{"id":374330,"date":"2026-04-19T13:00:00","date_gmt":"2026-04-19T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=374330"},"modified":"2026-04-19T13:00:00","modified_gmt":"2026-04-19T17:00:00","slug":"dias-de-chuva-dias-de-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=374330","title":{"rendered":"Dias de chuva, dias de sol"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/04\/17160522\/perdao-atropelamento.jpg.webp\" \/><span>O perd\u00e3o pode curar mesmo diante de uma grande trag\u00e9dia. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Imagine um dia de chuva muito intensa, a \u00e1gua caindo do c\u00e9u \u00e0s torrentes. O som forte da enxurrada enche de ru\u00eddo os nossos ouvidos, a vista fica totalmente prejudicada. Ainda mais para quem esteja dentro do carro: todo mundo sabe o quanto \u00e9 p\u00e9ssimo guiar debaixo de chuva, o caudal assolando o vidro do para-brisa, e as palhetas, desesperadas, lan\u00e7ando \u00e1gua para um lado e para o outro, com a mesma afli\u00e7\u00e3o de um marujo que quisesse p\u00f4r \u00e1gua para fora do seu barco com um balde, sob pena de naufragar se n\u00e3o for suficientemente r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sai de casa com este tempo, mas, e quem j\u00e1 estava fora de casa? \u00c9 preciso enfrentar. Pobre de quem est\u00e1 a p\u00e9, porque a capa de chuva n\u00e3o basta, o guarda-chuva j\u00e1 virou pelo avesso, tentamos nos cobrir com o jornal&#8230; Ah, eu deveria ter dito que estamos no Rio de Janeiro, numa rua de estrutura bem limitada, ilumina\u00e7\u00e3o amarela fraca, a \u00e1gua escoa com dificuldade pelas bocas de lobo. Dentro dos carros, aten\u00e7\u00e3o redobrada, aten\u00e7\u00e3o triplicada, muita tens\u00e3o. Avan\u00e7am devagarzinho, como a gente, no quintal, com medo de escorregar, os fuscas e os opalas pelas ruas. Ah, sim, porque eu esqueci de dizer que estamos no Rio de Janeiro da d\u00e9cada de 60, mais para o fim do dec\u00eanio.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Dona Mercedes, j\u00e1 com seus 70 anos, n\u00e3o enxerga nada. Deveria ter sa\u00eddo de casa? Ser\u00e1 que se arrependeu? Provavelmente. Est\u00e1 apressada para sair logo da chuva, embora j\u00e1 esteja molhada at\u00e9 os ossos, e vai dando passinhos mais l\u00e9pidos \u2013 os mais r\u00e1pidos que pode antes de correr, porque correndo se arriscaria muito a cair. V\u00ea a faixa de pedestres; hesita, olha para os lados, e n\u00e3o enxerga nem ouve motor de carro algum. E ent\u00e3o, quando avan\u00e7a para al\u00e9m do meio-fio, <em>tum!<\/em><\/p>\n<p>Havia um t\u00e1xi percorrendo a avenida, o chofer n\u00e3o via um palmo \u00e0 frente do vidro. Atropelou a senhora, lan\u00e7ou seu corpo para longe. Uma fratura na base do cr\u00e2nio. O taxista, mortificado, fez tudo o que se deve fazer, tudo o que podia ser feito. Prestou socorro, levou-a ao hospital, ficou ao lado do esposo da senhora at\u00e9 o \u00faltimo segundo. Dignou-se sepultar aquela cujo destino se cruzara \u2013 infelizmente? que desejava com isso a Provid\u00eancia? \u2013, cujo destino se entrechocara fatalmente com o dele naquele dia de dil\u00favio. \u201cO chofer n\u00e3o teve culpa\u201d, como ouvimos l\u00e1 na can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A dificuldade de perdoar n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 gravidade da ofensa recebida, mas \u00e0 <em>qualidade do amor<\/em> que somos capazes de oferecer<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Passam-se dez anos. Um belo dia, sai um cidad\u00e3o do Aeroporto Santos Dumont. Um pouco ofegante, porque n\u00e3o \u00e9 dos mais magros, faz esfor\u00e7o por arrastar sua bagagem, limpa o suor da testa com as costas da m\u00e3o esquerda. Ergue-a, ent\u00e3o: \u2013 T\u00e1xi! E um carro amarelo se aproxima do meio-fio.<\/p>\n<p>A viagem transcorre em sil\u00eancio pelas ruas da Cidade Maravilhosa. O pensamento do passageiro voou longe&#8230; repassou agenda, pensou em roteiro, em grava\u00e7\u00e3o, em telefonemas pendentes&#8230; E seus olhos escorregavam, atrav\u00e9s da janela do carro, neste dia de luz di\u00e1fana e clara, em que se podia ver tudo perfeitamente, pelas velhas ruas do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Quando chegam ao destino, ao parar o carro, o motorista \u00e9 tomado de uma tens\u00e3o extra. N\u00e3o se vira imediatamente, para receber o valor da corrida, seguir seu caminho. Fica parado com as m\u00e3os no volante. Por qu\u00ea? Ent\u00e3o toma coragem, se vira, e diz ao que estava no banco de tr\u00e1s. Fui eu que atropelei a senhora sua m\u00e3e. E, desde ent\u00e3o, ao longo desses dez anos que se passaram, n\u00e3o tenho dormido, n\u00e3o tenho paz. Eu preciso que o senhor me perdoe. \u2013 Mas o senhor n\u00e3o teve culpa alguma, e j\u00e1 est\u00e1 perdoado desde aquele dia em que socorreu minha m\u00e3e, levou-a ao hospital, e ficou ali, sentadinho ao lado do meu pai, at\u00e9 que tudo terminasse. \u2013 Mas eu preciso que o senhor me perdoe, que diga \u201cEu te perdoo\u201d, insiste o homem, cujo destino se cruzou, felizmente, com a daquele ilustre passageiro naquele dia. \u2013 \u201cEnt\u00e3o eu te perdoo, vai em paz\u201d, diz o homem, ecoando as palavras rituais que pronuncia um sacerdote, e se p\u00f5em os dois a chorar, a chorar mais l\u00e1grimas do que as que lavavam as ruas naquele dia, dez anos atr\u00e1s, e que agora lavam duas almas, lavam uma hist\u00f3ria, de fonte que jorra para a vida eterna.<\/p>\n<p>Para quem acaso n\u00e3o saiba, a hist\u00f3ria em quest\u00e3o \u00e9 do artista J\u00f4 Soares, falecido h\u00e1 poucos anos. Ele mesmo narrou essa hist\u00f3ria (com alguns detalhes a menos, que eu mesma imaginei). E ressaltava em seguida, esse enorme cora\u00e7\u00e3o, que o perd\u00e3o \u00e9 a coisa mais importante.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Rememorando essa hist\u00f3ria, por esses dias, pensei que trazer o tema para a reflex\u00e3o desta coluna fosse uma boa ideia. Embora eu j\u00e1 tenha tratado dele <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/samia-marsili\/completar-o-dom-perdao\/\">tempos atr\u00e1s<\/a>, sua riqueza \u00e9 inesgot\u00e1vel. O perd\u00e3o \u00e9 uma realidade t\u00e3o misteriosa, t\u00e3o desconcertante, t\u00e3o libertadora e t\u00e3o incr\u00edvel, que nunca ser\u00e1 demais mergulhar nesse gesto que \u00e9 a concretude do amor. Porque, francamente, perdoar n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. E essa afirma\u00e7\u00e3o, banal na apar\u00eancia, tantas vezes repetida, esconde uma verdade que poucas pessoas est\u00e3o dispostas a encarar de frente: a dificuldade de perdoar n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 gravidade da ofensa recebida, mas \u00e0 <em>qualidade do amor<\/em> que somos capazes de oferecer. E, mais ainda, \u00e0 imagem que fazemos de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m nos fere \u2013 e aqui n\u00e3o falo de frivolidades, mas daquelas feridas que marcam, que deixam uma dor que \u00e0s vezes nem sabemos nomear \u2013, o primeiro impulso raramente \u00e9 a generosidade; \u00e9 o espanto. \u00c9 o \u201ccomo voc\u00ea p\u00f4de?!\u201d \u00c9, por vezes, o desejo de que aquela p\u00e1gina nunca tivesse sido escrita no livro da vida. O perd\u00e3o come\u00e7a num lugar improv\u00e1vel: n\u00e3o na for\u00e7a, mas na vulnerabilidade de quem foi atingido e, mesmo assim, decide olhar al\u00e9m do golpe.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma frase que resume bem o movimento interior que o perd\u00e3o exige: \u201cEu te amo mais do que a dor que voc\u00ea me causou\u201d. Simples de dizer, custosa de viver. Porque perdoar n\u00e3o \u00e9 fingir que a ofensa n\u00e3o existiu, nem minimiz\u00e1-la por conveni\u00eancia. \u00c9, ao contr\u00e1rio, reconhec\u00ea-la em toda a sua extens\u00e3o \u2013 e, mesmo assim, recusar-se a deixar que ela seja a \u00faltima palavra sobre quem a cometeu.<\/p>\n<p>Existe, por\u00e9m, uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para que o perd\u00e3o seja genu\u00edno: o conhecimento honesto de si mesmo. Quem acredita estar imune ao erro, quem se v\u00ea num patamar de onde julga os que ca\u00edram, n\u00e3o perdoa: condescende. E h\u00e1 uma diferen\u00e7a abissal entre as duas coisas. A realidade \u00e9 que somos seres fr\u00e1geis. N\u00e3o no sentido derrotista da palavra, mas no sentido preciso: estamos, todos n\u00f3s, a um passo de decis\u00f5es que n\u00e3o far\u00edamos em condi\u00e7\u00f5es normais. Uma doen\u00e7a na fam\u00edlia, uma mudan\u00e7a brusca de circunst\u00e2ncias, um per\u00edodo prolongado de exaust\u00e3o \u2013 e tudo aquilo que constru\u00edmos com tanto cuidado come\u00e7a a rachar. Um abismo chama outro abismo, como se sabe. E quem n\u00e3o tem essa consci\u00eancia sobre si mesmo tende a olhar para o outro que caiu com estranheza, como se a queda fosse uma anomalia, e n\u00e3o uma possibilidade sempre presente na condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O principal obst\u00e1culo ao perd\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a gravidade da ofensa: \u00e9 o orgulho. N\u00e3o necessariamente o orgulho ruidoso, mas aquele mais silencioso e insidioso que se disfar\u00e7a de sensatez<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 justamente essa consci\u00eancia \u2013 de que somos feitos do mesmo barro \u2013 que nos torna capazes de uma miseric\u00f3rdia verdadeira. N\u00e3o a miseric\u00f3rdia piegas, que se compraz na pr\u00f3pria benevol\u00eancia, mas aquela que reconhece no outro um espelho poss\u00edvel de si: eu sei do que voc\u00ea \u00e9 feito, porque eu tamb\u00e9m sou feita dessa mat\u00e9ria. E logo se v\u00ea que o principal obst\u00e1culo ao perd\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a gravidade da ofensa: \u00e9 o orgulho. N\u00e3o necessariamente o orgulho ruidoso, que se proclama superior em voz alta, mas aquele mais silencioso e insidioso que se disfar\u00e7a de sensatez. O que nos faz dizer \u201cn\u00e3o foi assim t\u00e3o grave\u201d quando somos n\u00f3s os autores da ofensa. O que nos faz reduzir o outro a \u201csens\u00edvel demais\u201d quando ele se magoa com o que fizemos. O que nos impede de ir at\u00e9 algu\u00e9m e dizer, simplesmente: \u201cErrei, perdoe-me\u201d.<\/p>\n<p>Pedir perd\u00e3o \u00e9 um gesto grande. H\u00e1 quem diga que ningu\u00e9m \u00e9 t\u00e3o grande quanto quando se ajoelha \u2013 e a imagem, longe de ser piegas, \u00e9 precisa. Porque pedir perd\u00e3o de joelhos, no sentido pr\u00f3prio ou figurado, n\u00e3o \u00e9 se diminuir: \u00e9 reconhecer a realidade. \u00c9 dizer: eu errei, e esse erro importa, porque voc\u00ea importa. \u00c9 a contri\u00e7\u00e3o verdadeira, que n\u00e3o se contenta com um \u201cdesculpa\u201d autom\u00e1tico, jogado no ar como quem pede licen\u00e7a numa cal\u00e7ada movimentada.<\/p>\n<p>A contri\u00e7\u00e3o verdadeira leva a outra coisa: ao prop\u00f3sito de n\u00e3o repetir. E esse prop\u00f3sito, para ser honesto, precisa de meios concretos: Fugir da circunst\u00e2ncia que nos trouxe at\u00e9 ali; afastar-se de companhias ou situa\u00e7\u00f5es que nos enfraquecem; construir, ativamente, as condi\u00e7\u00f5es para n\u00e3o voltar ao mesmo abismo. Sem isso, o pedido de perd\u00e3o, por mais sincero que pare\u00e7a no momento, n\u00e3o passa de um al\u00edvio tempor\u00e1rio, e a reincid\u00eancia confirma o que a contri\u00e7\u00e3o negava.<\/p>\n<p>Cada pessoa tem o seu tempo para absorver uma ofensa, para reconhecer que errou, para se dispor ao encontro, e for\u00e7ar esse tempo \u00e9 t\u00e3o contraproducente quanto ignor\u00e1-lo completamente. Porque o sil\u00eancio prolongado alimenta a imagina\u00e7\u00e3o, e o que era uma m\u00e1goa administr\u00e1vel vai se tornando, dia ap\u00f3s dia, uma narrativa inteira de ressentimento. Algo que muitas vezes n\u00e3o era t\u00e3o grande assim se transforma numa bola de neve, e as duas pessoas que precisavam se encontrar ficam cada vez mais distantes, presas numa guerra que j\u00e1 ningu\u00e9m mais sabe ao certo como come\u00e7ou.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Por isso, \u00e0s vezes cabe a quem foi ofendido tomar a iniciativa. N\u00e3o para absolver precipitadamente quem errou, nem para engolir o que n\u00e3o deve ser engolido, mas para abrir a porta do di\u00e1logo, oferecer uma brecha por onde a reconcilia\u00e7\u00e3o possa entrar. Esse gesto, aparentemente pequeno, pode ser o que desfaz um n\u00f3 que nenhuma das partes conseguia desatar sozinha. Reduzir uma pessoa ao pior que ela fez \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que parece justa \u2013 e \u00e9 exatamente a\u00ed que mora o engano. Porque a justi\u00e7a, sem miseric\u00f3rdia, v\u00ea o ato e perde de vista o autor; condena o erro e, com ele, condena tamb\u00e9m tudo o que aquela pessoa ainda poderia ser.<\/p>\n<p>O Evangelho guarda uma cena que ilumina isso com precis\u00e3o. Uma mulher, conhecida na cidade por sua vida p\u00fablica de pecados, entra na casa de um fariseu onde Jesus estava \u00e0 mesa. Chora aos p\u00e9s dele, molha-os com as l\u00e1grimas, seca-os com os cabelos. O fariseu a v\u00ea e julga: uma pecadora. Jesus a v\u00ea e perdoa \u2013 mas, antes disso, v\u00ea. V\u00ea al\u00e9m do r\u00f3tulo, al\u00e9m da hist\u00f3ria que a cidade conta sobre ela. \u201cVoc\u00ea v\u00ea essa mulher?\u201d, pergunta ao fariseu \u2013 e a pergunta \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o suave: voc\u00ea est\u00e1 olhando, mas n\u00e3o est\u00e1 vendo.<\/p>\n<p>H\u00e1 m\u00e3es que entendem isso intuitivamente. Que s\u00e3o capazes de olhar para um filho que falhou \u2013 gravemente, at\u00e9 \u2013 e continuar enxergando quem ele \u00e9, para al\u00e9m do que ele fez. Esse olhar n\u00e3o \u00e9 ingenuidade; \u00e9 uma forma de amor que aposta na pessoa para al\u00e9m das suas circunst\u00e2ncias. \u00c9 o olhar de quem acredita que o erro n\u00e3o \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do outro \u2013 que h\u00e1 ali um Davi escondido no m\u00e1rmore, esperando ser revelado. Michelangelo dizia que esculpir era retirar o que n\u00e3o era a figura. Talvez perdoar seja algo assim: retirar, com paci\u00eancia, o que n\u00e3o \u00e9 a pessoa. O que foi feito de ruim n\u00e3o a define. Ela \u00e9 imagem e semelhan\u00e7a de algo muito maior \u2013 e pode chegar a uma plenitude que, sem um olhar misericordioso pr\u00f3ximo, dificilmente alcan\u00e7ar\u00e1.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O perd\u00e3o \u00e9 um ato de f\u00e9. F\u00e9 de que o outro \u00e9 mais do que o seu pior momento<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Uma pessoa de quem gosto muito costumava dizer que nunca precisou aprender a perdoar, porque aprendeu a amar. \u00c0 primeira vista parece um atalho f\u00e1cil, quase um aforismo de calend\u00e1rio. Mas quanto mais se pensa nisso, mais a frase revela sua verdade radical: quando o amor \u00e9 profundo o suficiente, o erro do outro n\u00e3o desaparece do campo visual, mas deixa de ser o centro da cena. O que chama a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o os defeitos, mas a <em>dignidade<\/em>. \u00c9 claro que isso n\u00e3o se conquista de uma vez. \u00c9 um exerc\u00edcio \u2013 para n\u00f3s, e para os filhos que criamos. Ensin\u00e1-los a pedir perd\u00e3o quando erram, mesmo sem inten\u00e7\u00e3o de ferir. Ensin\u00e1-los a dar tempo ao outro, sem abandonar o esfor\u00e7o de reconcilia\u00e7\u00e3o. Ensin\u00e1-los que reconhecer o pr\u00f3prio erro n\u00e3o \u00e9 fraqueza, mas grandeza!<\/p>\n<p>No fundo, o perd\u00e3o \u00e9 um ato de f\u00e9. F\u00e9 de que o outro \u00e9 mais do que o seu pior momento. F\u00e9 de que o amor tem mais for\u00e7a do que o \u00f3dio. F\u00e9 de que vale a pena, sempre, escrever de novo a hist\u00f3ria. Nem todos n\u00f3s vivemos situa\u00e7\u00f5es graves, acidentes, crimes, grandes injusti\u00e7as \u2013 mas alguns de n\u00f3s vivemos, sim. E ent\u00e3o? Tamb\u00e9m podemos dizer que nem todos ter\u00e3o, como o taxista do acidente e J\u00f4 Soares, um presente t\u00e3o grande de Deus, uma oportunidade assim dram\u00e1tica, quase cinematogr\u00e1fica, de nos reencontrarmos face a face com nosso passado, para enfim pedir perd\u00e3o e perdoar. Mas a cada um caber\u00e3o as oportunidades que a Provid\u00eancia reserva, e o importante \u00e9 n\u00e3o desperdi\u00e7\u00e1-las, por piores que elas pare\u00e7am. Nunca ser\u00e1 exatamente gostoso, atrativo, desej\u00e1vel. Mas pedir perd\u00e3o e perdoar, cada um por suas raz\u00f5es, que se completam e definem, \u00e9 verdadeiramente, profundamente desej\u00e1vel e libertador. Nos dias de chuva e nos dias de sol, o nosso destino se cruzar a todo momento com os das outras pessoas&#8230; Que estejamos sempre prontos a perdoar e amar.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O perd\u00e3o pode curar mesmo diante de uma grande trag\u00e9dia. 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