{"id":421827,"date":"2026-05-19T05:02:00","date_gmt":"2026-05-19T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=421827"},"modified":"2026-05-19T05:02:00","modified_gmt":"2026-05-19T09:02:00","slug":"o-homem-nao-merece-o-amor-divino-e-ainda-assim-deus-o-ama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=421827","title":{"rendered":"O homem n\u00e3o merece o amor divino \u2013 e ainda assim Deus o ama"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 um momento, no livro X das <em>Confiss\u00f5es<\/em>, em que Agostinho, depois de revolver a vida inteira como quem desencrava uma flecha do peito, deixa escapar aquele suspiro que atravessa os s\u00e9culos: <em>Tarde te amei, beleza t\u00e3o antiga e t\u00e3o nova, tarde te amei<\/em>. A frase, lida apressadamente, parece a confiss\u00e3o de um atraso. Lida com a calma que ela merece, \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p>\u00c9 a constata\u00e7\u00e3o de que, durante todos os anos em que o autor andara perseguindo as criaturas, atr\u00e1s de mulheres, livros e todas as gl\u00f3rias desta cidade, algu\u00e9m o aguardava na sala \u00edntima da sua pr\u00f3pria alma. <em>Tu autem eras interior intimo meo<\/em>. N\u00e3o estava no fim de uma estrada, nem no topo de uma escada. Estava dentro, \u00e0 espera de um homem que se ocupava ferozmente de fugir de si.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a fotografia mais exata do amor de Deus pelos homens: algu\u00e9m que, sem deixar o seu posto, espera por quem passa a vida correndo na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. E a fotografia, examinada com sobriedade, n\u00e3o comove apenas. Escandaliza.<\/p>\n<p>Toda a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, dos Padres da Igreja aos te\u00f3logos modernos, repete a mesma frase com palavras diferentes, e a frase \u00e9 esta: o homem n\u00e3o merece o amor de Deus. N\u00e3o \u00e9 piedade autodepreciativa. \u00c9 constata\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica. Tom\u00e1s de Aquino, num dos passos mais densos da <em>Summa<\/em> (I, q. 20, a. 2), inverte de uma vez por todas a opera\u00e7\u00e3o sentimental do amor humano.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, amar \u00e9 rea\u00e7\u00e3o: a mulher \u00e9 boa, bela, simp\u00e1tica e emp\u00e1tica, e a vontade responde \u00e0quilo que percebe. O amor de Deus opera ao contr\u00e1rio. <em>Amor Dei est infundens et creans bonitatem in rebus<\/em>. N\u00e3o amamos as coisas porque Deus as fez boas; Deus as faz boas porque as ama. A bondade n\u00e3o precede a gra\u00e7a, e sim decorre dela. Tudo o que em n\u00f3s merece um olhar amoroso \u00e9, antes de qualquer m\u00e9rito, efeito desse olhar.<\/p>\n<p>Quem compreende este par\u00e1grafo de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino compreende, de uma vez, o cerne do esc\u00e2ndalo. O amor divino n\u00e3o obedece \u00e0 l\u00f3gica do mercado nem \u00e0 da meritocracia. N\u00e3o calcula, n\u00e3o pesa, n\u00e3o barganha. N\u00e3o h\u00e1 cota\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para uma transa\u00e7\u00e3o em que uma das partes oferece o pr\u00f3prio Verbo encarnado e a outra, num bom dia, aten\u00e7\u00e3o distra\u00edda.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Hoje estar\u00e1s comigo no para\u00edso<\/em>. Esta \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a frase mais inveross\u00edmil j\u00e1 pronunciada por boca alguma. Quem a ouve sem estremecer n\u00e3o a compreendeu. Quem a compreendeu n\u00e3o recupera mais a serenidade burguesa de quem julga ter pago suas contas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>S\u00e3o Bernardo de Claraval, num pequeno tratado que leva o t\u00edtulo <em>Sobre o Amor a Deus<\/em>, formulou o que talvez seja o aforismo mais inc\u00f4modo da teologia ocidental: <em>causa diligendi Deum, Deus est; modus, sine modo diligere<\/em>. A causa de amar a Deus \u00e9 Deus; o modo \u00e9 amar sem modo.<\/p>\n<p>Sem medida. Sem term\u00f4metro. Sem aquela contabilidade burguesa que entra nas rela\u00e7\u00f5es humanas pela porta dos fundos e termina por arruinar tudo o que toca. O Deus que se revela \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o tem modera\u00e7\u00e3o no afeto. Ama com uma despropor\u00e7\u00e3o t\u00e3o absoluta que, para os olhos modernos, treinados em equival\u00eancias e contratos, parece exagero, parece imprud\u00eancia, parece, no limite, loucura.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo j\u00e1 tinha visto isso, e o disse com aquela secura que lhe era peculiar, na primeira carta aos Cor\u00edntios. A prega\u00e7\u00e3o da Cruz \u00e9 loucura para os que se perdem, esc\u00e2ndalo para os judeus, tolice para os gregos. A palavra grega que ele emprega, <em>skandalon<\/em>, designa a pedra contra a qual se trope\u00e7a. Toda a teologia da gra\u00e7a \u00e9 uma pedra atravessada no meio do caminho, e a pedra \u00e9 esta: um Deus que ama o indigno. Que ama, especificamente, o indigno. N\u00e3o o homem gen\u00e9rico, abstrato, idealizado nas filosofias suaves, mas o homem concreto, com a sua duplicidade, a sua mesquinhez, as suas pequenas vingan\u00e7as, os seus afetos torcidos. O homem real, e n\u00e3o a sua vers\u00e3o de cart\u00e3o postal.<\/p>\n<p>Bento XVI, na enc\u00edclica <em>Deus \u00e9 Amor<\/em> (<em>Deus Caritas Est)<\/em>, de 2005, fez quest\u00e3o de demolir uma confus\u00e3o antiga. Durante s\u00e9culos, um pietismo meio afobado contrap\u00f4s o <em>eros<\/em> pag\u00e3o ao <em>\u00e1gape<\/em> crist\u00e3o, como se ocristianismo fosse uma religi\u00e3o de afetos p\u00e1lidos, cosmeticamente decentes, devidamente higienizados. Ratzinger desmonta a caricatura. O Deus b\u00edblico \u00e9, sim, <em>\u00e1gape<\/em> que se d\u00e1; mas \u00e9 tamb\u00e9m <em>eros<\/em> que busca. Sai, atravessa, desce, procura. Vai atr\u00e1s de quem fugiu.<\/p>\n<p>O Deus que se inclina sobre Ad\u00e3o depois da queda, que pergunta ao homem onde est\u00e1 e, j\u00e1 ao advento do Cristo, para onde vai, \u00e9 o mesmo que, na par\u00e1bola, deixa as 99 ovelhas para correr atr\u00e1s da \u00fanica que se perdeu. A opera\u00e7\u00e3o \u00e9, de novo, escandalosa. Qualquer pastor sensato cuida das 99. Apenas um Deus louco, ou apaixonado (e neste caso s\u00e3o sin\u00f4nimos), abandona o rebanho inteiro pela ovelha que n\u00e3o soube se comportar.<\/p>\n<p>O ponto mais dif\u00edcil, contudo, n\u00e3o est\u00e1 no esc\u00e2ndalo objetivo, mas na recusa subjetiva. Agostinho viu, com a sua agudeza incompar\u00e1vel, que a vontade humana ferida prefere mil vezes pagar a receber. Receber humilha. Pagar dignifica. Por isso o pecador t\u00edpico das <em>Confiss\u00f5es<\/em> n\u00e3o \u00e9 o devasso, mas o orgulhoso, e por isso o dem\u00f4nio agostiniano se chama soberba antes de se chamar lux\u00faria.<\/p>\n<p>A gra\u00e7a \u00e9 dom, e o dom oferece \u00e0 criatura uma posi\u00e7\u00e3o que ela, na sua vaidade natural, n\u00e3o aceita sem revolta: a do mendigo que estende a m\u00e3o. Aceitar o amor gratuito de Deus exige um gesto que repugna a quase tudo o que somos, isto \u00e9, render-se sem ter combatido, recolher sem ter semeado, sentar-se \u00e0 mesa sem ter trazido o vinho.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/olavo-de-carvalho\/\">Olavo de Carvalho<\/a> costumava insistir num ponto que poucos diziam com igual clareza: o homem moderno perdeu a capacidade de notar o esc\u00e2ndalo. N\u00e3o \u00e9 que recuse o Amor de Deus, \u00e9 que se tornou incapaz de perceb\u00ea-lo enquanto despropor\u00e7\u00e3o. Ao se erigir em medida do cosmos, o sujeito moderno aboliu a vertical sobre a qual a gra\u00e7a desce. Quando tudo se horizontaliza, o gesto divino vira detalhe sentimental, met\u00e1fora de autoajuda, cosm\u00e9tica interior.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo agostiniano, a despropor\u00e7\u00e3o tomista, a loucura bernardina, o <em>skandalon<\/em> paulino, tudo isso \u00e9 amaciado, depilado, transformado em conte\u00fado motivacional. N\u00e3o h\u00e1, hoje, quase ningu\u00e9m capaz de receber a gra\u00e7a porque quase ningu\u00e9m \u00e9 mais capaz de admitir que n\u00e3o a merece. E a gra\u00e7a que se julga merecida deixa, por defini\u00e7\u00e3o, de ser gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1, talvez, o n\u00facleo do problema. Os Padres sabiam que o homem \u00e9 p\u00f3, e que o p\u00f3 n\u00e3o exige nada. S\u00e3o Tom\u00e1s sabia que a bondade da criatura \u00e9 dom, e n\u00e3o conquista. Bernardo sabia que medir o amor \u00e9 mat\u00e1-lo. Ratzinger sabia que um Deus que apenas julgasse seria menos do que um Deus que ama.<\/p>\n<p>Olavo sabia que a soberba moderna fechou a porta pela qual a gra\u00e7a entrava. E todos eles, lendo S\u00e3o Paulo, sabiam que existe, no centro do cristianismo, um absurdo intransit\u00e1vel: algu\u00e9m amou primeiro. Algu\u00e9m ama o que n\u00e3o pediu para ser amado, o que n\u00e3o retribui, o que muitas vezes tro\u00e7a e atravessa a vida fingindo n\u00e3o ouvir.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a \u00fanica not\u00edcia verdadeiramente espantosa que o cristianismo trouxe ao mundo. As religi\u00f5es pag\u00e3s ofereciam deuses caprichosos, vingativos, eventualmente solid\u00e1rios, sempre humanos demais. Os fil\u00f3sofos gregos chegaram, no melhor dos casos, ao motor im\u00f3vel de Arist\u00f3teles, esse pensamento que se pensa a si mesmo e que, justamente por isso, n\u00e3o pode se inclinar sobre coisa nenhuma. Foi preciso a revela\u00e7\u00e3o para que o C\u00e9u, por assim dizer, baixasse a cabe\u00e7a. E que a baixasse n\u00e3o diante do justo, do her\u00f3i, do s\u00e1bio, mas diante do ladr\u00e3o que, no pat\u00edbulo ao lado, pediu apenas que se lembrassem dele.<\/p>\n<p><em>Hoje estar\u00e1s comigo no para\u00edso<\/em>. Esta \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a frase mais inveross\u00edmil j\u00e1 pronunciada por boca alguma. Quem a ouve sem estremecer n\u00e3o a compreendeu. Quem a compreendeu n\u00e3o recupera mais a serenidade burguesa de quem julga ter pago suas contas. Diante do amor de Deus, ningu\u00e9m paga. Todos recebem. E recebem, exatamente, aquilo que jamais teriam podido pagar.<\/p>\n<p><em><strong>Lindolpho Cademartori <\/strong>\u00e9 diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco. <\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um momento, no livro X das Confiss\u00f5es, em que Agostinho, depois de revolver a vida inteira como quem desencrava&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":421828,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-421827","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/421827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=421827"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/421827\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/421828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=421827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=421827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=421827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}