{"id":352445,"date":"2026-04-11T12:00:00","date_gmt":"2026-04-11T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=352445"},"modified":"2026-04-11T12:00:00","modified_gmt":"2026-04-11T16:00:00","slug":"dna-no-sudario-de-turim-sugere-andancas-do-pano-pelo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=352445","title":{"rendered":"DNA no Sud\u00e1rio de Turim sugere andan\u00e7as do pano pelo mundo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/04\/10192351\/sudario-2015-missa.jpg.webp\" \/><span>Missa celebrada diante do Sud\u00e1rio de Turim durante exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica da rel\u00edquia, em 2015. (Foto: Alessandro di Marco\/EFE\/EPA)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>No \u00faltimo dia 31 de mar\u00e7o, durante a Semana Santa, um grupo de pesquisadores liderado por Gianni Barcaccia, professor de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/genetica\/\">Gen\u00e9tica <\/a>e Gen\u00f4mica da Universidade de P\u00e1dua, colocou na internet a <a href=\"https:\/\/www.biorxiv.org\/content\/10.64898\/2026.03.19.712852v2.full\">vers\u00e3o mais recente de um artigo ainda em <em>pre-print<\/em><\/a>, como s\u00e3o chamados os <em>papers<\/em> em fase de an\u00e1lise para publica\u00e7\u00e3o em revistas cient\u00edficas, em que os pesquisadores analisam tra\u00e7os de DNA no Sud\u00e1rio de Turim, ou Santo Sud\u00e1rio, e encontram ind\u00edcios de uma poss\u00edvel origem indiana do pano, al\u00e9m de sugerir locais por onde ele pode ter passado ao longo de sua hist\u00f3ria \u2013 inclusive o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/oriente-medio\/\">Oriente M\u00e9dio<\/a>.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O leitor do <strong>Tubo de Ensaio<\/strong> que acompanha as publica\u00e7\u00f5es sobre o Sud\u00e1rio sabe que eu o considero um objeto \u201cimprest\u00e1vel\u201d para data\u00e7\u00f5es por v\u00e1rios fatores, que incluem todas as \u201caventuras\u201d pelas quais o pano passou, como inc\u00eandios, al\u00e9m da manipula\u00e7\u00e3o pesada. Muita gente literalmente botou a m\u00e3o no Sud\u00e1rio ao longo dos s\u00e9culos, e isso deixa sua marca. Pois \u00e9 justamente essa marca que os pesquisadores liderados por Barcaccia analisaram, avan\u00e7ando em rela\u00e7\u00e3o a um estudo semelhante feito por eles em 2015. Desta vez, eles usaram um novo conjunto de 12 amostras, como filamentos de linho e material aspirado do Sud\u00e1rio em 1978, durante a grande rodada de testes do Shroud of Turin Research Project (Sturp). Alguns desses filamentos, por exemplo, foram extra\u00eddos pelo professor Pierluigi Baima Bollone, que tamb\u00e9m fazia parte do grupo de Barcaccia, mas faleceu antes da publica\u00e7\u00e3o deste artigo. Foi Bollone quem identificou o tipo AB nas manchas de sangue presentes no Sud\u00e1rio, nos anos 80.<\/p>\n<h2>Tecido pode ter sido fabricado na \u00cdndia e exportado para o Oriente M\u00e9dio<\/h2>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O DNA humano examinado pela equipe de Barcaccia, no entanto, <em>n\u00e3o \u00e9<\/em> o do chamado \u201cHomem do Sud\u00e1rio\u201d, mas o de pessoas que, em algum momento, tiveram contato com o pano. Essa informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u00e9 interessante porque, pela identifica\u00e7\u00e3o dos haplogrupos, \u00e9 poss\u00edvel rastrear a origem geogr\u00e1fica dos \u201cdonos\u201d desse DNA. No caso do Sud\u00e1rio, isso pode dar pistas sobre a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/tubo-de-ensaio\/a-pre-historia-do-sudario-de-turim\/\">\u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d<\/a> do pano \u2013 afinal, depois que ele aparece em Lirey, no s\u00e9culo 14, seu paradeiro \u00e9 bem conhecido. O mist\u00e9rio envolve o que aconteceu antes disso, caso o Sud\u00e1rio n\u00e3o seja uma obra medieval; uma das teorias defende que o Sud\u00e1rio foi levado de Jerusal\u00e9m para a \u00c1sia Menor, e dali para Constantinopla; sumiu no saque da cidade durante a Quarta Cruzada, e reapareceu na Fran\u00e7a.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O DNA de haplogrupos indianos encontrado no Sud\u00e1rio poderia ser das pessoas que confeccionaram o pano (ou ao menos os fios), depois exportado para o Oriente M\u00e9dio<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os novos resultados confirmaram o que os especialistas j\u00e1 tinham encontrado em 2015: mais da metade do material gen\u00e9tico humano presente nas amostras correspondia a haplogrupos associados ao Oriente M\u00e9dio \u2013 um deles, o H33, \u00e9 mais raro, e frequente entre o povo druso, \u201cuma minoria \u00e9tnico-religiosa de fala \u00e1rabe, atualmente presente na Terra Santa, na Jord\u00e2nia, no L\u00edbano e na S\u00edria\u201d. Por outro lado, a propor\u00e7\u00e3o de DNA de haplogrupos associados \u00e0 Europa Ocidental \u00e9 bem pequena: 5,6%, muito menos que os 38,7% de DNA de haplogrupos do subcontinente indiano. Mas o que os indianos estariam fazendo ali no Sud\u00e1rio?<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel est\u00e1 no interc\u00e2mbio comercial entre a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/india\/\">\u00cdndia <\/a>e o Oriente M\u00e9dio. E entre os itens provenientes do subcontinente indiano estavam justamente tecidos de linho. Os autores do artigo lembram que o termo grego <em>sind\u00f4n <\/em>\u2013 do qual deriva, por exemplo, a palavra italiana para o Sud\u00e1rio, <em>sindone<\/em>, da\u00ed os estudiosos do Sud\u00e1rio de Turim serem chamados \u201csindonologistas\u201d \u2013, usado para descrever linho fino, poderia ter rela\u00e7\u00e3o com a regi\u00e3o indiana de Sindh, famosa pela qualidade do seu produto t\u00eaxtil. Ou seja, o DNA encontrado no Sud\u00e1rio poderia ser o das pessoas que confeccionaram o pano (ou ao menos os fios) no subcontinente indiano, o que seria uma adi\u00e7\u00e3o interessante \u00e0 hist\u00f3ria do tecido.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/04\/10191202\/sudario-antonio-tempesta.jpg.webp\" \/><i>Detalhe de gravura de Antonio Tempesta mostrando exibi\u00e7\u00e3o do Sud\u00e1rio em 1613: ser\u00e1 que todas aquelas m\u00e3ozinhas ali segurando o Sud\u00e1rio estavam protegidas com luvas? (Foto: Dom\u00ednio p\u00fablico)<\/i><\/p>\n<h2>Material n\u00e3o humano tamb\u00e9m conta hist\u00f3rias interessantes<\/h2>\n<p>A equipe de Barcaccia ainda vasculhou microrganismos e vest\u00edgios de outros seres vivos nas amostras do Sud\u00e1rio. Os pesquisadores encontraram muitos microrganismos presentes na pele humana, o que corrobora a ideia de muita manipula\u00e7\u00e3o do Sud\u00e1rio ao longo do tempo; tamb\u00e9m encontraram tra\u00e7os de coral vermelho, esp\u00e9cie t\u00edpica do Mar Mediterr\u00e2neo, e plantas e frutas comuns no Oriente M\u00e9dio (mas que n\u00e3o se restringem a essa regi\u00e3o), como pistache, figo e am\u00eandoa; elas, no entanto, s\u00e3o apenas parte de uma enorme lista de vegetais identificados, incluindo trigo, pimenta e vegetais origin\u00e1rios da Am\u00e9rica, e que s\u00f3 chegaram ao Velho Mundo ap\u00f3s as Grandes Navega\u00e7\u00f5es, como tomate, milho e amendoim. Entre as esp\u00e9cies animais encontradas est\u00e3o v\u00e1rios animais de cria\u00e7\u00e3o, como galinhas, porcos e bovinos; c\u00e3es e gatos; e animais selvagens como cervos. Os cientistas encontraram, ainda, tra\u00e7os de ratos e camundongos, o que \u201csugere poss\u00edvel contamina\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, e de peixes \u2013 at\u00e9 bacalhau apareceu.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Mas, de todo esse microbioma, o que me pareceu mais interessante foi a descoberta de organismos unicelulares (arqueias) caracter\u00edsticos de ambientes de alta salinidade, como \u00e9 a regi\u00e3o do Mar Morto, onde o Sud\u00e1rio poderia ter sido guardado nos primeiros anos ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, para aqueles que acreditam na autenticidade do pano como o tecido que envolveu o corpo de Jesus no sepulcro. Os pesquisadores ainda afirmam que a presen\u00e7a de outros fungos, incluindo alguns encontrados em \u201c\u00e1guas hipersalinas\u201d, \u201clevanta perguntas adicionais\u201d.<\/p>\n<h2>O que o estudo diz e o que ele n\u00e3o diz<\/h2>\n<p>Nas conclus\u00f5es, os autores afirmam que \u201ca idade do Sud\u00e1rio de Turim n\u00e3o pode ser determinada pela metagen\u00f4mica porque esse m\u00e9todo \u00e9 incapaz de providenciar evid\u00eancia robusta que apoie tanto a hip\u00f3tese de origem medieval quanto uma hist\u00f3ria de dois mil\u00eanios\u201d. Por exemplo, a presen\u00e7a de vest\u00edgios de \u201cesp\u00e9cies p\u00f3s-colombianas (&#8230;) apresenta uma dificuldade adicional significativa a respeito da antiguidade do Sud\u00e1rio, embora n\u00e3o se possa descartar uma contamina\u00e7\u00e3o tardia\u201d. O certo, dizem os pesquisadores, \u00e9 que \u201ca evid\u00eancia gen\u00e9tica e microbiana mostra uma hist\u00f3ria complexa do Sud\u00e1rio de Turim\u201d e que \u201cnossos achados s\u00e3o uma nova e significativa contribui\u00e7\u00e3o para a \u00e1rea, elucidando os tra\u00e7os biol\u00f3gicos deixados por s\u00e9culos de intera\u00e7\u00f5es sociais, culturais e ecol\u00f3gicas\u201d.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O padre Rafael Pascual, diretor do <a href=\"https:\/\/othonia.org\/\">Othonia<\/a>, grupo que re\u00fane especialistas no Sud\u00e1rio, afirmou ao <strong>Tubo de Ensaio<\/strong> que, dentre os achados do time liderado por Barcaccia, lhe parece especialmente interessante \u201ca poss\u00edvel origem oriental (indiana) do linho, o que seria um argumento contra a hip\u00f3tese do \u2018fals\u00e1rio medieval\u2019\u201d. Al\u00e9m disso, \u201ca abund\u00e2ncia de elementos contaminantes trata de v\u00e1rios indicadores da hist\u00f3ria do Sud\u00e1rio e volta a questionar a confiabilidade dos resultados do teste de carbono-14\u201d. Mas o sacerdote, que tamb\u00e9m \u00e9 diretor de um curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o sobre o Sud\u00e1rio no Ateneu Pontif\u00edcio Regina Apostolorum, em Roma, ressalta que \u00e9 preciso \u201cesperar que a comunidade cient\u00edfica valide os resultados dos estudos\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Missa celebrada diante do Sud\u00e1rio de Turim durante exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica da rel\u00edquia, em 2015. 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