{"id":389112,"date":"2026-05-07T17:12:56","date_gmt":"2026-05-07T21:12:56","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=389112"},"modified":"2026-05-07T17:12:56","modified_gmt":"2026-05-07T21:12:56","slug":"a-imprensa-e-sua-insistente-tentativa-de-paganizar-o-cristianismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=389112","title":{"rendered":"A imprensa e sua insistente tentativa de paganizar o cristianismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><em>\u201cOs Evangelhos revelam a verdade plena, inteira, sobre a g\u00eanese dos mitos, sobre o poder de ilus\u00e3o dos arrebatamentos mim\u00e9ticos, sobre tudo que os mitos necessariamente n\u00e3o revelam, pois est\u00e3o sempre dominados pelo engano.\u201d<\/em> (Ren\u00e9 Girard)<\/p>\n<p>De tempos em tempos, uma ordem unida parece ecoar nas prov\u00edncias de reda\u00e7\u00e3o: \u201cdesmistifiquem o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/cristianismo\/\">cristianismo<\/a>, desmintam os dogmas da Igreja\u201d \u2013 dizem redatores a rep\u00f3rteres e estagi\u00e1rios atarantados, que ent\u00e3o saem correndo, esbaforidos, \u00e0 ca\u00e7a de algum especialista que lhes possa fornecer aspas sobre tema do qual desconhecem praticamente tudo. O expediente habitual nessas horas \u00e9 a paganiza\u00e7\u00e3o do cristianismo: a tentativa de apresentar uma nova prova \u201ccient\u00edfica\u201d de que \u2013 viu s\u00f3? \u2013 Jesus Cristo foi mais uma cria\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica como tantas outras, uma varia\u00e7\u00e3o sobre temas e contextos do universo religioso antigo.<\/p>\n<p>Uma mat\u00e9ria publicada hoje pela BBC Brasil \u2013 e sintomaticamente reproduzida pela <em>Folha de S.Paulo<\/em>, pelo G1, e possivelmente por mais uns tantos ve\u00edculos enquanto escrevo estas linhas, numa clara tentativa de <em>agenda setting<\/em> \u2013 veio cumprir a miss\u00e3o. Uma mat\u00e9ria cujo t\u00edtulo cont\u00e9m, em estado embrion\u00e1rio, todo o equ\u00edvoco que o texto depois desenvolve com aplica\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica: \u201cQuem foi Apol\u00f4nio, o \u2018Jesus grego\u2019 que foi cancelado pelo cristianismo\u201d. Uma mat\u00e9ria, ali\u00e1s, de periodicidade sazonal \u2013 pois, h\u00e1 coisa de dois anos, a mesma BBC j\u00e1 havia publicado sobre o mesm\u00edssimo personagem, tratando-o tamb\u00e9m como um \u201cJesus pag\u00e3o\u201d. J\u00e1 se pode antever que, por volta de abril\/maio de 2028, sair\u00e1 do forno uma nova mat\u00e9ria quent\u00edssima sobre Apol\u00f4nio.<\/p>\n<blockquote>\n<p>De tempos em tempos, uma ordem unida parece ecoar nas prov\u00edncias de reda\u00e7\u00e3o: \u201cdesmistifiquem o cristianismo, desmintam os dogmas da Igreja\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A escolha de palavras revela muito sobre a estranha rela\u00e7\u00e3o entre a imagina\u00e7\u00e3o secular progressista e a f\u00e9 crist\u00e3. \u201cJesus grego\u201d \u2013 como se Jesus fosse uma marca registrada de um produto que os gregos teriam lan\u00e7ado antes, em vers\u00e3o anterior e talvez mais aut\u00eantica. \u201cCancelado pelo cristianismo\u201d \u2013 como se a diferen\u00e7a entre os dois personagens fosse um problema de marketing, de poder institucional, de vit\u00f3ria editorial de uma narrativa sobre outra. O que a reportagem n\u00e3o consegue fazer \u2013 menos por falta de esfor\u00e7o que pela car\u00eancia dos instrumentos conceituais adequados \u2013 \u00e9 responder \u00e0 pergunta que ela pr\u00f3pria levanta: se as semelhan\u00e7as entre Apol\u00f4nio e Jesus s\u00e3o t\u00e3o grandes, por que apenas um deles fundou uma civiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A resposta exigiria que o jornalista e seus especialistas <em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em> fossem capazes de distinguir entre semelhan\u00e7a de superf\u00edcie e diferen\u00e7a de estrutura. Trata-se de uma distin\u00e7\u00e3o que o secularismo acad\u00eamico contempor\u00e2neo tem enorme dificuldade de fazer, gra\u00e7as a um pressuposto metodol\u00f3gico que funciona como antolhos: a ideia de que comparar fen\u00f4menos religiosos \u00e9 o mesmo que equipar\u00e1-los, e que identificar paralelos formais equivale a demonstrar equival\u00eancia de conte\u00fado e, sobretudo, de sentido.<\/p>\n<p>L\u00ea-se na mat\u00e9ria:<\/p>\n<p><em>\u201cTrata-se da hist\u00f3ria de um homem barbudo, que trajava t\u00fanica simples e que viveu h\u00e1 cerca de 2 mil anos. Era reconhecido como s\u00e1bio, dotado de excelente orat\u00f3ria e teria realizado milagres: curado doentes, ressuscitado mortos, alimentado famintos. Acabou reunindo seguidores. <\/em><em>Provocou a ira dos poderosos romanos e chegou a ser condenado por eles. <\/em><em>Mas alcan\u00e7ou a vida eterna, levado de corpo e alma para os c\u00e9us.\u201d<\/em><\/p>\n<p>E pode-se facilmente notar o j\u00fabilo do autor da mat\u00e9ria ao alertar em seguida: n\u00e3o, n\u00e3o estamos falando de Jesus de Nazar\u00e9, mas de Apol\u00f4nio de Tiana. A conclus\u00e3o \u00e9 anunciada com fanfarra: toda mitologia \u00e9, no fundo, a mesma mitologia. N\u00e3o h\u00e1 nada de extraordin\u00e1rio ou particularmente verdadeiro no cristianismo. A suposta divindade de Jesus Cristo foi um produto da imagina\u00e7\u00e3o humana, tanto quanto a do taumaturgo grego. <em>Voil\u00e1<\/em>!<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Caso tivesse lido Ren\u00e9 Girard, o jornalista n\u00e3o teria cometido um erro t\u00e3o simpl\u00f3rio. Afinal, o antrop\u00f3logo franc\u00eas passou d\u00e9cadas demonstrando por que essa equipara\u00e7\u00e3o \u00e9 filos\u00f3fica e antropologicamente insustent\u00e1vel \u2013 e o cap\u00edtulo IV de <em>Eu Vi Satan\u00e1s Cair como um Raio<\/em> oferece, para o caso espec\u00edfico de Apol\u00f4nio de Tiana, a refuta\u00e7\u00e3o mais precisa e mais devastadora que se poderia imaginar. O epis\u00f3dio que Girard analisa \u00e9 extra\u00eddo da obra <em>Vida de Apol\u00f4nio de Tiana<\/em>, do sofista Fil\u00f3strato, um admirador de Apol\u00f4nio, e que, por isso mesmo, descreve de maneira insuspeita o mecanismo que distingue o taumaturgo pag\u00e3o do Cristo evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>A cidade de \u00c9feso est\u00e1 devastada pela peste. Apol\u00f4nio convoca a popula\u00e7\u00e3o ao anfiteatro, identifica no meio da multid\u00e3o um mendigo miser\u00e1vel e repulsivo \u2013 velho, em farrapos, piscando os olhos como se fosse cego \u2013 e ordena: \u201cApanhem tantas pedras quanto possam e atirem nesse inimigo dos deuses\u201d. A multid\u00e3o hesita. Apol\u00f4nio insiste. As primeiras pedras s\u00e3o lan\u00e7adas timidamente. O mendigo lan\u00e7a um olhar \u201ccheio de fogo\u201d \u2013 e isso basta para que a multid\u00e3o conclua que se trata de um dem\u00f4nio. O apedrejamento torna-se fren\u00e9tico. O corpo desaparece sob um t\u00famulo de pedras. Quando as removem, \u201cdescobrem\u201d n\u00e3o um mendigo, mas uma besta monstruosa. A peste cessa. Ergue-se uma est\u00e1tua de H\u00e9racles.<\/p>\n<p>Girard chama isso de \u201chorr\u00edvel milagre\u201d \u2013 e a express\u00e3o \u00e9 deliberadamente paradoxal. O milagre \u00e9 real: a peste cessa, a cidade se cura, a ordem \u00e9 restaurada. Mas o mecanismo que o produz \u00e9 o mais antigo e o mais sombrio da hist\u00f3ria humana: o bode expiat\u00f3rio. Uma v\u00edtima arbitr\u00e1ria, escolhida por sua marginalidade e sua incapacidade de se defender, \u00e9 carregada de todos os males da comunidade e destru\u00edda em nome da sa\u00fade coletiva. Sua culpa \u00e9 fabricada retroativamente: o mendigo <em>tinha<\/em> de ser um dem\u00f4nio porque, se n\u00e3o fosse, o linchamento seria um crime \u2013 e a comunidade linchadora n\u00e3o pode ser criminosa. O mito resolve a contradi\u00e7\u00e3o transformando a v\u00edtima em monstro e o linchamento em ato sagrado. Fil\u00f3strato narra tudo isso como prova dos poderes de Apol\u00f4nio. N\u00e3o percebe \u2013 n\u00e3o pode perceber, dentro do horizonte m\u00edtico em que escreve \u2013 que est\u00e1 descrevendo um assassinato coletivo.<\/p>\n<p>Agora compare-se com a cena evang\u00e9lica que Girard coloca em contraste direto: a mulher ad\u00faltera, em Jo\u00e3o 8. Ali, como em \u00c9feso, h\u00e1 uma multid\u00e3o prestes a lapidar. Ali, como em \u00c9feso, h\u00e1 uma v\u00edtima j\u00e1 escolhida, j\u00e1 condenada pelo consenso do grupo, j\u00e1 cercada pelas pedras prontas. A diferen\u00e7a est\u00e1 num \u00fanico gesto \u2013 e esse gesto separa dois mundos. Jesus n\u00e3o aponta a v\u00edtima: inverte o apontamento. \u201cAquele que nunca pecou que atire a primeira pedra\u201d. Ao mencionar explicitamente a primeira pedra \u2013 ao devolver ao indiv\u00edduo a responsabilidade moral que o mecanismo mim\u00e9tico dissolve na unanimidade do grupo \u2013, Cristo desmonta o linchamento por dentro. As pedras caem das m\u00e3os. A multid\u00e3o se dispersa. A v\u00edtima \u00e9 liberada. Nenhuma est\u00e1tua \u00e9 erguida. Nenhum mito \u00e9 fundado.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A mensagem crist\u00e3 introduziu no mundo uma novidade antropol\u00f3gica sem precedentes: a ideia de que a v\u00edtima pode ser inocente<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A diferen\u00e7a entre Apol\u00f4nio e Jesus n\u00e3o \u00e9, portanto, uma diferen\u00e7a de <em>repert\u00f3rio<\/em>: ambos fazem prod\u00edgios, ambos ensinam, ambos t\u00eam disc\u00edpulos, ambos enfrentam autoridades, ambos s\u00e3o associados \u00e0 imortalidade. \u00c9 uma diferen\u00e7a de <em>perspectiva<\/em>, justamente a diferen\u00e7a que o m\u00e9todo comparatista da reportagem da BBC \u00e9 incapaz de captar. Apol\u00f4nio <em>ativa<\/em> o mecanismo sacrificial: aponta a v\u00edtima, instiga o apedrejamento, produz a unanimidade violenta que restaura a ordem. Jesus <em>desmonta<\/em> o mecanismo sacrificial: toma o partido da v\u00edtima contra o grupo perseguidor, recusa a unanimidade violenta, revela a inoc\u00eancia de quem est\u00e1 sob as pedras. Numa formula\u00e7\u00e3o que Girard n\u00e3o cansa de repetir e que merece ser gravada em letras mai\u00fasculas: os mitos s\u00e3o sempre narrados do ponto de vista dos perseguidores; os Evangelhos s\u00e3o narrados do ponto de vista das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>\u00c9 essa invers\u00e3o \u2013 \u00fanica na <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/historia\/\">hist\u00f3ria <\/a>das <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religi\u00f5es<\/a>, sem paralelo em nenhuma outra tradi\u00e7\u00e3o m\u00edtica ou filos\u00f3fica da Antiguidade \u2013 que explica por que apenas um dos dois personagens fundou uma civiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 porque o cristianismo fosse mais poderoso politicamente, nem porque tivesse suprimido concorrentes com mais efici\u00eancia \u2013 algo que a reportagem insinua ao falar em \u201ccancelamento\u201d \u2013, mas porque a mensagem crist\u00e3 introduziu no mundo uma novidade antropol\u00f3gica sem precedentes: a ideia de que a v\u00edtima pode ser inocente, de que o consenso do grupo n\u00e3o cria a culpa, de que a viol\u00eancia coletiva n\u00e3o \u00e9 sagrada. Essa ideia, uma vez pronunciada, n\u00e3o pode ser despronunciada. Ela mina, lenta e irreversivelmente, a credibilidade de todos os mecanismos sacrificiais \u2013 e \u00e9 por isso que o mundo p\u00f3s-crist\u00e3o, mesmo quando rejeita o cristianismo, continua sendo habitado por ela: cada vez que algu\u00e9m defende um perseguido, cada vez que algu\u00e9m questiona a unanimidade de uma multid\u00e3o acusadora, cada vez que algu\u00e9m exige provas antes de lapidar, est\u00e1 \u2013 saiba ou n\u00e3o \u2013 dentro do horizonte moral aberto pelos Evangelhos.<\/p>\n<p>Ao equiparar Apol\u00f4nio e Jesus com base em semelhan\u00e7as de superf\u00edcie, a mat\u00e9ria da BBC Brasil n\u00e3o comete um erro factual. Comete algo mais sutil e mais grave: demonstra que o ambiente secularista dogm\u00e1tico em que foi produzida \u00e9 incapaz, por constitui\u00e7\u00e3o, de fazer a pergunta certa. N\u00e3o \u201cquem realizou mais milagres?\u201d, mas \u201cdo lado de quem cada um estava quando as pedras come\u00e7aram a voar?\u201d A resposta a essa pergunta separa, com mais precis\u00e3o do que qualquer outra, o horr\u00edvel milagre de \u00c9feso da manh\u00e3 de Jo\u00e3o 8. E separa, com a mesma precis\u00e3o, dois mundos morais que s\u00f3 parecem semelhantes a quem os observa de longe demais para enxergar o que realmente os distingue.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs Evangelhos revelam a verdade plena, inteira, sobre a g\u00eanese dos mitos, sobre o poder de ilus\u00e3o dos arrebatamentos mim\u00e9ticos,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":389113,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-389112","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/389112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=389112"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/389112\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/389113"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=389112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=389112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=389112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}