{"id":369234,"date":"2026-04-17T16:52:30","date_gmt":"2026-04-17T20:52:30","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=369234"},"modified":"2026-04-17T16:52:30","modified_gmt":"2026-04-17T20:52:30","slug":"o-abismo-da-mediocridade-por-que-a-economia-brasileira-nao-decola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=369234","title":{"rendered":"O abismo da mediocridade: por que a economia brasileira n\u00e3o decola"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O crescimento econ\u00f4mico do Brasil enfrenta um cen\u00e1rio de paralisia estrutural. H\u00e1 mais de 40 anos, o PIB nacional expande-se abaixo do ritmo global, resultando em uma perda cont\u00ednua de participa\u00e7\u00e3o na economia brasileira mundial. Segundo o Banco Mundial, em 1980, o pa\u00eds detinha 2,8% do PIB global; em 2024, esse n\u00famero recuou para 2,1%. Com uma expans\u00e3o m\u00e9dia anual de apenas 2,2%, o pa\u00eds ocupa a 102\u00aa posi\u00e7\u00e3o em um ranking de 153 na\u00e7\u00f5es, ficando atr\u00e1s de vizinhos como Col\u00f4mbia e Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Especialistas do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV Ibre), como o pesquisador Samuel Pess\u00f4a, apontam que, sem reformas profundas na efici\u00eancia e no marco institucional, o pa\u00eds enfrenta uma expans\u00e3o potencial limitada a apenas 1,5%. Este n\u00famero depender\u00e1 mais de ganhos de produtividade do que de aumento nas horas trabalhadas, por causa do fim do b\u00f4nus demogr\u00e1fico.<\/p>\n<h2>O abismo da diverg\u00eancia: o pa\u00eds ficou para tr\u00e1s<\/h2>\n<p>Desde 1980, a economia brasileira oscila entre per\u00edodos de crescimento fraco e estagna\u00e7\u00e3o, perdendo oportunidades de desenvolvimento. A compara\u00e7\u00e3o dos dados hist\u00f3ricos revela uma realidade inc\u00f4moda. Em 1980, o PIB per capita brasileiro correspondia a cerca de 20% do americano. Em 2024, havia ca\u00eddo para 14,4%. No mesmo per\u00edodo, a Coreia do Sul, que em 1980 era mais pobre que o Brasil com apenas 13,6% da renda per capita americana, deu um salto extraordin\u00e1rio. Em 2024, sua renda per capita era de 55,8% da americana.<\/p>\n<p>Segundo a coordenadora do boletim macroecon\u00f4mico do FGV Ibre, Silvia Mattos, &#8220;nossa mediocridade decorre do nosso fracasso em ganhos de produtividade ao longo de nossa hist\u00f3ria&#8221;. Os n\u00fameros comprovam a magnitude dessa diverg\u00eancia: em 1950, o trabalhador brasileiro tinha o dobro da efici\u00eancia produtiva de um trabalhador coreano; hoje, tem pouco mais de um ter\u00e7o da produtividade coreana. A diverg\u00eancia no crescimento anual, composta ao longo de 44 anos, explica por que o pa\u00eds continua sendo o &#8220;pa\u00eds do futuro&#8221; que nunca chega.<\/p>\n<h3>A queda no ranking global: de pot\u00eancia a coadjuvante<\/h3>\n<p>A trajet\u00f3ria nacional no ranking de maiores economias mundiais ilustra essa perda de dinamismo. Em 1960, era a 11\u00aa maior economia mundial, com PIB 17% superior ao da China. Durante a d\u00e9cada de 1960, enquanto Mao Tse-tung consolidava a ditadura comunista, o Brasil acelerava, principalmente entre 1968 e 1974, durante o &#8220;Milagre Econ\u00f4mico&#8221;. Em 1976, o PIB brasileiro era aproximadamente 98% maior que o chin\u00eas. Naquele ano, chegou a ocupar a s\u00e9tima posi\u00e7\u00e3o no ranking global.<\/p>\n<p>O PIB brasileiro foi ultrapassado pelo chin\u00eas em 1988, quando era a oitava maior economia global. Em 2000, correspondia a 42% da chinesa, mantendo a oitava posi\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o at\u00e9 2024, o crescimento m\u00e9dio anual foi de 2,3%, bem atr\u00e1s da m\u00e9dia mundial (2,9%) e menos da metade dos pa\u00edses de renda m\u00e9dia-alta (5,5% ao ano). Nesse ano, a economia havia ca\u00eddo para a 9\u00aa posi\u00e7\u00e3o no ranking das maiores do mundo, com PIB correspondendo a pouco mais de um d\u00e9cimo da chinesa.<\/p>\n<p>As expectativas s\u00e3o desfavor\u00e1veis. Segundo o Conference Board, a na\u00e7\u00e3o deve expandir-se a um ritmo bem menor do que o mundial nos pr\u00f3ximos anos. Neste ano, a economia global deve crescer 2,8%, enquanto o pa\u00eds crescer\u00e1 1,8%. Para 2027, a previs\u00e3o \u00e9 de 2,2% para o Brasil e 3,0% para o mundo. Para a d\u00e9cada entre 2028 e 2037, a expans\u00e3o nacional deve ficar em m\u00e9dia inferior a 2% ao ano, enquanto a mundial ficar\u00e1 em torno de 2,5%.<\/p>\n<h2>As travas \u00e0 expans\u00e3o do crescimento<\/h2>\n<p>O fim do b\u00f4nus demogr\u00e1fico emerge como um dos principais obst\u00e1culos ao desenvolvimento econ\u00f4mico. Segundo o IBGE, de 2012 a 2025, a parcela da popula\u00e7\u00e3o com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%, enquanto a popula\u00e7\u00e3o com mais de 60 anos cresceu de 11,3% para 16,6%. Sem esse impulso demogr\u00e1fico, as perspectivas de expans\u00e3o se contraem dramaticamente.<\/p>\n<p>A Produtividade Total dos Fatores (PTF) \u2014 motor da expans\u00e3o de longo prazo \u2014 opera em marcha lenta. Segundo pesquisa do FGV Ibre, apenas a agropecu\u00e1ria cresceu robustamente desde 1995 (5,8% ao ano); a ind\u00fastria caiu 0,3% ao ano; servi\u00e7os, apenas 0,2%. O pa\u00eds permanece preso em atividades de baixa produtividade enquanto a ind\u00fastria encolhe.<\/p>\n<p>O investimento brasileiro agrava o problema: 17% do PIB contra 26% de m\u00e9dia global. A baixa poupan\u00e7a \u2014 14,5% em 2024 \u2014 \u00e9 insuficiente para financi\u00e1-la. Esse comportamento \u00e9 atribu\u00eddo ao modelo redistributivo da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que gerou desincentivos \u00e0 poupan\u00e7a privada. Al\u00e9m disso, gastos correntes engessados (previd\u00eancia, sa\u00fade, assist\u00eancia social) impedem excedentes para investimento, mesmo com carga tribut\u00e1ria de 34,2% do PIB \u2014 pr\u00f3xima \u00e0 de na\u00e7\u00f5es da OCDE. O Estado n\u00e3o poupa e registra d\u00e9ficits cr\u00f4nicos desde novembro de 2014, segundo dados do Tesouro Nacional \u2014 uma din\u00e2mica que limita a capacidade de investimento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Segundo dados da Receita Federal, subs\u00eddios e isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias improdutivas consomem 4,4% do PIB \u2014 recursos que poderiam financiar investimentos produtivos. Silvia Mattos aponta que a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 &#8220;muito suscet\u00edvel aos diversos grupos de interesse&#8221;, criando distor\u00e7\u00f5es que protegem setores ineficientes. O resultado: empresas ineficientes sobrevivem artificialmente, impedindo inova\u00e7\u00e3o. O capital migra para aplica\u00e7\u00f5es de baixo risco em vez de financiar f\u00e1bricas e pesquisa \u2014 um c\u00edrculo vicioso que sufoca a economia real. N\u00e3o bastasse esse engessamento institucional, h\u00e1 um setor que ilustra concretamente essa paralisia: a ind\u00fastria brasileira.<\/p>\n<h3>A ind\u00fastria como term\u00f4metro da estagna\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Um dos principais term\u00f4metros da perda de f\u00f4lego da economia est\u00e1 no setor industrial. Este deveria ser o motor de inova\u00e7\u00e3o e crescimento, mas permanece virtualmente paralisado desde 2014. An\u00e1lise do FGV Ibre sobre o hiato entre ind\u00fastria e servi\u00e7os, conduzida por pesquisadores como Claudio Considera e Henrique Bittencourt, revela um diagn\u00f3stico alarmante: a desindustrializa\u00e7\u00e3o precoce n\u00e3o \u00e9 acidental, mas resultado direto da fragilidade institucional e dos desincentivos que caracterizam a economia brasileira.<\/p>\n<p>Segundo a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), o pa\u00eds det\u00e9m apenas 1,17% do valor adicionado da ind\u00fastria mundial \u2014 o n\u00edvel mais baixo desde 1990. A na\u00e7\u00e3o ocupa a 15\u00aa posi\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o industrial, tendo sido ultrapassada por M\u00e9xico, Indon\u00e9sia, Turquia e Irlanda. Nas exporta\u00e7\u00f5es, est\u00e1 estagnada na 30\u00aa posi\u00e7\u00e3o, respondendo por apenas 0,92% das manufaturas globais.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 alimentada por dois fatores estruturais: c\u00e2mbio cronicamente apreciado (resultado da depend\u00eancia de poupan\u00e7a externa) e infraestrutura log\u00edstica prec\u00e1ria. Ambos encarecem o capital. Como o setor industrial \u00e9 intensivo em capital, ele \u00e9 particularmente prejudicado por juros elevados, conforme an\u00e1lise de pesquisadores do FGV Ibre. Quando os juros sobem, a ind\u00fastria sufoca.<\/p>\n<p>Para quem coloca dinheiro em neg\u00f3cios no Brasil, a realidade \u00e9 dura. O crescimento potencial estimado em 1,5% ao ano \u2014 com risco de cair para 1,0% se a produtividade n\u00e3o reagir \u2014 deixa pouca margem para rentabilidade saud\u00e1vel.<\/p>\n<h2>A agenda de sobreviv\u00eancia: quatro pilares para escapar da armadilha<\/h2>\n<p>A Reforma Tribut\u00e1ria emerge como um farol em meio \u00e0 escurid\u00e3o do diagn\u00f3stico econ\u00f4mico brasileiro. Um estudo do Fundo Monet\u00e1rio Internacional indica que a moderniza\u00e7\u00e3o do sistema tribut\u00e1rio poderia elevar o PIB potencial em at\u00e9 6% no longo prazo \u2014 um salto expressivo alimentado principalmente pela elimina\u00e7\u00e3o da dispers\u00e3o de al\u00edquotas e pela redu\u00e7\u00e3o do custo de insumos intermedi\u00e1rios. O impacto na Produtividade Total dos Fatores (PTF) subiria pouco mais de 1%, transformando um cen\u00e1rio estagnado em din\u00e2mico.<\/p>\n<p>Mas reforma tribut\u00e1ria isolada n\u00e3o salva estrutura econ\u00f4mica doente. Os especialistas tra\u00e7am uma agenda de sobreviv\u00eancia \u2014 uma b\u00fassola clara para que o pa\u00eds escape da &#8220;armadilha da renda m\u00e9dia&#8221; e evite o colapso institucional que consumiu outras na\u00e7\u00f5es emergentes.<\/p>\n<ol>\n<li>Primeiro, libertar o Estado de grupos de interesse. O or\u00e7amento p\u00fablico precisa deixar de ser ref\u00e9m de corpora\u00e7\u00f5es protegidas. Simultaneamente, abrir a economia \u00e0 concorr\u00eancia global \u00e9 imperativo \u2014 embora o exemplo mexicano mostre que liberaliza\u00e7\u00e3o comercial sozinha falha se a informalidade for alta e a aloca\u00e7\u00e3o de recursos permanecer distorcida. Abertura sem base institucional s\u00f3lida n\u00e3o sustenta.<\/li>\n<li>Segundo, reconstruir a educa\u00e7\u00e3o do zero. Aumentar anos de escolaridade \u00e9 ilus\u00e3o se a qualidade for med\u00edocre. O pa\u00eds precisa de ensino t\u00e9cnico e superior voltados para inova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para credencialismo vazio. Enquanto apenas 24% dos adultos brasileiros t\u00eam ensino superior, a Coreia alcan\u00e7a 70%. Essa diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 estat\u00edstica \u2014 \u00e9 competitividade perdida.<\/li>\n<li>Terceiro, entregar seguran\u00e7a jur\u00eddica aos investidores. Previsibilidade atrai capital. Reformas como a trabalhista e marcos legais setoriais (saneamento, infraestrutura) s\u00e3o passos positivos, mas esbarram em decis\u00f5es judiciais que, em alguns casos, n\u00e3o consideram adequadamente a l\u00f3gica econ\u00f4mica e os incentivos envolvidos. De nada adianta reforma se o julgador n\u00e3o compreende suas implica\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<li>Quarto, reformar os incentivos \u00e0 poupan\u00e7a. Uma previd\u00eancia sustent\u00e1vel e um mercado de capitais moderno s\u00e3o urgentes. O pa\u00eds n\u00e3o poupa porque a m\u00e1quina estatal consome tudo e a popula\u00e7\u00e3o desconfia do futuro. Sem poupan\u00e7a dom\u00e9stica robusta, a na\u00e7\u00e3o permanece ref\u00e9m de financiamento externo e juros elevados.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8220;N\u00e3o existe atalho para o crescimento econ\u00f4mico. Apenas atrav\u00e9s do aumento da produtividade&#8221;, diz Silvia Mattos. O aviso \u00e9 s\u00f3brio: o Brasil n\u00e3o est\u00e1 biologicamente fadado ao fracasso, mas a era da &#8220;sorte&#8221; \u2014 commodities em alta, demografia favor\u00e1vel \u2014 terminou.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crescimento econ\u00f4mico do Brasil enfrenta um cen\u00e1rio de paralisia estrutural. 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