{"id":416790,"date":"2026-05-17T12:00:00","date_gmt":"2026-05-17T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=416790"},"modified":"2026-05-17T12:00:00","modified_gmt":"2026-05-17T16:00:00","slug":"o-ocidente-gastou-trilhoes-em-ajuda-externa-entao-por-que-tantos-paises-continuam-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=416790","title":{"rendered":"O Ocidente gastou trilh\u00f5es em ajuda externa, ent\u00e3o por que tantos pa\u00edses continuam pobres?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Um dos primeiros movimentos do segundo governo Trump para reduzir gastos p\u00fablicos foi promover cortes expressivos e demiss\u00f5es em massa na Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Agora, a mesma administra\u00e7\u00e3o pressiona a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) a adotar pol\u00edticas mais voltadas ao com\u00e9rcio do que \u00e0 ajuda internacional \u2014 a estrat\u00e9gia conhecida como \u201ccom\u00e9rcio, n\u00e3o ajuda\u201d. Embora n\u00e3o esteja claro de que forma as tarifas impostas por Trump beneficiariam pa\u00edses pobres por meio do com\u00e9rcio, \u00e9 evidente que o modelo tradicional de ajuda externa precisa ser repensado.<\/p>\n<p>A economia do desenvolvimento foi moldada, em parte, pelos debates intelectuais entre economistas sovi\u00e9ticos ap\u00f3s a morte de Lenin, como destaca Peter Boettke em\u00a0<em>The Political Economy of Soviet Socialism<\/em>. Desses debates surgiram ideias como os planos quinquenais, que influenciaram a forma\u00e7\u00e3o de uma abordagem centrada no planejamento estatal massivo. D\u00e9cadas ap\u00f3s o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, vest\u00edgios desse pensamento ainda persistem nas pol\u00edticas de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Um desses vest\u00edgios \u00e9 a ajuda externa. Embora possa ser \u00fatil em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas \u2014 como no fornecimento de vacinas \u2014, ela n\u00e3o se mostrou eficaz como estrat\u00e9gia de crescimento de longo prazo. O caso do Afeganist\u00e3o \u00e9 emblem\u00e1tico: cerca de 80% do or\u00e7amento do pa\u00eds dependia de ajuda internacional, sem resultados significativos em termos de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Para compreender a l\u00f3gica da ajuda externa, \u00e9 preciso analisar o conceito de \u201carmadilha da pobreza\u201d. Trata-se de um ciclo autorrefor\u00e7ado em que a falta de recursos \u2014 como educa\u00e7\u00e3o e capital \u2014 impede a supera\u00e7\u00e3o da pobreza. Em outras palavras, indiv\u00edduos permanecem pobres porque j\u00e1 s\u00e3o pobres, e n\u00e3o por decis\u00f5es espec\u00edficas. Nesse contexto, a sa\u00edda te\u00f3rica seria a interven\u00e7\u00e3o de terceiros para fornecer os recursos ausentes, como investimento, infraestrutura educacional ou assist\u00eancia financeira.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 intuitiva, mas apresenta limita\u00e7\u00f5es importantes. Embora explique a persist\u00eancia da pobreza, n\u00e3o esclarece como a riqueza \u00e9 efetivamente criada. Se levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, a teoria sugere que pa\u00edses ricos devem financiar pa\u00edses pobres para romper esse ciclo. No entanto, permanece uma quest\u00e3o central da ci\u00eancia econ\u00f4mica: como algumas na\u00e7\u00f5es se tornaram ricas enquanto outras permaneceram pobres? H\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos, quando todos os pa\u00edses eram pobres em compara\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es atuais, quem financiou a industrializa\u00e7\u00e3o da Inglaterra vitoriana ou dos Estados Unidos?<\/p>\n<blockquote>\n<p>Pa\u00edses ocidentais j\u00e1 destinaram mais de US$ 2 trilh\u00f5es em ajuda internacional \u2014 e, em vez de promover desenvolvimento, frequentemente geraram depend\u00eancia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que a economista Deirdre McCloskey chama de \u201cGrande Enriquecimento\u201d \u2014 o aumento de cerca de 3.000% na renda real per capita desde 1800 \u2014 n\u00e3o foi resultado de ajuda externa ou planejamento centralizado, mas do reconhecimento da dignidade individual e da import\u00e2ncia da liberdade. A ideia de liberdade tornou-se central nas sociedades ocidentais, e o com\u00e9rcio deixou de ser visto como uma atividade inferior. Comerciantes passaram a integrar as elites, especialmente na Holanda e na Inglaterra.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o elemento ausente em grande parte das teorias de desenvolvimento \u00e9 a liberdade dos mais pobres. Em vez de serem vistos como indiv\u00edduos capazes de inovar e empreender, frequentemente s\u00e3o tratados como popula\u00e7\u00f5es que necessitam de orienta\u00e7\u00e3o e planejamento estatal. O que mudou ao longo da hist\u00f3ria n\u00e3o foram apenas pol\u00edticas p\u00fablicas, mas ideias \u2014 sobretudo a no\u00e7\u00e3o de progresso. O economista franc\u00eas Anne Robert Jacques Turgot, que influenciou Adam Smith, foi um dos primeiros a defender o progresso como algo poss\u00edvel e desej\u00e1vel, algo que nem sempre foi consenso.<\/p>\n<p>Apesar disso, muitos economistas ainda veem a ajuda externa como solu\u00e7\u00e3o. A vencedora do Nobel Esther Duflo afirmou, em entrevista ao\u00a0<em>Financial Times<\/em>\u00a0em 2024, que o Ocidente tem uma \u201cd\u00edvida moral\u201d de US$ 500 bilh\u00f5es com pa\u00edses mais pobres. Mas esse montante seria suficiente? Nos \u00faltimos 50 anos, pa\u00edses ocidentais j\u00e1 destinaram mais de US$ 2 trilh\u00f5es em ajuda internacional \u2014 e, em vez de promover desenvolvimento, frequentemente geraram depend\u00eancia.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples: a ajuda externa n\u00e3o altera institui\u00e7\u00f5es, cultura ou modelos econ\u00f4micos. O economista William Easterly critica essa abordagem ao apontar que organismos como o Banco Mundial priorizam o conceito de \u201cgovernan\u00e7a\u201d, evitando o termo \u201cdemocracia\u201d. Segundo ele, a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o admite limita\u00e7\u00f5es legais para abordar diretamente o tema.<\/p>\n<p>O principal desafio enfrentado por pa\u00edses em desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 a escassez de recursos, mas de ideias. Como escreveu Ludwig von Mises em\u00a0<em>Money, Method, and the Market Process<\/em>:<\/p>\n<p>\u201cO problema de tornar as na\u00e7\u00f5es subdesenvolvidas mais pr\u00f3speras n\u00e3o pode ser resolvido por meio de ajuda material. Trata-se de um problema espiritual e intelectual. Prosperidade n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de investimento em capital. \u00c9 uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica. O que esses pa\u00edses precisam, antes de tudo, \u00e9 da ideologia da liberdade econ\u00f4mica e da livre iniciativa.\u201d<\/p>\n<p>Sem mudan\u00e7a de ideias, n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a institucional. E, sem regras que promovam liberdade e livre mercado, nenhum volume de ajuda externa ser\u00e1 suficiente. Quando desvinculada de princ\u00edpios como governo limitado, democracia e Estado de Direito \u2014 e de uma cultura que sustente esses valores \u2014, a ajuda internacional tende a criar um ciclo de depend\u00eancia. Em vez de pensar em crescimento, pa\u00edses passam a depender de novas rodadas de assist\u00eancia.<\/p>\n<p>Talvez seja o momento de discutir menos a \u201carmadilha da pobreza\u201d e mais a \u201carmadilha da ajuda externa\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>Mani Basharzad<\/em><\/strong> \u00e9 pesquisador associado no Institute of Economic Affairs e Asia Freedom Fellow na London School of Economics. Seus trabalhos j\u00e1 foram publicados por ve\u00edculos como\u00a0<em>New York Post<\/em>,\u00a0<em>National Review<\/em>,\u00a0<em>The Spectator<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Daily Express<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 <em>Foundation for Economic Education<\/em>. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theepochtimes.com\/opinion\/new-zealand-a-small-country-but-a-major-player-against-chinas-coercion-in-south-pacific-6024579\"><em><a href=\"https:\/\/fee.org\/articles\/the-charity-trap\/\">The Charity Trap &#8211; FEE<\/a><\/em><\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos primeiros movimentos do segundo governo Trump para reduzir gastos p\u00fablicos foi promover cortes expressivos e demiss\u00f5es em massa&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":416791,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-416790","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/416790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=416790"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/416790\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/416791"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=416790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=416790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=416790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}