{"id":401589,"date":"2026-05-13T05:02:00","date_gmt":"2026-05-13T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=401589"},"modified":"2026-05-13T05:02:00","modified_gmt":"2026-05-13T09:02:00","slug":"ensino-superior-no-brasil-muito-acesso-pouco-resultado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=401589","title":{"rendered":"Ensino superior no Brasil: muito acesso, pouco resultado"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Dados recentes da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/ocde\/\">Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico<\/a> (OCDE) exp\u00f5em uma realidade inc\u00f4moda sobre o ensino superior brasileiro e que j\u00e1 n\u00e3o pode mais ser ignorada. Ao analisar os indicadores internacionais, fica evidente que o Brasil enfrenta desafios estruturais profundos que comprometem n\u00e3o apenas a forma\u00e7\u00e3o de estudantes, mas tamb\u00e9m sua competitividade em rela\u00e7\u00e3o a pa\u00edses da pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina e, sobretudo, aos padr\u00f5es da OCDE.<\/p>\n<p>Entre os sinais mais preocupantes est\u00e3o a baixa taxa de conclus\u00e3o e a alta evas\u00e3o. Trata-se de um problema persistente ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas: o sistema simplesmente n\u00e3o consegue reter seus alunos no ensino superior. Segundo o relat\u00f3rio <em>Education at a Glance 2025<\/em>, cerca de 25% dos estudantes brasileiros abandonam a gradua\u00e7\u00e3o ainda no primeiro ano, praticamente o dobro da m\u00e9dia de 13% observada nos pa\u00edses da OCDE.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O cen\u00e1rio que se desenha \u00e9 preocupante. A baixa qualidade da forma\u00e7\u00e3o compromete a capacidade do pa\u00eds de formar profissionais produtivos, inovadores e capazes de gerar valor<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O impacto desse fen\u00f4meno \u00e9 que apenas 24% dos brasileiros entre 25 e 34 anos possuem diploma de ensino superior, menos da metade da m\u00e9dia de 49% registrada nos pa\u00edses da OCDE. Ou seja, o pa\u00eds at\u00e9 ampliou o acesso, mas falha em transformar esse acesso em forma\u00e7\u00e3o efetiva. A pergunta que permanece sem resposta \u00e9 por que os alunos n\u00e3o ficam?<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise apressada poderia atribuir esse desempenho \u00e0 falta de recursos. No entanto, os dados mostram o contr\u00e1rio. O Brasil investe cerca de 4,4% do PIB em educa\u00e7\u00e3o, patamar pr\u00f3ximo ao dos pa\u00edses da OCDE. O gasto anual por estudante, em torno de US$ 15.600, tamb\u00e9m se alinha \u00e0 m\u00e9dia internacional. O problema, portanto, n\u00e3o parece estar no volume de investimento, mas na sua qualidade e efici\u00eancia. \u00c9 o paradoxo do sistema brasileiro: investe-se relativamente bem, mas entrega-se pouco.<\/p>\n<p>Parte dessa distor\u00e7\u00e3o est\u00e1 na forma como o ensino superior se expandiu no pa\u00eds. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o crescimento ocorreu majoritariamente via setor privado e educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia (EaD). Hoje, 88% das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior s\u00e3o privadas e concentram cerca de 78% das matr\u00edculas, o equivalente a 9,4 milh\u00f5es de estudantes, segundo o Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior de 2024.<\/p>\n<p>Essa expans\u00e3o acelerada do ensino superior trouxe consequ\u00eancias relevantes. O EaD, que ampliou o acesso, tamb\u00e9m se tornou o epicentro da evas\u00e3o, com taxas superiores a 40%. Ao mesmo tempo, a rela\u00e7\u00e3o entre alunos e professores revela uma disparidade significativa: enquanto nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas h\u00e1 cerca de 10 alunos por docente (abaixo da m\u00e9dia da OCDE), nas privadas esse n\u00famero chega a 62 alunos por professor, muito acima da m\u00e9dia internacional de 18.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas estat\u00edstica. Ela reflete modelos pedag\u00f3gicos distintos e evidencia a fragilidade da media\u00e7\u00e3o educacional, especialmente nos primeiros anos de forma\u00e7\u00e3o, justamente o per\u00edodo mais cr\u00edtico para reten\u00e7\u00e3o dos estudantes.<\/p>\n<p>Mesmo no setor p\u00fablico, onde a rela\u00e7\u00e3o aluno-professor \u00e9 mais favor\u00e1vel, isso n\u00e3o garante, por si s\u00f3, qualidade acad\u00eamica. Ainda assim, refor\u00e7a a import\u00e2ncia do acompanhamento pr\u00f3ximo e do suporte pedag\u00f3gico como fatores centrais para a perman\u00eancia e o sucesso dos alunos.<\/p>\n<p>O novo marco regulat\u00f3rio do ensino a dist\u00e2ncia, estabelecido pelo Decreto 12.456\/2025, surge como tentativa de resposta. No entanto, sua efetividade ainda \u00e9 incerta. As regras seguem em fase de implementa\u00e7\u00e3o, sem metodologia de avalia\u00e7\u00e3o plenamente definida, e o ceticismo j\u00e1 come\u00e7a a se consolidar antes mesmo de seus efeitos serem medidos.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio que se desenha \u00e9 preocupante. A baixa qualidade da forma\u00e7\u00e3o compromete a capacidade do pa\u00eds de formar profissionais produtivos, inovadores e capazes de gerar valor, seja no mercado de trabalho, na cria\u00e7\u00e3o de novos neg\u00f3cios ou no desenvolvimento tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O Brasil envelhece como na\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o avan\u00e7a na mesma velocidade em sua capacidade produtiva. Esse descompasso imp\u00f5e limites claros ao crescimento econ\u00f4mico e \u00e0 inser\u00e7\u00e3o competitiva do pa\u00eds no cen\u00e1rio global. O desafio agora n\u00e3o \u00e9 apenas ampliar o acesso ao ensino superior, mas garantir que ele resulte em forma\u00e7\u00e3o de qualidade. Caso contr\u00e1rio, continuaremos investindo muito para formar pouco e adiando, mais uma vez, o futuro que nunca chega.<\/p>\n<p><em><strong>C\u00e9sar Silva <\/strong>\u00e9 diretor-presidente da Funda\u00e7\u00e3o de Apoio \u00e0 Tecnologia (Funda\u00e7\u00e3o FAT).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados recentes da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) exp\u00f5em uma realidade inc\u00f4moda sobre o ensino superior brasileiro&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":401590,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-401589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/401589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=401589"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/401589\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/401590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=401589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=401589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=401589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}