{"id":378136,"date":"2026-04-21T05:02:00","date_gmt":"2026-04-21T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=378136"},"modified":"2026-04-21T05:02:00","modified_gmt":"2026-04-21T09:02:00","slug":"estreito-de-ormuz-como-o-mar-voltou-a-ser-um-dos-principais-tabuleiros-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=378136","title":{"rendered":"Estreito de Ormuz: como o mar voltou a ser um dos principais tabuleiros do poder"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u201cPois quem comanda o mar comanda o com\u00e9rcio; quem comanda o com\u00e9rcio do mundo comanda as riquezas do mundo e, consequentemente, o pr\u00f3prio mundo.\u201d A conhecida frase atribu\u00edda a Sir Walter Raleigh, navegador e explorador ingl\u00eas do s\u00e9culo XVI, talvez nunca tenha soado t\u00e3o atual.<\/p>\n<p>As grandes pot\u00eancias da hist\u00f3ria sempre compreenderam, com maior ou menor clareza, que o dom\u00ednio do mar significava muito mais do que supremacia militar. Significava influ\u00eancia, riqueza, seguran\u00e7a e proje\u00e7\u00e3o de poder. Dos fen\u00edcios ao Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, passando por gregos, portugueses, espanh\u00f3is e franceses, todos perceberam que as rotas mar\u00edtimas n\u00e3o eram apenas caminhos de circula\u00e7\u00e3o de mercadorias. Eram, em verdade, as veias por onde corria a pr\u00f3pria vitalidade econ\u00f4mica do mundo.<\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos, essa l\u00f3gica se imp\u00f4s de forma quase incontest\u00e1vel. Quem controlava o mar controlava o com\u00e9rcio. E quem controlava o com\u00e9rcio controlava o poder. No p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, contudo, o mundo passou a acreditar que essa realidade havia sido, ao menos em parte, superada.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o da ordem internacional veio acompanhada da consolida\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es multilaterais, da expans\u00e3o das regras do com\u00e9rcio internacional e da difus\u00e3o de um ideal de mercado livre cada vez mais integrado.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ainda h\u00e1 caminho de volta para um modelo robusto de multilateralismo e livre com\u00e9rcio, ou j\u00e1 estamos diante de uma p\u00e1gina definitivamente virada na hist\u00f3ria da geopol\u00edtica e da ordem global?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de organismos internacionais e a crescente sofistica\u00e7\u00e3o das cadeias globais de suprimento alimentaram a percep\u00e7\u00e3o de que o com\u00e9rcio internacional deixaria de ser ref\u00e9m direto da vontade pol\u00edtica isolada dos Estados. Vendeu-se, assim, ao mundo a promessa de um mercado livre quase ut\u00f3pico.<\/p>\n<p>Nesse novo arranjo, os mares deixaram de ser vistos apenas como espa\u00e7os submetidos \u00e0 for\u00e7a soberana das na\u00e7\u00f5es e passaram a ser percebidos, em grande medida, como o ambiente natural de atua\u00e7\u00e3o das grandes companhias de navega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram elas que transportavam a riqueza global. Eram elas que mantinham o fluxo das cadeias produtivas. Eram elas que, silenciosamente, sustentavam a engrenagem do com\u00e9rcio internacional.<\/p>\n<p>Com a simplicidade de um clique, de um contrato digital e de um e-mail, o com\u00e9rcio global passou a se estruturar sobre uma premissa central: a confian\u00e7a de que, dali em diante, o mercado n\u00e3o mais seria travado ou interrompido pela vontade unilateral de um Estado. Mas essa l\u00f3gica sofreu um duro abalo em 2020.<\/p>\n<p>A pandemia exp\u00f4s, com brutal clareza, a fragilidade das certezas que haviam sido constru\u00eddas no per\u00edodo p\u00f3s-guerra. Portos foram fechados. Cadeias de suprimento foram interrompidas. Restri\u00e7\u00f5es nacionais reapareceram com for\u00e7a. O <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/comercio-exterior\/\">com\u00e9rcio exterior<\/a>, desde ent\u00e3o, jamais voltou a ser exatamente o mesmo.<\/p>\n<p>Talvez um dos legados mais profundos e menos debatidos da Covid-19 tenha sido justamente este: a ruptura da confian\u00e7a do mercado. O mercado deixou de acreditar naquele modelo ut\u00f3pico de livre com\u00e9rcio. E \u00e9 precisamente dessa perda de confian\u00e7a que fizeram emergir a fragmenta\u00e7\u00e3o do multilateralismo e o crescimento do regionalismo.<\/p>\n<p>Quando a confian\u00e7a se rompe, cada na\u00e7\u00e3o volta-se prioritariamente para si mesma. Procura proteger seus interesses internos. Busca resguardar suas cadeias estrat\u00e9gicas. Tenta assegurar suas rotas de abastecimento. Em momentos de incerteza, o impulso cooperativo perde espa\u00e7o para a l\u00f3gica defensiva. \u00c9 por isso que as palavras de Sir Walter Raleigh parecem, hoje, extraordinariamente contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Neste novo cap\u00edtulo da hist\u00f3ria, marcado pela fragmenta\u00e7\u00e3o do multilateralismo, cada vez mais na\u00e7\u00f5es buscar\u00e3o controlar gargalos log\u00edsticos e mar\u00edtimos, como o Estreito de Ormuz, o Canal de Suez, o Mar Vermelho e o Canal do Panam\u00e1, entre tantos outros.<\/p>\n<p>Corredores mar\u00edtimos voltam a assumir centralidade geopol\u00edtica. O Estreito de Ormuz, o Canal de Suez, o Mar Vermelho e o Canal do Panam\u00e1 s\u00e3o apenas alguns exemplos de chokepoints cujo valor ultrapassa a log\u00edstica e alcan\u00e7a a pr\u00f3pria arquitetura do poder global.<\/p>\n<p>O objetivo, no fundo, permanece o mesmo de sempre: preservar poder, assegurar controle e manter influ\u00eancia sobre o com\u00e9rcio internacional. O shipping, por isso mesmo, voltou a ocupar um lugar central. Voltou a ser instrumento de soberania. Voltou a ser palco de disputas geopol\u00edticas. Voltou, em alguma medida, a revelar que o com\u00e9rcio mar\u00edtimo jamais esteve completamente dissociado da pol\u00edtica de poder.<\/p>\n<p>Her\u00f3doto ensinava que \u00e9 preciso olhar para o passado para compreender o presente e imaginar o futuro. Poucas vezes essa advert\u00eancia pareceu t\u00e3o pertinente.<\/p>\n<p>Para compreender o momento atual, \u00e9 indispens\u00e1vel revisitar a hist\u00f3ria. O que vemos hoje n\u00e3o \u00e9 propriamente uma ruptura absoluta, mas talvez a reemerg\u00eancia, sob novas formas, de uma velha l\u00f3gica: a de que o com\u00e9rcio internacional depende, em \u00faltima an\u00e1lise, de estabilidade, previsibilidade e confian\u00e7a. E talvez o \u00fanico caminho verdadeiramente promissor adiante seja precisamente o \u00e1rduo esfor\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o dessa confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Os idealistas liberais costumam repetir que o livre com\u00e9rcio reduz conflitos e aproxima na\u00e7\u00f5es \u201c<em>Free trade stops wars<\/em>\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o conserva sua for\u00e7a te\u00f3rica. Mas h\u00e1 uma dificuldade incontorn\u00e1vel: a confian\u00e7a, uma vez quebrada, dificilmente retorna sob a mesma forma.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente a\u00ed que reside a grande quest\u00e3o do nosso tempo: ainda h\u00e1 caminho de volta para um modelo robusto de multilateralismo e livre com\u00e9rcio, ou j\u00e1 estamos diante de uma p\u00e1gina definitivamente virada na hist\u00f3ria da geopol\u00edtica e da ordem global?<\/p>\n<p>A resposta, por ora, pertence ao tempo. Mas uma coisa \u00e9 certa: os mares voltaram a ser, como sempre foram, um dos principais tabuleiros do poder. Ao mercado, resta continuar a ser flex\u00edvel, din\u00e2mico e criativo. E, se ainda h\u00e1 algo em que se pode depositar confian\u00e7a, talvez seja justamente nisso: na capacidade do pr\u00f3prio mercado, e particularmente do shipping, de encontrar solu\u00e7\u00f5es criativas para navegar os desafios impostos por esta crise do multilateralismo.<\/p>\n<p><em><strong>Larry Carvalho<\/strong> \u00e9 advogado especialista em log\u00edstica, direito mar\u00edtimo e com\u00e9rcio exterior.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPois quem comanda o mar comanda o com\u00e9rcio; quem comanda o com\u00e9rcio do mundo comanda as riquezas do mundo e,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":378137,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-378136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/378136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=378136"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/378136\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/378137"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=378136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=378136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=378136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}