{"id":420642,"date":"2026-05-18T16:01:32","date_gmt":"2026-05-18T20:01:32","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=420642"},"modified":"2026-05-18T16:01:32","modified_gmt":"2026-05-18T20:01:32","slug":"prevencao-que-nao-e-paternalismo-os-programas-que-afastam-jovens-do-crime-com-resultado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=420642","title":{"rendered":"Preven\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 paternalismo: os programas que afastam jovens do crime com resultado"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Aos 14 anos, <em>J\u00falia<\/em>* morava na zona sul de Porto Alegre e quase n\u00e3o ficava em casa. A rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e era tensa, as brigas frequentes, o sil\u00eancio entre as duas pesado.<\/p>\n<p>Foi nesse vazio que ela se envolveu com o tr\u00e1fico. Em 2024, aos 15 anos, passou sete meses internada na Funda\u00e7\u00e3o de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul. Quando saiu, nas palavras dela, &#8220;n\u00e3o queria nada com nada&#8221;.<\/p>\n<p>Hoje ela tem 16 anos, carteira assinada e est\u00e1 no primeiro ano do ensino m\u00e9dio. Trabalha na \u00e1rea administrativa do Centro de Integra\u00e7\u00e3o Empresa-Escola do Rio Grande do Sul (Ciee-RS), a mesma institui\u00e7\u00e3o que coordena o programa que a ajudou. O nome dela \u00e9 fict\u00edcio, mas a hist\u00f3ria \u00e9 real.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias como a de <em>J\u00falia<\/em> existem em outros estados, em programas diferentes, com metodologias distintas. O que a <strong>Gazeta do Povo<\/strong> encontrou ao mapear iniciativas brasileiras que funcionam de verdade para tirar jovens da criminalidade \u00e9 que todas partem do mesmo lugar: o jovem precisa se sentir acolhido por quem ele \u00e9 \u2014 e n\u00e3o pelo que ele faz.<\/p>\n<p>E podem servir de inspira\u00e7\u00e3o aos pr\u00e9-candidatos nas <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/eleicoes\/2026\/\">elei\u00e7\u00f5es 2026<\/a> para priorizar iniciativas engajadas do poder p\u00fablico voltadas \u00e0 inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia com o prop\u00f3sito de tornar o Brasil um pa\u00eds mais seguro, colhendo frutos na educa\u00e7\u00e3o, na seguran\u00e7a p\u00fablica e na cidadania.<\/p>\n<p>No Brasil, 47,8% dos 45.747 homic\u00eddios registrados em 2023 vitimaram pessoas de at\u00e9 29 anos \u2014 uma <strong>m\u00e9dia de 60 jovens assassinados por dia<\/strong>, segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. A taxa de reincid\u00eancia no sistema prisional adulto chega a 80%.<\/p>\n<p>Os programas que aparecem nesta reportagem registram um outro lado da moeda. E t\u00eam outra coisa em comum: viraram pol\u00edticas p\u00fablicas, o que permite que sobrevivam a trocas de governo.<\/p>\n<p><em>O nome de J\u00falia* foi alterado para preservar a identidade da adolescente.<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>V\u00ednculo vence a reincid\u00eancia<\/h2>\n<p>O Programa de Oportunidades e Direitos (POD) Socioeducativo acompanha adolescentes no per\u00edodo mais cr\u00edtico depois do cumprimento de medida socioeducativa \u2014 os primeiros meses em liberdade, quando as chances de reincid\u00eancia s\u00e3o maiores. Existe desde 2009 no Rio Grande do Sul e, desde 2018, \u00e9 executado pelo Ciee ga\u00facho com verba do governo estadual, num modelo que percorreu cinco governadores e foi aprimorado ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Quando o jovem est\u00e1 prestes a deixar a Funda\u00e7\u00e3o de Atendimento S\u00f3cio-Educativo do Rio Grande do Sul, recebe a oferta de participar \u2014 voluntariamente. Cerca de 70% aceitam.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, uma equipe de psic\u00f3logos, pedagogos e assistentes sociais faz o acompanhamento por at\u00e9 18 meses. O jovem recebe R$ 700 mensais, acessa cursos de inform\u00e1tica, culin\u00e1ria, programa\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o financeira, e pode ser encaminhado para vagas de est\u00e1gio e emprego.<\/p>\n<p>O or\u00e7amento anual do programa \u00e9 de R$ 3,5 milh\u00f5es para atender 348 jovens em todo o estado. Desses, 220 recebem o apoio financeiro e os demais continuam vinculados ao programa mesmo sem a bolsa. Segundo dados operacionais do Ciee-RS divulgados em mar\u00e7o de 2025, <strong>92% dos participantes n\u00e3o voltam a cometer atos infracionais<\/strong>.<\/p>\n<p><em>J\u00falia<\/em> \u00e9 um deles. No come\u00e7o, resistiu, mas aos poucos foi mudando de ideia. &#8220;Elas foram me incentivando a fazer os cursos. A gente foi criando um v\u00ednculo de amizade&#8221;, conta. Hoje, al\u00e9m do emprego de carteira assinada, faz unhas por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O que explica o resultado, na avalia\u00e7\u00e3o de quem opera o programa, n\u00e3o \u00e9 apenas o curso e nem a bolsa, mas principalmente o v\u00ednculo entre os jovens e os oficineiros. &#8220;N\u00e3o adianta a gente ofertar milh\u00f5es de coisas se a gente n\u00e3o tiver o v\u00ednculo com eles, n\u00e3o ouvir, n\u00e3o trabalhar em cima dos desejos deles, das vontades, das necessidades&#8221;, diz a pedagoga do POD em Porto Alegre, Tha\u00eds Goulart.<\/p>\n<p>A coordenadora do programa pelo Ciee-RS, Mel\u00e2nia Lisiak, resume a l\u00f3gica que norteia o trabalho: &#8220;A reincid\u00eancia n\u00e3o se combate com puni\u00e7\u00e3o isolada, se combate com oportunidade, com v\u00ednculo, oferecendo perspectiva de futuro. Quando a gente acredita no potencial desses jovens e oferece caminhos mais concretos, eles respondem com mudan\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>O programa existe formalmente apenas no Rio Grande do Sul. O Cear\u00e1 tem uma iniciativa semelhante, mas com acompanhamento de no m\u00e1ximo tr\u00eas meses. Nos outros estados, s\u00e3o projetos isolados, sem continuidade garantida entre governos. &#8220;Muda o governo, muda o nome, o programa \u00e9 descontinuado&#8221;, observa Mel\u00e2nia.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O oficineiro que para a bola para salvar uma vida<\/h2>\n<p>A dois mil quil\u00f4metros de Porto Alegre, em Belo Horizonte, o programa &#8220;Fica vivo!&#8221; opera com uma l\u00f3gica parecida \u2014 mas voltada para antes do envolvimento do jovem com o crime. O foco s\u00e3o jovens de 12 a 24 anos que ainda n\u00e3o entraram em conflito com a lei, mas vivem nos territ\u00f3rios onde o crime organizado recruta.<\/p>\n<p>O programa existe desde 2002, atravessou cinco governadores de Minas Gerais e foi institucionalizado por lei estadual em 2019, tornando-se pol\u00edtica de Estado. Atendeu 137.279 jovens em 2025 \u2014 crescimento de 20% em dois anos.<\/p>\n<p>Nos territ\u00f3rios em que atua, os homic\u00eddios na faixa et\u00e1ria atendida ca\u00edram 40% em 2025 em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, segundo a Secretaria de Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica de Minas Gerais. A pe\u00e7a central do programa \u00e9 o oficineiro.<\/p>\n<p>Luzimar \u00e9 grafiteiro desde 1983 e trabalha no &#8220;Fica vivo!&#8221; desde 2003, quando o programa ainda estava no primeiro ano de expans\u00e3o. Mora no Aglomerado Cabana, em BH, uma das 35 comunidades nas quais o programa atua.<\/p>\n<p>&#8220;O objetivo sempre foi manter os jovens vivos. Por isso o nome&#8221;, diz. &#8220;O programa abre um di\u00e1logo muito importante com a comunidade, que \u00e9 um lugar de dif\u00edcil acesso, as pessoas s\u00e3o muito fechadas e estritas dentro da vida que levam. Ter um projeto com di\u00e1logo direto assim \u00e9 muito raro&#8221;, complementa.<\/p>\n<p>David Marcelo Silva Mendes, conhecido como MacGyver, cresceu nessa mesma comunidade. Participou do &#8220;Fica vivo!&#8221; aos 16 anos e, em 2019, virou oficineiro. &#8220;Quero levar para os &#8216;moleques&#8217; aquela mesma sensa\u00e7\u00e3o que eu tive. Sensa\u00e7\u00e3o de liberdade, de que \u00e9 poss\u00edvel&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O modelo \u00e9 territorial e intencional. O Instituto Elo, organiza\u00e7\u00e3o social parceira da secretaria estadual, contrata como microempreendedores individuais lideran\u00e7as do pr\u00f3prio territ\u00f3rio \u2014 pessoas que os adolescentes j\u00e1 conhecem e respeitam \u2014 para conduzir 370 oficinas espalhadas pelo estado.<\/p>\n<p>A bolsa \u00e9 de R$ 1.320 por m\u00eas, um valor que microempreendedores t\u00eam liberdade para gerir e, com ele, providenciar o espa\u00e7o para a oficina, os recursos necess\u00e1rios e o lanche. O futebol \u00e9 a modalidade mais procurada, mas a bola \u00e9 s\u00f3 o pretexto.<\/p>\n<p>&#8220;O lanche \u00e9 o momento em que o oficineiro para a bola para fazer algum tipo de interven\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que voc\u00ea vai falar sobre perspectiva de vida, sobre n\u00e3o envolvimento com criminalidade, s\u00f3 jogando bola? N\u00e3o conseguiria&#8221;, explica a superintendente de Preven\u00e7\u00e3o Social \u00e0 Criminalidade da secretaria mineira, Fl\u00e1via Mendes, que est\u00e1 no programa h\u00e1 quase dez anos.<\/p>\n<p>S\u00e3o os oficineiros que percebem quando o clima muda: quando um adolescente chega agitado, com palavreado diferente, com aquele olhar de quem est\u00e1 prestes a tomar uma decis\u00e3o ruim. \u00c0s vezes param a bola antes do lanche, ou dispersam um grupo inteiro de jovens a caminho de conflito com apenas uma fala.<\/p>\n<p>&#8220;O que a gente quer \u00e9 que o adolescente reflita: ser\u00e1 que \u00e9 esse caminho mesmo?&#8221;, diz Fl\u00e1via. O foco do programa n\u00e3o s\u00e3o os jovens mais f\u00e1ceis, mas aqueles que j\u00e1 romperam o v\u00ednculo com tudo: escola, fam\u00edlia, servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes o \u00fanico servi\u00e7o p\u00fablico que esse adolescente acessa \u00e9 o &#8216;Fica vivo!&#8217;, porque n\u00e3o tem regra nenhuma para participar. Ele s\u00f3 precisa querer estar l\u00e1 e ser morador do territ\u00f3rio&#8221;, acrescenta Fl\u00e1via Mendes.<\/p>\n<p>Cada unidade do programa custa entre R$ 700 mil e R$ 800 mil por ano. O principal obst\u00e1culo para a expans\u00e3o \u00e9 financeiro: munic\u00edpios pedem o programa todos os dias, mas o or\u00e7amento tem limite.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>&#8220;Jesus entrou no meu sonho&#8221;<\/h2>\n<p>Patrick Salgado foi l\u00edder do Comando Vermelho no Vidigal, comunidade da zona sul do Rio de Janeiro, por mais de uma d\u00e9cada. Aos 11 anos, viu a m\u00e3e levar 12 tiros do namorado dela e, aos 14, j\u00e1 tinha armas. Passou pelas principais penitenci\u00e1rias de seguran\u00e7a m\u00e1xima do pa\u00eds \u2014 Bangu 1, 2, 3 e 4. Dentro da Penitenci\u00e1ria Federal de Mossor\u00f3, chegou a tentar tirar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Saiu do crime aos 37 anos depois de uma experi\u00eancia religiosa que descreve com precis\u00e3o de data: 9 de outubro de 2010. &#8220;Jesus entrou no meu sonho e me deu esperan\u00e7a. No dia seguinte, chamei a c\u00fapula no banho de sol e disse: a partir de hoje n\u00e3o quero mais nada.&#8221;<\/p>\n<p>Hoje, aos 53 anos, Patrick \u00e9 um dos fundadores do &#8220;01Sobreviventes&#8221;, <em>podcast<\/em> criado por ex-traficantes que passaram d\u00e9cadas presos e agora contam suas hist\u00f3rias para jovens que est\u00e3o no mesmo caminho que percorreram.<\/p>\n<p>S\u00e3o quatro integrantes, todos ex-l\u00edderes do tr\u00e1fico. O trabalho \u00e9 volunt\u00e1rio \u2014 o que ganham de monetiza\u00e7\u00e3o cobre o est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o. T\u00eam mais de 260 mil seguidores no <em>TikTok<\/em> e 69 mil no <em>YouTube<\/em>.<\/p>\n<p>Salgado conta que, ap\u00f3s ouvir o<em> podcast<\/em>, l\u00edderes armados entraram em contato, se entregaram \u00e0s autoridades ou simplesmente abandonaram o tr\u00e1fico. Ele encaminhou 19 pessoas para cursos universit\u00e1rios. &#8220;Tem jovens fazendo biomedicina, direito. Est\u00e3o estudando.&#8221;<\/p>\n<p>Nas &#8220;bocas de fumo&#8221; onde circula para pregar \u2014 \u00e9 pastor evang\u00e9lico \u2014, o <em>podcast <\/em>aparece nas televis\u00f5es. &#8220;Eles est\u00e3o vendo ali a realidade: se voc\u00ea for preso, vai ficar dez anos longe da sua fam\u00edlia. \u00c9 melhor trabalhar, meu irm\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>O que Salgado, o POD e o &#8220;Fica vivo!&#8221; t\u00eam em comum n\u00e3o \u00e9 a metodologia, \u00e9 o diagn\u00f3stico. O jovem n\u00e3o entra no crime porque quer o crime. Entra porque o crime oferece o que mais nada oferece: identidade, pertencimento, renda, algu\u00e9m que o aceita como ele \u00e9.<\/p>\n<p>O que funciona para mudar esse caminho \u00e9, invariavelmente, uma combina\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo humano real, oportunidade econ\u00f4mica concreta e a sensa\u00e7\u00e3o de que existe outro lugar onde ele \u00e9 bem-vindo. Futebol, grafite, f\u00e9, R$ 700 por m\u00eas. Formas diferentes de buscar o mesmo objetivo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 14 anos, J\u00falia* morava na zona sul de Porto Alegre e quase n\u00e3o ficava em casa. 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