{"id":386238,"date":"2026-05-06T15:40:42","date_gmt":"2026-05-06T19:40:42","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=386238"},"modified":"2026-05-06T15:40:42","modified_gmt":"2026-05-06T19:40:42","slug":"o-privilegio-de-morrer-em-zurique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=386238","title":{"rendered":"O privil\u00e9gio de morrer em Zurique"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/06162946\/michael-haneke-amour-eutanasia.jpg.webp\" \/><span>Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignand em cena de &#8220;Amour&#8221;, de Michael Haneke. (Foto: Les Films du Losange\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>C\u00e9lia Maria Cassiano morreu em 15 de abril de 2026, numa cama de Zurique, com duas enfermeiras ao lado e sem sentir dor. Tinha atrofia muscular progressiva \u2013 doen\u00e7a que devora os m\u00fasculos e poupa o intelecto. Antes do procedimento, gravou um v\u00eddeo. Disse que estava no limite da dignidade. Disse que os \u00faltimos dias na Su\u00ed\u00e7a haviam sido os melhores da vida. Pediu uma lei que permitisse, no Brasil, o mesmo direito.<\/p>\n<p>A frase \u201climite da dignidade\u201d faz um trabalho filos\u00f3fico antes de qualquer debate sobre legisla\u00e7\u00e3o. Pressup\u00f5e que a dignidade tem um limiar \u2013 um ponto abaixo do qual ela se esgota, e cujo crit\u00e9rio \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Quem precisa de tr\u00eas pessoas para ir ao banheiro est\u00e1, segundo essa l\u00f3gica, mais pr\u00f3ximo do limite do que quem n\u00e3o precisa. Essa premissa, vestida de compaix\u00e3o, \u00e9 o que o discurso da morte digna instala antes de qualquer argumento.<\/p>\n<p>Vi minha m\u00e3e morrer de c\u00e2ncer. Foi uma dos momentos mais dram\u00e1ticos da minha vida. N\u00e3o havia nada de higi\u00eanico nisso. Havia dor, morfina, o cheiro espec\u00edfico que a morte tem quando chega, e meu irm\u00e3o segurando-a quando suspirou pela \u00faltima vez. Registro isso porque o personalismo que defendo n\u00e3o romantiza a agonia \u2013 e quem imagina que sim nunca esteve com o moribundo agonizando \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3. A posi\u00e7\u00e3o \u00e9 outra: o sofrimento n\u00e3o anula a pessoa, e a resposta ao sofrimento \u00e9 o cuidado \u2013 cuidado que s\u00f3 o amor sustenta, n\u00e3o a funcionalidade calculada do argumento liberal.<\/p>\n<blockquote>\n<p>C\u00e9lia disse que os \u00faltimos dias em Zurique, antes da eutan\u00e1sia, foram os melhores da vida. A frase perturba pelo que revela sobre os dias anteriores<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Michael Haneke filmou isso com uma precis\u00e3o que a bio\u00e9tica raramente alcan\u00e7a. <em>Amour <\/em>(2012) come\u00e7a pelo fim: policiais arrombam a porta de um apartamento parisiense e encontram uma mulher deitada na cama, o corpo cercado de p\u00e9talas ressecadas. O espectador assiste ao restante sabendo aonde chega. Georges e Anne s\u00e3o professores de m\u00fasica aposentados, octogen\u00e1rios. Um AVC. A cirurgia falha. Georges empurra a cadeira de rodas, levanta Anne do vaso, d\u00e1 banho, veste, alimenta. Vem o segundo AVC. Anne perde a fala, desenvolve dem\u00eancia. A filha aparece, olha, parte. O m\u00e9dico visita, prescreve, some. Restam apenas os dois no apartamento cada vez mais fechado. Depois, Georges pega um travesseiro e a sufoca. Sim, \u00e9 um filme. Lindo e brutal.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A leitura liberal do filme \u00e9 \u00f3bvia: um ato de amor supremo, a restitui\u00e7\u00e3o da dignidade que a doen\u00e7a havia roubado. N\u00e3o acho que <em>Amour<\/em> possa ser reduzido a isso. A c\u00e2mera registra o v\u00e1cuo no qual o ato ocorre: sem padre, sem m\u00e9dico que permane\u00e7a, sem comunidade que absorva o peso. A morte chega como decis\u00e3o solit\u00e1ria de um homem que n\u00e3o suporta mais ver o que v\u00ea e viver o que vive. Haneke n\u00e3o absolve Georges \u2013 e tamb\u00e9m n\u00e3o o condena. Anne ainda \u00e9 algu\u00e9m quando ele a mata. O filme deixa isso intacto: o res\u00edduo de perturba\u00e7\u00e3o que a narrativa da boa morte n\u00e3o consegue absorver. A modernidade dissolveu os corpos intermedi\u00e1rios \u2013 <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/familia\/\">fam\u00edlia <\/a>extensa, Igreja, comunidade \u2013 e deixou o indiv\u00edduo nu diante da morte. Ainda pode chamar de \u201cautonomia\u201d, \u201cconsentimento\u201d. A eutan\u00e1sia preenche o v\u00e1cuo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">H\u00e1 duas coisas distintas que o filme mostra, e que o eufemismo trabalha para confundir. A primeira: Georges carrega Anne, a limpa, a cobre, permanece quando todos partiram. A segunda: pega um travesseiro e a mata. A primeira \u00e9 um ato de amor. A segunda \u00e9 um ato de gest\u00e3o. O amor permanece diante do insuport\u00e1vel. A gest\u00e3o calcula at\u00e9 onde vale a pena permanecer. O amor cuida de Anne porque Anne ainda \u00e9 algu\u00e9m. A gest\u00e3o mata Anne porque Anne j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era. O discurso da morte digna chama o segundo ato de continua\u00e7\u00e3o do primeiro \u2013 como se tirar o sofrimento e tirar a vida fossem a mesma categoria moral. N\u00e3o s\u00e3o. Um cuida do corpo que sofre; o outro decide que esse corpo n\u00e3o merece mais cuidado. O espectador que saiu de <em>Amour<\/em> achando que eram a mesma coisa provavelmente nunca trocou a fralda de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o mais forte \u00e9 sobre Anne. E se ela tivesse pedido? O consentimento desloca o problema: o que era decis\u00e3o unilateral torna-se respeito \u00e0 autonomia. O personalismo recusa que o consentimento encerre a quest\u00e3o moral. C\u00e9lia pediu. Planejou sete meses. Enfrentou burocracia, resist\u00eancia, o sil\u00eancio daqueles a quem pediu ajuda. E ainda assim: pediu dentro de um sistema que n\u00e3o lhe ofereceu m\u00e9dico que permanecesse, comunidade que absorvesse o peso, cuidado paliativo que reduzisse o sofrimento ao suport\u00e1vel. O consentimento v\u00e1lido pressup\u00f5e alternativas reais. C\u00e9lia n\u00e3o teve alternativas \u2013 teve Zurique. O personalismo parte da dor de C\u00e9lia e da legitimidade da sua escolha. Recusa a conclus\u00e3o que o discurso liberal tira da\u00ed: que essa escolha \u00e9, portanto, um direito a ser universalizado e garantido pelo Estado. O sistema que a deixou sem alternativa transforma sua morte em argumento \u2013 e chama isso de progresso.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/medicina\/\">medicina <\/a>paliativa demonstra empiricamente que o sofrimento f\u00edsico na fase terminal pode, em larga medida, ser controlado sem eliminar o paciente. Que a demanda por eutan\u00e1sia cai quando o controle da dor \u00e9 adequado e o isolamento, reduzido. O que esses pacientes pedem, na minha leitura, \u00e9 para n\u00e3o morrer sozinhos. O que o sistema lhes oferece, embrulhado em discurso de autonomia, \u00e9 exatamente isso.<\/p>\n<p>C\u00e9lia disse que os \u00faltimos dias em Zurique foram os melhores da vida. A frase perturba pelo que revela sobre os dias anteriores \u2013 e sobre quem, ou o qu\u00ea, era respons\u00e1vel por eles.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignand em cena de &#8220;Amour&#8221;, de Michael Haneke. (Foto: Les Films du Losange\/Divulga\u00e7\u00e3o) Ou\u00e7a este conte\u00fado&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":386239,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-386238","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/386238","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=386238"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/386238\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/386239"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=386238"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=386238"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=386238"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}