{"id":351716,"date":"2026-04-11T05:01:00","date_gmt":"2026-04-11T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=351716"},"modified":"2026-04-11T05:01:00","modified_gmt":"2026-04-11T09:01:00","slug":"fracasso-do-estado-crime-organizado-funciona-como-empresa-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=351716","title":{"rendered":"Fracasso do Estado: crime organizado funciona como empresa no Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O Brasil insiste em tratar o crime organizado como caso de pol\u00edcia. \u00c9 um erro. Trata-se, antes de tudo, de um problema econ\u00f4mico \u2013 e de um sintoma de falha institucional. Os n\u00fameros s\u00e3o eloquentes. Estimativas do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica indicam que o custo da viol\u00eancia no pa\u00eds supera R$ 500 bilh\u00f5es por ano, algo pr\u00f3ximo de 5% do PIB. Em paralelo, mercados ilegais \u2013 especialmente o de drogas \u2013 movimentam dezenas de bilh\u00f5es de reais anualmente. N\u00e3o se trata de marginalidade: trata-se de uma economia paralela robusta, lucrativa e resiliente.<\/p>\n<p>A teoria econ\u00f4mica explica por qu\u00ea. Como mostraram Thomas Schelling, James Buchanan e Gary Becker, o crime responde a incentivos. Criminosos n\u00e3o s\u00e3o irracionais. Calculam. Avaliam riscos, retornos e probabilidades. Onde o retorno esperado \u00e9 alto e a puni\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel, o crime n\u00e3o apenas surge \u2013 ele prospera.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A li\u00e7\u00e3o da economia \u00e9 desconfort\u00e1vel, mas clara: o problema n\u00e3o \u00e9 apenas o criminoso \u2013 \u00e9 o sistema de incentivos que o torna racional. Mude-se o sistema, e o comportamento muda. Ignore-se isso, e o crime seguir\u00e1 <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E prospera com sofistica\u00e7\u00e3o. Fac\u00e7\u00f5es criminosas no Brasil j\u00e1 operam com estruturas compar\u00e1veis \u00e0s de grandes empresas: hierarquia definida, divis\u00e3o de tarefas, gest\u00e3o financeira e controle territorial. Em alguns casos, atuam como verdadeiros oligop\u00f3lios, reduzindo concorr\u00eancia e estabilizando mercados ilegais. A viol\u00eancia, longe de ser ca\u00f3tica, \u00e9 frequentemente estrat\u00e9gica: um mecanismo de enforcement onde o Estado \u00e9 ausente. Aqui reside o ponto central: o crime organizado n\u00e3o \u00e9 apenas consequ\u00eancia da pobreza. Ele \u00e9, sobretudo, consequ\u00eancia da fragilidade institucional.<\/p>\n<p>Onde o Estado falha \u2013 seja pela lentid\u00e3o judicial, pela baixa taxa de elucida\u00e7\u00e3o de crimes (em muitos estados brasileiros, menos de 40% dos homic\u00eddios s\u00e3o esclarecidos) ou pela corrup\u00e7\u00e3o \u2013, surgem \u201csubstitutos institucionais\u201d. Fac\u00e7\u00f5es passam a cobrar \u201ctributos\u201d, impor regras e at\u00e9 mediar conflitos. \u00c9 a privatiza\u00e7\u00e3o da ordem \u2013 via coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A chamada Nova Economia Institucional n\u00e3o deixa d\u00favidas: institui\u00e7\u00f5es importam. E, no Brasil, elas t\u00eam falhado exatamente onde mais importam \u2013 na previsibilidade da puni\u00e7\u00e3o. O debate p\u00fablico, no entanto, segue preso a solu\u00e7\u00f5es simplistas. Aumentar penas \u00e9 politicamente popular, mas economicamente ineficaz. Como demonstrou Gary Becker h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo, o que dissuade o crime n\u00e3o \u00e9 a severidade da puni\u00e7\u00e3o, mas sua probabilidade. Um sistema que pune raramente \u2013 ainda que com dureza \u2013 sinaliza impunidade. O resultado \u00e9 previs\u00edvel: o crime se torna um bom neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Se a taxa de retorno do mercado ilegal supera alternativas legais, e se o risco de puni\u00e7\u00e3o \u00e9 baixo, indiv\u00edduos \u2013 especialmente jovens em contextos de baixa mobilidade social \u2013 respondem a esses incentivos. N\u00e3o por desvio moral, mas por c\u00e1lculo econ\u00f4mico. Combater o crime organizado exige, portanto, uma mudan\u00e7a de diagn\u00f3stico. N\u00e3o se trata apenas de prender mais, mas de tornar o crime menos lucrativo e mais arriscado.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Isso implica atacar suas bases econ\u00f4micas: sufocar fluxos financeiros, ampliar a intelig\u00eancia policial, aumentar a taxa de elucida\u00e7\u00e3o de crimes e reduzir a previsibilidade de ganhos il\u00edcitos. Implica tamb\u00e9m restaurar a credibilidade do Estado \u2013 algo que n\u00e3o se faz com opera\u00e7\u00f5es epis\u00f3dicas, mas com institui\u00e7\u00f5es que funcionam de forma cont\u00ednua.<\/p>\n<p>O crime organizado \u00e9, em ess\u00eancia, uma empresa que encontrou um ambiente favor\u00e1vel para operar. Enquanto esse ambiente persistir, ele continuar\u00e1 crescendo. A li\u00e7\u00e3o da economia \u00e9 desconfort\u00e1vel, mas clara: o problema n\u00e3o \u00e9 apenas o criminoso \u2013 \u00e9 o sistema de incentivos que o torna racional. Mude-se o sistema, e o comportamento muda. Ignore-se isso, e o crime seguir\u00e1 sendo, no Brasil, um dos neg\u00f3cios mais rent\u00e1veis do pa\u00eds.<\/p>\n<p><em><strong>Giacomo Balbinotto Neto<\/strong>, economista, \u00e9 professor do PPGE\/UFRGS \u2013 Universidade Federal do Rio Grande do Sul.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil insiste em tratar o crime organizado como caso de pol\u00edcia. \u00c9 um erro. 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