{"id":415846,"date":"2026-05-17T05:01:00","date_gmt":"2026-05-17T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=415846"},"modified":"2026-05-17T05:01:00","modified_gmt":"2026-05-17T09:01:00","slug":"brasil-nao-pode-continuar-a-ser-mero-espectador-no-debate-sobre-terras-raras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=415846","title":{"rendered":"Brasil n\u00e3o pode continuar a ser mero espectador no debate sobre terras raras"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>As terras raras s\u00e3o minerais essenciais para semicondutores, baterias, turbinas e tecnologias verdes. Quem controla esse recurso controla parte do futuro da economia mundial. A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/china\/\">China<\/a> domina aproximadamente 90% do processamento global, impondo exig\u00eancias pesadas \u00e0s empresas estrangeiras: <em>joint ventures<\/em> obrigat\u00f3rias com estatais e transfer\u00eancia de tecnologia. O Vietn\u00e3, com seu Plano Diretor de Minera\u00e7\u00e3o (2026\u20132030), proibiu a exporta\u00e7\u00e3o bruta e condicionou investimentos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de plantas locais. A Coreia do Sul, em semicondutores, exigiu contrapartidas de transfer\u00eancia tecnol\u00f3gica e forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra nacional.<\/p>\n<p>Esses pa\u00edses compreenderam um princ\u00edpio b\u00e1sico da diplomacia e da negocia\u00e7\u00e3o internacional: n\u00e3o se abre mercado sem algo em troca. Conforme enfatizado em <em>Diplomacy<\/em>, Henry Kissinger mostra que concess\u00f5es sem retorno enfraquecem o poder nacional. O cl\u00e1ssico <em>Satow\u2019s Diplomatic Practice<\/em>, organizado por Sir Ivor Roberts, destaca a import\u00e2ncia da reciprocidade e de condi\u00e7\u00f5es claras nas negocia\u00e7\u00f5es. John Mearsheimer, em <em>The Tragedy of Great Power Politics<\/em>, demonstra que poder \u00e9 a moeda das rela\u00e7\u00f5es internacionais e que abrir sem contrapartida significa perder poder.<\/p>\n<p>No Brasil, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/empresa-dos-eua-compra-mineradora-brasileira-de-terras-raras-por-us-28-bi-em-disputa-com-a-china\/\">mineradora Serra Verde, em Goi\u00e1s, foi adquirida pela norte-americana USA Rare Earth<\/a> em uma opera\u00e7\u00e3o de cerca de US$ 2,8 bilh\u00f5es. O acordo inclui contratos de fornecimento de longo prazo e integra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 cadeia industrial da empresa, que vai da minera\u00e7\u00e3o \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de \u00edm\u00e3s permanentes. Embora haja contrapartidas, como investimentos bilion\u00e1rios e pre\u00e7os m\u00ednimos garantidos, a opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob an\u00e1lise do Cade e enfrenta questionamentos judiciais. Mais do que uma pol\u00edtica de Estado brasileira, reflete o esfor\u00e7o dos EUA em reduzir sua depend\u00eancia da China.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que existem iniciativas no <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/congresso-nacional\/\">Congresso<\/a>, como o Projeto de Lei 2780\/2024, que institui a Pol\u00edtica Nacional de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos e a Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras. Esses projetos buscam criar um fundo garantidor, estimular a industrializa\u00e7\u00e3o local e limitar a exporta\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio bruto. Ao contr\u00e1rio da experi\u00eancia da inform\u00e1tica nos anos 1980, institu\u00edda pela Lei de Inform\u00e1tica de 1984 e revogada em 1991, que isolou o Brasil ao fechar o setor para empresas estrangeiras, as propostas atuais, aparentemente, mant\u00eam o mercado aberto a investimentos externos. A diferen\u00e7a \u00e9 que estabelecem condi\u00e7\u00f5es e exig\u00eancias obrigat\u00f3rias \u2013 como beneficiamento interno e agrega\u00e7\u00e3o de valor \u2013 para que o pa\u00eds n\u00e3o continue exportando apenas riqueza bruta.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Sem um projeto nacional s\u00f3lido para terras raras, continuaremos exportando riqueza bruta e importando tecnologia cara. O verdadeiro desafio \u00e9 transformar iniciativas parlamentares em pol\u00edtica de Estado duradoura, capaz de garantir controle estrat\u00e9gico <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essas iniciativas legislativas apontam um caminho, mas precisam ser acompanhadas de reflex\u00e3o diplom\u00e1tica e acad\u00eamica para ganhar consist\u00eancia.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Alexandre de Gusm\u00e3o (Funag), que \u00e9 o espa\u00e7o institucional para diplomatas e especialistas publicarem suas reflex\u00f5es, j\u00e1 produziu diversas obras relevantes sobre recursos estrat\u00e9gicos e geopol\u00edtica. No entanto, \u00e9 revelador que as publica\u00e7\u00f5es sobre terras raras ainda sejam escassas em compara\u00e7\u00e3o com outros temas estrat\u00e9gicos. Isso sugere que o tema ainda n\u00e3o ganhou espa\u00e7o significativo na produ\u00e7\u00e3o editorial diplom\u00e1tica oficial, embora possa estar presente em debates internos e negocia\u00e7\u00f5es conduzidas pelo Itamaraty. Essa aus\u00eancia de reflex\u00e3o publicada \u00e9 preocupante: se at\u00e9 os diplomatas, que deveriam antecipar riscos e oportunidades, n\u00e3o difundem o assunto em obras oficiais, o pa\u00eds corre o risco de repetir erros hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>O Brasil hoje exporta concentrados de terras raras sem dominar as etapas de maior valor agregado: separa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, metaliza\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de \u00edm\u00e3s permanentes.<\/p>\n<p>Esse risco n\u00e3o \u00e9 novo. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o Brasil foi enganado no epis\u00f3dio da areia monaz\u00edtica em Guarapari, no Esp\u00edrito Santo. Os respons\u00e1veis por alguns navios que aportavam na regi\u00e3o alegavam que precisavam colocar areia dentro das embarca\u00e7\u00f5es para equilibr\u00e1-las durante a viagem de retorno. Pescadores e comunidades locais, dentro de sua pureza e ingenuidade, observavam passivamente e acreditavam nessa vers\u00e3o, achando que estavam diante de uma necessidade t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Na realidade, essa \u201careia\u201d era monaz\u00edtica, rica em t\u00f3rio e c\u00e9rio, usada para iluminar cidades na Europa e nos Estados Unidos com mantos de g\u00e1s. Como descreve o <em>Boletim Eletr\u00f4nico 1660 \u2013 Terras raras e a trag\u00e9dia do abandono nacional<\/em>, o Brasil iluminava o mundo com minerais retirados de gra\u00e7a do nosso litoral. Foi um epis\u00f3dio curioso, mas tr\u00e1gico: entregamos parte de nossa riqueza estrat\u00e9gica sem perceber seu valor. Quando finalmente entendemos sua import\u00e2ncia, boa parte j\u00e1 havia sido levada sem contrapartida. Margaret MacMillan, em <em>Peacemakers<\/em>, mostra como concess\u00f5es mal negociadas comprometeram o equil\u00edbrio internacional ap\u00f3s a Primeira Guerra. O paralelo \u00e9 claro: abrir m\u00e3o de recursos estrat\u00e9gicos sem condi\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas compromete o futuro.<\/p>\n<p>E o mais preocupante \u00e9 que, em pleno s\u00e9culo XXI, o Brasil parece repetir a ingenuidade daqueles pescadores de Guarapari. Assim como eles observavam passivamente os navios carregarem a areia monaz\u00edtica sob o pretexto de \u201clastro\u201d, hoje vemos nossas riquezas estrat\u00e9gicas indo embora sem que exista uma pol\u00edtica de Estado capaz de garantir controle estrat\u00e9gico e exig\u00eancias reais.<\/p>\n<p>Abrir mercado \u00e9 essencial para o desenvolvimento, mas n\u00e3o se abre sem algo em troca. Robert Cooper, em <em>The Ambassadors<\/em>, mostra como diplomatas foram pensadores cr\u00edticos e moldaram negocia\u00e7\u00f5es. Paul Sharp, em <em>Diplomatic Theory of International Relations<\/em>, defende que a diplomacia deve ser entendida como pr\u00e1tica distinta das rela\u00e7\u00f5es internacionais, voltada para ganhos reais e sustent\u00e1veis. China, Vietn\u00e3 e Coreia do Sul entenderam isso e transformaram exig\u00eancias em poder. O Brasil, sem projeto nacional e sem dom\u00ednio tecnol\u00f3gico, aceita condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o garantem controle estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>O Brasil recebeu exig\u00eancias, mas t\u00edmidas, porque n\u00e3o domina a tecnologia de beneficiamento. Sem um projeto nacional s\u00f3lido para terras raras, continuaremos exportando riqueza bruta e importando tecnologia cara. O verdadeiro desafio \u00e9 transformar iniciativas parlamentares em pol\u00edtica de Estado duradoura, capaz de garantir controle estrat\u00e9gico e continuidade. Sem isso, repetiremos dois erros hist\u00f3ricos: a reserva de mercado da inform\u00e1tica, que isolou o pa\u00eds, e a areia monaz\u00edtica, que foi exportada sob engano como \u201clastro\u201d de navios. Em ambos os casos, o Brasil perdeu oportunidades \u00fanicas \u2013 e n\u00e3o pode se dar ao luxo de repetir esse padr\u00e3o com as terras raras.<\/p>\n<p><em><strong>Edemir Bogesky von Sch\u00f6rner<\/strong> \u00e9 formado em Direito pela PUC-PR, vice-presidente do BRIPAEM \u2013 Bloco de Intendentes, Prefeitos, Alcaides e Empres\u00e1rios do Mercosul \u2013 e analista judici\u00e1rio s\u00eanior do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Paran\u00e1.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As terras raras s\u00e3o minerais essenciais para semicondutores, baterias, turbinas e tecnologias verdes. 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