{"id":404255,"date":"2026-05-13T19:45:54","date_gmt":"2026-05-13T23:45:54","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=404255"},"modified":"2026-05-13T19:45:54","modified_gmt":"2026-05-13T23:45:54","slug":"abolicao-autorizada-a-violencia-de-genero-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=404255","title":{"rendered":"Aboli\u00e7\u00e3o: autorizada a viol\u00eancia de g\u00eanero da esquerda"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/13204448\/princesa-isabel-abolicao-da-escravatura.jpg.webp\" \/><span>Capa da \u201cRevista Ilustrada\u201d de julho de 1888 mostra ex-escravos do Quilombo do Leblon homenageando a Princesa Isabel com cam\u00e9lias, s\u00edmbolo do movimento abolicionista. (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Dom\u00ednio p\u00fablico)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>\u201cQue, portanto, homens s\u00e9rios, querem ser seriamente representados, e n\u00e3o por quarentonas que desconhecem a pr\u00f3pria idade, o pr\u00f3prio sexo, a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o?&#8230; Batalha das Flores! Cuidado, Senhora! Que estas flores n\u00e3o se vos tornem demasiado encarnadas, que elas se n\u00e3o vos tornem vermelhas.\u201d<\/em> (Silva Jardim, jornalista republicano)<\/p>\n<p>Escrevo esse artigo no 13 de maio, dia da Aboli\u00e7\u00e3o, o maior acontecimento pol\u00edtico e social da hist\u00f3ria brasileira. Sobre ele j\u00e1 falei em v\u00e1rias ocasi\u00f5es aqui, nesta <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, sobretudo num <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/a-abolicao-o-ocaso-da-monarquia-e-a-manipulacao-historica\/\">longo artigo<\/a> desmascarando as falsifica\u00e7\u00f5es sobre todo o processo da aboli\u00e7\u00e3o no Brasil e seus protagonistas. A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura foi, sim, um movimento social popular, oriundo n\u00e3o s\u00f3 das classes intelectuais capitaneadas por Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, Joaquim Nabuco e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, mas da popula\u00e7\u00e3o em geral, que, ao longo da d\u00e9cada de 1880, aderiu maci\u00e7amente \u00e0 causa, e, tamb\u00e9m, da monarquia, que sempre desejou o fim da escravid\u00e3o no pa\u00eds (como defendo no artigo supracitado).<\/p>\n<p>Entretanto, a data \u2013 que para mim deveria ser feriado nacional \u2013, tendo se tornado objetivo de disputa pol\u00edtica desde o golpe republicano de 1889 e, depois, pelos movimentos negros, perdeu completamente a sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica, passando de sua associa\u00e7\u00e3o com a monarquia deposta, primeiro como um estratagema para garantir o Terceiro Reinado; depois, como um acontecimento incompleto, que n\u00e3o garantiu cidadania real aos libertos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Negar a participa\u00e7\u00e3o da Princesa Isabel n\u00e3o s\u00f3 no ato de assinar a lei, mas sua intensa participa\u00e7\u00e3o no movimento abolicionista \u00e9 negar a hist\u00f3ria<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Posteriormente, todo o cr\u00e9dito recaiu sobre a princesa imperial, que, tendo sua imagem de \u201cRedentora\u201d resgatada pelo Estado Novo, assumiu o protagonismo exclusivo da aboli\u00e7\u00e3o por causa da assinatura da Lei \u00c1urea. Lembro-me de jamais ter ouvido falar dos abolicionistas, nem de todo o longo processo de lutas, articula\u00e7\u00f5es, estrat\u00e9gias e organiza\u00e7\u00e3o que foram necess\u00e1rios para que, em 13 de maio de 1888, a princesa pudesse, finalmente, sancionar os dois artigos mais importantes de nossa hist\u00f3ria:<\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 declarada extinta, desde a data desta Lei, a escravid\u00e3o no Brasil;<\/em><em>Revogam-se as disposi\u00e7\u00f5es em contr\u00e1rio.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ou seja, passamos de uma detra\u00e7\u00e3o republicana, que tentava n\u00e3o s\u00f3 manchar o esfor\u00e7o da Coroa em realizar a aboli\u00e7\u00e3o, mas desconstruir completamente a imagem do Segundo Reinado \u2013 que era extremamente popular \u2013, a uma exalta\u00e7\u00e3o excessiva do papel da princesa, perpetrada pelo Estado Novo em sua tentativa de construir uma identidade nacional baseada em her\u00f3is e s\u00edmbolos unificadores. E, por fim, temos a rea\u00e7\u00e3o dos movimentos negros, que rejeitam o 13 de maio como uma <em>falsa aboli\u00e7\u00e3o <\/em>\u2013 transformando os 100 anos da Lei \u00c1urea, em 1988, num marco cr\u00edtico da data, promovendo a Marcha Contra a Farsa da Aboli\u00e7\u00e3o; e decretando o 20 de novembro (data em que, supostamente, nasceu Zumbi dos Palmares) como o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/a-famigerada-consciencia-negra\/\">Dia da Consci\u00eancia Negra<\/a>.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o, em todo 13 de maio, somos obrigados a ver um festival de desinforma\u00e7\u00e3o relacionada n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 data, mas ao papel de Dona Isabel no processo. Uma publica\u00e7\u00e3o, por exemplo, na p\u00e1gina Mundo Negro, com 1 milh\u00e3o de seguidores no Instagram, diz, no t\u00edtulo: \u201c13 de maio: Sem palmas para a Princesa Isabel\u201d. E, em parte da legenda, diz o seguinte:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>\u201cAos 138 anos da assinatura da Lei \u00c1urea, o colunista Ricardo Corr\u00eaa sustenta que a narrativa branca em torno da Princesa Isabel como salvadora do povo negro perdeu sustenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Tecn\u00f3logo e p\u00f3s-graduado em educa\u00e7\u00e3o, ele atribui \u00e0 insurg\u00eancia dos escravizados e ex-escravizados o papel decisivo no processo que culminou na aboli\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ou seja, o articulista do portal Mundo Negro utiliza a velha t\u00e1tica manique\u00edsta de enaltecer a \u201cinsurg\u00eancia dos escravizados e ex-escravizados\u201d em detrimento do papel da princesa. O problema \u00e9 que historiadores s\u00e9rios como Hermes Vieira, Eduardo Silva e Jos\u00e9 Murilo de Carvalho enaltecem o papel de Dona Isabel. Silva, diz, em seu <em>As cam\u00e9lias do Leblon e a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura<\/em>:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>\u201cA princesa Isabel tamb\u00e9m protegia escravos fugidos em Petr\u00f3polis. Temos sobre isso o testemunho insuspeito do engenheiro Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, que tudo registrava em suas cadernetas implac\u00e1veis. S\u00f3 assim podemos saber hoje, com n\u00fameros precisos, que no dia 4 de maio de 1888, \u02bbalmo\u00e7aram no Pal\u00e1cio Imperial catorze africanos fugidos das fazendas circunvizinhas de Petr\u00f3polis\u02bc. E mais: todo o esquema de promo\u00e7\u00e3o de fugas e alojamento de escravos parece ter sido montado pela pr\u00f3pria princesa. Andr\u00e9 Rebou\u00e7as sabia de tudo porque estava comprometido com o esquema [\u2026] Tal o comprometimento do trono, sob Isabel, que o pr\u00f3prio Pal\u00e1cio Imperial transformara-se numa esp\u00e9cie de quilombo abolicionista.\u201d<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>Os ataques que a Princesa Isabel sofreu n\u00e3o eram apenas pol\u00edticos; muitas vezes apelavam ao fato de ela ser mulher<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ou seja, negar a participa\u00e7\u00e3o da princesa n\u00e3o s\u00f3 no ato de assinar a lei, mas sua intensa participa\u00e7\u00e3o no movimento abolicionista \u00e9 negar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Outra postagem, de um perfil bem menor chamado Escola de Ativismo, exibe uma imagem toda rabiscada de Dona Isabel, e escreve, em letras garrafais: \u201cN\u00e3o foi a princesa!\u201d Para, no texto, dizer: \u201cA Lei \u00c1urea \u00e9 uma das leis mais curtas do nosso pa\u00eds, mostrando que n\u00e3o havia e nem nunca houve um grande projeto de inclus\u00e3o social. Dizem por a\u00ed que a popula\u00e7\u00e3o negra deveria ser grata \u00e0 Princesa Isabel: deveria?\u201d<\/p>\n<p>Sim, deveria e deve. A lei foi curta por uma s\u00e9rie de fatores, dentre eles a urg\u00eancia de promulg\u00e1-la antes que os republicanos tivessem tempo de se articular para impedi-la. Outro fator \u00e9 que os abolicionistas j\u00e1 trabalhavam em projetos para dar sequ\u00eancia \u00e0 lei. Rebou\u00e7as registra, em seu di\u00e1rio, no dia 14 de maio: \u201cEsbo\u00e7ando o projeto da nova Propaganda Evolucionista democr\u00e1tica (Democracia rural \u2013 Liberdade de consci\u00eancia liberdade de com\u00e9rcio)\u201d. O que, inclusive, quebra a narrativa de que o dia seguinte foi de abandono dos libertos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A Princesa Isabel continua sendo alvo preferencial dos detratores do 13 de maio, e aquilo que progressistas chamam de viol\u00eancia de g\u00eanero parece estar autorizado contra ela<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os ataques que Isabel sofreu n\u00e3o eram apenas pol\u00edticos; muitas vezes apelavam ao fato de ela ser mulher. Antes mesmo da aboli\u00e7\u00e3o, a propaganda republicana j\u00e1 a utilizava como alvo preferencial. O mote que lan\u00e7ou Silva Jardim \u00e0 vida p\u00fablica nacional, em janeiro de 1888, foi a caracteriza\u00e7\u00e3o da herdeira do trono como uma mulher \u201cobcecada pela educa\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica\u201d, casada com um estrangeiro \u2013 argumento que, ao fim e ao cabo, significava simplesmente: uma mulher n\u00e3o pode governar e o pa\u00eds ser\u00e1 governado por seu marido, um estrangeiro. No Senado Imperial, parlamentares que resistiam \u00e0s suas reg\u00eancias o faziam pelo mesmo motivo, ainda que de modo escuso. O historiador Bruno Antunes de Cerqueira, coautor de estudo sobre a autobiografia da princesa, \u00e9 preciso: \u201cPor ela ser mulher, os senadores e deputados, que eram absolutamente machistas, achavam que o marido \u00e9 que iria mandar\u201d. Silva Jardim, o mais virulento propagandista republicano, n\u00e3o se furtava a achincalhar Isabel recorrendo ao mesmo expediente quando a argumenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica lhe faltava. Hoje, a mesma opera\u00e7\u00e3o se repete com sinal trocado: Isabel n\u00e3o merece reconhecimento porque era mulher branca, europeia, crist\u00e3. O instrumento mudou; a recusa em avaliar seus atos pelo que foram permanece.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Dona Isabel, a Princesa Imperial, teve, sim, participa\u00e7\u00e3o marcante no processo de aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, e seu papel deve ser exaltado n\u00e3o com base em fantasias monarquistas extempor\u00e2neas ou menosprezado por detra\u00e7\u00f5es ideologicamente enviesadas, mas de acordo com os fatos a que temos acesso e que est\u00e3o fartamente documentados.<\/p>\n<p>Se, na atualidade, negros ainda ocupam posi\u00e7\u00f5es de subalternidade e o racismo ainda \u00e9 uma chaga aberta em nossa sociedade, n\u00e3o foi por causa de uma aboli\u00e7\u00e3o supostamente mal feita, mas por um golpe que impediu a sua concretiza\u00e7\u00e3o e pelo projeto eugenista que fundamentou toda a vingan\u00e7a republicana contra ela, como aponto em <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/racismo-construcao-historica-republica-eugenismo\/\">outro artigo<\/a>. Por outro lado, atualmente a princesa continua sendo alvo preferencial dos detratores do 13 de maio, e aquilo que progressistas chamam de <em>viol\u00eancia de g\u00eanero<\/em> parece estar autorizado contra ela \u2013 bem como contra todas as mulheres que n\u00e3o rezam a sua cartilha.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Capa da \u201cRevista Ilustrada\u201d de julho de 1888 mostra ex-escravos do Quilombo do Leblon homenageando a Princesa Isabel com cam\u00e9lias,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":404256,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-404255","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/404255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=404255"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/404255\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/404256"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=404255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=404255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=404255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}