor e a ind\u00fastria como lados inimigos. N\u00e3o s\u00e3o. O consumidor precisa de pre\u00e7o justo, mas tamb\u00e9m precisa de emprego, renda e mercado interno saud\u00e1vel. A ind\u00fastria precisa de prote\u00e7\u00e3o contra assimetrias indevidas, mas tamb\u00e9m precisa de efici\u00eancia, inova\u00e7\u00e3o e competitividade. O Estado, por sua vez, precisa arrecadar, mas n\u00e3o pode faz\u00ea-lo de maneira err\u00e1tica, criando e revogando tributos conforme a press\u00e3o pol\u00edtica do momento.<\/p>\n<p>A taxa das blusinhas virou s\u00edmbolo porque traduz, em uma compra simples, toda a complexidade do sistema tribut\u00e1rio brasileiro. O debate n\u00e3o \u00e9 apenas sobre uma roupa comprada pela internet. \u00c9 sobre quem paga a conta da informalidade global, quem sustenta a produ\u00e7\u00e3o nacional, quem financia o Estado e qual modelo de desenvolvimento o Brasil pretende adotar.<\/p>\n<p>Revogar a cobran\u00e7a pode aliviar o bolso de milh\u00f5es de consumidores no curto prazo. Mas, se a medida n\u00e3o vier acompanhada de uma estrat\u00e9gia s\u00e9ria para proteger a concorr\u00eancia leal, reduzir o custo Brasil e fortalecer a ind\u00fastria nacional, o benef\u00edcio imediato poder\u00e1 se transformar em mais uma transfer\u00eancia silenciosa de competitividade para fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No fim, o problema n\u00e3o est\u00e1 na blusinha. Est\u00e1 na falta de uma pol\u00edtica tribut\u00e1ria que enxergue o pa\u00eds inteiro.<\/p>\n<p><em><strong>Leonardo Roesler<\/strong>, advogado tributarista e s\u00f3cio do RCA Advogados, \u00e9 mestre em Administra\u00e7\u00e3o e Finan\u00e7as pela Ohio University, com especializa\u00e7\u00f5es em Direito Empresarial e Tribut\u00e1rio pela FGV, al\u00e9m de forma\u00e7\u00f5es em Direito (com dupla titula\u00e7\u00e3o internacional pela Universidad de La Rioja), Administra\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancias Cont\u00e1beis.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revoga\u00e7\u00e3o da chamada taxa das blusinhas exp\u00f5e, mais uma vez, uma das maiores fragilidades da pol\u00edtica tribut\u00e1ria brasileira: a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":425217,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[241],"tags":[],"class_list":["post-429407","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-senado-federal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/429407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=429407"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/429407\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/425217"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=429407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=429407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=429407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}