{"id":422222,"date":"2026-05-19T08:40:40","date_gmt":"2026-05-19T12:40:40","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=422222"},"modified":"2026-05-19T08:40:40","modified_gmt":"2026-05-19T12:40:40","slug":"o-senhor-das-moscas-e-o-chamado-da-tribo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=422222","title":{"rendered":"O Senhor das Moscas e o chamado da tribo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/19093523\/senhor-das-moscas.jpg.webp\" \/><span>Jack, o l\u00edder tribal de O Senhor das Moscas, era no fundo um covarde. Cercou-se de outros covardes que precisavam agir em bando e punir qualquer dissid\u00eancia (Foto: Imagem criada utilizando Open AI\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Vi este fim de semana com meu filho a nova s\u00e9rie da BBC \u201cO Senhor das Moscas\u201d, baseada no livro hom\u00f4nimo de William Golding, que li faz algum tempo. A s\u00e9rie foi bem fiel ao livro, pelo que me recordo. E a moral da hist\u00f3ria segue intacta: cuidado com a natureza humana! Ela precisa ser domesticada, o homem deve ser civilizado, mas a besta que vive em seu interior estar\u00e1 sempre l\u00e1, pronta para assumir o controle.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/G6SdA9sGNybATyY6DcPSuE\">Whatsapp: entre no grupo e receba as colunas de Rodrigo Constantino<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a queda de um avi\u00e3o, um grupo de garotos fica preso em uma ilha tropical no Oceano Pac\u00edfico, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950. Ralph, um menino bom, tenta liderar os garotos, com a ajuda do \u201cintelectual\u201d Piggy, que sugere regras para manter a ordem. No entanto, Jack inicia uma rebeli\u00e3o, e a sociedade improvisada que eles formaram come\u00e7a a desmoronar. O tribalismo fala mais alto. Comentei sobre o livro em meu <em>Esquerda Caviar<\/em>:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>O mal existe. O ser humano, ao contr\u00e1rio do que quer acreditar a esquerda caviar, n\u00e3o nasce bonzinho, mas com inclina\u00e7\u00e3o para a pr\u00e1tica da viol\u00eancia. Nelson Rodrigues resumiu com perfei\u00e7\u00e3o: \u201cSe \u00e9 verdade que um menino est\u00e1 isento do bem e do mal, ent\u00e3o \u00e9 um pequenino canalha\u201d.<\/em><\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>Em \u201cO senhor das moscas\u201d, William Golding retrata com realismo essa natureza humana, presente na mais tenra idade. Qualquer pai sabe que seu filho, desde muito cedo, gosta de apelar ao uso da for\u00e7a para obter aquilo que deseja. Civilizar \u00e9 impor limites a esse impulso natural, que sempre, no entanto, estar\u00e1 l\u00e1, latente, como uma besta \u00e0 espreita, aguardando uma oportunidade para emergir com total energia.<\/em><\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>Quem n\u00e3o quer se dar ao trabalho de ler, ao menos veja o filme \u201cO anjo malvado\u201d, com Macaulay Culkin, de 1993. \u00c9 fic\u00e7\u00e3o, claro, mas retrata algo fact\u00edvel: uma crian\u00e7a pode ser, no fundo e desde cedo, um pequeno monstrinho, capaz das maiores atrocidades. Mas a esquerda caviar politicamente correta n\u00e3o aceita isso, n\u00e3o quer encarar a maldade existente nos seres humanos.<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>O tribalismo n\u00e3o permite contesta\u00e7\u00e3o, diverg\u00eancia ou racionalidade. Pode ser catalisado para se transformar numa eficiente m\u00e1quina de guerra, mas jamais para construir uma civiliza\u00e7\u00e3o que mere\u00e7a tal nome<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ou seja, n\u00e3o nascemos \u201cpuros\u201d ou \u201cbons\u201d, tampouco a culpa de nossa viol\u00eancia \u00e9 da \u201csociedade\u201d, que \u00e9 formada, pasmem!, pelos pr\u00f3prios seres humanos que supostamente nasceram bons. Colocar a culpa da viol\u00eancia numa abstra\u00e7\u00e3o como a sociedade \u00e9 retir\u00e1-la de indiv\u00edduos de carne e osso, respons\u00e1veis por suas atitudes.<\/p>\n<p>Civilizar o homem, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 tarefa trivial. Afinal, o \u201cchamado da tribo\u201d \u00e9 muito forte. O que nos remete ao excelente livro de Mario Vargas Llosa justamente com esse t\u00edtulo, que resume as ideias de grandes pensadores como Adam Smith, Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Revel. O denominador comum que Vargas Llosa encontrou nesses autores \u00e9 sua rejei\u00e7\u00e3o ao tribalismo, um chamado natural, uma vez que se trata de uma paix\u00e3o at\u00e1vica essa busca por pertencimento a um grupo coeso.<\/p>\n<p>O liberal cl\u00e1ssico luta contra o coletivismo tribal desde sempre, e n\u00e3o \u00e9 trivial compreender as vantagens de um sistema mais impessoal como o livre mercado, calcado em regras ison\u00f4micas, pois n\u00e3o \u00e9 algo intuitivo. A tend\u00eancia natural \u00e9 defender a \u201ccoisa nossa\u201d, que leva ao patrimonialismo, que enxerga no estado uma extens\u00e3o da fam\u00edlia ou do seu grupo. O \u201cn\u00f3s contra eles\u201d \u00e9 tentador demais para ser ignorado por abstra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sou grande admirador de Vargas Llosa, n\u00e3o s\u00f3 do romancista, mas tamb\u00e9m do liberal em pol\u00edtica. Mas vale ressaltar as diferen\u00e7as essenciais: enquanto ele adota uma vis\u00e3o de um <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberalismo\/\">liberalismo<\/a> mais progressista e cosmopolita, \u00e0s vezes quase flertando com uma social-democracia ao estilo tucano, eu me considero um liberal com vi\u00e9s conservador, justamente por rejeitar a vis\u00e3o racionalista demais dos que ignoram o legado e a import\u00e2ncia das tradi\u00e7\u00f5es morais e religiosas, al\u00e9m do saud\u00e1vel patriotismo \u2013 que jamais deve ser confundido com o nacionalismo tacanho e ufanista.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Em que pesem diferen\u00e7as importantes, o que nos une \u00e9 mais forte: Vargas Llosa absorveu desses pensadores liberais a humildade necess\u00e1ria para n\u00e3o cair em tenta\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas revolucion\u00e1rias, preferindo sempre o gradualismo reformista e a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/democracia\/\">democracia<\/a> que, com todos os seus defeitos, tem como maior virtude evitar justamente o derramamento de sangue em trocas violentas de grupos no poder.<\/p>\n<p>Sua avers\u00e3o ao coletivismo \u00e9 por mim compartilhada. Com Sir Karl Popper, talvez sua maior influ\u00eancia, o escritor peruano rejeita a irracionalidade do ser humano primitivo \u201cque descansa no fundo mais secreto de todos os civilizados, que nunca superaram totalmente a saudade daquele mundo tradicional \u2013 a tribo \u2013 em que o homem ainda era parte insepar\u00e1vel da coletividade, subordinado ao feiticeiro ou ao cacique todo-poderosos que tomavam todas as decis\u00f5es por ele, e nela se sentia seguro, livre de responsabilidades, submetido, como o animal de manada, no rebanho, ou o ser humano em uma turma ou torcida, adormecido entre os que falavam a mesma l\u00edngua, adoravam os mesmos deuses e praticavam os mesmos costumes, e odiando o outro, o diferente, que podia ser responsabilizado por todas as calamidades que assolavam a tribo\u201d.<\/p>\n<p>Em <em>Tribe: On Homecoming and Belonging<\/em>, Sebastian Junger, correspondente de guerra, mostra como muitos militares acabaram sentindo falta dos anos de batalha, pois ali, apesar de toda a dor e viol\u00eancia, havia ao menos um sentimento forte de pertencimento a algo maior. N\u00e3o por acaso virtudes \u2013 e v\u00edcios \u2013 destacam-se em momentos como estes. A coragem que desperta em alguns, com um prop\u00f3sito de \u201cbando\u201d, \u00e9 algo heroico e conhecido. Numa tribo, estamos dispostos a dividir mais, compartilhar, algo que as sociedades modernas impessoais dificultam \u2013 e o estado \u00e9 p\u00e9ssimo substituto para isso. N\u00e3o quer dizer, naturalmente, que seja desej\u00e1vel retornar ao tribalismo. Mas \u00e9 recomend\u00e1vel assumir que algo se perdeu no processo, que existe uma troca aqui, que o progresso civilizacional traz um custo.<\/p>\n<p>Por fim, retorno \u00e0 humildade, caracter\u00edstica fundamental do liberalismo. Vargas Llosa resume bem: \u201cEntre os liberais, como demonstram aqueles que figuram nestas p\u00e1ginas, com muita frequ\u00eancia h\u00e1 mais discrep\u00e2ncias que coincid\u00eancias. O liberalismo \u00e9 uma doutrina que n\u00e3o tem respostas para tudo, como pretende o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/karl-marx\/\">marxismo<\/a>, e admite em seu seio a diverg\u00eancia e a cr\u00edtica, a partir de um corpo pequeno, mas inequ\u00edvoco, de convic\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Jack, o l\u00edder tribal de <em>O Senhor das Moscas<\/em>, era no fundo um covarde. Cercou-se de outros covardes que precisavam agir em bando e punir qualquer dissid\u00eancia. Chegaram a matar Simon a pauladas, e Piggy veio a \u00f3bito depois tamb\u00e9m. O tribalismo n\u00e3o permite contesta\u00e7\u00e3o, diverg\u00eancia ou racionalidade. Pode ser catalisado para se transformar numa eficiente m\u00e1quina de guerra, mas jamais para construir uma civiliza\u00e7\u00e3o que mere\u00e7a tal nome.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jack, o l\u00edder tribal de O Senhor das Moscas, era no fundo um covarde. 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