{"id":426776,"date":"2026-05-20T15:50:57","date_gmt":"2026-05-20T19:50:57","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=426776"},"modified":"2026-05-20T15:50:57","modified_gmt":"2026-05-20T19:50:57","slug":"o-brasil-e-sua-incapacidade-de-reformar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=426776","title":{"rendered":"O Brasil e sua incapacidade de reformar"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2021\/09\/10095308\/36736219051_72ca0841f8_o-1.jpg\" \/><span>Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes e Esplanada dos Minist\u00e9rios, em Bras\u00edlia. (Foto: Geraldo Magela\/Ag\u00eancia Senado)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Toda <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/democracia\/\">democracia <\/a>vive conflitos pol\u00edticos. Diverg\u00eancias de opini\u00e3o, disputas eleitorais, choques entre poderes, tens\u00f5es entre grupos pol\u00edticos e debates p\u00fablicos intensos fazem parte da vida democr\u00e1tica. O conflito, em si, n\u00e3o \u00e9 uma anomalia do sistema \u2013 em certa medida, \u00e9 o pr\u00f3prio sistema em funcionamento.<\/p>\n<p>O problema brasileiro talvez n\u00e3o esteja na exist\u00eancia do conflito, mas na incapacidade de transform\u00e1-lo em delibera\u00e7\u00e3o institucional capaz de produzir reformas.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos o Brasil parece preso em um ciclo de crises sucessivas. Esc\u00e2ndalos pol\u00edticos, disputas entre os poderes, opera\u00e7\u00f5es policiais, julgamentos rumorosos, radicaliza\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica, conflitos ideol\u00f3gicos e enfrentamentos nas redes sociais passaram a ocupar quase integralmente o espa\u00e7o p\u00fablico nacional. Tudo \u00e9 absorvido pela crise do momento. Tudo se converte em embate pol\u00edtico imediato.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, o pa\u00eds perdeu gradualmente a capacidade de discutir seus problemas estruturais.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O problema brasileiro talvez n\u00e3o esteja na exist\u00eancia do conflito, mas na incapacidade de transform\u00e1-lo em delibera\u00e7\u00e3o institucional capaz de produzir reformas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>As reformas de que o Brasil necessita tornaram-se perif\u00e9ricas no debate nacional. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/reforma-administrativa\/\">Reforma administrativa<\/a> profunda, simplifica\u00e7\u00e3o dos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/impostos\/\">impostos <\/a>e redu\u00e7\u00e3o da carga tribut\u00e1ria, moderniza\u00e7\u00e3o do Estado, racionaliza\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina p\u00fablica, revis\u00e3o do pacto federativo, seguran\u00e7a jur\u00eddica para investimentos, melhoria do ambiente de neg\u00f3cios, reforma eleitoral \u2013 temas dessa natureza sobrevivem apenas episodicamente, quase sempre soterrados pela pr\u00f3xima crise pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O mais curioso \u00e9 que esse fen\u00f4meno atinge praticamente todos os campos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A esquerda brasileira, h\u00e1 bastante tempo, deslocou parte importante de sua energia para disputas predominantemente culturais, identit\u00e1rias e judiciais. A direita, por sua vez, embora tenha renascido nos \u00faltimos anos carregando forte impulso reformista e liberal, frequentemente v\u00ea-se aprisionada na l\u00f3gica da mobiliza\u00e7\u00e3o permanente, da rea\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e dos conflitos internos que acabam consumindo enorme parte de sua capacidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, a consequ\u00eancia \u00e9 semelhante: o debate sobre o funcionamento do Estado brasileiro vai sendo adiado indefinidamente. E reformas dependem justamente daquilo que parece faltar cada vez mais ao Brasil: capacidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nenhuma reforma estrutural relevante nasce pronta. Nenhum consenso surge espontaneamente. Reformas s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es pol\u00edticas complexas, que exigem negocia\u00e7\u00e3o, media\u00e7\u00e3o institucional, capacidade de coordena\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o para administrar diverg\u00eancias leg\u00edtimas dentro de uma sociedade plural.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Exige lideran\u00e7a capaz de avan\u00e7ar uma agenda de transforma\u00e7\u00e3o institucional, e de mobilizar as for\u00e7as pol\u00edticas na dire\u00e7\u00e3o correta. N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, nem pode ser feita de improviso.<\/p>\n<p>Para que reformas sejam constru\u00eddas, \u00e9 necess\u00e1rio que existam institui\u00e7\u00f5es capazes de absorver o conflito sem transformar toda diverg\u00eancia em ruptura permanente. Partidos pol\u00edticos, parlamentos, federa\u00e7\u00f5es, entidades da sociedade civil e os pr\u00f3prios poderes da Rep\u00fablica deveriam funcionar como espa\u00e7os organizados de delibera\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil, entretanto, parece caminhar na dire\u00e7\u00e3o oposta. Os partidos perderam densidade program\u00e1tica. As discuss\u00f5es internas frequentemente cedem lugar ao personalismo pol\u00edtico. As redes sociais substituem os ambientes de formula\u00e7\u00e3o. O debate p\u00fablico se fragmenta em rea\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas e disputas emocionais. A l\u00f3gica da crise permanente torna-se mais importante que a constru\u00e7\u00e3o gradual de maiorias pol\u00edticas capazes de sustentar reformas de longo prazo.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, at\u00e9 mesmo agendas que em tese reuniriam amplo apoio tornam-se dif\u00edceis de executar.<\/p>\n<p>Todos dizem defender efici\u00eancia do Estado. Todos dizem defender crescimento econ\u00f4mico. Todos dizem desejar menos burocracia, mais produtividade, mais investimentos e melhores servi\u00e7os p\u00fablicos. Mas a constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica necess\u00e1ria para transformar esses objetivos gen\u00e9ricos em reformas concretas raramente se completa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O pa\u00eds passa a girar permanentemente em torno dos acontecimentos do presente imediato, sem conseguir organizar uma vis\u00e3o consistente de futuro<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A pol\u00edtica brasileira tornou-se excessivamente absorvida pelo curto prazo.<\/p>\n<p>Oposi\u00e7\u00e3o e situa\u00e7\u00e3o vivem em mobiliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Os poderes operam frequentemente em tens\u00e3o rec\u00edproca. A sociedade acompanha tudo em tempo real, reagindo instantaneamente a cada novo epis\u00f3dio. E assim o pa\u00eds passa a girar permanentemente em torno dos acontecimentos do presente imediato, sem conseguir organizar uma vis\u00e3o consistente de futuro.<\/p>\n<p>Talvez por isso o Brasil tenha se tornado um pa\u00eds em que quase todos concordam que reformas s\u00e3o necess\u00e1rias, mas quase nenhuma reforma consegue avan\u00e7ar de forma profunda e sustentada.<\/p>\n<p>N\u00e3o porque faltem diagn\u00f3sticos. O pa\u00eds conhece razoavelmente bem muitos de seus problemas. O que parece faltar \u00e9 capacidade pol\u00edtica e institucional de produzir estabilidade suficiente para enfrent\u00e1-los.<\/p>\n<p>Pa\u00edses n\u00e3o prosperam apenas porque elegem bons governos. Prosperam quando conseguem construir institui\u00e7\u00f5es capazes de transformar diverg\u00eancias em delibera\u00e7\u00e3o, e delibera\u00e7\u00e3o em reformas duradouras.<\/p>\n<p>O verdadeiro desafio brasileiro talvez seja exatamente este: reaprender a reformar.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes e Esplanada dos Minist\u00e9rios, em Bras\u00edlia. 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