{"id":413169,"date":"2026-05-16T09:26:07","date_gmt":"2026-05-16T13:26:07","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=413169"},"modified":"2026-05-16T09:26:07","modified_gmt":"2026-05-16T13:26:07","slug":"cinco-previsoes-certeiras-de-choque-de-civilizacoes-lancado-ha-30-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=413169","title":{"rendered":"Cinco previs\u00f5es certeiras de \u201cChoque de Civiliza\u00e7\u00f5es\u201d, lan\u00e7ado h\u00e1 30 anos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Quando a<em> Foreign Affairs publicou<\/em>, em 1993, o artigo \u201cThe Clash of Civilizations?\u201d, de Samuel Huntington, a rea\u00e7\u00e3o de boa parte do meio acad\u00eamico foi de irrita\u00e7\u00e3o. O professor de Harvard sugeria que, encerrada a Guerra Fria, os grandes conflitos do mundo deixariam de ser ideol\u00f3gicos e passariam a ser moldados por identidades culturais e civilizacionais.<\/p>\n<p>A tese parecia um passo atr\u00e1s. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica havia acabado de cair, a democracia liberal aparentava ter vencido a disputa hist\u00f3rica do s\u00e9culo 20 e Francis Fukuyama falava no \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. Nesse ambiente, Huntington insistia que religi\u00e3o, cultura e identidade nacional continuariam organizando a pol\u00edtica internacional. Em 1996, o artigo virou livro, a interroga\u00e7\u00e3o de seu t\u00edtulo sumiu e as cr\u00edticas se multiplicaram.<\/p>\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, no entanto, vale fazer um novo balan\u00e7o. A teoria de Huntington continua simplificadora em aspectos importantes e n\u00e3o explica por si s\u00f3 a complexidade da pol\u00edtica global. Contudo, parte central do diagn\u00f3stico resistiu ao teste dos acontecimentos de maneira dif\u00edcil de ignorar.<\/p>\n<p>A tese central de Huntington era que o mundo deixaria de se dividir entre capitalismo e socialismo. As identidades culturais voltariam ao centro da pol\u00edtica e, em vez de conflitos organizados por ideologias universais, o s\u00e9culo 21 seria marcado por disputas ligadas a religi\u00e3o, nacionalidade, etnia e identidade cultural.<\/p>\n<p>Os atentados de 11 de setembro de 2001 colocaram essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 prova. O discurso de Osama bin Laden n\u00e3o se apresentava em termos de luta de classes ou rivalidade econ\u00f4mica cl\u00e1ssica. A ret\u00f3rica era religiosa e civilizacional. O mesmo ocorreu anos depois com o Estado Isl\u00e2mico e sua proposta de reconstru\u00e7\u00e3o de um califado.<\/p>\n<p>Fen\u00f4menos semelhantes surgiram em regi\u00f5es distantes entre si. Na \u00cdndia, Narendra Modi aproximou nacionalismo e identidade hindu. Na Hungria, Viktor Orb\u00e1n passou a falar explicitamente na defesa da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d. Na China, Xi Jinping associa o fortalecimento do pa\u00eds ao \u201crejuvenescimento da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa\u201d. O vocabul\u00e1rio civilizacional, que parecia anacr\u00f4nico nos anos 1990, voltou ao centro do debate pol\u00edtico global.<\/p>\n<p>Huntington n\u00e3o previa o colapso do Ocidente. Sua tese era mais espec\u00edfica: a supremacia ocidental diminuiria em termos relativos, enquanto outras civiliza\u00e7\u00f5es, sobretudo a s\u00ednica, ampliariam sua influ\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e militar. A China aparecia como a principal candidata a rival estrat\u00e9gico dos Estados Unidos, e Huntington argumentava que Pequim buscaria hegemonia regional enquanto resistia \u00e0s press\u00f5es ocidentais por liberaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As d\u00e9cadas seguintes seguiram essa dire\u00e7\u00e3o. A China tornou-se a segunda maior economia do mundo, ampliou sua presen\u00e7a militar no Mar do Sul da China e expandiu sua influ\u00eancia global por meio da Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota. O pa\u00eds modernizou sua economia sem adotar institui\u00e7\u00f5es liberais nos moldes ocidentais. A expectativa de que a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica produziria converg\u00eancia pol\u00edtica n\u00e3o se confirmou.<\/p>\n<p>Outro conceito de Huntington tamb\u00e9m ganhou relev\u00e2ncia nesse per\u00edodo: o <em>balancing<\/em>. Em vez de aderir automaticamente \u00e0 ordem liderada pelos Estados Unidos, v\u00e1rios pa\u00edses passaram a buscar mecanismos de equil\u00edbrio contra o poder ocidental. A expans\u00e3o do BRICS, a aproxima\u00e7\u00e3o entre China e R\u00fassia e o fortalecimento pol\u00edtico do chamado \u201cSul Global\u201d refletem parte desse movimento.<\/p>\n<p>Huntington n\u00e3o previa o fim do Ocidente, mas o fim de sua posi\u00e7\u00e3o incontestada.<\/p>\n<p>Nos anos 1990, predominava a ideia de que crescimento econ\u00f4mico, internet e globaliza\u00e7\u00e3o levariam sociedades n\u00e3o ocidentais a se tornar progressivamente mais parecidas com as democracias liberais do Ocidente. Huntington discordava. Para ele, pa\u00edses poderiam enriquecer, se industrializar e se integrar \u00e0 economia global sem abandonar suas tradi\u00e7\u00f5es culturais e pol\u00edticas. Em alguns casos, o pr\u00f3prio desenvolvimento fortaleceria identidades nacionais j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p>A China se tornou o exemplo mais evidente dessa hip\u00f3tese. O pa\u00eds construiu uma economia sofisticada, ampliou sua capacidade tecnol\u00f3gica e consolidou uma grande classe m\u00e9dia urbana sem adotar pluralismo pol\u00edtico nos moldes ocidentais. A R\u00fassia seguiu trajet\u00f3ria semelhante. Ap\u00f3s uma aproxima\u00e7\u00e3o com o Ocidente nos anos 1990, passou a enfatizar, sob Vladimir Putin, elementos nacionais, religiosos e civilizacionais pr\u00f3prios. Na Turquia, Recep Tayyip Erdo\u011fan abandonou parte da tradi\u00e7\u00e3o secularista e aproximou o discurso pol\u00edtico da identidade isl\u00e2mica nacional.<\/p>\n<p>A Primavera \u00c1rabe refor\u00e7ou outra limita\u00e7\u00e3o das previs\u00f5es liberalizantes do p\u00f3s-Guerra Fria. Em v\u00e1rios pa\u00edses, protestos pr\u00f3-democracia terminaram em guerra civil, autoritarismo ou instabilidade prolongada. Moderniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e integra\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica n\u00e3o produziram homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural nem converg\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Um dos pontos mais controversos de Huntington era sua an\u00e1lise do crescimento populacional no mundo isl\u00e2mico. Ele argumentava que mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas aceleradas poderiam ampliar tens\u00f5es regionais, crises migrat\u00f3rias e conflitos em zonas de contato entre civiliza\u00e7\u00f5es, o que ele chamou de \u201cfronteiras sangrentas do isl\u00e3\u201d. A tese parecia alarmista para muitos leitores em 1996.<\/p>\n<p>Parte desse cen\u00e1rio, no entanto, apareceu nas d\u00e9cadas seguintes. Guerras civis, radicaliza\u00e7\u00e3o religiosa e colapsos econ\u00f4micos no Oriente M\u00e9dio, no Sahel e no Afeganist\u00e3o provocaram grandes fluxos migrat\u00f3rios em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. Em 2015, mais de um milh\u00e3o de migrantes e refugiados chegaram ao continente pelo Mediterr\u00e2neo. O impacto pol\u00edtico foi imediato. Cresceram partidos nacionalistas e movimentos contr\u00e1rios \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o em diversos pa\u00edses europeus, e o debate sobre fronteiras e identidade nacional voltou ao centro da pol\u00edtica do continente.<\/p>\n<p>O conceito de \u201cfronteiras sangrentas\u201d continua controverso e n\u00e3o deve ser lido como uma chave explicativa \u00fanica. Quest\u00f5es econ\u00f4micas, rivalidades regionais e disputas geopol\u00edticas seguem fundamentais para entender esses conflitos. Ainda assim, Huntington antecipou que fatores culturais e religiosos voltariam a ter peso crescente na instabilidade internacional, e essa previs\u00e3o se mostrou mais precisa do que seus cr\u00edticos esperavam.<\/p>\n<p>Uma das ideias mais originais de Huntington era a no\u00e7\u00e3o de <em>fault line wars<\/em>, conflitos localizados em fronteiras civilizacionais que acabam atraindo apoio externo de pa\u00edses culturalmente pr\u00f3ximos. Ele observou esse padr\u00e3o na Guerra da B\u00f3snia, nos anos 1990, quando pa\u00edses ortodoxos gravitaram em torno dos s\u00e9rvios, enquanto na\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas apoiaram os b\u00f3snios mu\u00e7ulmanos. O mesmo mecanismo apareceu em conflitos no C\u00e1ucaso e na Caxemira.<\/p>\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia reabriu o debate sobre essa interpreta\u00e7\u00e3o. Huntington classificava a Ucr\u00e2nia como um \u201cpa\u00eds dilacerado\u201d, dividido entre regi\u00f5es historicamente mais pr\u00f3ximas do Ocidente e \u00e1reas ligadas \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa russa. A tese continua discut\u00edvel e n\u00e3o explica por si s\u00f3 o conflito iniciado em 2022. As causas s\u00e3o mais complexas do que qualquer moldura civilizacional consegue capturar. Ainda assim, a din\u00e2mica internacional da guerra reproduziu parcialmente o padr\u00e3o descrito por Huntington. Pa\u00edses ocidentais apoiaram Kiev, enquanto a R\u00fassia aprofundou rela\u00e7\u00f5es com China, Ir\u00e3 e Coreia do Norte.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios conflitos recentes, afinidades hist\u00f3ricas, culturais e religiosas voltaram a pesar tanto quanto interesses estrat\u00e9gicos tradicionais. \u00c0s vezes, pesaram mais.<\/p>\n<p>Huntington simplificou o mundo em muitos aspectos e ignorou divis\u00f5es internas importantes dentro de cada civiliza\u00e7\u00e3o. Sua teoria n\u00e3o explica integralmente a pol\u00edtica internacional do s\u00e9culo 21. Mesmo assim, parte essencial de sua percep\u00e7\u00e3o resistiu ao tempo. Religi\u00e3o, cultura e identidade continuam moldando a pol\u00edtica global de maneira muito mais intensa do que o otimismo liberal dos anos 1990 imaginava. Trinta anos depois, esse pode ser o legado mais inc\u00f4modo do livro.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a Foreign Affairs publicou, em 1993, o artigo \u201cThe Clash of Civilizations?\u201d, de Samuel Huntington, a rea\u00e7\u00e3o de boa&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":413170,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-413169","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/413169","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=413169"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/413169\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/413170"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=413169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=413169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=413169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}