{"id":385109,"date":"2026-05-06T05:02:00","date_gmt":"2026-05-06T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=385109"},"modified":"2026-05-06T05:02:00","modified_gmt":"2026-05-06T09:02:00","slug":"o-inimigo-tambem-e-homem-as-origens-da-etica-crista-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=385109","title":{"rendered":"O inimigo tamb\u00e9m \u00e9 homem: as origens da \u00e9tica crist\u00e3 da guerra"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Em agosto de 410, Alarico, o rei dos visigodos, ocupou Roma. Era a primeira vez em quase oito s\u00e9culos que a capital do Imp\u00e9rio ca\u00eda em m\u00e3os b\u00e1rbaras: Breno ocupara o Capit\u00f3lio em 390 a.C., e, desde ent\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, Roma havia vencido. Em 410, ela j\u00e1 n\u00e3o tombava, propriamente, sob inimigos externos, mas sob a longa decad\u00eancia interna que nenhuma legi\u00e3o podia conter.<\/p>\n<p>Os visigodos saquearam a cidade por tr\u00eas dias. Houve fogo, estupro e pilhagem, e o Imp\u00e9rio desabava em c\u00e2mara lenta sobre si mesmo, enquanto Jer\u00f4nimo, em sua cela em Bel\u00e9m, escreveria, poucos meses depois, com o pulso tr\u00eamulo, que a luz do mundo se apagara, que a cabe\u00e7a do Imp\u00e9rio fora cortada, que aquilo que toda a humanidade havia conhecido como ordem entrava em ru\u00edna.<\/p>\n<p>E, no entanto, havia algo de in\u00e9dito naquele saque. Alarico, crist\u00e3o ariano (her\u00e9tico sob o ponto de vista da ortodoxia cat\u00f3lica, que nada tem a ver com as ideias racialistas falsas da modernidade), dera ordem expressa para que aqueles que se refugiassem nas bas\u00edlicas, sobretudo na de S\u00e3o Paulo Extramuros, fossem poupados. Os templos foram declarados lugares de asilo. Quem ali entrasse, mesmo senador romano, mesmo aristocrata pag\u00e3o, mesmo inimigo declarado, sairia vivo. E n\u00e3o foi promessa ret\u00f3rica: foi cumprida. Multid\u00f5es inteiras buscaram ref\u00fagio na pedra dos altares e dali emergiram inc\u00f3lumes, quando, \u00e0 sua volta, a cidade ardia.<\/p>\n<p>Esse detalhe, que a historiografia menos atenta despacha como folclore piedoso, \u00e9 o momento exato em que nasce, na hist\u00f3ria concreta, a \u00e9tica crist\u00e3 da guerra. N\u00e3o nos manuais, n\u00e3o nos serm\u00f5es, n\u00e3o nas especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas: na carne mesma de Roma, no cumprimento de uma ordem militar que recortava o saque com a faca da miseric\u00f3rdia. O b\u00e1rbaro foi, naquela ocasi\u00e3o, mais romano do que o pr\u00f3prio Senado havia sido em todas as suas vit\u00f3rias. E ningu\u00e9m percebeu isso com mais profundidade do que Santo Agostinho.<\/p>\n<p>Agostinho decerto assistia a tudo de longe. As not\u00edcias chegavam \u00e0 \u00c1frica Romana em ondas, e cada onda trazia uma camada nova de horror. Mas ele, que era mais agudo do que o seu tempo, percebeu naquele saque o que os pag\u00e3os ensandecidos n\u00e3o percebiam: que mesmo a miseric\u00f3rdia t\u00edmida com que Alarico tratara Roma era miseric\u00f3rdia que Roma jamais tivera para com seus pr\u00f3prios derrotados.<\/p>\n<p>Foi sob o impacto daquele acontecimento que come\u00e7ou a redigir <em>A Cidade de Deus<\/em>. O livro inteiro, em sua arquitetura monumental, \u00e9, em larga medida, uma resposta \u00e0quela pergunta concreta: o que aconteceu com Roma, e o que isso significa para a humanidade?<\/p>\n<blockquote>\n<p>A guerra n\u00e3o suspende a moral, submete-a a um regime mais estrito, exatamente porque opera no limite onde a vida e a morte \u00e9 decidida. O combatente inimigo \u00e9 portador de um mal que precisa ser contido, e, nessa medida, pode ser legitimamente morto. O civil inimigo, por\u00e9m, n\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Logo nos primeiros cap\u00edtulos do Livro I, Agostinho cravou a tese: tudo o que houve de cruel no saque de Roma fora normal pelos padr\u00f5es da guerra antiga; o anormal, o sem precedentes, o verdadeiramente novo fora a miseric\u00f3rdia. Que os b\u00e1rbaros, ao tomarem uma cidade, tivessem ordenado a preserva\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de asilo religioso e tivessem cumprido essa ordem era coisa que os pag\u00e3os n\u00e3o conheciam. Era crist\u00e3 e seria ocidental, no sentido em que essa palavra se forjaria a partir dali.<\/p>\n<p>Lembremo-nos do que a guerra antiga era. Cartago, em 146 a.C., n\u00e3o foi simplesmente derrotada: foi exterminada, sua popula\u00e7\u00e3o reduzida \u00e0 escravid\u00e3o ou \u00e0 morte, o solo arado para que o que ali existira n\u00e3o voltasse a brotar, e o sal espalhado, conforme a tradi\u00e7\u00e3o (provavelmente lend\u00e1ria, mas teologicamente verdadeira), sobre o que havia sido lar e templo.<\/p>\n<p>Corinto, no mesmo ano, sofreu sorte semelhante pelas m\u00e3os de M\u00famio. Lembremo-nos do que os atenienses fizeram aos m\u00e9lios, depois daquele frio di\u00e1logo registrado por Tuc\u00eddides, em que se disse, com clareza glacial, que o forte faz o que pode e o fraco sofre o que deve. Lembremo-nos da <em>devotio<\/em> romana, ritual pelo qual cidades inteiras eram entregues \u00e0queles deuses subterr\u00e2neos, e o que ali restava era oferta, n\u00e3o dever.<\/p>\n<p>A guerra antiga n\u00e3o conhecia o vencido como categoria moral. Conhecia o vencido como categoria material: como esp\u00f3lio, como escravo, como cad\u00e1ver. N\u00e3o havia, no inimigo derrotado, nada que exigisse miseric\u00f3rdia, porque n\u00e3o havia, na guerra, conceito que a admitisse. O inimigo era coisa.<\/p>\n<p>Foi nesse fundo triste que Alarico mandou poupar as bas\u00edlicas. E foi sobre esse fundo escuro que Agostinho, observando o paradoxo de uma cidade salva apenas pelo que o cristianismo havia introduzido na alma do b\u00e1rbaro, ergueu o edif\u00edcio teol\u00f3gico da guerra justa. Em sua <em>Carta a Bonif\u00e1cio<\/em> (a c\u00e9lebre carta 189 ao general que vacilava entre a vida mon\u00e1stica e o m\u00fanus militar) e em diversas passagens de <em>A Cidade de Deus<\/em>, o bispo estabelece, com a firmeza de quem havia conhecido o Imp\u00e9rio por dentro e a alma humana por dentro ainda mais, que a guerra n\u00e3o \u00e9 em si um mal absoluto, mas que tampouco \u00e9 um bem em si. \u00c9 um rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>E um rem\u00e9dio que apenas a justi\u00e7a administra, pois Agostinho nunca foi pacifista. Sua leitura do cristianismo autoriza a espada, mas n\u00e3o entrega a justi\u00e7a \u00e0 vol\u00fapia da espada. A guerra justa visa \u00e0 paz, e o que a distingue do saque \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o de quem a empreende: aquele que, pelos motivos certos, combate, e, mesmo combatendo, conserva no \u00edntimo o desejo de n\u00e3o combater, esse cumpre uma miss\u00e3o. O outro, que combate pelo gozo da for\u00e7a, esse j\u00e1 perdeu a guerra antes de inici\u00e1-la, porque j\u00e1 se rendeu \u00e0quilo que devia destruir.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino sistematizou, oito s\u00e9culos depois, o que em Agostinho era ainda intui\u00e7\u00e3o luminosa. Na <em>Suma Teol\u00f3gica<\/em> (II-II, q. 40), tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es delimitam a guerra justa: a autoridade leg\u00edtima do pr\u00edncipe (<em>auctoritas principis<\/em>), a causa justa (<em>causa iusta<\/em>) e a reta inten\u00e7\u00e3o (<em>intentio recta<\/em>). Mas o g\u00eanio tomista n\u00e3o se det\u00e9m no <em>ius ad bellum<\/em>, no direito de fazer a guerra. Avan\u00e7a para o <em>ius in bello<\/em>, para o direito dentro da guerra, e ali instaura o que s\u00e9culos mais tarde os juristas chamariam de princ\u00edpio do duplo efeito e princ\u00edpio da discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A guerra n\u00e3o suspende a moral, submete-a a um regime mais estrito, exatamente porque opera no limite onde a vida e a morte \u00e9 decidida. O combatente inimigo \u00e9 portador de um mal que precisa ser contido, e, nessa medida, pode ser legitimamente morto. O civil inimigo, por\u00e9m, n\u00e3o. O combatente \u00e9 instrumento de uma vontade hostil. O civil \u00e9, em todo rigor, sujeito de si mesmo, e, nessa subjetividade, reside um direito que sobrevive \u00e0 inimizade entre as na\u00e7\u00f5es. O que S\u00e3o Tom\u00e1s formaliza \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, a generaliza\u00e7\u00e3o da ordem que Alarico dera \u00e0 porta das bas\u00edlicas: h\u00e1, na guerra, uma linha que n\u00e3o se atravessa.<\/p>\n<p>Hugo Grotius, em <em>Direito da guerra e da paz<\/em>, de 1625, conclui o trabalho. Conclui-o em chave j\u00e1 secularizada, sob a press\u00e3o da Guerra dos Trinta Anos e do retalhamento da Cristandade ocidental em confiss\u00f5es irreconcili\u00e1veis, mas a sua origem \u00e9 crist\u00e3, e ele n\u00e3o a esconde. O direito das gentes que Grotius codifica, prolongando o que Francisco de Vit\u00f3ria intu\u00edra um s\u00e9culo antes em Salamanca, e que Su\u00e1rez refinara em Coimbra, repousa sobre uma tese teol\u00f3gica disfar\u00e7ada de tese jur\u00eddica: o inimigo \u00e9 homem.<\/p>\n<p>Mesmo no fragor da batalha, mesmo derrotado, mesmo culpado, o inimigo permanece criatura, e, por isso, permanece sujeito de um direito m\u00ednimo que nenhum vencedor pode legitimamente abolir. A <em>dignitas hostis<\/em>, a dignidade do inimigo, \u00e9 o conceito-chave dessa tradi\u00e7\u00e3o que vai de Vit\u00f3ria a Grotius, e dela descende, em linha reta, todo o direito humanit\u00e1rio contempor\u00e2neo, desde a carne exposta em Solferino e a primeira Conven\u00e7\u00e3o de Genebra at\u00e9 as quatro Conven\u00e7\u00f5es de 1949 e os Protocolos Adicionais de 1977. A linha que Alarico recortou em torno das bas\u00edlicas tornou-se fronteira jur\u00eddica que, em tese, abarca o globo.<\/p>\n<p>Em tese. Porque essa linha foi atravessada in\u00fameras vezes ao longo dos s\u00e9culos, e o s\u00e9culo XX, em particular, atravessou-a em escala industrial. Londres e Coventry, em 1940 (os nazistas criaram um verbo para o conceito de destrui\u00e7\u00e3o de cidades brit\u00e2nicas: <em>coventrieren<\/em>, \u201ccoventrizar\u201d, querendo dizer \u201cdestrui\u00e7\u00e3o por bombardeio \u00e0 moda de Coventry\u201d, cidade brit\u00e2nica, numa no\u00e7\u00e3o condizente com a ral\u00e9 de psicopatas que governou a Alemanha entre 1933 e 1945), Hamburgo, em 1943, Dresden, em 1945, T\u00f3quio, em mar\u00e7o do mesmo ano, e, por fim, Hiroshima e Nagasaki foram epis\u00f3dios em que o filtro tomista se rompeu, em que aquilo que S\u00e3o Tom\u00e1s chamaria de princ\u00edpio da discrimina\u00e7\u00e3o foi substitu\u00eddo por uma doutrina expl\u00edcita do \u201cbombardeio moral\u201d que Arthur Harris articulara sem hesita\u00e7\u00e3o. Houve quem o dissesse na hora.<\/p>\n<p>George Bell, bispo anglicano de Chichester, ergueu-se na C\u00e2mara dos Lordes, em fevereiro de 1944, e denunciou o bombardeio incendi\u00e1rio como pr\u00e1tica incompat\u00edvel com a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 do Ocidente. Foi acusado de ingenuidade, de quase trai\u00e7\u00e3o, e nunca chegou ao arcebispado de Cantu\u00e1ria, que se cogitara para ele. Mas Bell estava certo, e os anos lhe deram raz\u00e3o na justa medida em que os anos costumam dar raz\u00e3o aos que falaram cedo demais. O ponto n\u00e3o \u00e9 o moralismo retrospectivo. \u00c9 a constata\u00e7\u00e3o de que, em sua causa mais justa do s\u00e9culo (a derrota da abomina\u00e7\u00e3o nacional-socialista), o Ocidente esquecera o que o constitu\u00edra como Ocidente.<\/p>\n<p>Surgir\u00e1, neste ponto, a obje\u00e7\u00e3o de sempre, com a aspereza pragm\u00e1tica dos que se julgam realistas. Insistir em moralidade no meio da guerra \u00e9 suic\u00eddio. G\u00f6ring, o narcisista que liderava a Luftwaffe, n\u00e3o mostrou miseric\u00f3rdia em Roterd\u00e3, em Coventry, em Vars\u00f3via, nem em Stalingrado; por que, ent\u00e3o, mostrar\u00edamos n\u00f3s? \u00c9 exatamente aqui, contudo, que a obje\u00e7\u00e3o se desfaz, e se desfaz por dentro.<\/p>\n<p>O cristianismo n\u00e3o funciona por reciprocidade nesse sentido. N\u00e3o nos tornamos como o inimigo para venc\u00ea-lo; se assim agimos, perdemos a guerra que diz\u00edamos travar, que n\u00e3o era a guerra geopol\u00edtica do territ\u00f3rio, mas a guerra pelo cora\u00e7\u00e3o dos homens. O inimigo n\u00e3o \u00e9 a r\u00e9gua que mede a virtude do justo. Se a r\u00e9gua fosse o inimigo, o justo n\u00e3o seria justo: seria apenas o que sobrou. E o que sobra, quando a r\u00e9gua passa a ser o inimigo, n\u00e3o \u00e9 a Alemanha. \u00c9 outra coisa, mais pag\u00e3, mais brutal, mais parecida com aquilo que o cristianismo surgiu para superar.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que o observador apressado se confunde e sup\u00f5e que a \u00e9tica crist\u00e3 da guerra \u00e9 tenra, sentimental e d\u00e9bil. N\u00e3o \u00e9: Cristo veio trazer a espada, mas espada com justi\u00e7a, e esta \u00e9 a exig\u00eancia mais dura de todas. Pacifismo \u00e9 f\u00e1cil: basta dizer n\u00e3o a tudo. Guerra total \u00e9 f\u00e1cil: basta dizer sim a tudo. Dif\u00edcil \u00e9 o terceiro caminho, que \u00e9 matar quando preciso for, mas nunca esquecer que o homem que se mata \u00e9 portador da mesma imagem divina daquele que mata.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil \u00e9 destruir o ex\u00e9rcito do inimigo sem destruir os seus filhos. Dif\u00edcil \u00e9 vencer sem desumanizar-se na vit\u00f3ria. Esse caminho estreito, esse fio de navalha entre a covardia e a barb\u00e1rie, \u00e9 o caminho que o Ocidente herdou de Agostinho, via Aquino, via Vit\u00f3ria, via Grotius, e que, durante 1600 anos, com lapsos e retrocessos, soube percorrer. Foi, em \u00faltima an\u00e1lise, o que distinguiu o Ocidente da Ass\u00edria, da Cartago p\u00fanica, da estepe mongol. Foi o que tornou Roma algo digno de ser defendido.<\/p>\n<p>Miseric\u00f3rdia com autoridade: \u00e9 nesta f\u00f3rmula, breve, mas pesada como pedra angular, que se sintetiza a heran\u00e7a. Autoridade sem miseric\u00f3rdia \u00e9 o que produz o solo salgado de Cartago, as colunas de cabe\u00e7as empilhadas pelos hunos, o Holodomor, Auschwitz, o gulag. Miseric\u00f3rdia sem autoridade \u00e9 o que produz a fraqueza de Munique, em 1938, o desarmamento moral do Ocidente diante de seus inimigos sucessivos, o sentimentalismo que confunde caridade com capitula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 Marte sem Cristo. A segunda \u00e9 Cristo desfigurado, reduzido a piedade adocicada. O cristianismo deu ao Ocidente uma terceira via, que \u00e9 tamb\u00e9m a mais dif\u00edcil, porque exige que se sustentem, simultaneamente e em tens\u00e3o, duas coisas que o intelecto pregui\u00e7oso quer separar. O bispo deve poder benzer o ex\u00e9rcito. O ex\u00e9rcito deve poder ouvir o bispo. Quando essa tens\u00e3o se rompe, cai-se na barb\u00e1rie do solo est\u00e9ril ou na ingenuidade do desarmamento.<\/p>\n<p>Voltemos, pois, a Alarico. O rei visigodo n\u00e3o sabia, ao cercar Roma, que estava inaugurando uma civiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabia, ao mandar poupar as bas\u00edlicas, que estava tra\u00e7ando a primeira fronteira do <em>ius in bello<\/em> na carne da hist\u00f3ria, s\u00e9culos antes de S\u00e3o Tom\u00e1s formaliz\u00e1-la, mil\u00eanios antes de Genebra protocolariz\u00e1-la. Era um ariano, um b\u00e1rbaro, um conquistador.<\/p>\n<p>E, no entanto, naquele instante preciso, agiu como um crist\u00e3o agiria, pois foi mais crist\u00e3o do que o \u00faltimo senador pag\u00e3o que erigiu uma barricada no Capit\u00f3lio com a sua espada e os seus deuses. Foi mais romano do que Roma havia sido. E Agostinho, que assistia da \u00c1frica, percebeu nele aquilo que Roma havia, sem perceber, gestado nas catacumbas durante tr\u00eas s\u00e9culos: a no\u00e7\u00e3o de que o inimigo, mesmo derrotado, mesmo culpado, mesmo aos p\u00e9s do altar de outro deus, ainda \u00e9 homem.<\/p>\n<p><strong><em>Marcos Degaut<\/em><\/strong><em> \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional, pesquisador s\u00eanior na University of Central Florida (EUA), ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa; \u00a0<strong>Lindolpho Cademartori<\/strong> \u00e9 diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em agosto de 410, Alarico, o rei dos visigodos, ocupou Roma. 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