{"id":373817,"date":"2026-04-19T07:00:00","date_gmt":"2026-04-19T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=373817"},"modified":"2026-04-19T07:00:00","modified_gmt":"2026-04-19T11:00:00","slug":"musica-um-caminho-para-a-eternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=373817","title":{"rendered":"M\u00fasica, um caminho para a eternidade"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 muitos anos, eu estava conversando com um querido amigo, o maestro Vitor Gorni, sobre as m\u00fasicas de nossas vidas.<\/p>\n<p>\u2014 Vitor, qual \u00e9 a m\u00fasica mais bonita que voc\u00ea j\u00e1 tocou?<\/p>\n<p>Meu amigo, que, al\u00e9m de regente, \u00e9 um ex\u00edmio instrumentista, pensou um pouco e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Acho que foi o Concerto para Clarinete, de Mozart.<\/p>\n<p>\u2014 E qual foi a m\u00fasica que fez voc\u00ea virar m\u00fasico?<\/p>\n<p>Diante da nova pergunta, meu amigo maestro ficou em sil\u00eancio, refletiu mais um pouco e me contou uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em 1960, Vitor era um menino prestes a completar cinco anos. Morava com o pai, a m\u00e3e e as irm\u00e3s em um sobrado na pequena cidade de Camb\u00e9, Norte do Paran\u00e1. Um dia, ele subiu a escada de casa correndo \u2014 como costumam fazer os meninos de quase cinco anos \u2014 e, na pequena sala cont\u00edgua, encontrou o pai. O gerente de banco \u2014 que j\u00e1 havia sido agricultor, carroceiro e vendedor em armaz\u00e9m de secos e molhados \u2014 estava sentado em um sof\u00e1 azul, decorado com flores vermelhas, e tinha nas m\u00e3os um saxofone, no qual tocava um tema famoso na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Embora a m\u00fasica n\u00e3o fosse triste \u2014 ao contr\u00e1rio, evocava uma hist\u00f3ria de amor nas paisagens cariocas dos anos dourados \u2014, o menino sentiu, ao ouvi-la, uma inexplic\u00e1vel vontade de chorar.<\/p>\n<p>Quando viu as l\u00e1grimas do filho, o homem colocou o saxofone de lado, foi at\u00e9 o menino e o abra\u00e7ou. Aos poucos, o pequeno Vitor se acalmou. A partir desse ponto, as mem\u00f3rias do meu amigo maestro perdem a clareza.<\/p>\n<p>O pai de Vitor Gorni morreu pouco depois daquele encontro na sala, no dia 21 de novembro de 1960; Vitor completaria 5 anos menos de um m\u00eas depois.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Vitor cresceu e se tornou m\u00fasico. O tema tocado pelo pai naquele dia jamais saiu de sua mem\u00f3ria<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na adolesc\u00eancia, perguntou \u00e0 irm\u00e3 mais velha qual seria o nome da m\u00fasica. A irm\u00e3 logo matou a charada:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 \u201cMenina Mo\u00e7a\u201d!<\/p>\n<p>\u201cMenina Mo\u00e7a\u201d, composi\u00e7\u00e3o da dupla Luiz Antonio e Djalma Ferreira, \u00e9 uma esp\u00e9cie de elo perdido entre o samba tradicional e a bossa nova, com uma pureza nost\u00e1lgica, delicada e inocente. Foi essa a m\u00fasica que o pai do futuro maestro tocou naquele dia \u2014 e que seu filho jamais deixaria de tocar.<\/p>\n<p>E o Concerto para Clarinete? Quando meu amigo maestro citou essa obra, n\u00e3o foi t\u00e3o simples encontr\u00e1-la. O que hoje pode ser resolvido com uma simples pesquisa na internet demandava, duas d\u00e9cadas atr\u00e1s, pacientes peregrina\u00e7\u00f5es por lojas de discos e sebos.<\/p>\n<p>Quando finalmente eu encontrei o CD com o Concerto para Clarinete em L\u00e1 Maior \u2014 K. 622, de Wolfgang Amadeus Mozart, descobri que se tratava n\u00e3o de uma simples obra musical, mas sim de um verdadeiro caminho para o C\u00e9u. Toda a pe\u00e7a \u00e9 maravilhosa, mas o segundo movimento, o Adagio, \u00e9 um tema que posso ouvir milhares de vezes, como j\u00e1 fiz, mas nunca \u2014 nunca! \u2014 deixa de me emocionar.<\/p>\n<p>O concerto indicado por meu amigo maestro tem trechos de alegria e de melancolia, mas simplesmente n\u00e3o pode ser definido como alegre ou triste. O que sobressai, na audi\u00e7\u00e3o da obra, \u00e9 uma imensa, avassaladora e perfeita serenidade. Mozart nos oferece uma experi\u00eancia contemplativa, como se os anjos falassem, como se a pr\u00f3pria vida falasse.<\/p>\n<p>O mais surpreendente \u00e9 que se trata de uma das \u00faltimas obras de Mozart, composta em outubro de 1791, apenas dois meses antes de sua morte, quando o genial compositor estava mergulhado em d\u00edvidas, com sa\u00fade fr\u00e1gil e cansa\u00e7o. Mozart a comp\u00f4s para seu amigo Anton Stadler, o maior clarinetista da \u00e9poca. No entanto, \u00e9 prov\u00e1vel que Mozart jamais tenha visto o amigo interpret\u00e1-la publicamente, pois morreu em 5 de dezembro de 1791, com apenas 35 anos \u2014 inacredit\u00e1veis 35 anos.<\/p>\n<p>Altino Gorni morreu com apenas 40 anos. Relembrando a conversa que tive com Vitor Gorni tantos anos atr\u00e1s, sobre o concerto de Mozart e o samba \u201cMenina Mo\u00e7a\u201d, percebo que as duas m\u00fasicas que marcaram a vida de meu amigo eram cantos de cisne, mas tamb\u00e9m sinais da vida eterna. Por isso, o maestro diz:<\/p>\n<p>\u2014 Eu me tornei m\u00fasico para ficar perto de meu pai. E deu certo!<\/p>\n<p><strong>Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conte\u00fados exclusivos. 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