{"id":366706,"date":"2026-04-16T18:32:05","date_gmt":"2026-04-16T22:32:05","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=366706"},"modified":"2026-04-16T18:32:05","modified_gmt":"2026-04-16T22:32:05","slug":"em-novo-livro-celso-amorim-jura-que-o-globalismo-nao-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=366706","title":{"rendered":"Em novo livro, Celso Amorim jura que o globalismo n\u00e3o existe"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Celso Amorim tem 83 anos, passagens por minist\u00e9rios e um tipo de poder que n\u00e3o depende de um cargo oficial. Principal assessor internacional de Lula, esse guru da diplomacia petista tem influ\u00eancia direta na forma como o Brasil se posiciona politicamente no mundo.<\/p>\n<p>No final de fevereiro, Amorim lan\u00e7ou, sem muita repercuss\u00e3o, um livro que re\u00fane discursos apresentados por ele em universidades brasileiras entre 2004 e 2025. Mas a obra, intitulada <em>O Brasil em um Mundo Multipolar: Conversas com a Academia<\/em>, n\u00e3o \u00e9 apenas uma colet\u00e2nea organizada como um registro burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m funciona como uma resposta para um dos termos mais usados pela direita nos \u00faltimos anos: o chamado globalismo, que Amorim considera uma teoria conspirat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao longo de quase cem p\u00e1ginas, a publica\u00e7\u00e3o \u00e9 um verdadeiro manifesto doutrin\u00e1rio \u2014 e um documento revelador do que est\u00e1 por tr\u00e1s da estrat\u00e9gia internacional do PT.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata de um livro lan\u00e7ado por um instituto independente ou uma editora comercial. Com pref\u00e1cio assinado pelo atual ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Mauro Vieira, <em>O Brasil em um Mundo Multipolar<\/em> foi produzido e financiado pela Funda\u00e7\u00e3o Alexandre de Gusm\u00e3o (Funag), o bra\u00e7o editorial do Itamaraty.<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 uma obra chancelada pelo Estado. Quando Celso Amorim fala, est\u00e1 dando voz \u00e0 diplomacia do governo Lula.<\/p>\n<h2>Di\u00e1logo com ditaduras<\/h2>\n<p>A tese central da \u201cDoutrina Amorim\u201d pode ser resumida de forma relativamente simples. Segundo ele, o Brasil deve liderar, junto com o &#8220;Sul Global&#8221; (pa\u00edses em desenvolvimento da \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina), a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem mundial multipolar baseada em organismos internacionais.<\/p>\n<p>Isso significa defender um mundo em que o poder n\u00e3o fique concentrado em poucos pa\u00edses \u2014 como os EUA e as na\u00e7\u00f5es da Europa\u2014, mas seja distribu\u00eddo entre v\u00e1rios polos, como China, R\u00fassia e o pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n<p>Em vez de decis\u00f5es tomadas principalmente por acordos bilaterais ou pela for\u00e7a econ\u00f4mica e militar, essa ordem depende cada vez mais de institui\u00e7\u00f5es internacionais como ONU, G20 ou os BRICS para mediar conflitos, definir regras e coordenar pol\u00edticas globais.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o inclui a ideia de dialogar com todos os pa\u00edses, sem distin\u00e7\u00e3o de regime pol\u00edtico, e de manter uma dist\u00e2ncia estrat\u00e9gica em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente. Nesse modelo, o relacionamento com ditaduras \u00e9 tratado como algo leg\u00edtimo e necess\u00e1rio dentro do jogo geopol\u00edtico \u2014 mesmo que esses governos reprimam a liberdade de express\u00e3o, persigam opositores e violem direitos humanos.<\/p>\n<h2>Fantasia da direita<\/h2>\n<p>Um dos pontos mais provocativos do livro est\u00e1 justamente na forma como Celson Amorim trata o globalismo (uma agenda que, em linhas gerais, busca concentrar poder em organismos internacionais, enfraquecendo a autonomia das na\u00e7\u00f5es). Para o diplomata, o conceito \u00e9 uma fantasia da direita, usada por quem n\u00e3o simplesmente entende como o mundo funciona.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, em diversas passagens do livro, Amorim descreve com orgulho como ele pr\u00f3prio colaborou com as elites globais para reformar a ordem mundial, influenciar pol\u00edticas internas de outros pa\u00edses e construir institui\u00e7\u00f5es com poder acima dos Estados.<\/p>\n<p>A seguir, apresentamos 15 controv\u00e9rsias e contradi\u00e7\u00f5es gritantes do pensamento de Celso Amorim, extra\u00eddas diretamente do novo livro do guru de Lula.<\/p>\n<h2>1. \u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 Ocidente\u201d<\/h2>\n<p>Amorim defende que o Brasil deve parar de tentar ser \u201camigo\u201d s\u00f3 dos pa\u00edses ricos. Para ele, nossa turma \u00e9 a de pa\u00edses como China, R\u00fassia e Ir\u00e3. A quest\u00e3o \u00e9 que, al\u00e9m de ignorar nossa hist\u00f3ria crist\u00e3 e latina, ele prefere nos incluir num bloco de ditaduras s\u00f3 porque elas n\u00e3o s\u00e3o do \u201cEixo Norte\u201d.<\/p>\n<h2>2. Multilateralismo, a solu\u00e7\u00e3o para tudo<\/h2>\n<p>Segundo o autor, \u201co multilateralismo \u00e9, para o mundo, o que a democracia \u00e9 para os pa\u00edses\u201d. S\u00f3 que, numa democracia, o eleitor vota e pode tirar quem n\u00e3o gosta. J\u00e1 no plano internacional, o cidad\u00e3o comum nem chega perto de eleger o chefe da ONU. Para piorar, Celso Amorim aposta num sistema em que regimes sanguin\u00e1rios, como Venezuela e Cuba, ocupam assentos em conselhos de direitos humanos.<\/p>\n<h2>3. Globalismo para os outros, \u201cnova geografia\u201d para mim<\/h2>\n<p>Aqui, o diplomata faz uma manobra curiosa: diz que \u201cglobalismo\u201d \u00e9 coisa de quem acredita em \u201cteorias conspirat\u00f3rias\u201d e tem uma \u201cvis\u00e3o distorcida\u201d. Mas, poucas p\u00e1ginas depois, ele se gaba de ter reunido elites internacionais para reformar a ordem mundial e criar institui\u00e7\u00f5es que interferem nas pol\u00edticas de outros pa\u00edses. Amorim chama isso de \u201cuma nova geografia que se cria\u201d.<\/p>\n<h2>4. A conspira\u00e7\u00e3o da direita<\/h2>\n<p>Segundo Celso Amorim, a direita mundial \u00e9 um perigo organizado, que segue um \u201croteiro semelhante em diversos pa\u00edses\u201d. Na cabe\u00e7a dele, a uni\u00e3o dos seus oponentes \u00e9 um plano maligno, enquanto a jun\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de seu pr\u00f3prio lado \u00e9 apenas uma coopera\u00e7\u00e3o natural e necess\u00e1ria.<\/p>\n<h2>5. A nova direita: nazista e fascista<\/h2>\n<p>Para o diplomata, prevalece no Brasil uma \u201cextrema direita populista, que remete ao contexto da Europa nos anos 20 e 30\u201d. Ou seja, ele compara a direita atual a Hitler e a Mussolini, colocando no mesmo saco conservadores e extremistas violentos do s\u00e9culo passado \u2014 um dos recursos mais manjados e intelectualmente desonestos do vocabul\u00e1rio esquerdista.<\/p>\n<h2>6. Defesa da ideologia de g\u00eanero<\/h2>\n<p>Ainda em sua cr\u00edtica \u00e0 direita, Celso Amorim ataca quem preza pelos valores tradicionais. Segundo ele, a resist\u00eancia dos conservadores a certas mudan\u00e7as \u00e9 uma paranoia, e uma \u201cpauta igualit\u00e1ria como o feminismo \u00e9 retratada de maneira pejorativa como \u2018ideologia de g\u00eanero\u2019\u201d.<\/p>\n<h2>7. Uma na\u00e7\u00e3o de ignorantes<\/h2>\n<p>Amorim usa o termo \u201cobscurantismo\u201d para descrever quem defende pautas morais tradicionais. Ele diz que \u201cvis\u00f5es retr\u00f3gradas e obscurantistas continuam vivas\u201d e prontas para causar retrocessos. Historicamente, esse termo \u00e9 utilizado para se referir a quem \u00e9 contra a ci\u00eancia e a raz\u00e3o. Ao us\u00e1-lo contra quem tem convic\u00e7\u00f5es conservadora no Brasil, o diplomata acaba tratando milh\u00f5es de cidad\u00e3os como pessoas ignorantes e atrasadas<\/p>\n<h2>8. Anti-imperialismo seletivo<\/h2>\n<p>O autor \u00e9 um cr\u00edtico ferrenho da invas\u00e3o do Iraque, que chama de \u201cs\u00e9rio ataque ao direito internacional\u201d. Ele odeia a lideran\u00e7a global dos EUA. No entanto, quando a R\u00fassia invade um vizinho ou a China avan\u00e7a economicamente sobre a \u00c1frica, Celso Amorim fecha o bico ou pede a compreens\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas desses pa\u00edses. O anti-imperialismo dele s\u00f3 funciona contra Washington. Se o imp\u00e9rio for o de Moscou ou o de Pequim, Amorim vira um diplomata bem compreensivo.<\/p>\n<h2>9. O massacre (dos EUA) contra o povo cubano<\/h2>\n<p>\u201cCuba hoje est\u00e1 sofrendo muito\u201d, diz Celso Amorim, mas para ele a culpa \u00e9 toda dos embargos econ\u00f4micos impostos pelos Estados Unidos. Ainda segundo o diplomata, a ilha do Caribe \u00e9 \u201cerradamente classificada como um pa\u00eds que promove o terrorismo\u201d. Ele s\u00f3 esquece de mencionar no livro que a ditadura cubana, e n\u00e3o os americanos, j\u00e1 mataram cerca de 12 mil opositores do regime socialista nos \u00faltimos 60 anos.<\/p>\n<h2>10. Israel \u00e9 genocida, mas o Hamas&#8230;<\/h2>\n<p>Quando o assunto \u00e9 a guerra em Gaza, Amorim refor\u00e7a a fala de Lula: \u201cN\u00e3o h\u00e1 outra palavra para descrever o que est\u00e1 ocorrendo em Gaza a n\u00e3o ser genoc\u00eddio\u201d. Enquanto Israel \u00e9 criticado em v\u00e1rias p\u00e1ginas do livro, o ataque terrorista do Hamas \u2014 que matou milhares de civis \u2014 ganha apenas uma linha. Segundo o diplomata, o Hamas tem l\u00e1 seus defeitos, \u201cmas a rea\u00e7\u00e3o desproporcional de Israel tamb\u00e9m \u00e9 inaceit\u00e1vel\u201d. Fica claro que, para ele, o \u00fanico Estado democr\u00e1tico do Oriente M\u00e9dio \u00e9 o grande vil\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<h2>11. Papo furado<\/h2>\n<p>A grande marca de Amorim \u00e9 dizer que o Brasil resolve tudo no papo. \u201cReiteramos sempre nossa disposi\u00e7\u00e3o de ajudar com a melhor arma de que dispomos: o di\u00e1logo\u201d, afirma. Mas fica dif\u00edcil acreditar em negocia\u00e7\u00e3o quando ele j\u00e1 carimbou que Israel pratica \u201cgenoc\u00eddio\u201d. Como ser um mediador neutro se voc\u00ea j\u00e1 associou uma das partes ao pior crime que existe?<\/p>\n<h2>12. O \u201cgolpe\u201d do povo ucraniano<\/h2>\n<p>Celso Amorim tamb\u00e9m usa um \u201cmas\u201d para aliviar a barra de Putin. Segundo ele, \u00e9 \u201cing\u00eanuo supor que quest\u00f5es hist\u00f3ricas, como a expans\u00e3o da OTAN e o golpe que ocorreu na Ucr\u00e2nia em 2014, n\u00e3o tenham influenciado\u201d. Ao chamar a revolta popular ucraniana de \u201cgolpe\u201d, Amorim repete exatamente o que o governo russo diz para justificar a guerra. \u00c9 uma forma de culpar a v\u00edtima e os aliados dela pelo ataque que a R\u00fassia come\u00e7ou.<\/p>\n<h2>13. Putin e Zelensky t\u00eam o mesmo peso<\/h2>\n<p>Embora o livro pregue que \u201ca democracia tamb\u00e9m precisa ser valorizada\u201d, Celso Amorim trata um ditador e um presidente eleito como iguais. Ele conta, orgulhoso: \u201cEu mesmo estive com o presidente Putin, em Moscou, como tamb\u00e9m com o presidente Zelensky, em Kiev\u201d, colocando invasor e invadido na mesma balan\u00e7a diplom\u00e1tica. Se Amorim realmente valorizasse a democracia, n\u00e3o daria peso igual a um tirano e a um l\u00edder escolhido pelo povo.<\/p>\n<h2>14. Depende para quem se vende<\/h2>\n<p>Amorim \u00e9 contradit\u00f3rio em temas econ\u00f4micos. Ele afirma que a \u201ccren\u00e7a de que o livre com\u00e9rcio resolveria todos os problemas j\u00e1 n\u00e3o prevalece\u201d e critica acordos com pa\u00edses desenvolvidos como se fossem armadilhas. Mas, logo depois, comemora que o com\u00e9rcio brasileiro com a \u00c1frica e o Oriente M\u00e9dio cresceu muito. Para o diplomata, vender produtos \u00e9 bom se for para os pa\u00edses do \u201cSul\u201d, mas o livre com\u00e9rcio se torna perigoso se envolver os americanos.<\/p>\n<h2>Atraso em nome da soberania<\/h2>\n<p>O diplomata reclama muito que o \u201cprotecionismo nos pa\u00edses desenvolvidos p\u00f5e em risco o futuro da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio\u201d. Ele acha um absurdo os EUA criarem barreiras comerciais, por\u00e9m festeja o fim da ALCA (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas) como uma vit\u00f3ria da postura firme brasileira. Resumindo: \u00e9 ruim quando os outros fecham seus mercados, mas se o Brasil se fecha para \u201cproteger a ind\u00fastria\u201d, a\u00ed \u00e9 soberania e motivo de orgulho nacional.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celso Amorim tem 83 anos, passagens por minist\u00e9rios e um tipo de poder que n\u00e3o depende de um cargo oficial.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":366707,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-366706","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/366706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=366706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/366706\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/366707"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=366706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=366706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=366706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}