{"id":363254,"date":"2026-04-15T08:22:14","date_gmt":"2026-04-15T12:22:14","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=363254"},"modified":"2026-04-15T08:22:14","modified_gmt":"2026-04-15T12:22:14","slug":"como-a-guerra-no-ira-vai-afetar-o-agronegocio-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=363254","title":{"rendered":"Como a guerra no Ir\u00e3 vai afetar o agroneg\u00f3cio brasileiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A agricultura moderna \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, uma opera\u00e7\u00e3o de convers\u00e3o termodin\u00e2mica: transforma energia f\u00f3ssil em nitrog\u00eanio fixado, nitrog\u00eanio fixado em prote\u00edna vegetal e prote\u00edna vegetal em calorias para 8 bilh\u00f5es de pessoas. Essa cadeia n\u00e3o \u00e9 apenas produtiva, mas civilizacional: trata-se de um dos raros sistemas em que energia, qu\u00edmica e geopol\u00edtica convergem para sustentar a estabilidade social global. Sua ruptura n\u00e3o produz apenas escassez, mas tamb\u00e9m desordem.<\/p>\n<p>Parte significativa da cadeia produtiva depende de um punhado de insumos qu\u00edmicos cuja produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 concentrada em menos de dez pa\u00edses, e cujo transporte, no caso do abastecimento de fertilizantes para o mercado brasileiro, depende, em consider\u00e1vel medida, de um gargalo mar\u00edtimo de 33 quil\u00f4metros de largura situado entre o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/ira\/\">Ir\u00e3<\/a> e Om\u00e3.<\/p>\n<p>Em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram opera\u00e7\u00f5es militares contra o Ir\u00e3, esse gargalo se fechou. O tr\u00e1fego comercial pelo Estreito de Ormuz caiu mais de 90%. O barril Brent saltou de US$ 72 para US$ 112 em menos de um m\u00eas. O mundo leu primariamente petr\u00f3leo e derivados. O Brasil deveria ter lido fertilizantes. O Estreito de Ormuz, nesse contexto, deixou de ser apenas um ponto de estrangulamento log\u00edstico e assumiu a fun\u00e7\u00e3o de ativo geoecon\u00f4mico, um instrumento de poder capaz de modular pre\u00e7os, fluxos e decis\u00f5es produtivas em escala global.<\/p>\n<blockquote>\n<p>. No caso da ureia, principal fertilizante nitrogenado, o Brasil importa mais de 90% do que consome; 33% prov\u00eam do Oriente M\u00e9dio (Om\u00e3, Catar, Ir\u00e3) e 41% do volume total transitavam pelo Estreito de Ormuz.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o conhecidos, mas sua implica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica permanece subavaliada pelo debate p\u00fablico. O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome. Em 2025, o volume atingiu 45,5 milh\u00f5es de toneladas, recorde hist\u00f3rico, ao custo de US$ 16,73 bilh\u00f5es. A R\u00fassia responde por cerca de 24% do total importado (US$ 3,5 bilh\u00f5es), seguida pela China (14%, US$ 2,1 bilh\u00f5es) e por Marrocos (11%, US$ 1,59 bilh\u00e3o).<\/p>\n<p>Todavia, a desagrega\u00e7\u00e3o por produto revela o grau real da exposi\u00e7\u00e3o. No caso da ureia, principal fertilizante nitrogenado, o Brasil importa mais de 90% do que consome; 33% prov\u00eam do Oriente M\u00e9dio (Om\u00e3, Catar, Ir\u00e3) e 41% do volume total transitavam pelo Estreito de Ormuz. O cloreto de pot\u00e1ssio, cr\u00edtico para a soja, depende da R\u00fassia (45%) e do Canad\u00e1 (38%). O MAP (fosfato monoam\u00f4nico) vem da R\u00fassia (46%) e da Ar\u00e1bia Saudita (25%). O superfosfato, do Egito (42%), da China (36%) e de Israel (10%). As duas principais origens dos fertilizantes brasileiros s\u00e3o, portanto, um pa\u00eds em guerra desde 2022 e uma regi\u00e3o em guerra desde fevereiro de 2026. Essa configura\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 resultado de fatalidade geogr\u00e1fica, mas de decis\u00f5es estrat\u00e9gicas n\u00e3o tomadas.<\/p>\n<p>A vulnerabilidade brasileira n\u00e3o \u00e9 apenas elevada, mas tamb\u00e9m \u00e9 sist\u00eamica e n\u00e3o-linear: pequenas disrup\u00e7\u00f5es log\u00edsticas podem produzir efeitos desproporcionais sobre pre\u00e7os, oferta e decis\u00f5es de plantio. Em mercados de <em>commodities<\/em> cr\u00edticas, volatilidade n\u00e3o \u00e9 ru\u00eddo, mas \u00a0mecanismo de sele\u00e7\u00e3o. Pa\u00edses expostos tendem a perder capacidade produtiva relativa ao longo do tempo.<\/p>\n<p>O impacto da guerra sobre as cadeias de fertilizantes \u00e9 direto e mensur\u00e1vel. Desde o fechamento de Ormuz, a ureia acumula alta de 50%, embora permane\u00e7a 25% a 35% abaixo do pico de mar\u00e7o de 2022. O enxofre, insumo essencial para fertilizantes fosfatados, praticamente desapareceu do com\u00e9rcio internacional com a retirada dos volumes do Golfo; o Canad\u00e1 tornou-se a \u00faltima fonte alternativa em escala relevante. A am\u00f4nia segue trajet\u00f3ria an\u00e1loga.<\/p>\n<p>Em paralelo, a R\u00fassia suspendeu exporta\u00e7\u00f5es de nitrato de am\u00f4nio at\u00e9 o final de abril para proteger seu mercado interno, e a China restringiu vendas externas de ureia para priorizar a agricultura dom\u00e9stica. As tr\u00eas grandes fontes globais de fertilizantes nitrogenados est\u00e3o, simultaneamente, fora do mercado ou sob restri\u00e7\u00f5es severas. N\u00e3o se trata de um choque transit\u00f3rio de pre\u00e7os. Trata-se de uma ruptura estrutural de oferta que coincide com a temporada de plantio do Hemisf\u00e9rio Norte e que antecede, por poucos meses, o in\u00edcio do plantio da safra brasileira 2026\/27.<\/p>\n<p>O prec\u00e1rio cessar-fogo de duas semanas acordado entre Estados Unidos, Israel e Ir\u00e3 em 7 e 8 de abril ofereceu al\u00edvio aos mercados financeiros: o petr\u00f3leo recuou, as bolsas reagiram positivamente. Cessa\u00e7\u00f5es de hostilidades, contudo, n\u00e3o revertem ciclos agr\u00edcolas. A safra 2025\/26 brasileira est\u00e1 em fase de colheita e a safrinha em fase de plantio, em muitos casos com aplica\u00e7\u00e3o deficiente de nitrog\u00eanio, seja por indisponibilidade f\u00edsica do insumo, seja por pre\u00e7os proibitivos. O tempo da pol\u00edtica \u00e9 discricion\u00e1rio; o da agricultura \u00e9 biol\u00f3gico. Quando o primeiro falha, o segundo n\u00e3o espera.<\/p>\n<p>O diesel, parcialmente dependente do petr\u00f3leo do Golfo, j\u00e1 apresenta escassez localizada em regi\u00f5es produtoras, pressionando o frete rodovi\u00e1rio. Os custos de produ\u00e7\u00e3o sobem por dois vetores simult\u00e2neos (insumos e log\u00edstica), enquanto o produtor rural, tomador de pre\u00e7os em mercados de <em>commodities<\/em>, n\u00e3o disp\u00f5e de mecanismo proporcional de repasse. Analistas do setor estimam que, mesmo com a reabertura do estreito, a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo do Golfo n\u00e3o retornar\u00e1 a n\u00edveis pr\u00e9-conflito antes do final de 2026.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Ir\u00e3 foi, em 2025, o maior comprador individual de milho brasileiro.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para fertilizantes, a perspectiva de normaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais distante, dado o tempo necess\u00e1rio para reparar instala\u00e7\u00f5es bombardeadas, recompor estoques, reativar rotas log\u00edsticas e renegociar contratos de fornecimento. O caso do complexo gas\u00edfero de Ras Laffan, no Catar, \u00e9 emblem\u00e1tico: respons\u00e1vel pelo fornecimento de 17% de todo o g\u00e1s natural liquefeito (GNL) global, a instala\u00e7\u00e3o foi bombardeada pelo Ir\u00e3 em 2 de mar\u00e7o e desde ent\u00e3o suas opera\u00e7\u00f5es est\u00e3o suspensas. O governo catari estima que Ras Laffan retomar\u00e1 os n\u00edveis de opera\u00e7\u00e3o pr\u00e9-conflito entre 2029 e 2031, circunst\u00e2ncia que, ademais de afetar no m\u00e9dio prazo a disponibilidade de GNL, impacta tamb\u00e9m o fornecimento de enxofre, ureia e fertilizantes nitrogenados.<\/p>\n<h2>Exporta\u00e7\u00f5es de milho tamb\u00e9m podem ser prejudicadas<\/h2>\n<p>H\u00e1 uma segunda dimens\u00e3o do problema que a cobertura corrente tem subestimado, para n\u00e3o dizer negligenciado completamente. O Ir\u00e3 foi, em 2025, o maior comprador individual de milho brasileiro: cerca de 9 milh\u00f5es de toneladas, equivalentes a 20% das exporta\u00e7\u00f5es totais do gr\u00e3o. O Oriente M\u00e9dio absorveu 30% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de frango e 32% das de milho. A Liga \u00c1rabe foi respons\u00e1vel por US$ 10,3 bilh\u00f5es em importa\u00e7\u00f5es de alimentos do Brasil, segundo maior bloco comprador, atr\u00e1s apenas da \u00c1sia.<\/p>\n<p>A guerra interrompeu, portanto, os dois sentidos do fluxo comercial: fertilizantes na dire\u00e7\u00e3o do Brasil, prote\u00ednas e gr\u00e3os na dire\u00e7\u00e3o do Golfo. Exportadores de carne j\u00e1 redirecionam cargas pelo Cabo da Boa Esperan\u00e7a, acrescentando duas semanas ao tr\u00e2nsito e elevando custos de combust\u00edvel em at\u00e9 40%. A empresa de transporte mar\u00edtimo alem\u00e3 Hapag-Lloyd cobra US$ 3.500 por cont\u00eainer refrigerado com destino ao Golfo. A exposi\u00e7\u00e3o brasileira ao Oriente M\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 apenas de insumos. \u00c9 sist\u00eamica.<\/p>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 a principal benefici\u00e1ria colateral da disrup\u00e7\u00e3o. O primeiro-ministro Mishustin afirmou que o conflito no Oriente M\u00e9dio cria &#8220;novas oportunidades comerciais&#8221; para Moscou, segundo maior exportador de petr\u00f3leo, maior exportador de trigo e um dos maiores fornecedores globais de fertilizantes.<\/p>\n<p>Os dados confirmam a tend\u00eancia: as exporta\u00e7\u00f5es russas de fertilizantes para o BRICS cresceram mais de 60% nos \u00faltimos tr\u00eas anos, e o Brasil absorve quase um quarto desse volume. A depend\u00eancia brasileira de fertilizantes russos n\u00e3o resulta de uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica deliberada. Resulta da aus\u00eancia sistem\u00e1tica de qualquer decis\u00e3o alternativa, o que produz o mesmo efeito pr\u00e1tico: concentra\u00e7\u00e3o de fornecimento em um ator cujos interesses geopol\u00edticos n\u00e3o coincidem com os brasileiros e cuja viabilidade como parceiro comercial ora indispens\u00e1vel est\u00e1 condicionada a vari\u00e1veis que o Brasil n\u00e3o controla.<\/p>\n<p>A premissa impl\u00edcita dessa estrat\u00e9gia, a de que o mercado internacional permaneceria permanentemente l\u00edquido, previs\u00edvel e despolitizado, prim\u00e1ria em sua estultice, revelou-se evidentemente equivocada. Cadeias cr\u00edticas n\u00e3o operam sob l\u00f3gica de mercado puro em cen\u00e1rios de conflito.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A esquerda brasileira, que governa o pa\u00eds, n\u00e3o disp\u00f5e de um projeto estrat\u00e9gico para o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O Plano Nacional de Fertilizantes, lan\u00e7ado em 2022 ap\u00f3s o choque provocado pela guerra na Ucr\u00e2nia, estabeleceu como meta reduzir a depend\u00eancia externa para 45% at\u00e9 2050. A meta \u00e9 demasiadamente modesta: o pa\u00eds se prop\u00f4s a levar quase tr\u00eas d\u00e9cadas para atingir pouco mais da metade da autossufici\u00eancia em um insumo do qual depende integralmente sua seguran\u00e7a alimentar e parcela decisiva de sua balan\u00e7a comercial. Os investimentos programados (US$ 5,75 bilh\u00f5es entre 2022 e 2026 em minera\u00e7\u00e3o de f\u00f3sforo e pot\u00e1ssio) s\u00e3o insuficientes para a escala do desafio, e seu virtual abandono, sem qualquer proposta alternativa, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, s\u00f3 agrava o problema.<\/p>\n<h2>Governo n\u00e3o tem projeto estrat\u00e9gico<\/h2>\n<p>O diagn\u00f3stico, contudo, vai al\u00e9m da implementa\u00e7\u00e3o. A esquerda brasileira, que governa o pa\u00eds, n\u00e3o disp\u00f5e de um projeto estrat\u00e9gico para o agroneg\u00f3cio porque n\u00e3o disp\u00f5e, a rigor, de um projeto estrat\u00e9gico para o Brasil. Sua pol\u00edtica externa se esgota em gesticula\u00e7\u00e3o multilateral no \u00e2mbito do &#8220;Sul Global&#8221;, confundindo presen\u00e7a em f\u00f3runs com capacidade de influ\u00eancia. Ao privilegiar f\u00f3runs multilaterais inoperantes em detrimento de instrumentos concretos de poder econ\u00f4mico e produtivo, incorre no que a literatura denomina diplomacia de baixa materialidade: presen\u00e7a ret\u00f3rica sem lastro estrutural.<\/p>\n<p>Sua pol\u00edtica econ\u00f4mica oscila entre distributivismo de curto prazo e captura do Estado por interesses setoriais desconectados de qualquer vis\u00e3o de desenvolvimento. O agroneg\u00f3cio, que responde por quase 25% do PIB (2025) e pela maior parcela do super\u00e1vit comercial, \u00e9 tratado como advers\u00e1rio ideol\u00f3gico, n\u00e3o como ativo estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>O caso dos fertilizantes nitrogenados \u00e9 exemplar. A Petrobras desativou as F\u00e1bricas de Fertilizantes Nitrogenados (FAFENS), que produziam ureia e am\u00f4nia a partir de g\u00e1s natural, alegando inefici\u00eancia financeira. A Arauc\u00e1ria Nitrogenados, subsidi\u00e1ria retomada em 2024, opera abaixo de sua capacidade. Enquanto isso, o Marrocos expande sua capacidade produtiva por meio da OCP (que j\u00e1 fornece 20% das importa\u00e7\u00f5es indianas de rocha fosf\u00e1tica e domina o mercado de DAP daquele pa\u00eds), e a Ar\u00e1bia Saudita investe em novas plantas de ureia. A depend\u00eancia brasileira de fertilizantes nitrogenados, que era de 75% em 2015, quando as FAFENS operavam, subiu para cerca de 95% em 2025. N\u00e3o se corrigiu a inefici\u00eancia; eliminou-se a capacidade.<\/p>\n<p>A resposta exige duas frentes simult\u00e2neas, sem a ilus\u00e3o de que qualquer delas produza resultados no curto prazo. Na frente da diversifica\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, o objetivo \u00e9 reduzir a concentra\u00e7\u00e3o em fornecedores expostos a riscos geopol\u00edticos elevados. Isso implica ampliar compras de pot\u00e1ssio canadense (que j\u00e1 responde por 38% e poderia absorver parte da fatia russa), aprofundar a parceria com Marrocos para fosfatados (cujas exporta\u00e7\u00f5es ao Brasil cresceram 30% em 2025), expandir aquisi\u00e7\u00f5es de ureia nigeriana (23% do fornecimento) e argelina (9%), e negociar contratos de longo prazo com Trinidad e Tobago e Mal\u00e1sia para am\u00f4nia e ureia. Diversifica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica n\u00e3o elimina vulnerabilidades, mas distribui riscos. Um portf\u00f3lio de fornecedores distribu\u00eddo por quatro continentes \u00e9 estruturalmente mais resiliente do que a concentra\u00e7\u00e3o vigente no eixo R\u00fassia-Golfo P\u00e9rsico.<\/p>\n<p>Na frente dom\u00e9stica, o Brasil disp\u00f5e de recursos minerais significativos, por\u00e9m subexplorados. A oitava maior reserva de pot\u00e1ssio do mundo est\u00e1 na Amaz\u00f4nia, onde o projeto da empresa Brazil Potash enfrenta d\u00e9cadas de resist\u00eancia ambiental e burocr\u00e1tica. F\u00f3sforo existe em Minas Gerais, Goi\u00e1s e Tocantins, com capacidade produtiva que pode ser ampliada. Nitrog\u00eanio \u00e9 o caso mais dif\u00edcil: sua produ\u00e7\u00e3o depende de g\u00e1s natural, e o Brasil, embora disponha de reservas no pr\u00e9-sal, n\u00e3o construiu a infraestrutura necess\u00e1ria para converter g\u00e1s em fertilizante em escala competitiva. A coopera\u00e7\u00e3o com a Bol\u00edvia, que disp\u00f5e de g\u00e1s e de reservas minerais, \u00e9 alternativa l\u00f3gica que a Embrapa j\u00e1 explora, mas em ritmo incompat\u00edvel com a urg\u00eancia do problema.<\/p>\n<p>O desenvolvimento das reservas amaz\u00f4nicas de pot\u00e1ssio ser\u00e1, provavelmente, uma das decis\u00f5es mais importantes e politicamente custosas desta d\u00e9cada. A explora\u00e7\u00e3o mineral na Amaz\u00f4nia enfrenta resist\u00eancia leg\u00edtima, mas enfrenta tamb\u00e9m a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do debate ambiental por atores que, deliberadamente ou n\u00e3o, contribuem para perpetuar a depend\u00eancia externa. O Canad\u00e1 extrai pot\u00e1ssio em escala industrial em Saskatchewan com impacto ambiental controlado. A alternativa real \u00e0 explora\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o intocada, mas a manuten\u00e7\u00e3o de uma depend\u00eancia que transfere a fornecedores estrangeiros o poder de condicionar a capacidade produtiva da agricultura brasileira.<\/p>\n<p>A guerra de 2026 no Oriente M\u00e9dio representa, para o agroneg\u00f3cio brasileiro, o equivalente funcional da crise do petr\u00f3leo de 1973 para a pol\u00edtica energ\u00e9tica dos pa\u00edses industrializados: um choque que exp\u00f5e uma vulnerabilidade estrutural pr\u00e9-existente, obscurecida pela rotina da abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Diferentemente daquele epis\u00f3dio, por\u00e9m, o choque atual incide sobre um insumo intermedi\u00e1rio invis\u00edvel ao p\u00fablico, o que reduz a percep\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia pol\u00edtica e amplia o risco de ina\u00e7\u00e3o. Em economias complexas, seguran\u00e7a alimentar n\u00e3o \u00e9 uma vari\u00e1vel agr\u00edcola, mas um componente central da seguran\u00e7a nacional, com implica\u00e7\u00f5es diretas sobre infla\u00e7\u00e3o, estabilidade pol\u00edtica e coes\u00e3o social.<\/p>\n<p>Em 1973, os pa\u00edses afetados reagiram com investimentos de longo prazo: os Estados Unidos criaram a Reserva Estrat\u00e9gica de Petr\u00f3leo; a Fran\u00e7a acelerou seu programa nuclear; o Jap\u00e3o diversificou fontes de energia com disciplina met\u00f3dica. \u00a0O Brasil de 2026 n\u00e3o disp\u00f5e de reserva estrat\u00e9gica de fertilizantes, n\u00e3o possui plano cr\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es desses insumos e n\u00e3o demonstra, no n\u00edvel decis\u00f3rio, consci\u00eancia proporcional \u00e0 gravidade do problema.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o est\u00e1 fora dessa guerra, mas exposto a ela sem sequer reconhec\u00ea-la. Enquanto o mundo reorganiza cadeias produtivas sob a l\u00f3gica da seguran\u00e7a e do poder, seguimos tratando fertilizantes como uma quest\u00e3o comercial, e n\u00e3o estrat\u00e9gica. Se as disrup\u00e7\u00f5es no fornecimento de fertilizantes persistirem at\u00e9 setembro, quando se inicia o plantio da safra 2026\/27, as consequ\u00eancias exceder\u00e3o as margens dos produtores e alcan\u00e7ar\u00e3o a infla\u00e7\u00e3o de alimentos de toda a economia. A conta dessa miopia n\u00e3o vir\u00e1 em relat\u00f3rios t\u00e9cnicos, mas no pre\u00e7o dos alimentos, na renda do produtor e na estabilidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe reserva estrat\u00e9gica de ureia e n\u00e3o existe protocolo que substitua nitrog\u00eanio no solo fora da janela de plantio. O rel\u00f3gio dos mercados de energia e o rel\u00f3gio da agricultura operam em velocidades distintas, e o segundo n\u00e3o se subordina a acordos de cessar-fogo. O Brasil disp\u00f5e de terra, \u00e1gua, insola\u00e7\u00e3o e minerais. O que lhe falta \u00e9 a decis\u00e3o pol\u00edtica de converter recursos em soberania, que n\u00e3o \u00e9 um conceito abstrato, mas a capacidade de garantir o essencial quando o sistema falha. Sem ela, permaneceremos o que somos: um pa\u00eds que exporta <em>commodities<\/em> e importa vulnerabilidades.<\/p>\n<p><em>Marcos Degaut, ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa e ex-secret\u00e1rio-executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (CAMEX), \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional.<\/em><\/p>\n<p><em>Lindolpho Cademartori \u00e9 diplomata de carreira desde 2006 e Mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Suas opini\u00f5es s\u00e3o estritamente pessoais e n\u00e3o necessariamente refletem as do MRE.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A agricultura moderna \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, uma opera\u00e7\u00e3o de convers\u00e3o termodin\u00e2mica: transforma energia f\u00f3ssil em nitrog\u00eanio fixado, nitrog\u00eanio fixado&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":363255,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-363254","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/363254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=363254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/363254\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/363255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=363254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=363254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=363254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}