{"id":394196,"date":"2026-05-10T05:01:00","date_gmt":"2026-05-10T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=394196"},"modified":"2026-05-10T05:01:00","modified_gmt":"2026-05-10T09:01:00","slug":"a-gramatica-do-vitimismo-na-politica-brasileira-quando-o-sofrimento-vira-dominio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=394196","title":{"rendered":"A gram\u00e1tica do vitimismo na pol\u00edtica brasileira: quando o sofrimento vira dom\u00ednio"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Duas das principais figuras pol\u00edticas recentes do pa\u00eds trabalharam com a mesma l\u00f3gica discursiva. Utilizo estes exemplos como estudo de caso em ambos os lados do espectro pol\u00edtico. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/lula\/\">Lula<\/a> foi preso em 2018 e chegou \u00e0 Presid\u00eancia em 2023 carregando o t\u00edtulo de suposto &#8220;m\u00e1rtir como seu ativo pol\u00edtico mais valioso. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/jair-bolsonaro\/\">Bolsonaro<\/a> perdeu a elei\u00e7\u00e3o em 2022 e passou os meses seguintes construindo a narrativa de que havia sido v\u00edtima de um sistema que o perseguia: tribunais, urnas eletr\u00f4nicas, imprensa.<\/p>\n<p>Interessa-me menos a veracidade emp\u00edrica de cada alega\u00e7\u00e3o e mais a forma como essas alega\u00e7\u00f5es operam simbolicamente no espa\u00e7o p\u00fablico. Os dois l\u00edderes mais poderosos da pol\u00edtica brasileira contempor\u00e2nea, advers\u00e1rios em quase tudo, convergem num \u00fanico ponto fundamental: ambos governam, ou governaram, a partir do lugar da v\u00edtima. A narrativa de persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas sobreviveu ao poder como o alimentou. Isso n\u00e3o \u00e9 acidente pol\u00edtico. \u00c9 o modus operandi da vida p\u00fablica contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo genuinamente novo nessa sensibilidade, e n\u00e3o estou usando \u201cnovo\u201d como elogio. O fil\u00f3sofo franc\u00eas Pascal Bruckner, que dedicou d\u00e9cadas ao diagn\u00f3stico do que chama de <em>victimisme<\/em>, formula a quest\u00e3o com precis\u00e3o: nossa \u00e9poca transformou o sofrimento em credencial, a queixa em identidade e a v\u00edtima em figura sacralizada. <em>Je souffre donc je suis<\/em> (sofro, logo existo).<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o de uma gram\u00e1tica moral e afetiva que governa o espa\u00e7o p\u00fablico brasileiro tanto quanto o americano ou o europeu. Bruckner rastreia a origem desse fen\u00f4meno \u00e0 figura do Cristo sofredor na cruz; o Deus que se faz m\u00e1rtir e testemunha, morre na ignom\u00ednia. \u00c9 essa ignom\u00ednia que, secularizada e multiplicada, migrou para o centro da pol\u00edtica contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 foi dito por Ren\u00e9 Girard de forma mais eloquente em v\u00e1rios lugares. Este quadro revela a mec\u00e2nica profunda do processo vitim\u00e1rio, oculto e, ao mesmo tempo, descarado na pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Para Girard, toda cultura se organiza em torno de um bode expiat\u00f3rio: a viol\u00eancia social \u00e9 canalizada para uma v\u00edtima sacrificial que, ao ser imolada, restaura temporariamente a coes\u00e3o do grupo.<\/p>\n<p>O que o cristianismo fez de \u00fanico foi revelar o mecanismo, mostrar a inoc\u00eancia da v\u00edtima, interromper o ciclo sacrificial ao torn\u00e1-lo vis\u00edvel. O paradoxo \u00e9 que essa revela\u00e7\u00e3o, ao longo dos s\u00e9culos, produziu um efeito imprevisto: a figura da v\u00edtima n\u00e3o foi abolida, mas sacralizada. Quem ocupa o lugar da v\u00edtima passa a ocupar automaticamente o lugar do sagrado.<\/p>\n<p>E, numa cultura que perdeu seus referenciais de transcend\u00eancia, a pol\u00edtica \u00e9 o \u00fanico lugar de prest\u00edgio incontest\u00e1vel que resta. Da\u00ed a corrida para ocup\u00e1-lo, inclusive, e especialmente, por quem tem poder. J\u00e1 dizia o grande Chesterton: \u201cQuando um homem deixa de acreditar em Deus, ele n\u00e3o passa a acreditar em nada; passa a acreditar em qualquer coisa\u201d, inclusive em personalidades pol\u00edticas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os partidos de esquerda cl\u00e1ssicos eram, em sua an\u00e1lise, precisamente isso, bancos da ira que prometiam aos clientes um rendimento futuro em forma de justi\u00e7a. Quando o banco faliu com o colapso do comunismo, os dep\u00f3sitos foram redistribu\u00eddos em m\u00faltiplos pequenos fundos identit\u00e1rios<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mas o diagn\u00f3stico exige uma genealogia mais profunda do que Bruckner e Girard, sozinhos, oferecem. \u00c9 aqui que Peter Sloterdijk entra, e, com ele, a quest\u00e3o muda de escala. Em <em>Ira e Tempo<\/em>, Sloterdijk parte de uma constata\u00e7\u00e3o que parece simples, mas tem consequ\u00eancias enormes: a primeira palavra da Europa, a palavra com que a <em>Il\u00edada<\/em> come\u00e7a, \u00e9 \u03bc\u1fc6\u03bd\u03b9\u03bd (<em>m\u00eanin<\/em>), ira. N\u00e3o amor, n\u00e3o raz\u00e3o, n\u00e3o progresso. Ira.<\/p>\n<p>O mundo hom\u00e9rico era um mundo em que a ira era for\u00e7a constitutiva, energia numinosa que conferia ao guerreiro sua dimens\u00e3o mais alta. Mas esse mundo n\u00e3o conhecia a quest\u00e3o que nos assombra: o que fazer com a ira quando n\u00e3o h\u00e1 campo de batalha, quando n\u00e3o h\u00e1 inimigo nome\u00e1vel, quando o horizonte da vingan\u00e7a foi sistematicamente bloqueado?<\/p>\n<p>A resposta crist\u00e3 a esse problema foi, segundo Sloterdijk, um dos mais audaciosos projetos de engenharia psicopol\u00edtica da hist\u00f3ria. O <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/cristianismo\/\">cristianismo<\/a> n\u00e3o eliminou a ira; domesticou-a por transfer\u00eancia. Exigiu dos fi\u00e9is que abrissem m\u00e3o da retribui\u00e7\u00e3o imediata: \u201cN\u00e3o vos vingueis a v\u00f3s mesmos, amados, mas dai lugar \u00e0 ira de Deus, porque est\u00e1 escrito: A mim pertence a vingan\u00e7a; eu recompensarei, diz o Senhor\u201d (Romanos 12:19), em troca de uma promessa transcendente: Deus, como juiz final, acertaria todas as contas no fim dos tempos.<\/p>\n<p>Sloterdijk chama isso de \u201cacumula\u00e7\u00e3o do tesouro da ira em Deus\u201d: gera\u00e7\u00f5es depositavam sua indigna\u00e7\u00e3o num banco metaf\u00edsico, aguardando pagamento eterno. O <em>Dies Irae<\/em>, o Dia da Ira, era o vencimento desse t\u00edtulo. Enquanto o banco funcionasse, a ren\u00fancia \u00e0 vingan\u00e7a imediata era psicologicamente sustent\u00e1vel, porque havia certeza da liquida\u00e7\u00e3o futura.<\/p>\n<p>Quando Nietzsche proclamou a morte de Deus, n\u00e3o estava apenas fazendo metaf\u00edsica. Estava descrevendo a fal\u00eancia desse banco. As contas n\u00e3o seriam mais pagas na eternidade. A ira acumulada por s\u00e9culos, sem destino transcendente, precisou de novos deposit\u00e1rios, desta vez dentro da hist\u00f3ria, dentro do tempo, dentro da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As duas guerras mundiais s\u00e3o, entre outras coisas, o resultado catastr\u00f3fico desse redirecionamento: o nacionalismo alem\u00e3o de 1914 mobilizou a humilha\u00e7\u00e3o de um povo que acreditava merecer mais reconhecimento do que recebera; o nazismo de 1933 canalizou a ira da derrota e da crise econ\u00f4mica para um projeto de vingan\u00e7a hist\u00f3rica; o stalinismo operou como banco mundial da ira prolet\u00e1ria, prometendo que o sofrimento das massas seria compensado pela liquida\u00e7\u00e3o dos culpados.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Sloterdijk argumenta que esses regimes n\u00e3o foram aberra\u00e7\u00f5es irracionais, foram a forma mais consequente de reinvestimento do capital acumulado pelo banco metaf\u00edsico crist\u00e3o ap\u00f3s sua fal\u00eancia. Os movimentos do p\u00f3s-1850 s\u00e3o, em grande medida, projetos de reinvestimento desse capital: o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/karl-marx\/\">marxismo<\/a>, o anarquismo, o terrorismo moderno s\u00e3o \u201cbancos da ira\u201d que captam o ressentimento difuso de popula\u00e7\u00f5es vitimadas e o convertem em projeto hist\u00f3rico. Lenin compreendeu isso melhor do que ningu\u00e9m, e a revolu\u00e7\u00e3o russa pode ser lida como a opera\u00e7\u00e3o de um banco mundial da ira em escala industrial.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que o vitimismo contempor\u00e2neo revela sua verdadeira natureza. Sem o horizonte escatol\u00f3gico, a v\u00edtima n\u00e3o pode mais esperar pelo Ju\u00edzo Final. Ela precisa do reconhecimento aqui e agora: judicial, midi\u00e1tico, terap\u00eautico, legislativo, simb\u00f3lico. A beatifica\u00e7\u00e3o laica substitui a canoniza\u00e7\u00e3o religiosa. Os retratos dos \u201cm\u00e1rtires\u201d ornamentam os livros progressistas com a mesma solenidade com que as imagens dos santos ornamentavam os altares.<\/p>\n<p>O processo \u00e9 id\u00eantico: h\u00e1 um postulante, h\u00e1 testemunhos de sofrimento, h\u00e1 uma comunidade que delibera, h\u00e1 a eleva\u00e7\u00e3o final. A palavra <em>victima<\/em>, em latim, era reservada ao animal sacrificial e, por extens\u00e3o, ao Cristo crucificado. S\u00f3 a partir da Reforma o termo migrou para outros seres humanos; s\u00f3 no nosso tempo ele se tornou categoria de identidade disputada e passaporte para reconhecimento social.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/cultura\/por-que-maratonar-a-serie-succession-grande-hit-da-hbo\/\"><em>Succession<\/em> <\/a>oferece o laborat\u00f3rio perfeito. Os Roy s\u00e3o ricos, poderosos, destitu\u00eddos de qualquer vulnerabilidade objetiva e, no entanto, a s\u00e9rie inteira \u00e9 estruturada como competi\u00e7\u00e3o vitim\u00e1ria: quem sofreu mais com o pai, quem foi mais negligenciado, quem merece o trono por direito de ferida. O que Sloterdijk chama de \u03b8\u03c5\u03bc\u03cc\u03c2 (<em>thym\u00f3s<\/em>), o polo da alma ligado ao orgulho, \u00e0 autoafirma\u00e7\u00e3o, ao desejo de reconhecimento, aparece ali completamente traduzido na linguagem do sofrimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u201ceu mere\u00e7o porque realizei\u201d, mas \u201ceu mere\u00e7o porque fui ferido\u201d. A legitimidade ativa cede \u00e0 legitimidade passiva. O her\u00f3i \u00e9 definido pelo que faz; a v\u00edtima, pelo que lhe foi feito. <em>Succession<\/em> termina sem resolu\u00e7\u00e3o porque o vitimismo, por sua l\u00f3gica interna, n\u00e3o pode ter desfecho: a v\u00edtima que alcan\u00e7a o poder precisa imediatamente de uma nova persegui\u00e7\u00e3o para sustentar a identidade.<\/p>\n<p>Sloterdijk identifica na psican\u00e1lise freudiana o sintoma intelectual mais revelador dessa invers\u00e3o. A psican\u00e1lise construiu toda sua antropologia a partir do polo er\u00f3tico da alma \u2013 desejo, falta, car\u00eancia \u2013 e ignorou sistematicamente o polo tim\u00f3tico: o orgulho, a ira, a coragem, o desejo de justi\u00e7a, a indigna\u00e7\u00e3o. Ao fazer isso, produziu um tipo humano definido pela aus\u00eancia e pela ferida, n\u00e3o pela capacidade de afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O problema \u00e9 que o vitimismo n\u00e3o \u00e9 compaix\u00e3o. \u00c9 uma gram\u00e1tica de poder que opera exatamente como um banco: capta dep\u00f3sitos de ressentimento dispersos, organiza-os em narrativa coerente e os converte em poder pol\u00edtico<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quem n\u00e3o conseguia se encaixar nesse modelo er\u00f3tico-patol\u00f3gico, ou seja, quem exibia orgulho, ambi\u00e7\u00e3o, ira diante da injusti\u00e7a, era imediatamente requalificado como neur\u00f3tico. Os moralistas crist\u00e3os haviam feito o mesmo: desde Greg\u00f3rio I, o orgulho (<em>superbia<\/em>) encabe\u00e7ava a lista dos pecados capitais. Psican\u00e1lise e teologia crist\u00e3 convergiam, por caminhos diferentes, para o mesmo resultado: a suspeita sobre qualquer energia de autoafirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O vitimismo contempor\u00e2neo \u00e9 o herdeiro direto dessa tradi\u00e7\u00e3o dupla. Ele opera transformando essa energia de reconhecimento e afirma\u00e7\u00e3o em queixa. Em vez de \u201cexijo reconhecimento pelo que sou e pelo que fiz\u201d, diz \u201cexijo reconhecimento pelo que sofri\u201d. No primeiro caso, h\u00e1 ag\u00eancia; no segundo, passividade. No primeiro, crit\u00e9rios; no segundo, imuniza\u00e7\u00e3o contra questionamento.<\/p>\n<p><em>The Walking Dead<\/em> \u00e9 a fic\u00e7\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o sem horizonte escatol\u00f3gico. Numa sociedade em colapso, os verdadeiros monstros n\u00e3o s\u00e3o os zumbis, s\u00e3o os humanos que, sem \u00e1rbitro transcendente, disputam entre si o t\u00edtulo de v\u00edtima m\u00e1xima para justificar a viol\u00eancia que praticam. A s\u00e9rie \u00e9 uma fenomenologia do <em>survivalisme<\/em> p\u00f3s-escatol\u00f3gico: sem Ju\u00edzo Final, sem banco metaf\u00edsico onde depositar a ira e aguardar o rendimento eterno, resta apenas a for\u00e7a de quem sobreviveu mais um epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Sloterdijk diria que \u00e9 a forma projetiva da ira sem a media\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria que o Estado e a religi\u00e3o ofereciam. Agora o que resta \u00e9 ira bruta, cega, sem projeto, sem horizonte, consumindo-se em si mesma. Surge, ent\u00e3o, a reivindica\u00e7\u00e3o difusa de um \u201cdireito \u00e0 ira\u201d, n\u00e3o mais regulado por crit\u00e9rios externos, que leva \u00e0 viol\u00eancia \u201cjustificada\u201d.<\/p>\n<p>Eis o paradoxo: quanto mais se d\u00e1 a uma sociedade, menos ela se sente satisfeita. Quanto mais se oferece, mais se exige; e a aus\u00eancia de qualquer concess\u00e3o \u00e9 vivida como persegui\u00e7\u00e3o. Nietzsche havia formulado a senten\u00e7a que resume o mecanismo: \u201cSofro, logo algu\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel.\u201d Nunca \u00e9 acidente. Sempre h\u00e1 um culpado a encontrar e uma conta a cobrar.<\/p>\n<p>A ira, em sua forma mais elementar, tem um tra\u00e7o paradoxalmente generoso: o irado se sente rico o suficiente para presentear o mundo com sofrimento adicional. Utilizam-se, em alguns casos, inclusive termos como \u201cjusti\u00e7a distributiva\u201d: quem sofre acredita que o sofrimento deve ser redistribu\u00eddo de forma equ\u00e2nime. Quem presenteia com a dor acredita que certos grupos existem num estado de \u201ccar\u00eancia aguda\u201d; falta-lhes o sofrimento para a sua plenitude.<\/p>\n<p>\u00c9 uma l\u00f3gica estranha, mas reconhec\u00edvel em muitas formas de milit\u00e2ncia contempor\u00e2nea: a sensa\u00e7\u00e3o de que grupos privilegiados n\u00e3o sofreram o suficiente, de que a distribui\u00e7\u00e3o do sofrimento \u00e9 injusta e precisa ser corrigida.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Espero que at\u00e9 aqui minha argumenta\u00e7\u00e3o esteja clara e distinta. O problema n\u00e3o \u00e9 a compaix\u00e3o pelo sofrimento. O problema \u00e9 que o vitimismo n\u00e3o \u00e9 compaix\u00e3o. \u00c9 uma gram\u00e1tica de poder que opera exatamente como um banco: capta dep\u00f3sitos de ressentimento dispersos, organiza-os em narrativa coerente e os converte em poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Os partidos de esquerda cl\u00e1ssicos eram, em sua an\u00e1lise, precisamente isso, bancos da ira que prometiam aos clientes um rendimento futuro em forma de justi\u00e7a. Quando o banco faliu com o colapso do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/comunismo\/\">comunismo<\/a>, os dep\u00f3sitos foram redistribu\u00eddos em m\u00faltiplos pequenos fundos identit\u00e1rios. Cada fundo promete aos seus clientes o mesmo que Lenin prometia aos oper\u00e1rios: que a conta ser\u00e1 paga, que a vingan\u00e7a vir\u00e1, que os humilhados ser\u00e3o exaltados.<\/p>\n<p>A pergunta que nenhuma pol\u00edtica de emancipa\u00e7\u00e3o responde \u00e9: por que a condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima tornou-se agora t\u00e3o insuport\u00e1vel que estamos sempre \u00e0 procura de novos perpetradores e vil\u00f5es? A hip\u00f3tese \u00e9 que nossos antepassados, auxiliados pela ideia de um Ju\u00edzo Final por uma autoridade n\u00e3o humana, estavam melhor equipados para viver com a verdade amarga da impot\u00eancia diante da injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Sem esse horizonte, a press\u00e3o por retribui\u00e7\u00e3o imediata recai sobre institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o foram desenhadas para suport\u00e1-la, e a democracia come\u00e7a a se organizar em torno do ressentimento em vez da delibera\u00e7\u00e3o. Aqui trago presentes todas as cr\u00edticas feitas ao modelo dial\u00f3gico de Habermas, de que os mecanismos racionais de consenso j\u00e1 n\u00e3o d\u00e3o conta da intensidade afetiva que atravessa o espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>O caso brasileiro tem uma especificidade que merece nomea\u00e7\u00e3o. Quando o STF passou a funcionar, na \u00faltima d\u00e9cada, como \u00e1rbitro \u00faltimo de disputas que deveriam pertencer ao debate democr\u00e1tico, decidindo sobre elei\u00e7\u00f5es, criminalizando discursos, operando inqu\u00e9ritos sem prazo nem r\u00e9u definido, estava ocupando exatamente o lugar do Deus-juiz. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a necessidade dessa fun\u00e7\u00e3o, mas sua legitimidade percebida.<\/p>\n<p>A imparcialidade n\u00e3o \u00e9 apenas exig\u00eancia normativa; \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia simb\u00f3lica. Quando essa imparcialidade \u00e9 contestada, o efeito \u00e9 a devolu\u00e7\u00e3o da ira ao espa\u00e7o social, agora sem media\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 a reativa\u00e7\u00e3o de formas recorrentes de estados de exce\u00e7\u00e3o pol\u00edticos em nome da democracia. Quando ministros aparecem em festas de candidatos, quando decis\u00f5es seguem linhas pol\u00edticas identific\u00e1veis, quando a \u201ccuradoria do discurso p\u00fablico\u201d \u00e9 declarada abertamente como atribui\u00e7\u00e3o do tribunal, o banco metaf\u00edsico n\u00e3o fecha as contas com a eternidade, fecha com a fac\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o a ira que havia sido depositada em nome da justi\u00e7a retorna, sem sublima\u00e7\u00e3o, para a rua.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Reaparece aqui um tipo de autoritarismo instrumental: o estado de exce\u00e7\u00e3o corretivo que promete se retirar depois de resolvido o conflito nunca se retira; de Oliveira Viana ao Estado Novo, dos generais de 1964 ao inqu\u00e9rito das fake news. A estrutura argumentativa \u00e9 id\u00eantica; muda apenas quem controla o mecanismo. J\u00e1 os partidos e movimentos que exploram a ira e o ressentimento populista n\u00e3o inventam esse capital moral, apenas o instrumentalizam. Herdam contas banc\u00e1rias que a modernidade secularizou sem criar alternativas institucionais equivalentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou propondo nostalgia teol\u00f3gica. A v\u00edtima real merece prote\u00e7\u00e3o, reconhecimento e justi\u00e7a, e o direito penal tem obriga\u00e7\u00e3o de lev\u00e1-la a s\u00e9rio. O que n\u00e3o merece nenhuma dessas coisas \u00e9 a gram\u00e1tica que converte o sofrimento em moeda, a queixa em identidade e a compaix\u00e3o em instrumento de poder e que, na formula\u00e7\u00e3o de Sloterdijk, transforma a ira difusa de in\u00fameros indiv\u00edduos vitimados em capital administrado por elites intelectuais que n\u00e3o prestam contas por seus investimentos.<\/p>\n<p>Raymond Aron, em <em>O \u00d3pio dos Intelectuais<\/em>, publicado em 1955, j\u00e1 havia identificado o mecanismo com a clareza de quem assistiu a ele de perto. Os intelectuais de esquerda europeus, argumentava Aron, haviam transformado o marxismo numa religi\u00e3o secular: com seus dogmas inviol\u00e1veis, seus hereges, sua escatologia de reden\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e, acima de tudo, sua imunidade ao teste da realidade.<\/p>\n<p>O Gulag n\u00e3o refutava a teoria, era um \u201cdesvio\u201d, um \u201cexcesso\u201d, um \u201cerro de implementa\u00e7\u00e3o\u201d. A f\u00e9 sobrevivia aos fatos porque n\u00e3o era uma hip\u00f3tese sobre o mundo, era uma identidade que n\u00e3o podia ser questionada sem custo existencial. Aron foi o homem que disse o que via e pagou d\u00e9cadas de ostracismo intelectual por isso, enquanto Sartre, que sabia do Gulag e calou, era celebrado.<\/p>\n<p>No Brasil de hoje, \u00e9 a gram\u00e1tica do vitimismo que dita as regras do debate p\u00fablico e atua como horizonte total de inteligibilidade pol\u00edtica. E ela n\u00e3o pertence a um campo s\u00f3. O parlamentar que tem imunidade, mais de vinte e cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos e tribuna nacional aciona advogados e notifica\u00e7\u00f5es extrajudiciais contra cr\u00edticos an\u00f4nimos nas redes sociais e se apresenta como v\u00edtima de persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ministro que det\u00e9m poder de censurar plataformas digitais declara-se v\u00edtima de campanha orquestrada. Em cada caso, o mesmo movimento: quem tem poder usa a linguagem de quem n\u00e3o tem. Quem questiona esse uso n\u00e3o est\u00e1 criticando um argumento, est\u00e1 atacando as v\u00edtimas. Quem examina o mecanismo n\u00e3o est\u00e1 fazendo filosofia, est\u00e1 fazendo pol\u00edtica do lado errado.<\/p>\n<p>A blindagem \u00e9 perfeita e, por isso, \u00e9 t\u00e3o eficaz: ela transforma a cr\u00edtica em prova da acusa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma gram\u00e1tica de poder, operada por quem tem poder, para garantir que o poder continue sendo seu. No limite, n\u00e3o se trata mais de quem sofre, mas de quem melhor administra o sofrimento como instrumento de dom\u00ednio<\/p>\n<p><em><strong>Natan Fantin\u00a0<\/strong>\u00e9 escritor, tradutor e professor do ensino b\u00e1sico, graduado e metre em Filosofia pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas das principais figuras pol\u00edticas recentes do pa\u00eds trabalharam com a mesma l\u00f3gica discursiva. Utilizo estes exemplos como estudo de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":394197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-394196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/394196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=394196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/394196\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/394197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=394196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=394196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=394196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}