{"id":411730,"date":"2026-05-15T16:30:09","date_gmt":"2026-05-15T20:30:09","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=411730"},"modified":"2026-05-15T16:30:09","modified_gmt":"2026-05-15T20:30:09","slug":"por-que-os-paises-desenvolvidos-podem-trabalhar-menos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=411730","title":{"rendered":"Por que os pa\u00edses desenvolvidos podem trabalhar menos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A possibilidade do fim da escala 6&#215;1 por meio de uma PEC em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso tem sido defendida sob a justificativa da melhoria da qualidade de vida e da moderniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. O argumento \u00e9 que pa\u00edses desenvolvidos conseguem trabalhar menos, manter sal\u00e1rios elevados e, ao mesmo tempo, sustentar empresas mais competitivas.<\/p>\n<p>Na lista de exemplos aparecem Alemanha, Fran\u00e7a, Dinamarca e Holanda, pa\u00edses que possuem jornadas efetivamente menores que a brasileira, \u00edndices mais baixos de burnout e produtividade muito superior. Se essas economias conseguem sustentar tais modelos de trabalho, por que o Brasil n\u00e3o poderia seguir o mesmo caminho?<\/p>\n<p>Para economistas e especialistas em rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a resposta passa pela compreens\u00e3o da palavra central no debate: produtividade. Na pr\u00e1tica, pa\u00edses desenvolvidos trabalham menos porque produzem muito mais por hora trabalhada. Dados da OCDE mostram que Alemanha, Fran\u00e7a e Dinamarca geram perto de US$ 90 por hora trabalhada, enquanto o Brasil produz algo entre US$ 17 e US$ 21.<\/p>\n<h2>Aumento de produtividade requer mais do que empenho do trabalhador<\/h2>\n<p>Jos\u00e9 Pastore, da Universidade de S\u00e3o Paulo, destaca, por\u00e9m, que produtividade n\u00e3o se resume ao desempenho individual do trabalhador. Ela \u00e9 resultado de uma combina\u00e7\u00e3o de fatores que incluem tecnologia, infraestrutura, gest\u00e3o empresarial, qualifica\u00e7\u00e3o profissional, ambiente regulat\u00f3rio e capacidade de investimento das empresas \u2014 uma esp\u00e9cie de tr\u00edade entre capital, efici\u00eancia econ\u00f4mica e capital humano.<\/p>\n<p>Isso inclui automa\u00e7\u00e3o, log\u00edstica eficiente, energia confi\u00e1vel, educa\u00e7\u00e3o de qualidade e seguran\u00e7a jur\u00eddica, fatores que permitiram que essas economias produzissem mais riqueza em menos horas de trabalho.<\/p>\n<p>O Brasil, por outro lado, ainda convive com gargalos que limitam a produtividade, como infraestrutura prec\u00e1ria, log\u00edstica cara, excesso de burocracia, inseguran\u00e7a jur\u00eddica e baixa qualifica\u00e7\u00e3o m\u00e9dia da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>O debate brasileiro, segundo Pastore, inverte causa e consequ\u00eancia. \u201cEm todos esses pa\u00edses em que houve redu\u00e7\u00e3o de jornada, primeiro houve melhoria da produtividade, depois redu\u00e7\u00e3o de jornada\u201d, afirma. \u201cS\u00f3 diminu\u00edram a carga hor\u00e1ria ap\u00f3s d\u00e9cadas de expans\u00e3o industrial, avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e aumento cont\u00ednuo da produtividade. Esse processo demora, n\u00e3o d\u00e1 para fazer na canetada.\u201d<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Redu\u00e7\u00e3o de jornada nos pa\u00edses avan\u00e7ados depende do PIB<\/h2>\n<p>Na mesma linha, H\u00e9lio Zylberstajn afirma que a trajet\u00f3ria de redu\u00e7\u00e3o da jornada nos pa\u00edses desenvolvidos esteve diretamente ligada ao crescimento econ\u00f4mico. \u201cO gr\u00e1fico das duas vari\u00e1veis forma um U invertido, ou seja, quanto mais o PIB aumenta, menor fica a jornada\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para o professor da Faculdade de Economia, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade da Universidade de S\u00e3o Paulo, da forma como foi proposta, a PEC cria um problema tanto para empresas quanto para trabalhadores.<\/p>\n<p>A partir de c\u00e1lculos com base na PNAD Cont\u00ednua, principal pesquisa do IBGE sobre mercado de trabalho, o economista estima que o corte de quatro horas semanais exigiria um aumento de produtividade de 8,5% para manter o atual n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o \u2014 um \u201cgrande desafio\u201d para um pa\u00eds cuja produtividade est\u00e1 praticamente estagnada h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 muito dif\u00edcil conseguir um ganho de produtividade dessa magnitude, principalmente se a mudan\u00e7a for feita \u00e0s pressas, de uma s\u00f3 vez e de cima para baixo\u201d, afirma.<\/p>\n<h2>Empresas podem substituir m\u00e3o de obra qualificada por mais barata<\/h2>\n<p>Segundo Zylberstajn, diante do aumento do custo do trabalho, as empresas inevitavelmente buscar\u00e3o formas de adapta\u00e7\u00e3o. \u201cEmpresas s\u00e3o estruturas \u00e1geis e male\u00e1veis. Elas tentam se ajustar aos incentivos e \u00e0s restri\u00e7\u00f5es que v\u00e3o aparecendo\u201d, diz.<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias poss\u00edveis, segundo ele, seria a substitui\u00e7\u00e3o gradual de trabalhadores mais antigos por novos empregados com sal\u00e1rios menores. \u201cOs empregados que v\u00e3o continuar recebendo o mesmo sal\u00e1rio para trabalhar menos horas ser\u00e3o substitu\u00eddos com o tempo por outros recebendo menos.\u201d<\/p>\n<p>Pastore resume que, diante de um aumento abrupto dos custos trabalhistas, as empresas tenderiam a reagir de quatro formas principais: repassando custos para os pre\u00e7os, substituindo trabalhadores mais caros por m\u00e3o de obra mais barata, acelerando processos de automa\u00e7\u00e3o ou reduzindo investimentos e planos de expans\u00e3o. \u201cNenhum desses ajustes \u00e9 ben\u00e9fico para o trabalhador\u201d, afirma.<\/p>\n<h2>Negocia\u00e7\u00f5es coletivas s\u00e3o melhor alternativa, diz Pastore<\/h2>\n<p>Apesar das cr\u00edticas ao formato atual da PEC, Zylberstajn avalia que a discuss\u00e3o pode abrir espa\u00e7o para uma transi\u00e7\u00e3o gradual negociada entre trabalhadores e empresas. Ele defende uma implementa\u00e7\u00e3o em etapas, como ocorreu no Chile. O pa\u00eds vizinho optou pela ado\u00e7\u00e3o de jornadas m\u00e9dias mensais para setores com escalas complexas e pela redu\u00e7\u00e3o condicionada a metas de produtividade negociadas diretamente entre patr\u00f5es e empregados.<\/p>\n<p>\u201cO ideal seria que a PEC fizesse a redu\u00e7\u00e3o da jornada para 40 horas, condicionando isso a ganhos de produtividade negociados diretamente entre os dois lados\u201d, afirma.<\/p>\n<p>J\u00e1 para Pastore, a PEC \u00e9 \u201cdesnecess\u00e1ria\u201d porque a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 permite a redu\u00e7\u00e3o de jornada por meio de acordos entre sindicatos e empresas.<\/p>\n<p>Foi justamente esse o caminho seguido pela maior parte das economias desenvolvidas. Na Alemanha, embora a legisla\u00e7\u00e3o ainda autorize jornadas de at\u00e9 48 horas semanais, a m\u00e9dia efetivamente trabalhada gira em torno de 34 horas gra\u00e7as a acordos coletivos negociados por setor.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, a jornada legal foi reduzida para 35 horas em 1998, mas a implementa\u00e7\u00e3o acabou acompanhada de ampla flexibiliza\u00e7\u00e3o por meio de horas extras e negocia\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Holanda e Dinamarca seguiram trajet\u00f3ria semelhante, com redu\u00e7\u00e3o gradual das horas efetivamente trabalhadas por meio de conven\u00e7\u00f5es coletivas, expans\u00e3o do trabalho parcial e acordos setoriais. J\u00e1 a B\u00e9lgica aprovou, em 2022, uma semana de quatro dias opcional negociada diretamente entre empregado e empregador.<\/p>\n<p>\u201cCerca de 190 pa\u00edses adotam modelos negociados, enquanto apenas 10 tentaram mudan\u00e7as generalizadas por via legal\u201d, afirma Pastore.<\/p>\n<h2>Diferen\u00e7a entre setores da economia inviabiliza regra geral<\/h2>\n<p>Segundo ele, diferentes setores possuem necessidades operacionais completamente distintas, o que tornaria invi\u00e1vel uma regra \u00fanica definida pela Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA pecu\u00e1ria de leite exige quebrar a jornada di\u00e1ria em duas partes, pois h\u00e1 uma ordenha de manh\u00e3 e outra \u00e0 tarde. A pecu\u00e1ria de corte, ao contr\u00e1rio, requer uma jornada cont\u00ednua para vigiar o gado que pasta a c\u00e9u aberto\u201d, diz.<\/p>\n<p>O mesmo racioc\u00ednio vale para supermercados, hospitais, restaurantes, sider\u00fargicas, farm\u00e1cias, hot\u00e9is e empresas de transporte. \u201cO que serve para uma atividade n\u00e3o serve para outra. Isso n\u00e3o d\u00e1 para fazer por lei. A lei vai dar um tamanho \u00fanico para todos\u201d, resume.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o deve ganhar ainda mais press\u00e3o pol\u00edtica nas pr\u00f3ximas semanas. Ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o da admissibilidade da proposta na Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da C\u00e2mara, a expectativa \u00e9 que o relator, deputado Leo Prates, leve o texto ao plen\u00e1rio ainda em maio.<\/p>\n<p>Para Pastore, a velocidade da tramita\u00e7\u00e3o, impulsionada pelo forte interesse eleitoral pela pauta, tamb\u00e9m revela um componente \u201cideol\u00f3gico\u201d e \u201cautorit\u00e1rio\u201d do debate trabalhista brasileiro, ao tentar impor, por via constitucional, um modelo \u00fanico. \u201cTodos j\u00e1 sabem o que funciona em termos de jornada de trabalho no mundo. A resist\u00eancia se deve mais \u00e0 ideologia\u201d, afirma.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A possibilidade do fim da escala 6&#215;1 por meio de uma PEC em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso tem sido defendida sob&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":410881,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-411730","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/411730","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=411730"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/411730\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/410881"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=411730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=411730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=411730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}