{"id":384227,"date":"2026-05-05T19:40:11","date_gmt":"2026-05-05T23:40:11","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=384227"},"modified":"2026-05-05T19:40:11","modified_gmt":"2026-05-05T23:40:11","slug":"pt-faz-manifesto-para-campanha-de-lula-e-quer-mais-estado-na-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=384227","title":{"rendered":"PT faz manifesto para campanha de Lula e quer mais Estado na economia"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Lula pediu propostas \u201cfact\u00edveis\u201d ao Partido dos Trabalhadores (PT), mas o documento aprovado no encontro nacional da sigla vai em sentido oposto. O que emergiu no intitulado \u201cManifesto Construindo o Futuro\u201d foi um texto pol\u00edtico, desprovido de diagn\u00f3stico fiscal e repleto de promessas sem lastro \u2014 a mesma combina\u00e7\u00e3o de equ\u00edvocos que custou caro a Dilma ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o em 2014.<\/p>\n<p>O documento, tradicional no evento anual, costuma embasar, em anos eleitorais, as diretrizes econ\u00f4micas e sociais do programa de campanha \u2014 hoje em elabora\u00e7\u00e3o pelo Planalto com vistas a um eventual quarto mandato de Lula.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de analistas ouvidos pela <em>Gazeta do Povo<\/em>, no entanto, o resultado &#8220;passa longe&#8221; do pedido de pragmatismo do mandat\u00e1rio de oferecer perspectivas vi\u00e1veis para um projeto consistente de desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Reafirmando a defesa de um Estado &#8220;indutor do desenvolvimento&#8221;, o texto \u00e9 permeado de cr\u00edticas ao &#8220;neoliberalismo&#8221; \u2014 termo gen\u00e9rico frequentemente usado pela esquerda para desqualificar pol\u00edticas de liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u2014, e estabelece como eixo estrat\u00e9gico a retomada do &#8220;crescimento com distribui\u00e7\u00e3o de renda, riqueza e patrim\u00f4nio&#8221; e a amplia\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, prev\u00ea da expans\u00e3o de gastos p\u00fablicos, sem qualquer diagn\u00f3stico sobre como sustentar essa agenda num cen\u00e1rio de fragilidade fiscal.<\/p>\n<p>&#8220;O que me chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a completa falta de sintonia com o problema fiscal que o Brasil vive&#8221;, afirma Jo\u00e3o Mario de Fran\u00e7a, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV-Ibre).&#8221;Parece que a deteriora\u00e7\u00e3o das contas n\u00e3o existe.&#8221;<\/p>\n<p>Os n\u00fameros traduzem a gravidade da omiss\u00e3o: nos 39 meses do terceiro mandato do presidente Lula, as contas fecharam no vermelho em 32 meses, mostram n\u00fameros do Banco Central (BC). O d\u00e9ficit prim\u00e1rio do setor p\u00fablico consolidado atingiu 1,06% do PIB em mar\u00e7o de 2026, o maior valor desde novembro de 2024, enquanto a d\u00edvida p\u00fablica saltou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 80,1% em mar\u00e7o \u2014 um crescimento de 8,4 pontos percentuais em pouco mais de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Combate ao \u201crentismo\u201d sem plano fiscal  <\/h2>\n<p>A alternativa para o desequil\u00edbrio, apontada pelo manifesto, seria &#8220;enfrentar o rentismo&#8221; \u2014 ganhos financeiros a partir de ativos, sem atividade produtiva \u2014, combater a hegemonia do capital financeiro e &#8220;fortalecer do investimento p\u00fablico&#8221; para retomar o crescimento com distribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Fran\u00e7a, \u00e9 um discurso &#8220;vazio&#8221;. &#8220;De onde sairiam os recursos para esses investimentos? Se o investimento p\u00fablico est\u00e1 cada vez mais reduzido, em meio a um d\u00e9ficit p\u00fablico crescente e a contas engessadas&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica \u00e9 compartilhada por Alexandre Bertoncello, CEO da Bella Investimentos, que destaca a aus\u00eancia de um plano detalhado. &#8220;Ele s\u00f3 fala de forma gen\u00e9rica sobre melhora das contas p\u00fablicas, menor d\u00e9ficit, mas sem um plano t\u00e9cnico e sem prazo para atingir meta alguma&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Temas sens\u00edveis, mas inevit\u00e1veis, ficaram de fora: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o sobre revis\u00e3o de despesas obrigat\u00f3rias, meta de d\u00edvida p\u00fablica ou corte de gastos&#8221;.<\/p>\n<p>No sentido oposto, um dos trechos mais extensos trata da universaliza\u00e7\u00e3o de direitos, com propostas que v\u00e3o da &#8220;escola em tempo integral para todas as crian\u00e7as&#8221; \u00e0 &#8220;mobilidade urbana com tarifa zero&#8221;. A se\u00e7\u00e3o concentra promessas amplas de expans\u00e3o do gasto p\u00fablico e, para Bertoncello, adota uma abordagem &#8220;populista&#8221;: &#8220;O \u00fanico problema \u00e9 que, nessa parte, eles n\u00e3o explicam quem vai pagar a conta&#8221;.<\/p>\n<h2>Narrativa fiscal ignora contexto<\/h2>\n<p>Na contram\u00e3o dos fatos, o manifesto repete a narrativa de que &#8220;os avan\u00e7os sociais e econ\u00f4micos do atual governo foram conquistados paralelamente a uma gest\u00e3o fiscal que reduziu o d\u00e9ficit prim\u00e1rio m\u00e9dio para cerca de um ter\u00e7o do registrado no governo anterior&#8221;. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada em um recorte espec\u00edfico que parte de uma base inflada pelo per\u00edodo da pandemia de Covid-19, quando as contas p\u00fablicas registraram d\u00e9ficits excepcionalmente elevados \u2014 em 2020, o rombo prim\u00e1rio chegou a cerca de 10% do PIB, puxado por gastos emergenciais.<\/p>\n<p>Ao incluir esse ano na m\u00e9dia do per\u00edodo anterior, o indicador fica artificialmente alto, favorecendo a vers\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o mais intensa. Na realidade, o endividamento p\u00fablico, de 71,7% do PIB em dezembro de 2022, atingiu em mar\u00e7o de 2026 o patamar mais alto desde julho de 2021, quando ainda eram sentidos os efeitos da pandemia.<\/p>\n<h2>Produtividade, abertura econ\u00f4mica e isolamento comercial<\/h2>\n<p>Al\u00e9m da fragilidade fiscal, especialistas apontam lacunas cr\u00edticas na agenda de produtividade \u2014 considerada central para o crescimento de longo prazo.<\/p>\n<p>Segundo o Observat\u00f3rio de Produtividade Regis Bonelli, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, entre 1996 e 2024, a produtividade cresceu ao ritmo m\u00e9dio de 0,8% ao ano. Entre 2000 e 2024, o crescimento foi menos da metade: 0,3% ao ano, puxado principalmente pela agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>O desempenho foi favorecido principalmente pelo aumento no n\u00famero de horas trabalhadas \u2014 ou seja, o Brasil cresce porque trabalha mais, n\u00e3o porque trabalha melhor.<\/p>\n<p>Para Fran\u00e7a, o texto passa ao largo dessa realidade. &#8220;N\u00e3o d\u00e1 para pensar em aumento de produtividade sem uma pol\u00edtica mais agressiva de abertura econ\u00f4mica&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Neste sentido, o Brasil n\u00e3o apenas estagnou em termos de integra\u00e7\u00e3o comercial, como permanece isolado em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es internacionais. Segundo o Banco Mundial, a abertura comercial brasileira correspondia a 35,6% do PIB em 2024, patamar que o mundo j\u00e1 registrava h\u00e1 cerca de meio s\u00e9culo. O descompasso tamb\u00e9m se evidencia na compara\u00e7\u00e3o regional: na Am\u00e9rica Latina e Caribe, esse n\u00edvel de abertura foi alcan\u00e7ado ainda em 1999.<\/p>\n<h2>Transi\u00e7\u00e3o produtiva, tecnol\u00f3gica e ambiental<\/h2>\n<p>Sem dimensionar o cen\u00e1rio, o documento aposta em uma estrat\u00e9gia voltada para dentro, centrada na &#8220;transi\u00e7\u00e3o produtiva, tecnol\u00f3gica e ambiental&#8221; e na soberania nacional. Como eixo dessa agenda, prop\u00f5e o controle sobre reservas de terras raras e exige que o processamento desses minerais ocorra em solo brasileiro para gerar empregos qualificados.<\/p>\n<p>Na frente trabalhista, o manifesto incorpora propostas como o fim da escala 6&#215;1, sem avaliar seus efeitos sobre emprego, renda e custo do trabalho, e desloca o foco para uma chamada &#8220;reforma tecnol\u00f3gica&#8221;, centrada na regula\u00e7\u00e3o de plataformas digitais \u2014 fen\u00f4meno que classifica como &#8220;plataformiza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Paralelamente, o manifesto sugere &#8220;inovar&#8221; na organiza\u00e7\u00e3o dessa nova classe trabalhadora para evitar a explora\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, combinando fortalecimento sindical com &#8220;novas formas de organiza\u00e7\u00e3o social&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 muito pouco para falar em reforma tecnol\u00f3gica&#8221;, afirma Jo\u00e3o Mario de Fran\u00e7a, pesquisador do FGV-Ibre. &#8220;A esquerda est\u00e1 completamente desconectada do mundo do trabalho&#8221;, diz.<\/p>\n<h2>Discurso ideol\u00f3gico mant\u00e9m polariza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Para Rodrigo Marinho, CEO do Instituto Livre Mercado, o diagn\u00f3stico do texto repete uma l\u00f3gica j\u00e1 conhecida, ao atribuir os problemas do pa\u00eds ao &#8220;neoliberalismo&#8221; e propor como solu\u00e7\u00e3o mais interven\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>&#8220;No fim, o que se vende como &#8216;novo pacto&#8217; \u00e9 a reedi\u00e7\u00e3o de um modelo que j\u00e1 falhou, agora com linguagem mais sofisticada, mas com a mesma incapacidade de lidar com o Brasil real&#8221;, afirma. &#8220;O pa\u00eds n\u00e3o precisa de mais Estado, mas de mais liberdade econ\u00f4mica para destravar crescimento e investimento.&#8221;<\/p>\n<p>Para Fran\u00e7a, o manifesto tamb\u00e9m marca uma mudan\u00e7a de posicionamento pol\u00edtico. &#8220;Diferentemente da elei\u00e7\u00e3o passada, em que o PT tentou se aproximar mais do centro, esse documento parece uma tentativa de voltar ao velho PT, mais tradicional da esquerda.&#8221;<\/p>\n<p>O texto \u00e9 permeado por termos como &#8220;fascismo&#8221;, &#8220;extrema-direita&#8221; e &#8220;projeto de destrui\u00e7\u00e3o nacional&#8221; para se referir a advers\u00e1rios pol\u00edticos \u2014 uma abordagem que, segundo ele, refor\u00e7a a polariza\u00e7\u00e3o. &#8220;\u00c9 uma narrativa de confronto&#8221;, diz o pesquisador do Ibre. &#8220;N\u00e3o existe nada de propositivo em reformas estruturais.&#8221;<\/p>\n<h2>O custo pol\u00edtico da omiss\u00e3o<\/h2>\n<p>Fran\u00e7a avalia que a situa\u00e7\u00e3o fiscal precisa ser explicitada no debate eleitoral. Para ele, independentemente de quem ven\u00e7a, o ajuste das contas p\u00fablicas \u00e9 inevit\u00e1vel \u2014 e omitir esse tema pode gerar custos pol\u00edticos e econ\u00f4micos relevantes. &#8220;\u00c9 melhor que fique bem claro durante a campanha&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Para Samuel Pessoa, professor do Ibre, a omiss\u00e3o pode levar ao que classifica como &#8220;estelionato eleitoral&#8221;. &#8220;Se a disputa eleitoral fazer com que os candidatos prometam o imposs\u00edvel, independentemente de quem ganhe, ele vai ter que entregar o imposs\u00edvel&#8221;, afirma. Ele cita 2014 como exemplo do custo de ocultar a realidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>&#8220;A presidente Dilma mentiu muito para a sociedade. Ela escondeu a crise e depois teve que fazer o ajuste econ\u00f4mico, traiu as pessoas&#8221;, lembra. &#8220;E acabou impeachada.&#8221;<\/p>\n<p>A <em>Gazeta do Povo<\/em> procurou o PT para comentar as cr\u00edticas levantadas nesta an\u00e1lise, mas n\u00e3o obteve resposta at\u00e9 o fechamento desta reportagem.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula pediu propostas \u201cfact\u00edveis\u201d ao Partido dos Trabalhadores (PT), mas o documento aprovado no encontro nacional da sigla vai em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":384228,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-384227","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=384227"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384227\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/384228"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=384227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=384227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=384227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}