{"id":386982,"date":"2026-05-06T21:25:36","date_gmt":"2026-05-07T01:25:36","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=386982"},"modified":"2026-05-06T21:25:36","modified_gmt":"2026-05-07T01:25:36","slug":"o-famigerado-anacronismo-progressista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=386982","title":{"rendered":"O famigerado anacronismo progressista"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><em>\u201cEm face do passado, a consci\u00eancia cr\u00edtica parte do pressuposto de que esse \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o e que, portanto, cumpre exorciz\u00e1-lo (como um psicanalista faz com as imagens da inf\u00e2ncia) e de modo que possamos abolir toda a sobreviv\u00eancia das gera\u00e7\u00f5es anteriores em n\u00f3s.\u201d<\/em> (Jo\u00e3o Camilo de Oliveira Torres)<\/p>\n<p>\u00c9 comum as pessoas questionarem o meu conservadorismo com base numa vis\u00e3o equivocada do que significa ser conservador. \u201cVoc\u00ea quer conservar a desigualdade?\u201d \u2013 perguntam sempre. J\u00e1 tratei disso <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/o-pobre-de-direita-quer-conservar-o-que\/\">aqui<\/a>, nesta <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, de modo que n\u00e3o me estenderei, e minhas posi\u00e7\u00f5es est\u00e3o claramente expostas em tudo o que falo e escrevo. Sou conservador porque julgo que, por exemplo, determinadas conquistas civilizacionais devem ser preservadas, mesmo diante de mudan\u00e7as urgentes. N\u00e3o se deve, como dizia minha s\u00e1bia m\u00e3e, <em>jogar a crian\u00e7a com a \u00e1gua do banho<\/em>.<\/p>\n<p>Entretanto, minha posi\u00e7\u00e3o pode ser defendida tamb\u00e9m por aquilo que <em>n\u00e3o<\/em> acredito, em contraste com a posi\u00e7\u00e3o progressista, que se baseia, antes de qualquer coisa, numa vis\u00e3o de mundo <em>irrestrita<\/em> (tamb\u00e9m expliquei isso <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/a-esquerda-e-os-evangelicos\/\">aqui<\/a>), que julga o ser humano perfect\u00edvel e o progresso como fruto unicamente da vontade. H\u00e1 varia\u00e7\u00f5es nessa posi\u00e7\u00e3o, mas, para um progressista t\u00edpico, o desejo por um mundo melhor \u00e9 um objetivo n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel, mas realiz\u00e1vel \u00e0 medida que diminuirmos as nossas desigualdades, as nossas contradi\u00e7\u00f5es, os nossos preconceitos etc.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o radical do progressismo, os revolucion\u00e1rios \u2013 onde est\u00e3o os comunistas e, mais recentemente, os <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/identitarismo\/\">identit\u00e1rios <\/a>\u2013, passa pela nega\u00e7\u00e3o de <em>tudo o que est\u00e1 a\u00ed<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 concilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre o mundo que vivemos e o que os revolucion\u00e1rios desejam construir. Todos os problemas s\u00e3o microcategorizados em <em>estruturas de opress\u00e3o<\/em> que precisam ser devidamente derrubadas para que uma outra realidade se estabele\u00e7a. \u00c9 o \u00e1pice da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/pecado-original-racismo-paola-carosella\/\"><em>imanentiza\u00e7\u00e3o do eschaton <\/em><\/a>crist\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A principal ferramenta dos identit\u00e1rios \u00e9 o <em>anacronismo<\/em>, a atribui\u00e7\u00e3o de ideias, categorias, valores ou pr\u00e1ticas de um tempo hist\u00f3rico a outro tempo em que elas n\u00e3o existiam ou n\u00e3o tinham o mesmo significado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E em que os revolucion\u00e1rios sustentam suas posi\u00e7\u00f5es? Como \u00e9 poss\u00edvel fazer um julgamento t\u00e3o radical da sociedade a ponto de pressuporem que somente uma altera\u00e7\u00e3o completa daquilo que se conhece, por exemplo, como Civiliza\u00e7\u00e3o Ocidental \u00e9 capaz de estabelecer o mundo melhor? Bem, eles fazem isso falseando a realidade atrav\u00e9s de teorias sociais abstratas que lhes deem a autoridade de ju\u00edzes n\u00e3o s\u00f3 do presente, mas do passado. E a principal ferramenta para tal \u00e9 o <em>anacronismo<\/em>, a atribui\u00e7\u00e3o de ideias, categorias, valores ou pr\u00e1ticas de um tempo hist\u00f3rico a outro tempo em que elas n\u00e3o existiam ou n\u00e3o tinham o mesmo significado.<\/p>\n<p>Cada grupo, ent\u00e3o, escolhe suas armas. O movimento negro se agarrou \u00e0 teoria do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/racismo-estrutural-teoria-social-falha\/\">racismo estrutural<\/a>; o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/feminismo\/\">feminismo<\/a>, \u00e0 ideia de patriarcado; o movimento LGBT, na quebra dos padr\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade; e assim por diante. E todas essas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o carregadas de um artif\u00edcio quase irresist\u00edvel: o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/emocao-e-autoritarismo-as-ideologias-do-ressentimento\/\">ressentimento e a chantagem emocional<\/a> \u2013 qualquer obje\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como rejei\u00e7\u00e3o e preconceito.<\/p>\n<p>Vamos ao exemplo que me trouxe a esse artigo. \u00c9 estarrecedor.<\/p>\n<p>Acompanho, n\u00e3o s\u00f3 como uma esp\u00e9cie de tortura, mas para saber como pensam (ou n\u00e3o) aqueles que amam um anacronismo quando o assunto \u00e9 o continente africano \u2013 sobre o qual <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/africa-guardia-conservadorismo\/\">escrevi recentemente<\/a> j\u00e1 como uma maneira de combater essa vis\u00e3o distorcida sobre o continente-m\u00e3e \u2013, a p\u00e1gina de um rapaz angolano que caiu nas garras do progressismo identit\u00e1rio. O nome da p\u00e1gina \u00e9 <em><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/africa\/\">\u00c1frica <\/a>do jeito que voc\u00ea nunca viu<\/em>. Pois \u00e9, enfim. Essa semana ele compartilhou um pequeno v\u00eddeo de uma <em>drag queen<\/em> comunista (n\u00e3o ria, leitor), Rita Von Hunty, personagem de Guilherme Terreri Lima Pereira, em que ela defende:<\/p>\n<p><em>\u201cNa antiga Oy\u00f3, onde hoje \u00e9 a Nig\u00e9ria, algumas das origens dos povos de iorub\u00e1, n\u00e3o tinha palavra \u02bbhomem\u02bc e \u02bbmulher\u02bc. Quem diz isso muito bem \u00e9 uma soci\u00f3loga, uma te\u00f3rica social nigeriana, Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed, do livro dela chamado <\/em>A Inven\u00e7\u00e3o das Mulheres<em>. E ela diz, olha, em iorub\u00e1 antigo n\u00e3o tem palavra \u02bbhomem\u02bc e n\u00e3o tem palavra \u02bbmulher\u02bc. Voc\u00ea tem \u02bb<\/em>ob\u00ecnrin<em>\u02bc e \u02bb<\/em>\u1ecdk\u00f9nrin<em>\u02bc, que designa \u02bbgenital\u02bc. Mas genital n\u00e3o \u00e9 posi\u00e7\u00e3o social; genital n\u00e3o \u00e9 posi\u00e7\u00e3o de poder; genital n\u00e3o \u00e9 posi\u00e7\u00e3o de personalidade.\u201d<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O dono da p\u00e1gina corroborou com a <em>drag<\/em> comunista, e disse:<\/p>\n<p><em>\u201cA afirma\u00e7\u00e3o da Rita est\u00e1 totalmente correta. Na cultura iorub\u00e1 pr\u00e9-colonial, especialmente no per\u00edodo de Oy\u00f3, o conceito de g\u00eanero n\u00e3o funcionava da mesma forma que no modelo ocidental. Ou seja, \u02bbhomem\u02bc e \u02bbmulher\u02bc n\u00e3o eram as categorias centrais que organizavam a sociedade. O que realmente estruturava as rela\u00e7\u00f5es sociais era um outro princ\u00edpio, a \u02bbsenioridade\u02bc. Ou seja, idade, posi\u00e7\u00e3o e hierarquia dentro da comunidade eram muito mais importantes do que o sexo biol\u00f3gico. Assim como a Rita j\u00e1 trouxe na sua fala, o iorub\u00e1 n\u00e3o possui pronomes de g\u00eanero como \u02bbele\u02bc ou \u02bbela\u02bc. Essa neutralidade lingu\u00edstica reflete uma vis\u00e3o menos r\u00edgida e menos bin\u00e1ria da identidade. Mas sim, existem termos como \u02bb<\/em>ok\u00f9nrin<em>\u02bc, que \u00e9 \u02bbhomem\u02bc, e \u02bb<\/em>ob\u00ecrin<em>\u02bc, que \u00e9 \u02bbmulher\u02bc. Mas, segundo a pesquisadora que tamb\u00e9m a Rita falou no v\u00eddeo, esses termos estavam mais ligados a diferen\u00e7as anat\u00f4micas e reprodutivas, e n\u00e3o a pap\u00e9is sociais fixos ou de hierarquia de poder. Ou seja, isso na pr\u00e1tica significa que n\u00e3o era o g\u00eanero que definia o seu lugar na sociedade, mas sim a sua posi\u00e7\u00e3o dentro dela.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Veja bem a situa\u00e7\u00e3o, caro leitor: temos um v\u00eddeo em que um jovem influenciador digital angolano endossa uma <em>drag queen<\/em> comunista \u2013 personagem de um jovem branco brasileiro de elite \u2013, propagando uma <em>teoria queer<\/em> de uma soci\u00f3loga feminista nigeriana que se doutorou na Universidade da Calif\u00f3rnia, um dos maiores redutos do progressismo acad\u00eamico dos EUA. Seria c\u00f4mico se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico. E a quantidade de exageros ret\u00f3ricos e anacronismos aqui \u00e9 um verdadeiro absurdo. Vejamos.<\/p>\n<p>A tese de Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed, formulada em seu livro, \u00e9 a de que categorias centrais do pensamento ocidental relacionadas ao sexo masculino e feminino \u2013 \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d \u2013 n\u00e3o s\u00e3o universais e, no caso iorub\u00e1 pr\u00e9-colonial, Oy\u00f3, n\u00e3o estruturavam a organiza\u00e7\u00e3o social. No pref\u00e1cio do livro, inclusive, ela diz que \u201ca categoria \u02bbmulher\u02bc \u2013 que \u00e9 fundacional nos discursos de g\u00eanero ocidentais \u2013 simplesmente n\u00e3o existia na Iorubal\u00e2ndia antes do contato mantido com o Ocidente\u201d, e que \u201co corpo n\u00e3o era a base de pap\u00e9is sociais, inclus\u00f5es ou exclus\u00f5es; n\u00e3o foi o fundamento do pensamento e da identidade sociais\u201d. Sua posi\u00e7\u00e3o se ancora numa cr\u00edtica ao que ela chama de <em>\u201cbio-l\u00f3gica\u201d ocidental<\/em>, isto \u00e9, a ideia de que diferen\u00e7as anat\u00f4micas determinam posi\u00e7\u00e3o social. Em contraste, ela prop\u00f5e que, entre os iorub\u00e1s, o eixo organizador principal era a <em>senioridade<\/em>, n\u00e3o o sexo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Na maior parte das sociedades historicamente documentadas, os pap\u00e9is sociais distintos de homens e mulheres aparecem como um eixo relevante \u2013 nem sempre determinante, mas relevante<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O exagero come\u00e7a quando ela faz uma atribui\u00e7\u00e3o essencialista e anacr\u00f4nica a termos utilizados por sociedades pr\u00e9-coloniais completamente diferentes da nossa \u2013 e mesmo da Nig\u00e9ria atual. O fato de os termos \u201c<em>ok\u00f9nrin<\/em>\u201d e \u201c<em>ob\u00ecrin<\/em>\u201dn\u00e3o designarem \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d com os marcadores sociais que conhecemos hoje n\u00e3o significa que esses pap\u00e9is n\u00e3o existiam. Ela est\u00e1 fazendo uma infer\u00eancia de comportamento a partir de meras palavras. Ela conclui que \u201cg\u00eanero\u201d como marcador de papel e hierarquia social \u00e9 um produto do Ocidente simplesmente porque os termos n\u00e3o sugerem isso.<\/p>\n<p>Pode-se discutir se tal sociedade n\u00e3o carregava, em sua estrutura social, pap\u00e9is definidos hierarquicamente para homens e mulheres como se encontra no Ocidente. Mas tal configura\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica nem um privil\u00e9gio da sociedade de Oy\u00f3. Ao longo da hist\u00f3ria humana essa centralidade variou e ganhou configura\u00e7\u00f5es mais ou menos marcadas. Entretanto, na maior parte das sociedades historicamente documentadas, os pap\u00e9is sociais distintos de homens e mulheres aparecem como um eixo relevante \u2013 nem sempre determinante, mas relevante. Ou seja, nem sequer h\u00e1 evid\u00eancias relevantes de sociedades completamente sem pap\u00e9is sociais distintos para os sexos como eixo estruturante, apesar de haver evid\u00eancias de sociedades em que o sexo n\u00e3o \u00e9 o eixo dominante \u2013 ou divide esse papel com outros princ\u00edpios mais fortes. Ali\u00e1s, vale lembrar que o conceito contempor\u00e2neo de <em>g\u00eanero<\/em>, tal como utilizado em muitas teorias sociais identit\u00e1rias, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o anal\u00edtica moderna e n\u00e3o pode ser automaticamente projetado sobre sociedades pr\u00e9-coloniais. Por isso uso mantenho o uso do termo <em>sexo<\/em>.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Outra soci\u00f3loga nigeriana, Bibi Bakare-Yusuf, apesar de aceitar a cr\u00edtica \u00e0 influ\u00eancia do Ocidente e da coloniza\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is sociais hier\u00e1rquicos como modernamente estruturados na \u00c1frica, considera que Oy\u011bw\u00f9m\u00ed extrapola muito ao negar a relev\u00e2ncia social do sexo masculino e feminino. Seu argumento central \u00e9 metodol\u00f3gico, afirmando que Oy\u011bw\u00f9m\u00ed confunde linguagem com realidade social. Como ela afirma, num artigo cr\u00edtico \u2013 \u201cYoruba\u02bcs Don\u02bct Do Gender: A Critical Review of Oyeronke Oyewumi\u02bcs \u02bbThe Invention of Women: Making an African Sense of Western Gender\u02bc\u201d:<\/p>\n<p><em>\u201cOy\u011bw\u00f9m\u00ed achata completamente a rela\u00e7\u00e3o entre linguagem e realidade ao assumir que h\u00e1 um isomorfismo total entre as duas. Embora Oy\u011bw\u00f9m\u00ed esteja correta ao argumentar que a linguagem pode expressar a realidade, por que dever\u00edamos supor que o dom\u00ednio da linguagem, da lei, do discurso ou dos s\u00edmbolos \u00e9 um espelho perfeito ou uma representa\u00e7\u00e3o exata da realidade social? Com base em qu\u00ea dever\u00edamos atribuir \u00e0 pr\u00f3pria linguagem o desejo de articular o que realmente acontece? O texto de Oy\u011bw\u00f9m\u00ed n\u00e3o consegue responder a essas quest\u00f5es justamente porque ela n\u00e3o estabelece uma distin\u00e7\u00e3o entre descri\u00e7\u00e3o <\/em>de jure<em> e <\/em>de facto<em> \u2013 isto \u00e9, entre o que ocorre no n\u00edvel da linguagem, do discurso, das normas simb\u00f3licas ou jur\u00eddicas, por um lado, e a realidade social ou a experi\u00eancia vivida cotidiana, por outro. Podemos perceber essa aus\u00eancia se voltarmos \u00e0 sua valoriza\u00e7\u00e3o do anat\u00f4mico como base da \u02bbliberdade\u02bc feminina. Para Oy\u011bw\u00f9m\u00ed, n\u00e3o h\u00e1 barreiras \u00e0s atividades de <\/em>obirin<em> em rela\u00e7\u00e3o a <\/em>okurin.<em> Ou seja, o fato biol\u00f3gico de ser mulher n\u00e3o interrompe nem determina de nenhuma forma (al\u00e9m do fato evidente da reprodu\u00e7\u00e3o) as percep\u00e7\u00f5es sociais dos corpos. \u00c9 essa suposta neutralidade de g\u00eanero que proporciona \u00e0s f\u00eameas anat\u00f4micas, no contexto iorub\u00e1, o n\u00edvel de liberdade e capacidade de que desfrutam. No entanto, o fato de que a diferen\u00e7a de g\u00eanero n\u00e3o esteja inscrita no discurso ou marcada na linguagem n\u00e3o significa que ela esteja totalmente ausente da realidade social. Frequentemente h\u00e1 uma lacuna entre o que ocorre no plano jur\u00eddico e a realidade social. \u00c9 precisamente por n\u00e3o fazer essa distin\u00e7\u00e3o entre linguagem e realidade que Oy\u011bw\u00f9m\u00ed apaga essa possibilidade e sup\u00f5e que as mulheres iorub\u00e1s t\u00eam o mesmo poder que os homens em sua linhagem.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ou seja, em sua teoria social,\u00a0 Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed reduz sociedade \u00e0 linguagem, assume ess\u00eancia cultural est\u00e1vel e perene, simplifica rela\u00e7\u00f5es de poder, ignora pr\u00e1tica social concreta, usa exce\u00e7\u00f5es como regra, idealiza o passado numa \u00c1frica id\u00edlica e nega evid\u00eancias indiretas de divis\u00f5es de pap\u00e9is sociais de homens e mulheres. Ainda que a sociedade Oy\u00f3 seja historicamente relevante para uma pesquisa, dificilmente sustenta conclus\u00f5es de alcance geral sobre a inexist\u00eancia de pap\u00e9is sociais dos sexos como eixo organizador das sociedades.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero cansar o leitor, mas me parece evidente aqui, a partir de uma cr\u00edtica de uma conterr\u00e2nea e contempor\u00e2nea da soci\u00f3loga <em>queer<\/em> nigeriana \u2013 utilizada pela <em>drag queen<\/em> branca comunista brasileira, e endossada pelo influenciador angolano \u2013, que esta incorre no costumeiro anacronismo progressista a fim de sustentar uma tese que n\u00e3o encontra respaldo robusto na realidade, uma vez que os pap\u00e9is sociais dos sexos s\u00e3o amplamente reconhecidos e naturalizados na maior parte das sociedades historicamente documentadas, ainda que com intensidades e formas bastante variadas; ainda que, vez por outra, esses pap\u00e9is tenham justificado inaceit\u00e1veis opress\u00f5es, fruto do que, em minha vis\u00e3o (restrita) de mundo, parece ser um tra\u00e7o de nossa imperfei\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEm face do passado, a consci\u00eancia cr\u00edtica parte do pressuposto de que esse \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o e que, portanto,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":386983,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-386982","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/386982","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=386982"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/386982\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/386983"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=386982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=386982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=386982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}