{"id":393283,"date":"2026-04-17T16:52:30","date_gmt":"2026-04-17T20:52:30","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=393283"},"modified":"2026-04-17T16:52:30","modified_gmt":"2026-04-17T20:52:30","slug":"o-abismo-da-mediocridade-por-que-a-economia-brasileira-nao-decola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=393283","title":{"rendered":"O abismo da mediocridade: por que a economia brasileira n\u00e3o decola"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O crescimento econ\u00f4mico do Brasil enfrenta um problema estrutural. H\u00e1 mais de 40 anos o PIB nacional expande-se abaixo do ritmo global, resultando em uma perda cont\u00ednua de participa\u00e7\u00e3o na economia mundial.<\/p>\n<p>Segundo o Banco Mundial, em 1980, o pa\u00eds detinha 2,8% do PIB global; em 2024, esse n\u00famero recuou para 2,1%. Com uma expans\u00e3o m\u00e9dia anual da economia de apenas 2,2%, o pa\u00eds ocupa a 102\u00aa posi\u00e7\u00e3o no ranking do crescimento nesse per\u00edodo, que inclui 153 na\u00e7\u00f5es. O Brasil fica atr\u00e1s de pa\u00edses que enfrentaram conflitos internos ou externos como a Col\u00f4mbia, a Bol\u00edvia, a Nig\u00e9ria, o Ir\u00e3 e o Iraque.<\/p>\n<p>Uma combina\u00e7\u00e3o de fatores ajuda a explicar o baixo crescimento verificado no per\u00edodo. Samuel Pess\u00f4a, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV Ibre), destaca que o crescimento passado foi &#8220;artificialmente&#8221; sustentado pelo b\u00f4nus demogr\u00e1fico, com a entrada massiva de m\u00e3o de obra no mercado de trabalho. Esse abono, contudo, n\u00e3o se mant\u00e9m.<\/p>\n<p>Outros fatores que pesam s\u00e3o a baixa poupan\u00e7a dom\u00e9stica; uma &#8220;fragilidade institucional&#8221; em que o estado \u00e9 capturado por grupos de interesse. O resultado \u00e9 uma carga tribut\u00e1ria de pa\u00eds rico com servi\u00e7os p\u00fablicos ineficientes e um ambiente de neg\u00f3cios que n\u00e3o promove a &#8220;destrui\u00e7\u00e3o criadora&#8221;, ou a supera\u00e7\u00e3o de antigos modelos produtivos para a necess\u00e1ria inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma burocracia asfixiante e uma inseguran\u00e7a jur\u00eddica total e generalizada que eleva o custo de empreender e for\u00e7a muitos neg\u00f3cios a permanecerem \u2018embaixo do radar\u2019 na informalidade. Muitos desistem antes de come\u00e7ar\u201d, diz Magno Karl, diretor-executivo do movimento Livres.<\/p>\n<p>Ainda mais: Pess\u00f4a, aponta que, sem reformas profundas na efici\u00eancia e no marco institucional, o pa\u00eds ter\u00e1 um crescimento potencial limitado a apenas 1,5%. Este n\u00famero depender\u00e1 mais de ganhos de produtividade do que de aumento nas horas trabalhadas, por causa do fim do b\u00f4nus demogr\u00e1fico.<\/p>\n<h2>O abismo da diverg\u00eancia: o pa\u00eds ficou para tr\u00e1s<\/h2>\n<p>Desde 1980, a economia brasileira oscila entre per\u00edodos de crescimento fraco e estagna\u00e7\u00e3o, perdendo oportunidades. Dados hist\u00f3ricos revelam uma realidade inc\u00f4moda. Em 1980, o PIB per capita brasileiro correspondia a cerca de 20% do americano. Em 2024, havia ca\u00eddo para 14,4%. No mesmo per\u00edodo, a Coreia do Sul, que em 1980 era mais pobre que o Brasil com apenas 13,6% da renda per capita americana, deu um salto extraordin\u00e1rio. Em 2024, a renda per capita sul-coreana era de 55,8% da americana.<\/p>\n<p>Segundo a coordenadora do boletim macroecon\u00f4mico do FGV Ibre, Silvia Mattos, a \u201cmediocridade brasileira\u201d decorre do fracasso em obter ganhos de produtividade ao longo da nossa hist\u00f3ria. Os n\u00fameros comprovam a magnitude: em 1950, o trabalhador brasileiro tinha o dobro da efici\u00eancia produtiva de um trabalhador coreano; hoje, tem pouco mais de um ter\u00e7o da produtividade coreana.<\/p>\n<h3>A queda no ranking global: de pot\u00eancia a coadjuvante<\/h3>\n<p>A trajet\u00f3ria brasileira no ranking de maiores economias mundiais ilustra essa perda de dinamismo. Em 1960, era a 11\u00aa economia mundial, 17% maior do que a chinesa. Durante a d\u00e9cada de 1960, enquanto Mao Tse-Tung consolidava a ditadura comunista com persegui\u00e7\u00f5es e massacres, o Brasil acelerava. O principal avan\u00e7o foi entre 1968 e 1974, durante o &#8220;Milagre Econ\u00f4mico&#8221;. Em 1976, o PIB brasileiro era aproximadamente 98% maior que o chin\u00eas. Naquele ano, chegou a ocupar a s\u00e9tima posi\u00e7\u00e3o no ranking global.<\/p>\n<p>O Produto Interno do Brasil, contudo, foi ultrapassado pelo da  China em 1988, quando ainda ocupava o posto de oitava economia global. Em 2000, a brasileira correspondia a 42% da chinesa, segundo n\u00fameros do Banco Mundial. Desde ent\u00e3o at\u00e9 2024, o crescimento m\u00e9dio anual foi de 2,3% no Brasil, bem atr\u00e1s da m\u00e9dia mundial (2,9%) e menos da metade dos pa\u00edses de renda m\u00e9dia-alta (5,5% ao ano). Nesse ano, a economia havia ca\u00eddo para a 9\u00aa posi\u00e7\u00e3o no ranking das maiores do mundo, com PIB correspondendo a pouco mais de um d\u00e9cimo do chin\u00eas.<\/p>\n<p>As expectativas seguem desfavor\u00e1veis para os pr\u00f3ximos anos. Segundo o <em>think tank<\/em> Conference Board, a na\u00e7\u00e3o deve expandir-se a um ritmo bem menor do que o mundial nos pr\u00f3ximos anos. Neste ano, a economia global deve crescer 2,8%, enquanto as proje\u00e7\u00f5es para o pa\u00eds s\u00e3o de 1,8%. Para 2027, a previs\u00e3o \u00e9 de 2,2% para o Brasil e 3,0% para o mundo. Para a d\u00e9cada entre 2028 e 2037, a expans\u00e3o nacional deve ficar, em m\u00e9dia, inferior a 2% ao ano, enquanto a mundial ficar\u00e1 em torno de 2,5%.<\/p>\n<h2>As travas \u00e0 expans\u00e3o do crescimento<\/h2>\n<p>O fim do b\u00f4nus demogr\u00e1fico \u00e9 um dos principais obst\u00e1culos ao desenvolvimento econ\u00f4mico. Segundo o IBGE, de 2012 a 2025, a parcela da popula\u00e7\u00e3o com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%, enquanto a popula\u00e7\u00e3o com mais de 60 anos cresceu de 11,3% para 16,6%. Sem esse impulso demogr\u00e1fico, que adiciona jovens adultos \u00e0 for\u00e7a de trabalho,  crescer fica mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Sem esse impulso na m\u00e3o de obra, a produtividade geral na economia, motor da expans\u00e3o de longo prazo, opera em marcha lenta. Segundo pesquisa do FGV Ibre, apenas a agropecu\u00e1ria cresceu robustamente desde 1995 (5,8% ao ano);<strong>a ind\u00fastria caiu 0,3% ao ano; servi\u00e7os, apenas 0,2%<\/strong>.<\/p>\n<p>Ou seja, o pa\u00eds permanece preso em atividades de baixa produtividade enquanto a ind\u00fastria encolhe. O investimento brasileiro agrava o problema: 17% do PIB contra 26% de m\u00e9dia global. A baixa poupan\u00e7a \u2014 de 14,5% do PIB em 2024 \u2014 \u00e9 insuficiente para financi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, gastos correntes engessados (previd\u00eancia, sa\u00fade, assist\u00eancia social) impedem excedentes para investimento, mesmo com carga tribut\u00e1ria de 34,2% do PIB \u2014 pr\u00f3xima \u00e0 de na\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 poupan\u00e7a p\u00fablica. O setor p\u00fablico consolidado, que re\u00fane Uni\u00e3o, estados e munic\u00edpios registra d\u00e9ficits cr\u00f4nicos desde novembro de 2014, segundo dados do BC. \u00c9 uma din\u00e2mica que limita a capacidade de investimento p\u00fablico.<\/p>\n<h3>Distor\u00e7\u00f5es drenam investimento produtivo<\/h3>\n<p>Segundo a Receita Federal, benef\u00edcios fiscais consomem 4,4% do PIB \u2014 isen\u00e7\u00f5es e redu\u00e7\u00f5es de al\u00edquotas que equivalem a subs\u00eddios indiretos que poderiam financiar investimentos produtivos. Mattos aponta que a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 &#8220;muito suscet\u00edvel aos diversos grupos de interesse&#8221;, criando distor\u00e7\u00f5es que protegem setores ineficientes.<\/p>\n<p>O resultado: empresas ineficientes sobrevivem artificialmente, impedindo a inova\u00e7\u00e3o. O capital migra para aplica\u00e7\u00f5es de baixo risco em vez de financiar f\u00e1bricas e pesquisa \u2014 um c\u00edrculo vicioso que sufoca a economia real. N\u00e3o bastasse esse engessamento institucional, h\u00e1 um setor que ilustra concretamente essa paralisia: a ind\u00fastria brasileira.<\/p>\n<h3>A ind\u00fastria como term\u00f4metro da estagna\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Um dos principais term\u00f4metros da perda de f\u00f4lego da economia est\u00e1 no setor industrial. Uma an\u00e1lise do FGV Ibre sobre o hiato entre ind\u00fastria e servi\u00e7os, conduzida por pesquisadores como Claudio Considera e Henrique Bittencourt, revela um diagn\u00f3stico alarmante: a desindustrializa\u00e7\u00e3o precoce n\u00e3o \u00e9 acidental, mas resultado direto da fragilidade institucional e dos desincentivos que caracterizam a economia brasileira.<\/p>\n<p>Segundo a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), o pa\u00eds \u00e9 respons\u00e1vel por somente 1,17% de toda a riqueza gerada pela ind\u00fastria no mundo \u2014 o n\u00edvel mais baixo desde 1990. A na\u00e7\u00e3o ocupa a 15\u00aa posi\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o industrial global, tendo sido ultrapassada por M\u00e9xico, Indon\u00e9sia, Turquia e Irlanda. Nas exporta\u00e7\u00f5es, est\u00e1 estagnada na 30\u00aa posi\u00e7\u00e3o, respondendo por apenas 0,92% das manufaturas globais.<\/p>\n<h2>A agenda da sobreviv\u00eancia: quatro pilares para fugir do baixo crescimento<\/h2>\n<p>Diante desse diagn\u00f3stico, a reforma tribut\u00e1ria pode ser um indicativo positivo, pelo menos, ap\u00f3s superar a complexidade do per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. Um estudo do FMI indica que a moderniza\u00e7\u00e3o do sistema tribut\u00e1rio poderia elevar o PIB potencial em at\u00e9 6% no longo prazo \u2014 um salto expressivo alimentado principalmente pela elimina\u00e7\u00e3o da dispers\u00e3o de al\u00edquotas e pela redu\u00e7\u00e3o do custo de insumos intermedi\u00e1rios. O impacto na produtividade aumentaria pouco mais de 1%, transformando um cen\u00e1rio estagnado em din\u00e2mico.<\/p>\n<p>Os especialistas, entretanto, apontam que apenas a reforma tribut\u00e1ria n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para salvar uma estrutura econ\u00f4mica doente. Eles tra\u00e7am uma agenda de sobreviv\u00eancia \u2014 uma b\u00fassola clara para que o pa\u00eds escape da &#8220;armadilha da renda m\u00e9dia&#8221; e evite o colapso institucional que consumiu outras na\u00e7\u00f5es emergentes.<\/p>\n<ul>\n<li><span><strong>Libertar o Estado de grupos de interesse.<\/strong> O or\u00e7amento p\u00fablico precisa deixar de ser ref\u00e9m de corpora\u00e7\u00f5es protegidas. Simultaneamente, abrir a economia \u00e0 concorr\u00eancia global \u00e9 imperativo. Nesse sentido, o exemplo mexicano traz um alerta: a liberaliza\u00e7\u00e3o comercial n\u00e3o se mostra eficiente quando a informalidade \u00e9 alta e a aloca\u00e7\u00e3o de recursos \u00e9 distorcida, duas quest\u00f5es que tamb\u00e9m afetam o Brasil.<\/span><\/li>\n<li><span><strong>Reconstruir a educa\u00e7\u00e3o do zero.<\/strong> Aumentar anos de escolaridade \u00e9 ilus\u00e3o se a qualidade for med\u00edocre. \u201cO pa\u00eds precisa de ensino t\u00e9cnico e superior voltados para inova\u00e7\u00e3o\u201d, diz a pesquisadora Silvia Mattos, lembrando que enquanto apenas 24% dos adultos brasileiros t\u00eam ensino superior, a Coreia alcan\u00e7a 70%.<\/span><\/li>\n<li><span><strong>Entregar seguran\u00e7a jur\u00eddica aos investidores.<\/strong> Previsibilidade atrai capital, ressaltam os especialistas. Reformas como a trabalhista e marcos legais setoriais s\u00e3o passos positivos, mas esbarram em decis\u00f5es judiciais que, em alguns casos, n\u00e3o consideram adequadamente a l\u00f3gica econ\u00f4mica e os incentivos envolvidos. \u201cO Brasil vive sob uma \u2018inseguran\u00e7a jur\u00eddica total e generalizada\u2019 onde &#8220;at\u00e9 o passado \u00e9 incerto&#8221;, o que impede a previsibilidade necess\u00e1ria para atrair investimentos\u201d, destaca Karl, do Livres.<\/span><\/li>\n<li><span><strong>Reformar os incentivos \u00e0 poupan\u00e7a.<\/strong> Uma previd\u00eancia sustent\u00e1vel e um mercado de capitais moderno s\u00e3o urgentes, dizem os pesquisadores do FGV Ibre. Para eles, o pa\u00eds n\u00e3o poupa porque a m\u00e1quina estatal consome tudo e a popula\u00e7\u00e3o desconfia do futuro. Sem poupan\u00e7a dom\u00e9stica robusta, a na\u00e7\u00e3o permanece ref\u00e9m de financiamento externo e juros elevados, complementam os especialistas.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8220;N\u00e3o existe atalho para o crescimento econ\u00f4mico. Apenas atrav\u00e9s do aumento da produtividade&#8221;, diz Silvia Mattos. O aviso \u00e9 s\u00f3brio: o Brasil n\u00e3o est\u00e1 fadado ao fracasso, mas a era da &#8220;sorte&#8221; \u2014 commodities em alta, demografia favor\u00e1vel \u2014 terminou.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crescimento econ\u00f4mico do Brasil enfrenta um problema estrutural. 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