{"id":428391,"date":"2026-05-21T05:00:00","date_gmt":"2026-05-21T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=428391"},"modified":"2026-05-21T05:00:00","modified_gmt":"2026-05-21T09:00:00","slug":"nos-passos-da-feb-do-embarque-no-rio-ao-batismo-de-fogo-na-italia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=428391","title":{"rendered":"Nos passos da FEB: do embarque no Rio ao batismo de fogo na It\u00e1lia"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Hoje estamos em Pisa, na It\u00e1lia. Somos uma comitiva de nove familiares refazendo o percurso de nossos pracinhas na Segunda Guerra Mundial. Meu pai era um deles. Atravessou o Atl\u00e2ntico com outros 25.334 compatriotas, integrando a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB), que lutou n\u00e3o apenas pelo Brasil, mas pela humanidade: uma saga em territ\u00f3rio italiano escrita com suor, sangue e coragem.<\/p>\n<p>Em 16 de julho de 1944, ap\u00f3s 14 dias de travessia, o navio que transportava o 1\u00ba escal\u00e3o da FEB adentrou a ba\u00eda de N\u00e1poles. O impacto visual era devastador: casas e pr\u00e9dios reduzidos a escombros, uma popula\u00e7\u00e3o faminta e ferida e o cen\u00e1rio t\u00edpico de uma pra\u00e7a de guerra \u2013 soldados circulando entre tanques, avi\u00f5es, bal\u00f5es de observa\u00e7\u00e3o e navios, alguns operantes, outros em ru\u00ednas. Foi nesse ambiente que desembarcaram os 5.075 homens do primeiro contingente brasileiro, em sua maioria jovens soldados.<\/p>\n<p>N\u00e1poles j\u00e1 se encontrava sob controle dos Aliados, mas permanecia semidestru\u00edda pelos intensos bombardeios dirigidos \u00e0s for\u00e7as alem\u00e3s e aos remanescentes do regime de Mussolini, em retirada desde a perda da Sic\u00edlia. A cidade simbolizava o destino cruel que se abatia sobre tantas localidades italianas naquele momento em que a superioridade militar dos Aliados come\u00e7ava a se consolidar.<\/p>\n<p>Um ano antes, em julho de 1943, Benito Mussolini havia sido deposto e preso, encerrando mais de duas d\u00e9cadas de governo fascista. Formou-se ent\u00e3o um novo gabinete, chefiado pelo marechal Pietro Badoglio, que estrategicamente buscou preservar uma apar\u00eancia de continuidade. Ainda assim, a It\u00e1lia encontrava-se exausta e fragilizada pelos reveses de uma guerra para a qual entrara antes de estar devidamente preparada, como advertiram, sem sucesso, muitos generais italianos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Sob rigoroso sigilo quanto ao destino e aos detalhes da partida, o 1\u00ba escal\u00e3o da FEB embarcou em 2 de julho de 1944, no porto do Rio de Janeiro, em cerim\u00f4nia que contou com a presen\u00e7a do presidente Get\u00falio Vargas e do ministro da Guerra, general Dutra<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Pouco depois, em setembro de 1943, Badoglio anunciou medidas decisivas: o armist\u00edcio com os Aliados e a ordem para proteger os principais ativos militares, especialmente a frota naval, para evitar que ca\u00edssem nas m\u00e3os dos alem\u00e3es e dos fascistas remanescentes, que logo avan\u00e7ariam sobre Roma. Esse momento marcou o in\u00edcio da guerra civil italiana, que passaria a dividir o pa\u00eds entre o sul, apoiado pelos Aliados, e o norte, sob ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p>Naquele mesmo m\u00eas, no auge da turbul\u00eancia que sacudia a Segunda Guerra Mundial, Benito Mussolini foi resgatado de seu cativeiro secreto, no alto do maci\u00e7o de Gran Sasso, numa opera\u00e7\u00e3o de contornos cinematogr\u00e1ficos. Deposto e mantido sob absoluto sigilo pelas autoridades italianas, o l\u00edder fascista foi localizado e resgatado por comandos alem\u00e3es numa a\u00e7\u00e3o fulminante, conduzida sob a lideran\u00e7a do coronel Otto Skorzeny, o oficial da SS que se tornaria c\u00e9lebre por opera\u00e7\u00f5es de aud\u00e1cia quase teatral.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, silenciosos planadores pousaram sobre o plat\u00f4 rochoso, e um pequeno avi\u00e3o aterrissou em terreno que nenhum manual recomendaria. Mussolini, at\u00f4nito, foi retirado ileso para ser levado a Adolf Hitler. Ao entrar na sala onde o prisioneiro aguardava, Skorzeny teria proclamado a frase que a propaganda nazista transformaria em mito: \u201cDuce, o F\u00fchrer mandou-me busc\u00e1-lo.\u201d A opera\u00e7\u00e3o, celebrada \u00e0 exaust\u00e3o pelo regime alem\u00e3o, consolidou-se como uma das mais espetaculares a\u00e7\u00f5es de resgate da guerra. Instalado na chamada Rep\u00fablica Social Italiana, no norte, Mussolini passou a chefiar o governo, mas com poderes reduzidos e sob estreita subordina\u00e7\u00e3o ao Reich.<\/p>\n<p>Embora a guerra civil tenha atingido toda a It\u00e1lia, ap\u00f3s o avan\u00e7o sobre Roma as tropas nazifascistas \u2013 entre as quais cerca de 125 mil homens que haviam recuado da Sic\u00edlia \u2013 passariam a viver quase exclusivamente em retirada. Esse movimento intensificou dramaticamente o sofrimento no norte do pa\u00eds, transformado em alvo de bombardeios aliados constantes e devastadores, somados \u00e0s a\u00e7\u00f5es alem\u00e3s que buscavam retardar o avan\u00e7o inimigo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A FEB era um verdadeiro caleidosc\u00f3pio social: reunia imigrantes e filhos de imigrantes, mesti\u00e7os, afrodescendentes, ind\u00edgenas, trabalhadores urbanos e rurais. Diante deles, um inimigo experiente e bem equipado, al\u00e9m de um inverno rigoroso<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Foi nesse cen\u00e1rio convulsionado que, meses depois, a FEB desembarcaria em N\u00e1poles, chamada a ocupar o espa\u00e7o deixado no front italiano quando, em agosto de 1944, parte das for\u00e7as aliadas foi deslocada para o sul da Fran\u00e7a, na Opera\u00e7\u00e3o Dragoon \u2013 desencadeada ap\u00f3s o desembarque na Normandia, na Opera\u00e7\u00e3o Overlord (Dia D, 6 de junho de 1944).<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Dragoon tinha como objetivo capturar portos estrat\u00e9gicos no Mediterr\u00e2neo, especialmente Marselha e Toulon, ampliando a press\u00e3o sobre as for\u00e7as alem\u00e3s ali posicionadas e, em seguida, unir-se \u00e0s tropas da Overlord, completando o grande movimento de pin\u00e7a sobre o ex\u00e9rcito alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob rigoroso sigilo quanto ao destino e aos detalhes da partida, o 1\u00ba escal\u00e3o da FEB embarcou em 2 de julho de 1944, no porto do Rio de Janeiro, em cerim\u00f4nia que contou com a presen\u00e7a do presidente Get\u00falio Vargas e do ministro da Guerra, general Dutra. Pelos alto-falantes, Vargas dirigiu palavras de encorajamento aos soldados e assegurou que suas fam\u00edlias n\u00e3o ficariam desamparadas. Concluiu com uma frase que marcaria aquele momento: \u201c\u00c9 com emo\u00e7\u00e3o que aqui vos deixo os meus votos de pleno \u00eaxito. N\u00e3o \u00e9 um adeus, mas um \u2018at\u00e9 breve\u2019, quando ouvireis a palavra da p\u00e1tria agradecida.\u201d<\/p>\n<p>Para iludir a espionagem inimiga, o destino do escal\u00e3o permaneceu oculto at\u00e9 o \u00faltimo instante, desconhecido at\u00e9 mesmo dos pracinhas e de parte dos oficiais brasileiros. Chegou-se a cogitar o desembarque no norte da \u00c1frica, onde havia melhor estrutura para treinamento. O embarque foi ensaiado repetidas vezes, numa estrat\u00e9gia para confundir os servi\u00e7os de intelig\u00eancia quanto ao hor\u00e1rio exato da partida. Na noite do embarque efetivo, o deslocamento de trem at\u00e9 o cais seguiu por um trajeto inesperado, enquanto outros trens circulavam sob vigil\u00e2ncia refor\u00e7ada, por\u00e9m sem tropas. Era mais uma manobra de dissimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nessa primeira ofensiva, a FEB capturou 45 soldados inimigos e sofreu 35 baixas (mortos ou incapacitados de lutar), um digno batismo de fogo \u00e0 altura das circunst\u00e2ncias<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 poucos dias, visitamos o bunker de Mussolini, em Roma \u2013 um labirinto subterr\u00e2neo concebido para proteger o l\u00edder fascista e sua fam\u00edlia dos bombardeios aliados. Entre julho de 1943 e maio de 1944, a capital italiana sofreu 51 ataques a\u00e9reos. Na Villa Torlonia, resid\u00eancia de Mussolini desde 1929, foram constru\u00eddos dois abrigos antia\u00e9reos. O mais impressionante deles, escavado a seis metros de profundidade, era protegido por uma cobertura de cerca de quatro metros de concreto armado, portas antig\u00e1s e um sistema de purifica\u00e7\u00e3o de ar: uma verdadeira fortaleza subterr\u00e2nea projetada para resistir ao colapso do mundo l\u00e1 fora. Paradoxalmente, ainda estava inacabado quando Mussolini foi deposto, jamais cumprindo seu prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do 1\u00ba escal\u00e3o, outros quatro contingentes deixaram o porto do Rio de Janeiro rumo ao teatro de opera\u00e7\u00f5es na It\u00e1lia, todos em navios americanos adaptados ao transporte de tropas. Dois partiram em setembro, o quarto em novembro e o \u00faltimo em fevereiro de 1945, cada qual levando cerca de cinco mil expedicion\u00e1rios. As embarca\u00e7\u00f5es seguiam escoltadas por contratorpedeiros brasileiros e navios de guerra americanos e contavam, em alguns trechos, com cobertura a\u00e9rea. Durante o dia, os pracinhas permaneciam no conv\u00e9s; \u00e0 noite, recolhiam-se aos alojamentos, em beliches completamente \u00e0s escuras, para que nenhuma r\u00e9stia de luz denunciasse a posi\u00e7\u00e3o do navio ao inimigo.<\/p>\n<p>A FEB era um verdadeiro caleidosc\u00f3pio social: reunia imigrantes e filhos de imigrantes, mesti\u00e7os, afrodescendentes, ind\u00edgenas, trabalhadores urbanos e rurais. Diante deles, um inimigo experiente e bem equipado, al\u00e9m de um inverno rigoroso, com temperaturas que frequentemente atingiam \u201315 \u00b0C. Quanto \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o dos pracinhas, as palavras do general Mascarenhas de Moraes sintetizaram o desafio: \u201cOs tr\u00eas primeiros escal\u00f5es chegaram \u00e0 It\u00e1lia com treinamento incompleto e inadequado, e os dois \u00faltimos partiram do Brasil praticamente sem instru\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a chegada em N\u00e1poles, o 1\u00ba escal\u00e3o seguiu por terra at\u00e9 Tarquinia, onde passou por treinamentos adicionais com militares norte-americanos e recebeu instru\u00e7\u00e3o sobre novos armamentos. Os demais escal\u00f5es percorreram caminhos distintos: parte dos soldados tamb\u00e9m seguiu por terra at\u00e9 a regi\u00e3o de Pisa, enquanto outro grupo embarcou em lanchas militares americanas rumo a Livorno, de onde foi transportado por caminh\u00f5es at\u00e9 os acantonamentos pr\u00f3ximos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ao todo, o percurso hist\u00f3rico da FEB em solo italiano abrangeu algo entre 350 e 400 quil\u00f4metros de deslocamentos. Hoje, 81 anos depois, refizemos parte desse trajeto<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O deslocamento terrestre ocorreu ao longo de duas noites, cobrindo cerca de 540 km, em comboios de viaturas sob rigoroso controle de luzes \u2013 afinal, ainda havia escaramu\u00e7as isoladas pelo caminho, e n\u00e3o se podia dar margem ao azar. J\u00e1 a navega\u00e7\u00e3o costeira pelo mar Tirreno, em barca\u00e7as militares, revelou-se particularmente penosa. Nosso pai relatava que, espremidos em embarca\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis, muitos soldados sucumbiam ao balan\u00e7o das ondas e ao cheiro intenso de combust\u00edvel; o est\u00f4mago se rendia antes mesmo de qualquer combate, para desespero de quem estivesse ao lado. Nessas horas, o brasileiro n\u00e3o perdia a oportunidade de jocosamente batizar as coisas: as LCI (sigla de Landing Craft Infantry), usadas no transporte mar\u00edtimo de infantaria, ganharam entre os pracinhas o apelido de \u201cLan\u00e7a Comida Interna\u201d. San Rossore, nas cercanias de Pisa, serviu como \u00e1rea de acantonamento e de treinamento intensivo.<\/p>\n<p>As tropas brasileiras foram passadas em revista pelo general Mark Clark, comandante do 5\u00ba Ex\u00e9rcito americano, ao qual a FEB estava subordinada, em um gesto de reconhecimento e respeito. No dia 7 de setembro de 1944, a FEB celebrou, em solo estrangeiro, o Dia da Independ\u00eancia do Brasil. Na ocasi\u00e3o, Mascarenhas de Moraes leu a Ordem do Dia, conclamando seus homens \u00e0 miss\u00e3o de libertar o povo italiano do jugo nazifascista.<\/p>\n<p>Para muitos pracinhas, aquele momento foi inesquec\u00edvel. Sob o c\u00e9u da Toscana, com o cheiro de p\u00f3lvora ainda impregnando a paisagem e o eco distante da artilharia inimiga, ouvir o comandante falar de independ\u00eancia, liberdade e dever nacional reacendia algo profundo: a certeza de que, mesmo t\u00e3o longe do Brasil, carregavam consigo a p\u00e1tria inteira.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, os pracinhas estavam ansiosos para entrar em combate. Os primeiros tiros foram disparados na noite de 14 para 15 de setembro de 1944, quando come\u00e7aram a substituir gradualmente unidades americanas na linha de frente. \u00c0 modorra do acampamento, t\u00edpica das longas fases de treinamento, seguiu-se um frenesi repentino, e um novo estado de esp\u00edrito tomou conta dos combatentes.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Com a retirada de tropas veteranas da It\u00e1lia, a FEB tornou-se essencial para manter a press\u00e3o sobre as for\u00e7as alem\u00e3s e sustentar o avan\u00e7o aliado rumo ao norte<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esse clima n\u00e3o passou despercebido ao general Mark Clark, que registrou: \u201cOs brasileiros, de modo geral, estavam ansiosos por entrarem em a\u00e7\u00e3o. De fato, era tal a pressa deles que, provavelmente, n\u00e3o completaram o treinamento de que precisavam ap\u00f3s a chegada \u00e0 It\u00e1lia\u201d.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, uma nova realidade se impunha: confrontos diretos com os temidos tedeschi (termo em italiano para alem\u00e3es, aqui aplicado sobretudo a soldados bem treinados e combativos) e com tropas italianas ainda fi\u00e9is ao fascismo, em meio a terrenos lamacentos, minados e montanhosos, sob o outono chuvoso e o inverno rigoroso que se aproximava. Nessa primeira ofensiva, a FEB capturou 45 soldados inimigos e sofreu 35 baixas (mortos ou incapacitados de lutar), um digno batismo de fogo \u00e0 altura das circunst\u00e2ncias. Apesar da forte resist\u00eancia inimiga, avan\u00e7ou cerca de 18 km e, em 26 de setembro, rompeu a Linha G\u00f3tica na regi\u00e3o do Monte Prano.<\/p>\n<p>Esse complexo sistema defensivo, ao longo da cadeia dos Apeninos, estendia-se do Mar Tirreno ao Adri\u00e1tico por cerca de 280 quil\u00f4metros. Fora erguido por decis\u00e3o de Albert Kesselring, comandante em chefe das for\u00e7as alem\u00e3s no teatro italiano. Gozava do prest\u00edgio de estrategista competente, embora fosse igualmente implac\u00e1vel: autorizou incont\u00e1veis repres\u00e1lias contra civis e partisans (partegiani, os integrantes da resist\u00eancia armada italiana), resultando em massacres que mais tarde fundamentariam sua condena\u00e7\u00e3o por crimes de guerra.<\/p>\n<p>Com seu intrincado conjunto de fortifica\u00e7\u00f5es, campos minados, arame farpado, abrigos de concreto, fossos, trincheiras e posi\u00e7\u00f5es de artilharia, a Linha G\u00f3tica configurava uma das mais complexas linhas defensivas alem\u00e3s para proteger o norte da It\u00e1lia durante a Segunda Guerra Mundial. Foi constru\u00edda com o trabalho for\u00e7ado de cerca de 20 mil civis italianos pr\u00f3-aliados, mais um tra\u00e7o da guerra civil que ent\u00e3o dilacerava o pa\u00eds. Submetidos ao frio, \u00e0 fome, a jornadas extenuantes e ao risco constante de bombardeios, esses trabalhadores ajudaram a erguer o obst\u00e1culo que os pr\u00f3prios Aliados teriam de transpor para avan\u00e7ar rumo ao norte da It\u00e1lia. O rompimento dessa linha contou com a atua\u00e7\u00e3o decisiva da FEB.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Ao todo, o percurso hist\u00f3rico da FEB em solo italiano abrangeu algo entre 350 e 400 quil\u00f4metros de deslocamentos. Hoje, 81 anos depois, refizemos parte desse trajeto sob a orienta\u00e7\u00e3o do guia M\u00e1rio Pereira. N\u00e3o mais a p\u00e9, sob chuva ou neve, mas no conforto de uma van climatizada. O itiner\u00e1rio nos levou, nesta ordem, por Pisa, Lucca, Pistoia, Castelnuovo di Garfagnana, Porreta Terme, Monte Castello, Montese, Zocca, Collecchio e Fornovo di Taro. Ao longo desse trajeto, destacam-se tr\u00eas batalhas decisivas \u2013 Monte Castello, Montese e Fornovo di Taro \u2013, que ser\u00e3o tema do pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n<p>Apesar dessa trajet\u00f3ria, alguns historiadores ainda atribuem ao Brasil um papel secund\u00e1rio na frente italiana. \u00c9 verdade que o pa\u00eds ingressou no conflito quando a prioridade estrat\u00e9gica dos Aliados j\u00e1 se deslocava para a Fran\u00e7a. Ainda assim, com a retirada de tropas veteranas da It\u00e1lia, a FEB tornou-se essencial para manter a press\u00e3o sobre as for\u00e7as alem\u00e3s e sustentar o avan\u00e7o aliado rumo ao norte.<\/p>\n<p>Rubem Braga, correspondente brasileiro na Segunda Guerra em solo italiano \u2013 ele pr\u00f3prio ferido por um tiro na m\u00e3o \u2013, registrou com rara precis\u00e3o a realidade enfrentada pelos pracinhas. Ele tamb\u00e9m sustentou a percep\u00e7\u00e3o de que chegaram \u00e0 It\u00e1lia com preparo insuficiente, mas que, apesar disso, adaptaram-se rapidamente ao ambiente de guerra e combateram com coragem, dureza e dignidade. Diante de tantas adversidades, aprenderam com rapidez, improvisaram quando necess\u00e1rio, cultivaram um forte esp\u00edrito de solidariedade no front e conquistaram o respeito tanto dos Aliados quanto da popula\u00e7\u00e3o italiana.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao nosso tronco familiar, o sobrenome Venturi figura entre os que mais contribu\u00edram com soldados para a FEB: foram quatro pracinhas, todos primos entre si. Nosso pai serviu por quatro anos no Ex\u00e9rcito, integrou a artilharia do 11\u00ba Regimento e embarcou para a It\u00e1lia em 22 de setembro de 1944. Atuou como operador de metralhadoras pesadas Browning .50, fornecidas pelo Ex\u00e9rcito norte-americano, armamento cuja opera\u00e7\u00e3o exigia equipes de quatro a cinco homens.<\/p>\n<p>Junto \u00e0s tropas da FEB \u2013 uma divis\u00e3o completa que reunia soldados, oficiais, m\u00e9dicos, engenheiros, capel\u00e3es, pilotos, mec\u00e2nicos, pessoal de suprimentos, transporte e comunica\u00e7\u00f5es \u2013 embarcaram tamb\u00e9m 67 enfermeiras brasileiras, todas volunt\u00e1rias, al\u00e9m de outras seis que integraram a FAB, totalizando 73 profissionais \u2013 sete delas curitibanas \u2013 mobilizadas para o conflito. Foram as primeiras mulheres autorizadas a usar o uniforme oficial do Ex\u00e9rcito brasileiro. Esse gesto representou um avan\u00e7o institucional decisivo: at\u00e9 ent\u00e3o, nenhuma mulher havia sido formalmente incorporada \u00e0s For\u00e7as Armadas com direito a uniforme, patente e soldo.<\/p>\n<p>Vale registrar um desdobramento hist\u00f3rico dessa conquista: foi esse primeiro passo, dado em 1944, que abriu caminho para que, em mar\u00e7o de 2026, uma mulher alcan\u00e7asse, pela primeira vez, o generalato no Ex\u00e9rcito brasileiro. A pioneira \u00e9 a m\u00e9dica pernambucana Cl\u00e1udia Lima Cacho, de 57 anos, promovida ao posto de general de brigada, um marco na trajet\u00f3ria feminina dentro da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Jacir J. Venturi, <\/strong>filho do expedicion\u00e1rio Leopoldo Venturi.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje estamos em Pisa, na It\u00e1lia. 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